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Bem-vindos a mais um "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França, comigo está o Bruno Vieira Amaral e hoje vamos falar do Dia do Pai, que se assinala este domingo. Vamos antecipar aqui dois dias e começo por lhe perguntar, Eduardo. Olá, boa tarde. Está a contar com muitas prendas para domingo?

Olá, Judite. Olá, Bruno.

Olá, Eduardo.

Meia dúzia delas, à volta disso.

Meia dúzia é bem bom. Este Dia do Pai é sempre preparado nas escolas, nós sabemos, com muito cuidado, com muitos presentes. Esgota-se um bocadinho, às vezes, nessa preparação, nesses presentes para os pais?

Não, Bruno, eu compreendo o compromisso das escolas em relação a tudo isso. E mal seria se não dissesse que não acho verdadeiramente ternurento que os pais não deixem de receber um presente que foi feito a pensar neles, com as mãos dos filhos e, portanto, acho uma delícia que ao longo dos anos tenhamos uma caixinha com aqueles presentes todos, porque no fundo sinalizam, não a importância que nós temos na vida dos filhos, mas a maneira como eles vão mostrando todo o amor que têm por nós naqueles pequenos objetos. No entanto, em relação às escolas, devo lhe dizer que às vezes fico um bocadinho incomodado, porque depois há aquelas festas nas escolas, que são uma coisa muito singela, às vezes são duas ou três canções, mas depois fico sempre de coração apertado, porque há lá uns meninos que não têm o pai, porque o pai não existe, porque o pai de alguma forma se afastou deles, porque pura e simplesmente acaba por ser uma figura mais ou menos omissa e a mim custa muito que naqueles dias estejam só pais e depois faltem alguns. Portanto, eu gosto muito que isso seja sinalizado, mas reconheço que às vezes ficava mais descansado que nesses momentos estivessem mães, pais e avós. Muitas vezes é um avô que sinaliza muito esta função, porque tudo aquilo que seja um bocadinho mais diluído acaba por não acentuar tanto estas ausências, que são duras, difíceis, muito tristes. Eu passei há pouco por uma festa e vi um menino chorar insistentemente no meio de uma festa e isso custa-me imenso, porque é tudo o que não devia ser uma festa do Dia do Pai.

Era mais fácil ser o Dia da Família?

Judite, eu acho muito importante que se fale do pai, valha-me Deus, por todos os motivos, até porque depois, como eu e o Bruno bem sabemos, chega a vez de recebermos um presente, que é uma coisa muito gostosa por todos os motivos, até por causa daquele olhar do género: "Diz que gostas, por favor". Não, eu acho importante que nós possamos comemorar as datas sem andarmos às vezes com aqueles pruídos, mas temos que ter um bocadinho mais de cuidado nestes momentos, porque de facto há crianças que não têm esse privilégio e nós temos que arranjar uma almofadinha para que não lhes doa, porque já basta o quanto dói todos os dias quando eles veem um pai a ir buscar o colega do lado e a brincar, ou a dar umas cavalitas ou outras coisas do gênero. E às vezes, enfim, estes pequenos cuidados acabam por aconchegá-los.

Por acaso o Eduardo agora estava a falar dessas situações. Eu lembro-me de há uns anos estar numa dessas festas que juntou os pais no jardim de infância e de haver precisamente uma menina que o pai não estava. Os motivos depois são sempre vários, mas acontece e de facto era uma coisa terrível para quem está a ver e imagina-se para a criança sentir, porque é uma ausência que pesa muito nessas circunstâncias. Mas aquilo que lhe queria perguntar, Eduardo, é que isto ainda continua a acontecer muito. Os pais, os homens, muitas vezes afastam-se facilmente ou por várias circunstâncias, mas tendem mais a afastar-se e a ficar longe da vida dos filhos, até nestes momentos. Por separações, enfim.

Sim. E não é inteligente. Acima de tudo, no limite, eu acho que não é inteligente. E é isso que me custa, porque eu não tenho dúvidas que estas pessoas são pessoas sensíveis, afetuosas e sobretudo muito inteligentes. Mas depois, no meio, sabe-se lá de quê, da correria dos dias e depois dos ressentimentos, e depois da forma como se divorciam e da maneira como às vezes isso é tudo feito de um modo um bocadinho atabalhoado. Afastam-se muito, às vezes eu acho que nem têm bem a noção do quanto castigam e do quanto magoam com esse afastamento. Mas o que eu não consigo entender é que eles não percebam o quanto são indispensáveis nos diversos momentos, que pode ser só uma festinha, seja o que for, mas nos diversos momentos que marcam, são marcos absolutamente fundamentais da vida de um filho e que ficam guardados para sempre, porque quantos de nós não ouvimos tantas vezes amigos nossos Outras pessoas, num contexto mais profissional, que me dizem com imensa mágoa que tinha um torneio de judo, mais um de basquete, outro de rugby, seja lá o que for, e que depois nunca lá estava o pai. Nunca, às vezes é mesmo nunca. E por mais que o pai trabalhe, tenha compromisso e tudo mais, isto não pode acontecer, porque os pais têm de ter uma agenda para os filhos. E é uma agenda que tem que ser ainda mais importante do que as outras agendas, por isto. Estarem presentes significa que o meu filho é tão precioso, tão presente. Dou ali voltas ao mundo, mas faço questão de dizer olá. Até porque, como sabe, a Judite também vai àquelas festas que aparentemente são só festinhas, como nós dizemos, tirando-lhes a importância que de facto elas têm. E a questão fundamental é que os nossos filhos, quando lá estão no meio daquela criançada toda, fazem aquilo que eu continuo a fazer com esta idade. Quando chego a um sítio e faço uma conferência, e estão pessoas da minha família, eu procuro logo no meio da assistência onde é que eles estão, quase como se eu estivesse a falar pra eles. E estas crianças, assim que veem o pai, dizem adeus e cantam pro pai, riem pro pai, porque no fundo, elas estão no meio daquela criançada toda a atuar pro pai. E os pais quando desperdiçam isto, meu Deus, onde é que eles andam?

