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Nova semana, novo episódio de "Português Suave", no sítio do costume, na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva, comigo o José Rafael Lopes, e isto não se faz sentir. Marco Neves, o nosso ninja em tudo o que é língua portuguesa. Bem-vindo, mais uma vez.

Como estás? Obrigado, cá estou eu.

Ia dizer: "Como estás, ninja?" Como estás, Marco?

Não estou vestido de ninja, mas podemos combinar. Um dia destes.

Um dia destes.

Vamos os três.

No Carnaval, episódio temático. Marco, o que é que temos para este episódio?

Temos muito. Vamos falar de gatos franceses, dos holandeses e da saudade.

Saudade. Pronto, então não vamos perder tempo. Começamos, como é habitual, com a Língua nas Notícias. Marco, vamos então para a Língua nas Notícias. Foi difícil escolher a palavra desta semana?

Nem por isso. Houve aqui um chat que ficou muito famoso.

Um chat.

Sim, à americana. Ficou muito famoso porque de repente tínhamos uma conversa sobre ações militares com um jornalista incluído no meio. Foi uma notícia interessante, pelo menos, não sei que desenvolvimentos é que terá agora nos próximos tempos, mas decidi então falar da própria palavra chat. Ou como é que vocês dizem em português?

Eu digo chat. Digo chat também, acho eu.

Porque o CH em inglês, em geral, é lido com tch, mas nós não temos esse som, com algumas exceções. Nós usamos o som, por exemplo, em tchau. Mas de qualquer forma adaptamos ao português e dizemos um chat.

É daqui que vêm os gatos que falavas há bocado.

É, exatamente. Vamos lá chegar aos gatos. Então decidi procurar a origem da palavra, uma palavra inglesa que nós importámos ao longo do tempo, e tem origem germânica, é uma palavra bem germânica, e provavelmente terá vindo de uma tentativa de imitar as pessoas a falar, a chat, chat, chat.

Não podemos dizer então que é uma palavra portuguesa.

Podemos dizer, porque, na verdade, nós importamos muitas palavras, como sabemos, desde sempre, e esta palavra já foi importada e acho que grande parte da população percebe o que nós queremos dizer com chat. Há quem diga: "Então, mas nós não temos já conversa?" Mas o que nós fazemos muitas vezes quando importamos uma palavra é depois usá-la para algo em particular, para uma conversa em particular. E aqui é uma conversa online, mais um estrangeirismo. É uma conversa digital e podemos tentar substituir por outro termo português, mas este já está bastante, digo eu, não sei se concordam, mas parece-me que está bastante enraizado aqui no português. Temos o e-mail também. Nós temos correio eletrónico ao lado, mas as pessoas escapam-se sempre para o e-mail.

Acho que toda a gente hoje em dia diz e-mail. É raro ouvir uma pessoa dizer correio eletrónico.

E temos também o futebol, que já é uma palavra mais antiga. O que o futebol tem a ver com o e-mail? Não deixa de ser uma palavra inglesa que nós simplesmente já estamos habituados há mais tempo.

Penalty.

Penalty. Há quem diga: "Então, mas nós não devemos evitar os estrangeirismos a todo o custo?" É irrealista, e já disse isto várias vezes aqui, pensarmos que uma língua pode evitar todos os estrangeirismos. Todas as línguas têm isto. O inglês tem muitos estrangeirismos. Agora, o que podemos evitar é outra coisa. É aqueles discursos que nós às vezes ouvimos em que a pessoa, em cada três palavras, há uma palavra inglesa que não é bem um estrangeirismo, atenção, porque reparem bem, são palavras que os outros falantes de português não conhecem. É uma pessoa que está simplesmente a falar meio português, meio inglês. Não é o mesmo problema.

Percebo perfeitamente o que estás a dizer.

Isso sim, para mim é um problema, mas não é por serem estrangeirismos, é por estarmos aqui a misturar duas línguas no momento em que isso não é assim tão útil. Às vezes é, se eu estou a falar com alguém, um inglês que sabe meio português ou sei meio inglês, então se calhar vamos ali os dois misturar as duas línguas, tudo bem, não há problema nenhum. Agora, quando está um português a falar para um português e de repente está a dizer metade das palavras em inglês, isso parece-me ser um problema de comunicação. Não é um problema de estrangeirismo, mas de comunicação. A pessoa está a comunicar mal.

E tens aqui uma curiosidade para partilhar connosco ainda.

Sim. Falámos do gato, ainda não chegámos ao gato. No meio destas transferências de palavras, línguas para línguas, às vezes há quem brinque com isto e os franceses criaram um sistema concorrente do ChatGPT chamado Le Chat, que é o gato.

Sim, le chat é o gato em francês.

Exatamente.

O Zé é especialista, porque ele tem um programa aqui na Rádio Observador, "Máquinas que Pensam", tudo o que seja inteligência artificial, ChatGPT, ele domina. Sim, é o modelo de linguagem europeu.

Exatamente. Eles chamaram Le Chat e perguntam às pessoas: "Então, mas isto é o chat conversa ou é o le chat?" E eles dizem, com um sorriso na boca, que é o gato. E por vezes, nestas transferências de palavras entre línguas.

O francês deve ser giro. "Vou perguntar ao gato como é que se faz isto."

No fundo, eles deram a volta à situação, é um estrangeirismo, mas transformado num animal.

Deixamos o gato, seguimos viagem e vamos até ao Mapa da Língua. E Marco, hoje no Mapa da Língua vamos até alguma região em específico?

Vamos a um país que se chama Holanda ou Países Baixos, não sei o que é que costumam usar aqui.

