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Bem-vindos. Começa aqui "Portugal em Obras". Este podcast é uma parceria entre o Observador e a APPC, a Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores. Por aqui vamos discutir grandes projetos de investimento que o Estado tem em carteira, a qualidade de construção em Portugal ou, por exemplo, a resistência sísmica das nossas vilas e cidades. Aliás, é mesmo por aqui que vamos começar. Até que ponto estamos preparados ou estamos a preparar-nos adequadamente para um sismo? E se Lisboa sofresse um sismo semelhante ao de 1755, o que seria mais vulnerável? As pessoas, os edifícios ou as infraestruturas? É o tema que propomos a Alexandra Carvalho e Luís Guerreiro. Alexandra Carvalho é investigadora do LNEC, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, é vice-presidente do CERU, o Centro Europeu de Riscos Urbanos, especialista em sismologia e em engenharia sísmica. Luís Guerreiro é professor do Instituto Superior Técnico na área de engenharia civil, é especialista em dinâmica de estruturas e engenharia sísmica. Eu sou o Paulo Ferreira, dou as boas-vindas a ambos. Obrigado pela disponibilidade para estarem conosco no arranque deste podcast, deste "Portugal em Obras". Alexandra Carvalho, começando por si, Portugal é um país com risco sísmico elevado? E quais são as zonas com maior risco?
Bom dia. Obrigada pelo convite. Gostava então primeiro de explicar o que é isso de risco sísmico, porque há às vezes alguma confusão em questão dos termos. Nós temos uma perigosidade sísmica e temos depois um risco sísmico. Falando de uma forma geral, o perigo é a ameaça, é o sismo. Portanto, nós sabemos que temos zonas, temos falhas que originam sismos que afetam o nosso território, sismos com determinadas características, com determinadas periodicidades, com uma certa magnitude, e isso caracteriza a sismicidade a que o nosso território, devido à sua localização, está sujeito. Isso é o perigo. Quando falamos em risco, temos que ter outros aspectos além da sismicidade, nomeadamente os elementos expostos, ou seja, a população e as construções que vão estar sujeitas a esse sismo, a essa vibração do solo.
E aí já entramos na área do impacto.
E aí entramos na área do impacto. Portanto, o risco são as consequências do fenômeno natural que é o perigo. Uma área de densamento populacional, como nós temos em muitos sítios do território e com muitos elementos construídos, é uma área de risco sísmico elevado.
Claro, representa um risco maior.
Exatamente. Por outro lado, temos que também falar da vulnerabilidade desses elementos que estão expostos. A vulnerabilidade física, a vulnerabilidade das construções, serem ou não capazes de acomodar esta energia que recebem do movimento do solo, e a vulnerabilidade social, a capacidade que nós como sociedade e como pessoas temos para também resistir e para recuperar deste evento. Portanto, tudo isso é risco. Isto para dizer que Portugal é uma zona de risco sísmico, mas não é um risco homogêneo. Teremos zonas que irão ter um maior impacto a este sismo e zonas de menor impacto devido a esta exposição ou a esta vulnerabilidade dos elementos.
Claro.
O tipo de solo, por exemplo, também será importante.
O tipo de construção, imagino.
O tipo de construção, a vulnerabilidade dessas construções e haver muita gente ou muita construção no local.
Antes de passarmos a palavra ao Luís Guerreiro, Alexandra Carvalho, costuma dizer-se, isto provavelmente é um mito, que os grandes sismos em Portugal acontecem mais ou menos de 200 em 200 anos. Isso faz sentido? Essa previsão.
Era bom termos um relógio e termos um calendário. Deixe-me só acabar. Só em relação à sua outra pergunta, que me perguntou as zonas de maior risco e, na realidade, Lisboa e a zona do Vale do Tejo e o Algarve são as zonas que nós consideramos de maior risco sísmico em Portugal, não só porque estão sujeitos a sismos de magnitudes superiores e importantes, porque temos uma falha do Vale do Tejo, temos as zonas sísmicas no oceano que impactam bastante também no Algarve, e porque são zonas densamente povoadas.
Povoadas.
