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Está no ar o Português Suave, na Rádio Observador, edição extra de quarta-feira, comigo, João Costa e Silva, e também com o Marco Neves. Um ano e dois dias.

Dois dias. Vamos começar.

Agora vamos começar assim.

Todos os episódios começam assim. Estou a brincar. Não se assustem.

Não, não vamos ser esse tipo de pessoa. Prometemos.

Sim, faltam cinco dias pro meu aniversário, ou faltam quatro dias.

Neste caso, já passaram.

Sim, exatamente.

Temos muitas dúvidas neste programa.

Sim, temos muitas dúvidas, temos sempre, ainda bem, e ficamos muito contentes. Às vezes temos que fazer uma certa seleção, não por causa das dúvidas, às vezes é porque me apetece falar daquele tema. Espero que as pessoas não se importem. E vamos começar por uma dúvida em áudio, não é?

Exato. Vamos ouvir o André.

Olá, chamo-me André. Parabéns pelo excelente programa. Estava aqui a pensar sobre bengalas utilizadas na língua portuguesa. Parece que estamos a utilizar cada vez mais o "aqui" e gostava de saber o que achavam sobre este novo bordão da língua portuguesa. Ou será que não é novo? Obrigado.

Um abraço para o André. Marco, o que há pra dizer sobre esta bengala linguística?

Gostava de agradecer muito ao André. Há muita coisa pra dizer. Eu nunca notei que o "aqui" houvesse uma frequência diferente agora, mas cada um de nós tem uma experiência diferente da língua, nós notamos coisas diferentes.

Com as pessoas que convivemos.

Sim, exatamente. E as bengalas, vamos chamar assim de forma mais imprecisa, bengala a tudo que nós repetimos muitas vezes desta forma. As bengalas podem ser de uma pessoa em particular, podem ser de um grupo de amigos, pode haver uma bengala de toda a população, de repente começa a dizer com mais frequência. Elas vão e vêm e nós nem sempre conseguimos, mesmo os linguistas que andam a estudar isto, nem sempre conseguem acompanhar todo este borbulhar. Essa é uma palavra que eu acho que ajuda a perceber o que acontece com a língua. A língua tem muita coisa de sólido, que não muda. Nós ainda lemos textos do século XII e percebemos que uma grande parte, as palavras ainda são as mesmas. Mas depois, além desse coração sólido da língua, há muita coisa a borbulhar. E há palavras que caem no gosto dos falantes e depois desaparecem. O "aqui", confesso, eu nunca tinha reparado.

Eu também não, por acaso.

O André ou reparou com mais atenção nesta palavra, ou se calhar é mais das pessoas que ele ouve. Eu também tenho pessoas à volta que têm certas bengalas. Eu tenho uma bengala, uma não, tenho várias, certamente, e as pessoas também.

Estávamos a falar disso em off. Uma pessoa que faz rádio ou até mesmo que fala muito durante o dia.

Os professores em geral têm, de alguma forma.

Agora não me vinha aqui exemplos de profissões à cabeça.

Na verdade, é uma bengala que eu já percebi que tenho. Agora, de onde é que vem isto? Primeiro, as bengalas costumam aparecer com mais frequência quando nós estamos mais cansados, isso porque nós estamos a controlar menos aquilo que estamos a dizer. E depois, precisamos de mais tempo. Isto é um mecanismo pra pensar, e é inconsciente. Ninguém está a dizer: "Agora, preciso de mais um segundo, então vou dizer uma palavra."

É uma rede de segurança, no fundo.

É uma rede, mas feita de forma inconsciente pelo cérebro linguístico. Em todas as línguas existem estas palavras ou aquelas palavras "ãh", que também servem a mesma coisa. E isto por quê? Porque nós falamos todos, e não é só o português, nós costumamos queixar-nos muito dos espanhóis que falam depressa. Mas nós também falamos muito depressa.

Falamos, sim.

Há línguas, curiosamente, que são um pouco mais vagarosas do que outras e há estudos que indicam que, sendo mais vagarosas, a informação é transmitida à mesma velocidade, ou seja, a forma como a informação está codificada na língua é diferente e por isso é só uma impressão. Na verdade, a velocidade da informação é a mesma. Mas havendo diferença entre línguas, nós temos sempre, só pra dar um exemplo, a cada segundo nós conseguimos dizer e interpretar certamente mais do que 10 fonemas, 10 sons. E se nós pensarmos bem, é muito. A linguagem humana é muito rápida. Há pessoas mais rápidas do que outras.

Sim, verdade.

Mas mesmo a pessoa que fala de forma mais calma que nós possamos imaginar, consegue transmitir muita informação a falar. E, por outro lado, a evolução da linguagem humana levou à criação de certos mecanismos para que o cérebro possa, às vezes, pensar um pouco o que vai dizer a seguir. E este é um dos casos, é um desses mecanismos. E por isso é que nós quando estamos mais cansados, dizemos mais, porque também estamos com menos capacidade para pensar no que vamos dizer a seguir.

Fica aqui esclarecida a dúvida do André.

Vou só dizer mais uma coisa. Os jovens costumam ter muitas bengalas em todas as épocas. Ainda estão a habituar-se a lidar com a língua.

Isso é verdade.

E por isso as bengalas jovens não são um sinal da decadência dos tempos.

Não são um problema, a menos que se perpetuem por muito tempo.

