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Bem-vindos a mais um "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje partimos de um dado impressionante publicado na revista científica "Lancet": desde 1990, os transtornos mentais no mundo aumentaram cerca de 96%, afetando já perto de 1,2 mil milhões de pessoas. O estudo alerta também para o facto de estes problemas estarem a surgir em força entre os mais jovens, em particular entre os 15 e os 19 anos. Olá, Eduardo. Olhando pra este valor, que representa praticamente o dobro de casos em três décadas, fica a dúvida no ar: o mundo está efetivamente a adoecer mais ou estamos apenas a diagnosticar melhor?

Olá, Judite. Eu acho que talvez um pouco das duas coisas. Não sei se estamos a diagnosticar melhor, se me permite pôr as coisas assim. Estamos a constatar melhor, isto é, a dar conta que há pessoas que têm esta ou aquela dificuldade, distúrbios e perturbações, como agora se convencionou dizer. E, portanto, estamos a tomar muita atenção em relação a algumas dificuldades muito circunscritas, mas o facto de nós as elegermos e portanto percebermos que afinal as pessoas não estão tão bem quanto à primeira vista pode parecer, parece-me a mim também que ficou um bocadinho mais acentuado. Depois da pandemia, quando as pessoas foram solicitadas pra esforços, que em termos mentais foram terríveis, aos quais corresponderam de forma exemplar, mas que obviamente depois de passado todo o vendaval, deixaram a nu aquilo que quem lida com estas coisas todos os dias acaba por ter uma noção mais clara, ou seja, as dificuldades das pessoas estão lá. Elas fazem um esforço tremendo para as gerir e para as ultrapassar e vão fazendo isso com algum sucesso. Só que a vida vai pondo mais dificuldades em cima das dificuldades e a certa altura, há ali um ponto em que tudo isto fica uma espécie de abcesso que é preciso mexer e resolver, sob pena depois de comprometer, de facto, as competências que as pessoas têm. Por outro lado, a vida que nós temos teve alterações muito significativas. Há pessoas que dizem que desde a introdução do iPhone, e de facto trouxe alterações de comportamento muito grandes, mas sobretudo com as redes sociais e com as crises todas e as conjunturas em que todos nós vivemos e que não são, de facto, amigas da saúde mental, porque nós nos vamos gerindo de uma forma um bocadinho mais atabalhoada, mais agitada e as duas coisas juntas criam um bocadinho este coquetel, sendo certo, Judite, que no que diz respeito às crianças, é verdadeiramente desconcertante, porque nós temos, sem dúvida, as crianças mais competentes que a humanidade já produziu e seguramente os melhores pais. Mas lá está, depois quando elas entram no ensino básico, cria-se uma onda absolutamente irrespirável, em que elas acabam por ser chamadas a desafios e exigências muito significativas, e o resultado disso depois faz com que estes números nos assustem com esta particularidade. Às vezes nós temos a noção que eles estão acrescendo ainda, o que se torna talvez assustador.

Daí o estudo colocar um foco importante na faixa etária dos 15 aos 19 anos. Mas se falamos muitas vezes do impacto das redes sociais, do ecrã, do smartphone, haverá também uma hipervigilância parental ou uma sobrecarga de expectativas sobre os mais novos.

Irrespirável, às vezes, Judite, porque não se esqueça que temos cada vez menos filhos. Contrariamente àquilo que é a vontade de muitos pais, as famílias têm cada vez mais um filho e, como já falámos em tantas outras circunstâncias, pra si, pra mim, pras pessoas, e com todas as aspas que o bom senso nos permite pôr, um filho, um primeiro filho, é sempre uma criança em perigo, porque nós baralhamos naturalmente as nossas histórias de vida, os pais que tivemos, os que queremos ser, os filhos que nós nos imaginamos a produzir e tudo mais, e uma vida de um filho e aquilo que ele tem pra nos dar, às vezes não chega pra todos estes capítulos da história da mãe e do pai. Sendo certo que às vezes é a família em cima de uma criança, e não só a família, às vezes, inclusivamente as escolas. E, portanto, tudo isto faz com que o crescimento hoje seja um crescimento muito mais tutelado. E aqui é que está o lado desconcertante, não é, Judite? Porque somos tão cuidadosos, tão empenhados, queremos nos envolver tanto no crescimento dos nossos filhos, e ainda bem. Mas depois, isto de trabalharem das 08 às 20, andarem numa correria, num estresse permanente, não terem recreios Exigência de resultados. Trabalharem ao fim de semana, de trabalharem ao domingo, inclusive, etc., faz com que eles não possam dar tanto do que seriam capazes de fazer. Esse é o lado quase pateta em que todos nós entramos. Trabalhamos loucamente para construir crianças felizes e saudáveis e às vezes sem nos darmos conta ou às vezes uma distração, escorregadia, vamos estragando a pari passu tudo aquilo que construímos, o que é de partir o coração.

Outro dado relevante deste estudo aponta para diferenças entre gêneros, com as mulheres a apresentarem maior taxa de ansiedade e depressão e nos homens prevalece com mais frequência perturbações de conduta. Como é que se explica esta clivagem no modo como lidamos com a dor emocional?

Judite França, já falamos disso outro dia. O gênero humano continua a ser muito discriminado em termos educativos e as mulheres são muito mais faladoras, muito mais claras naquilo que sentem, não passam a vida a ser educadas no sentido de fintarem sentimentos, antes pelo contrário, assumem-nos. Manifestarem a sua dor é só uma manifestação enorme de saúde mental. Os homens têm sempre uma espécie de um colete de forças. Haverá exceções, claro, mas às vezes os anos não têm mudado tanto assim, curiosamente, esse padrão de educação em relação ao gênero masculino. E portanto, aquilo que nós observamos é que têm um colete de forças, Judite, e não falam e têm a ideia que não choram, que não se agitam, que não se deprimem e vão transformando tudo o que é perturbação mental em problemas somáticos e em problemas de comportamento. Ela está lá, claramente, só que quando nós dissermos: "Estou muito embaixo", isso é uma febre de 37,5, 38. Quando nós parecemos bem e a funcionar de forma irrepreensível, por mais que aparentemente não dê pra febre, a febre já está a bater nos 40 e é isso que se passa com muitos homens.

Hoje fala-se muito de saúde mental. Também se recorre com rapidez aos ansiolíticos e aos antidepressivos. Corremos o risco de estar a patologizar e a medicar aquilo que são apenas as dores normais da vida?

Muitas vezes. Nós criamos uma ilusão, que não é sequer razoável, de que nós temos uma sociedade antidepressiva. De repente, quem está triste é fraco, em vez de ser só saudável. As pessoas não ficam tristes porque está sol, que fique claro. Nessas circunstâncias, sim, eu percebo que em circunstâncias limite ou em circunstâncias mais agudas, um apoio farmacológico pode ser muito importante, mas não é por medicarmos mais que se é mais saudável. Isso é transversal em relação a todos nós, mas por maioria de razão é em relação às crianças e aos adolescentes que têm níveis de consumo de psicofármacos que nos deviam levar a parar, a pensar e perguntar qual é a relação de custo-benefício, porque se calhar os ganhos não compensam os custos que tudo isso lhes traz, nomeadamente a médio e longo prazo.

Eduardo, ficamos por aqui hoje. O "Porque Sim, Não é Resposta" regressa amanhã, na Rádio Observador. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Prazer, Judite. Até amanhã.