Exatamente. E que têm muitas construções também vulneráveis. Segunda pergunta: era bom que nós tivéssemos um calendário e assim estaríamos muito mais perto de prever os sismos. Na realidade, nós falamos, em ciência, de probabilidades. De fato, nós conhecemos mais ou menos as falhas que caracterizam o nosso território e sabemos que elas vão acomodando uma certa tensão e que vão libertando essa tensão sob forma de sismo de X em X tempo, devido ao contexto em que estão e devido ao material que têm ao seu redor. No entanto, não sabemos, de facto, quando é que isso vai acontecer. Queria também deixar claro que esta falta de capacidade de prever não é de todo desculpa para alguma inatividade que possamos ter.
Na prevenção das consequências.
Porque nós não sabemos quando, mas sabemos que vai acontecer. E, portanto, não temos qualquer desculpa para não investir na prevenção.
Na prevenção das consequências. Luís Guerreiro, pegando precisamente por aqui, na questão da prevenção, que informação é que um projetista precisa deter antes de desenhar um edifício numa zona que tenha um risco sísmico?
O engenheiro civil, o engenheiro de estruturas, entra naquela camada a seguir, a que a Alexandra falou. Ela falou da perigosidade, depois a seguir vem a vulnerabilidade, ou seja, naquilo que é o controlar a capacidade dos edifícios e de todas as estruturas, infraestruturas, pontes, quando falamos de edifícios, barragens, tudo que é estrutura construída, da capacidade de poderem resistir aos sismos de uma forma mais ou menos eficaz. Os engenheiros, da sua formação, em princípio, têm formação suficiente para dimensionar edifícios aos sismos. Precisam de saber, primeira parte, onde é que o edifício se localiza, exatamente para identificar a perigosidade do local e o solo de fundação.
E aqui falo com a Alexandra Carvalho e com os colegas dela.
Exato.
A Alexandra estuda e define a ação.
O movimento do solo a que as construções irão estar sujeitas.
Infelizmente, não poderão contribuir muito para a melhoria da capacidade dos edifícios. De certa maneira também contribuem, porque se nós tivermos uma melhor definição daquilo que é a ação, temos uma informação mais correta e podemos dimensionar os nossos edifícios de forma mais adequada. O ponto mais importante no que é dimensionar as estruturas é essencialmente a simplicidade. Uma estrutura, para ter um bom comportamento dinâmico, tem que ser uma estrutura simples, regular, sem grandes irregularidades de massa, sem grandes irregularidades de pilares, porque, ao fim ao cabo, aquilo que o sismo introduz na estrutura é o movimento. E se a estrutura for muito irregular, vai ter um movimento muito difícil de prever e muito difícil de estruturar. Portanto, a solução ou o segredo é estruturas simples. Nem sempre, como sabemos, conseguimos considerar isso.
A arquitetura, às vezes, não é. Claro. É mais criativa que isso.
Exato. Mas aí também entra o tal papel que tem que haver interação entre os dois. E aí é bom que essa interação arranque logo desde o momento da criatividade, para que se possa logo dali pra frente, de alguma forma, jogar as duas coisas.
É logo no projeto que as coisas têm que ser feitas.
Claro.
Alexandra Carvalho, pegando aqui no tema da mobilidade dos solos, não sei se a expressão é correta, faz diferença construir em cima de rocha ou em cima de outros solos mais brandos, mais arenosos, por exemplo?
Sim, o tipo de solo tem influência no movimento sísmico, portanto, poderá amplificar o movimento e a sua duração também. Um solo mais brando vai amplificar algumas frequências. Não queria falar em frequências, mas vai amplificar o movimento do solo e também pode aumentar a sua duração. E isso, claro, tem influência no comportamento das estruturas. Não é um problema. Na realidade, funciona mais como um desafio, porque ao estudarmos e ao sabermos como é este comportamento do solo, como é que ele altera o sinal sísmico na sua base, essa informação também é do conhecimento dos projetistas e dos engenheiros, e portanto, só têm mesmo é que dotar depois o edifício com capacidade para resistir a essas vibrações que já sabemos que são diferentes. Este comportamento, de fato, é pior, no sentido de ampliar o movimento, mas sendo conhecido e sendo compreendido, não causa problemas se essa informação for, e é, passada aos engenheiros.