Apesar de todas as mudanças significativas nos últimos anos, nas últimas décadas, eu diria, em relação ao papel dos pais e à forma como os pais vivem a sua condição de pais, continua a haver uma normalização desse afastamento, sobretudo, e aqui volto à questão, em caso de separação, em caso de divórcio. Isto cria dores, feridas, que nós não deveríamos entender como normais.

Não são normais, não têm como ser normais. Porque que os pais se separem quando as crianças crescem e juntam as pontinhas todas, elas depois acabam por entender o porquê de muitas coisas. Que os pais se divorciem dos filhos é uma coisa absolutamente absurda. É como se, no fundo, a mãe dos filhos e os filhos fossem um pacote. E são tão mais importantes do que isso, que é uma coisa tola. Mas atenção, eu também vou vendo tantas vezes, mas tantas vezes, a realidade ao contrário, que são aqueles pais que se calhar nunca foram muito presentes e em função de uma norma, que às vezes não é sensata, mas na maioria das vezes o é, passam a ter uma residência alternada e uma guarda conjunta. E às vezes, eu tenho a noção que a separação de muitos pais é uma espécie de identidade reguladora pra paternidade. Passam a ser os pais que não eram até aí. E as crianças ganham um pai como não tinham até aí. Mas de facto, depois existem estas duas realidades ali a ligarem-se uma com a outra, sendo que realmente há muitos pais que acabam por fugir e perder tudo aquilo que depois não é reparável, de maneira nenhuma. É quase indesculpável, por mais que os filhos tentem, de todas as formas, pelos anos fora, entender o que é que aconteceu pra que eles se tivessem ausentado.

E que tal fazermos mais Dias do Pai? Até para compensar essas .

Bruno, eu acho que sim, até porque eu acho que quantos mais Dias do Pai, sobretudo com direito a prendas.

E aqui, é claro, mesmo para os casos mais de famílias.

O consumismo.

Sem separação, seria importante, não é? Esses dias, que são só do Dia do Pai, são importantes para os filhos, sobretudo em famílias também grandes.

São, sim, senhor. E eu acho que o Observador e a Rádio Observador e tantas empresas desconhecidas e clarividentes deviam tornar obrigatório, e eu digo isto mesmo com convicção, sabe? E nós até devíamos mexer nisto tudo um bocadinho pra que fosse assim, tornar obrigatório, nem que seja de seis em seis meses, haver um Dia do Pai. As pessoas estarem autorizadas, estarem obrigadas a afastar-se do trabalho, porque aquilo é um Dia do Pai, pra fazerem o que muito bem entendam, pra que as crianças possam faltar à escola e pra que seja assim um dia de liberdade contra muitos constrangimentos e muitas regras, porque às vezes isto não altera a nossa produtividade, não altera, de facto, a aprendizagem das crianças na escola. E um dia destes, em que se vai sozinho com o pai e com os irmãos, se for o caso, dar uma volta à Costa da Caparica ou seja lá onde for. São estes pequenos momentos que nos ancoram.

Ah, perdemos aqui um bocadinho.

Desprezamos.

Foi mesmo agora aqui na reta final que ficamos um bocadinho sem som, mas percebemos perfeitamente que domingo é dia de passear, não é? Esse é o ponto. Domingo é dia de passear com o pai. Eduardo, obrigada.

Não. Eu estava a dizer que é. Mas se nós arranjássemos ali, obrigatoriamente, no contrato coletivo das empresas, um Dia do Pai de seis em seis meses e o pai pudesse baldar ao trabalho como as crianças, de alguma forma, dão folga à escola. Esses momentos, que são momentos soltos, fora das convenções, é quando o pai e as crianças decidem que deve ser, são momentos tão importantes que de repente tínhamos pessoas muito mais implicadas no trabalho e pais e filhos muito mais capazes de se amarem como deve ser.

Fica aqui a nota para a próxima revisão no Código de Trabalho. Eduardo, obrigada. Nós vemo-nos no fim de semana. Até lá, estamos disponíveis em podcast, também no site do Observador e em eduardosá@oobservador.pt. E voltamos na próxima segunda-feira, já com os presentes todos dados.

Eu vou trazer.

Eduardo, um abraço. Até segunda-feira.

Um abraço. Até segunda.