Exatamente. São uma característica da linguagem humana. Um jovem também quando está com mais calma, há jovens que falam bem quando estão numa situação de falar em público. Há outros que, por exemplo, não conseguem evitar as bengalas mesmo quando estão, por exemplo, numa aula, mas é uma característica da linguagem jovem, também tem muitas bengalas, sempre foi.

Isso mesmo. Vamos avançar. Temos cinco minutos até o final, Marco. Vamos tentar ainda esclarecer duas dúvidas.

Vamos tentar falar muito depressa.

Sim. A próxima vem da Dulce Neto, que trabalha aqui conosco no Observador. Fala-nos da palavra tiroteio.

Pois, eu confesso, aqui é um daqueles casos, tal como o "aqui". Olha, "aqui" é um daqueles casos. Agora estou a começar a reparar. O tiroteio, em português, tem, como diz a Dulce, e bem, o significado de haver tiros de parte a parte. Ou seja, há um tiroteio é porque houve um tiro.

Uma troca de tiros.

Uma troca de tiros. E a dúvida da Dulce é: isto não é uma tradução adequada de shooting, em inglês. Ou seja, quando nós temos um shooting, aliás, tivemos nas notícias há poucos dias.

Porque o que aparece mais é tiroteio.

Sim, aparece tiroteio. E é assim, muitas vezes os shootings, ou seja, um tiro vai dar num tiroteio, porque a polícia vai intervir, vai também dar tiros e por isso acaba por ser um tiroteio. Mas quando é um sniper, por exemplo, que dá um tiro, aí, de facto, o correto seria dizer um tiro ou um assassinato, ou seja, usar uma outra expressão.

Aí já se calhar qualificar aquilo que aconteceu e não tanto focar.

Temos de ter duas partes a dar tiros. E eu nunca tinha reparado neste problema, mas é de facto um problema de tradução.

Mas para alguém que trabalha aqui, neste caso a Dulce, que trabalha no jornal e que se calhar se confronta com isto muitas vezes, é uma dúvida que acaba por ser recorrente.

E mostra como nós, por vezes, ao traduzir, temos de facto de dar a volta à frase para conseguir dizer a mesma coisa, e não é fácil.

Exato. Vamos então para a última, vez como conseguimos. Vamos para a última. Vamos falar do D apóstrofo. A dúvida vem do Lourenço Bordalo, que diz que era muito comum vermos este tipo, como é que lhe podemos chamar?

Elisões. É, na verdade, uma questão gráfica. Era habitual em português, quando nós tínhamos a junção de duas palavras.

Ele dá aqui alguns exemplos: Santana, Paço de Arcos, Borda de Água, Águia d'Ouro, etc.

Em nomes de terras ainda é habitual, por exemplo, eu tenho uma terra mesmo ao pé de Peniche, no concelho de Peniche, que é Serra d'El-Rei, que tem ainda, oficialmente, um apóstrofo: Serra d'El-Rei. E acontece também noutros casos de terras. Agora, na língua em geral, o apóstrofo é muito menos usado por uma opção gráfica. Nós continuamos a dizer as palavras de forma unida. É uma convenção, não há uma razão lógica. O francês tem muitos apóstrofos, o inglês também continua a ter apóstrofos. As pessoas que criaram a ortografia optaram por retirar os apóstrofos do português. Foi uma opção, neste caso, consciente, mas não há uma explicação lógica de por que razão é que isto poderá ser melhor do que de outra forma. Não é melhor, é simplesmente uma opção. Isto não tem nenhuma implicação oral, ou seja, o facto de nós não usarmos um apóstrofo, não quer dizer que nós não possamos dizer, por exemplo, "cope d'água". Quando se fala de um casamento até é muito habitual.

Sim, pôr o apóstrofo.

Pôr o seu apóstrofo, mas é uma questão também quase de estilo gráfico.

E de elegância, se calhar. O Lourenço Bordalo diz isso mesmo, que se calhar quando vemos uma palavra com apóstrofo, pensamos mais elegante.

Porque parece mais antigo.

Exato.

Os franceses não acham o apóstrofo particularmente elegante, que usam todos os dias. Nós continuamos a dizer "cope d'água" mesmo quando vou ao café e peço um "cope d'água". Não ponho o apóstrofo, não há consequências para a ausência daquele apóstrofo.

Exato.

É só uma questão mesmo gráfica.

E lá está, nós talvez usemos mais no nosso quotidiano, só que na escrita omitimos.

Sim, na oralidade continuamos a fazer a tal elisão do som, mas na escrita não pomos o apóstrofo por uma mera convenção gráfica.

E Marco, conseguimos. Ainda temos um minuto para dar conta do nosso...

Com a velocidade que nós conversamos, nós podemos dizer muita coisa num minuto. Aliás, um minuto dá para muito.

Diz-nos o nosso e-mail para enviar as dúvidas.

portuguessoave@observador.pt, com dois F, sem o C circunflexo.

Exatamente. E eu digo o número de telefone 91 002 41 85, 91 002 41 85. Envie-nos as suas dúvidas pelo WhatsApp.

Quantos minutos temos?

30.

30, só para dizer que eu decorei o meu número de cartão de cidadão quando estava a fazer os exames nacionais. Portanto, eu vou precisar aqui de um tempo para decorar este.

Envia as tuas dúvidas através do WhatsApp em mensagens de voz até 30 segundos. Marco Neves, um abraço e até domingo.