Aos engenheiros. E Luís, pegando nestes dados depois, e tendo em conta a simplicidade da estrutura que já há pouco falou, que outras decisões ou decisões do projeto é que influenciam mais depois a capacidade de um edifício resistir melhor ou pior a um sismo?
Aqui há um problema que nós temos na nossa sociedade, que é sobretudo uma questão de fiscalização e de controle daquilo que é feito. Ou seja, a regulamentação neste momento existe, a regulamentação tem em conta. Nós sabemos exatamente como definir a ação sísmica na zona e para o tipo de solo em causa. Na minha perspetiva, o tipo de solo é quase como se fosse uma estrutura em cima da rocha. O movimento, em vez de sentido na rocha, o edifício sente-o através de uma estrutura que está por baixo, que só por si tem amplificação. E se isso for tudo feito, está tudo, em princípio, de acordo com o regulamento e com a boa prática. A dúvida, neste momento, em termos de estruturas, é conseguir garantir que os projetos estão feitos de forma adequada e depois que são construídos de acordo com o projeto e também de forma adequada. Porque muitos dos problemas que acontecem durante os sismos, isso tem sido visto em casos de estudo, quando se vai visitar locais após os sismos, é do pormenor. Pequenos pormenores têm depois um resultado catastrófico, quando são coisas de menor importância. Pode ser só a forma de dobrar o ferro nos pilares ou coisa do gênero. Não ficou bem feita, o ferro abre, cria um ponto e o sismo descobre logo todos os pontos fracos. Isso não há dúvida nenhuma.
Portanto, esses detalhes são importantes. Isto é um bocadinho uma consequência daquilo que foram dizendo ao longo destes minutos. A coordenação entre arquitetos, ou a arquitetura, se quisermos, a estrutura e as especialidades como as vossas são fundamentais, Luís.
Sim.
Portanto, vocês têm que estar em permanente conversa.
Sempre estamos.
E estão sobre isso.
Nisso sim, estamos sempre.
Claro. Alexandra Carvalho, vamos falar aqui do sismo de 1755É grande referência, um dos maiores do mundo. Se acontecesse hoje um sismo semelhante a esse, nós estaríamos realmente preparados ou não? Ou mais preparados, pelo menos.
Mais preparados, tenho uma resposta simples, que é sim. Sim, no sentido em que nós temos um conhecimento muito mais profundo do fenômeno em si, dos sismos. Na altura não se achava que o sismo era um fenômeno natural. Foi um problema divino e, portanto, sim, temos conhecimento deste fenômeno natural, temos conhecimento das características da crosta e da maneira como a energia que é libertada numa determinada falha se pode propagar até um determinado local. E temos conhecimento também dos efeitos que essas vibrações do solo podem dar às estruturas e temos conhecimento para adquirir as nossas estruturas num comportamento que acomode essa energia. Portanto, claramente em termos de conhecimento, sim, estamos muito mais preparados. Aqui, eventualmente, o problema está no nosso comportamento como sociedade e na proatividade ou falta dela, dos nossos decisores em fazerem medidas que, de facto, possam aplicar esse conhecimento.
Realmente, é no fundo, a segurança face ao impacto.
Exatamente. Nós temos todo o conhecimento e deveríamos estar muito mais preparados. Se esse conhecimento é aplicado na prática e que nos dê essa resiliência que nós queremos, aí é que estão as maiores dúvidas. E vou aproveitar para dizer que o sismo de 1755 é, de facto, um sismo histórico de grande magnitude e por isso é uma referência, mas na realidade, talvez não seja o sismo que nos preocupe mais, porque é um sismo numa fonte muito afastada, está a 200 e tal quilômetros do território, e eventualmente nós no interior da nossa placa e do nosso país, temos falhas sísmicas que originam sismos de magnitude mais moderada, nomeadamente uma magnitude de 5,5, 6, 6,5, nomeadamente aqui na falha do Vale do Tejo, e um sismo de magnitude 5,5 ou 6 debaixo de nós, se calhar, poderá causar mais danos do que um sismo de magnitude 8, no que nós chamamos offshore.
Muito mais afastado.
É um sismo, de facto, de referência, porque foi uma magnitude muito elevada, mas nós não devemos usá-lo como referência para as nossas ações, nomeadamente para construir edifícios que acomodem esta energia libertada por este sismo, porque é um sismo pouco frequente, felizmente, não sabemos quando irá ocorrer outra vez, mas um sismo magnitude 6 é um sismo muito mais frequente. Portanto, é um sismo mais moderado, mas poderá, de facto, acontecer.
A questão da distância, fundamental.
Exatamente. Portanto, é mais perto e esse sismo, sim, pode ser mais preocupante. Os sismos de magnitude elevada históricos são bons, não como referência, talvez, mas para nos fazer lembrar que, de facto, a nossa sociedade é vulnerável e que os sismos acontecem.
E acontecem.
E é bom que nos lembremos dele.
E que nos vamos preparando, não é?
Exato.
Luís Guerreiro, olhando ainda aqui para o sismo de 1755, quando olhamos para a reconstrução, que lições é que nos deixou, sobretudo a reconstrução em Lisboa, onde o dano foi maior?
O sismo de 1755 e a reação ao sismo de 1755, acho que é digno de ser estudado, como tem sido, e analisado, porque é muito rico. E muitas vezes centramos na gaiola pombalina, que foi inovação.
Aquela estrutura com madeira dentro das paredes.
Madeira com cruz de Santo André, que terá um comportamento favorável por causa da alvenaria, porque a alvenaria não tem comportamento resistente à tração e isso é revolucionário na altura. Mais revolucionário do que a solução, é a aplicação de uma forma sistemática e, digamos, quase, não digo pré-fabricada, mas de construção em série. Há ali uma necessidade. Esse é um ponto. Outro é o próprio urbanismo. As ruas foram traçadas, as ruas foram calculadas com largura e a altura dos prédios para aquelas ruas foi definida exatamente para impedir que houvesse a obstrução da via.
Um trabalho de planeamento.
Há todo um planeamento que é, a meu ver, notável pra época. E outras, por exemplo, as paredes que separam os edifícios obrigatoriamente vão até ao nível do telhado. O telhado não pode passar, por causa da propagação dos incêndios. Portanto, criar uma barreira contra fogo. Todos esses pequenos pormenores. Falamos muito da gaiola pombalina. Aliás, eu costumo dizer que a gaiola pombalina, infelizmente, neste momento, é mais ou menos como a onça. A gente sabe que existe, algumas, mas são raras, é muito difícil de encontrar em Lisboa.
É difícil avistá-las, claro.
Já é muito difícil avistá-las, porque já têm sido destruídos ou usados como forma arquitetônica, tirando a alvenaria e deixando só a estrutura de madeira à vista, que é o mesmo que nada. Agora, tem um impacto muito grande no urbanismo e isso acho que é notável.
Muito bem. Olhando para aquilo que são edifícios históricos ou zonas históricas, centros históricos, zonas mais antigas, se quisermos, há desafios concretos nessas zonas?
Há. Há desafios concretos, sobretudo, por uma razão: porque são construídos com tecnologias e com materiais que já não usamos.Aprendemos na escola a trabalhar com eles, pelo menos de uma forma regular. Tivemos que estudar bem como eles funcionam, como se comportam, para poder intervir. Nós pensamos muitas vezes no problema dos edifícios históricos, e bem, até porque a sua idade e a forma como foi construída não são resistentes aos sismos, a maioria deles, embora alguns surpreendentemente possam ter tido bom comportamento. Mas não nos podemos esquecer que, do ponto de vista histórico, antigos são todos os que foram construídos antes de haver regulamentação para os sismos. E a regulamentação para os sismos é de 58, 59.
Estamos a falar de quase meio século.
Nesta perspetiva, basta serem do início do século XX para serem antigos, porque não foram construídos de acordo com técnicas adequadas.
E vocês, técnicos, conseguem, de facto, olhar para as eras em que os edifícios foram construídos, séculos passados, mas depois anos 20, anos 30, por aí fora, 50, e em função do tipo de construção médio, conseguem, Luís, avaliar o nível de risco por junto num bairro, por exemplo?
Isso está feito. As tipologias construtivas estão bem identificadas, porque tem a ver com eras de construção.
Claro, e materiais usados.
Materiais. É claro que aquilo que foi a construção pombalina foi degradando-se em termos de qualidade da estrutura, por exemplo, os edifícios que são os gaioleiros, porque já não têm a gaiola pombalina, é uma degradação da estrutura. Isso está bem identificado. E está identificado e isso tem permitido também fazer estudos para perceber qual é que será a resposta nalgumas zonas da cidade. Temos feito estudos integrados até com o grupo da sismologia, o que dá panoramas qualitativos. Não poderá ser representativo da resposta do edifício A, B ou C, mas sim, em termos médios, de uma determinada área. Muitas vezes esses estudos são feitos até para identificar potenciais zonas de intervenção e edifícios com prioridades em termos de intervenção.
Alexandra Carvalho, estes testes que fazem, imagino que os vossos sejam diferentes, no fundo, testes de comportamento dos solos. Estou a dizer algum disparate?
Não é a minha área, mas sim, esses estudos também são feitos.
Aqui um pouquinho para os dois. A tecnologia também nos vai ajudando a criar modelos de previsão, a simular.
Sim.
Vocês têm ferramentas que vos permitam correr programas ou simuladores e perante um sismo com determinada intensidade, determinado epicentro, prever mais ou menos o que é que pode acontecer?
É o meu papel.
É o seu papel. Portanto, pergunta à medida mesmo.
É o meu papel. É conhecido que as características da falha, da fonte sísmica, induzem comportamentos, vibrações diferentes no solo, num determinado local. Começamos por ter que conhecer as características geométricas das falhas, nomeadamente no nosso território, em particular, o seu tamanho, o seu potencial de gerar sismos de determinadas magnitudes, o seu comprimento, a sua profundidade. Depois, conseguimos simular como é que ela pode romper, o tamanho e o tempo de duração da rutura na falha, que podem ser de segundos a minutos, e a energia que ela pode libertar. Depois conhecemos, com estudos por aí fora, localizados em vários projetos e até mesmo com as empresas de prospecção, etc. Conhecemos as características da crosta que as ondas sísmicas vão atravessar até a um determinado local, essas características de ser crosta continental ou ser crosta oceânica, ser uma crosta mais antiga ou uma crosta mais recente. Tudo isto são particularidades que vão alterar e vão condicionar o movimento sísmico, a maneira como as ondas transmitem. Matematicamente, temos modelos que tentam descrever estes fenômenos de rutura na falha e de propagação de energia, para conseguirmos simular o movimento do solo num determinado ciclo.
Certo.
E depois, conhecendo o efeito, também noutros estudos de geologia, etc., o efeito desta coluna vertical do solo, que efeito é que ele tem no movimento sísmico, conseguimos fazer a previsão, dado um sismo, dado uma rutura na falha, a previsão do que vai ser o movimento do solo. E com isso, conhecendo as características do edificado que está por cima desse movimento do solo, conseguimos prever os danos.
Potenciais, claro.
Os danos potenciais que este sismo vai gerar numa determinada região ou num determinado edifício. Isto são estudos de risco sísmico, de avaliação de risco sísmico, que o laboratório faz e outras instituições.
Está a falar do NECC.
Que o NECC, sim, que o NECC faz, e que na realidade trabalha com a proteção civil.
E fazem isso com regularidade?
Nós fazemos sempre isto.
O sempre é uma vez por mês, por ano?
Depende das solicitações.
Ok.
Por exemplo, há projetos com a proteção civil que para os seus planeamentos de emergência.
Quando estão a trabalhar nisso.
Eles precisam de conhecer quais são as zonas mais afetadas de determinados territórios. E já houve vários projetos com eles, em que o técnico participou e muitas outras instituições, precisamente para a construção do simulador que eles têm para os ajudar no planeamento de emergência civil. Depois temos as próprias empresas que estão preocupadas com o comportamento dos seus edifícios.
Dos seus ativos, claro.
Recorrem ao NECC porque querem uma avaliação do risco, e aí é uma avaliação do risco, não é só a vulnerabilidade por si só do edifício, mas sim como é que ele se comporta face a cenários credíveisPara a região. Portanto, fazíamos esses estudos cada vez que há uma instituição que nos pede.
Isto é, estamos bem informados sobre isso.
Não estamos.
Não nos falta informação, cenários e previsões.
Não. É evidente que mais conhecimento é sempre bem-vindo e, nomeadamente, temos que investir muito mais na rede acelerométrica que nós temos, por exemplo, em Portugal, para ter uma boa cobertura, porque isso dá-nos dados valiosos sobre precisamente os processos de propagação da energia sísmica. Precisamos de, cada vez mais, fazer ensaios e modelos das estruturas para conhecer cada vez melhor o seu comportamento. Mas, em termos de conhecimento, na realidade, desde a propagação até ao edificado, não há um problema.
A informação é muito completa.
E é um conhecimento privilegiado que depois é posto na prática com regulamentos. E, portanto, em termos de regulamentos, e agora entrando só na área do Luís, mas ele está aqui depois para continuar se quiser, os nossos regulamentos são bons porque são realmente feitos com base em conhecimento muito consolidado.
Claro. Luís Guerreiro, a questão é se depois dos regulamentos passamos à prática.
Pronto, mas antes disso, só queria chamar só uma coisa, que é: muitas vezes as pessoas não têm a noção exata do que é uma construção com comportamento adequado de acordo com o regulamento, um comportamento sísmico. O regulamento está definido de forma a proteger a vida humana e não a proteger o edificado. É uma filosofia que é aceita pela regulamentação de uma forma uniforme, porque é uma ação com uma imprevisibilidade muito grande. Se fôssemos tentar, de uma forma genérica, proteger também o edificado, isso iria ter um impacto econômico elevado. E então é a proteção da vida humana. E isso é preciso perceber que, como consequência, é que se houver um sismo com a intensidade para o qual o edifício foi dimensionado, mesmo ele tendo sido bem dimensionado e bem construído, poderá ter danos. Portanto, não é isento. Isso é preciso que as pessoas tenham essa noção.
Não haverá nada 100% à prova de sismo.
Existe a preocupação, por vezes, de proteger, de fazer um nível de proteção mais elevado em infraestruturas ou estruturas, por exemplo, um hospital. Um hospital não basta proteger a vida humana, tem que estar operacional durante um sismo.
Uma ponte, uma coisa qualquer.
Pontes, depende. Existe uma definição de vias prioritárias. Se a ponte estiver inserida numa rede definida como prioritária, sim. Se não, poderá ser dimensionada para um nível de ação mais baixo. Portanto, é preciso ter a noção de que a casa não fica rincole.
Sim, eu acho que as pessoas vão tendo a noção disso de alguma maneira. Já agora, Luís Guerreiro, pegando um pouco naquilo que pode ser um mito ou aquelas percepções que não correspondem à realidade, o melhor edifício é aquele que abana. Deixe-me pôr a coisa assim em linguagem corrente, que perante um movimento de solo, ele próprio dança de alguma forma e faz ali os movimentos, ou é o rígido? Ou não tem nada a ver uma coisa com a outra?
Não, eu diria que essa noção não está descabida, de que ele abana, adapta-se ao movimento. É preciso é que tenha capacidade para abanar sem se danificar.
Certo.
Porque já não pode abanar muito, por uma razão: aquilo que costumo dizer, o que nos faz cair os edifícios não é o sismo, mas sim a gravidade. E se a gente abana muito e fica com o edifício muito deformado, ele perde capacidade de resistir à carga vertical. Mas sim, essa noção não é descabida. Aliás, toda a premulização imposta pelo regulamento, em termos de premulização, no caso do tornado, armaduras, nos nós, pilares, vigas, por diante, é no sentido de aumentar a capacidade do edifício de se deformar, exatamente para poder ter esse movimento sem entrar em colapso.
Claro. Estamos quase a chegar aqui ao fim do nosso tempo, mesmo com este prolongamento. Vamos rapidamente olhar aqui para o papel da sociedade. O que é que devemos fazer, Alexandra Carvalho? Nós todos vamos ouvindo, por vezes, conselhos sobre o que fazer em caso de sismo, mas será que isso é suficiente? Isto é, será que há uma pedagogia suficiente, nomeadamente para os proprietários das casas e dos edifícios?
Essa pergunta é bastante importante, porque, na realidade, diminuir o risco é uma responsabilidade de todos nós. Portanto, não fica só nos cientistas, nos engenheiros e nos decisores. É evidente que serão esses que têm uma responsabilidade maior, no sentido de que têm que construir bem, têm que saber como construir bem. E os decisores têm que promover também que o projeto seja aplicado na prática. E é evidente que a responsabilidade máxima está na comunidade técnica, vamos chamar assim, e decisora. Mas nós, como comunidade e como indivíduos, temos, de fato, também uma grande responsabilidade, nomeadamente como individuais nas nossas medidas de autoproteção, que temos que conhecer. Mas também temos que ser mais exigentes. E temos, de fato, esse papel, porque diminuir o risco é tornar-nos mais aptos a rapidamente recuperar. E isso passa, de fato, também por, por exemplo, fazermos um fundo, um seguro.
Que faça a cobertura dessas coisas.
Exatamente, a cobertura, porque no fundo é o nosso patrimônio, que nós também queremos ter a capacidade de recuperar mais rapidamente se acontecer alguma eventualidade. E, portanto, deveríamos nós própriosTer essa consciência de que estamos a preservar o nosso património. Devíamos também conhecer a vulnerabilidade dos nossos vizinhos, por exemplo, saber no nosso edifício quais são as pessoas que podem precisar e na altura de uma eventualidade, ir ter com essas pessoas, de facto, para as ajudar. Isso tudo é uma recuperação da sociedade que é importante. E devíamos também exigir, na realidade, devíamos ser mais exigentes. Devíamos obrigar os decisores a tomarem medidas, por exemplo, a querer saber se os quartéis de bombeiros da nossa área são vulneráveis ou não. Devíamos obrigar, devíamos fazer alguma coisa, nem que fosse ir à junta de freguesia todos os dias perguntar e insistir. Obrigar que os decisores fossem um bocadinho mais proativos.
Uma cidadania exigente.
Exato. Nós somos muito passivos.
E depois, quando as coisas acontecem é que nos lembramos.
E temos todos responsabilidade.
Claro. Luís Guerreiro, para fechar mesmo, o papel da sociedade, de alguma forma, também.
Aqui no ponto de vista das estruturas, acho que é importante, é uma preocupação do corpo técnico, é haver a garantia da qualidade da construção. Ou seja, há que criar mecanismos. Nós não podemos ter aquela ideia de que o Simplex, que são importantes, não podem simplificar naquilo que é segurança. Há que garantir que os projetos existem, estão bem feitos e que estão bem construídos. E isso tem que se arranjar mecanismos fiáveis que possam garantir isso. Ao fim e ao cabo, estamos a falar de uma garantia de qualidade. Tudo aquilo que nós compramos passa por uma quantidade de testes de qualidade, os nossos carros, e a habitação, que é o nosso maior investimento, também tem que ter qualquer coisa que garanta que está de acordo com o que deve ser feito.
Muito bem, fica esta nota de uma sociedade mais exigente e a sociedade somos todos nós. Muito bem, Luís Guerreiro, Alexandra Carvalho, obrigado a ambos pela presença deste pontapé de saída de "Portugal em Obras". Falámos sobre sismos, o que está a ser feito ou o que deve ser feito, e vai sendo feito às vezes, para tentar diminuir o impacto de acontecimentos que são imprevisíveis. Este podcast é uma parceria entre o Observador e a APPC, a Associação Portuguesa de Projetistas e Consultores. Nós vamos voltar proximamente no outro episódio, com outro tema e outros convidados. Até lá.