Eu tenho dito Países Baixos. Eu também.

Parece ser a nova.

A norma.

Não é novo. O que eu gostava de dizer aqui é que isto não é novo. Mas houve aqui uma pequena alteração. É um dos países que parece que mudaram de nome há pouco tempo. Nós também temos, por exemplo, a República Checa.

Que é a Chéquia.

Que usamos Chéquia.

Esse é mais estranho ainda.

Isso é um problema para outro dia, quando jogarmos futebol com a Chéquia. Também não jogamos com a Holanda e estamos a falar da Holanda.

Verdade.

Os países em Portugal costumam ter um nome curto e um nome longo, em português, mas não só em português, nas outras línguas. E neste caso, o nome curto daquele país ali entre a Bélgica e a Alemanha, é em português há muitos séculos, Holanda. Nós já tivemos várias guerras com a Holanda, várias guerras com os holandeses. É um nome que, na verdade, é criado por aquilo que podemos chamar, e os professores de português vão me entender agora, sinédoque. Nós damos o nome de uma parte da Holanda.

Há uma região que se chama mesmo Holanda.

Exatamente, as províncias dentro da Holanda que sempre se chamaram Holanda, e damos o nome dessa parte da Holanda ao país todo. E isto é tradicional, não é uma coisa de agora, não é um erro de agora. Também não é o único caso em que nós aplicamos um nome geográfico de forma um pouco imprecisa. Se virmos bem, o nome que nós damos aqui ao nosso país vizinho, Espanha, é um nome que era tradicionalmente o nome da Península Ibérica toda. Camões chamava Espanha a toda a Península Ibérica. Ele dizia que os portugueses eram um povo que vinha de Espanha, por mais estranho que isso nos pareça hoje. Nós e os espanhóis começamos a chamar Espanha apenas à parte que não inclui Portugal e que não inclui mais uns pozinhos aqui e ali. E por isso não é o único caso em que nós pegamos num território e chamamos a um país esse nome, apesar de uma coisa não corresponder exatamente à outra. A Croácia também é outro caso. A Croácia, na verdade, era tradicionalmente apenas uma parte daquilo que é hoje a Croácia. E, no entanto, passamos a usar esse nome para todo o país.

Então, no fundo, qual é que é o problema aqui no meio disto tudo?

O problema é este: além do nome curto Holanda, nós sempre tivemos o nome Reino dos Países Baixos, que é um calque de Nederlands, que é o nome em holandês, e que deu origem ao Netherlands, em inglês. Portanto, sempre tivemos o nome informal Holanda, mas sempre tivemos o nome mais formal Reino dos Países Baixos. Isto acontece também em inglês. Os ingleses também tinham Netherlands e tinham Holland. Os próprios holandeses usavam isto. Os holandeses, aliás, usavam Holland nos seus materiais turísticos em inglês. Só que decidiram há uns anos que não queriam mais fazer esta confusão, até por uma questão de respeito interno às pessoas que não viviam nas províncias que se chamavam Holanda. Então o governo dos Países Baixos passou a dizer que preferia que todas as línguas usassem o calque de Nederlands. Os ingleses não tiveram qualquer problema com isto, porque Netherlands já é o termo usado há muito tempo. Aqui em Portugal ficamos com o problema nas mãos, porque nós já usamos há muitos séculos Holanda.

Mas eu lembro-me que na escola e alguns manuais, alguns assumiam como Países Baixos e outros como Holanda.

Porque Países Baixos sempre foi o nome oficial.

Eu pensando nisso, é um pouco como o Marco estava ali a dizer, era Holanda e o Reino dos Países Baixos.

Sim. Tal como nós também dizemos França e República Francesa, nós tínhamos Holanda e Reino dos Países Baixos. Aqui o problema é que era muito diferente uma coisa da outra. Mas pronto, os Países Baixos insistem agora que este seja o nome que nós damos, até por uma questão de respeito.

Uniformidade também.

E então é normal que as rádios, que as televisões passem a dizer Países Baixos, mas também não é dramático que uma pessoa numa conversa diga que foi à Holanda. Não me parece que seja um erro português. Estamos simplesmente a seguir o que nós já dizemos há não sei quantos séculos. Portanto, se eu estiver a escrever um documento minimamente formal, vou usar Países Baixos. Se estiver a conversar com os amigos, se calhar vou dizer Holanda, sem grande problema. Já perguntei a holandeses, ainda hoje tive uma conversa com um holandês sobre isso. Reparem que eu disse holandeses e holandês. E já tive várias respostas, alguns que me dizem: "Não quero saber, vocês chamem o que quiserem, vocês falam português." Mas também já tive holandeses a dizer: "Não, preferimos mesmo Países Baixos."

Isto é assim em todo lado. Acaba por passar a mensagem de qualquer das duas formas.

Mas repare que nós dizemos sempre holandeses, nós não vamos dizer países baixenses.

Claro que não, eu estava a pensar nessa possibilidade, que é só estranho. Até porque o gentilício seria neerlandeses. Não é, mas também.

Aí não vai acontecer. Eu duvido muito que, por mais insistência, nós façamos isso.

Não, não vamos fazer. Vamos, sim, para a nossa última rubrica. Zé, Marco, Mitos e Origens da Língua. E Marco, hoje falamos de saudade?

Sim.

Vamos falar de saudade por quê?

Saudade dos tempos em que dizíamos Holanda e ninguém nos chateava.

Sim. Precisamente.

Isto dava para um programa de duas horas, poderíamos fazer aqui um especial sobre isto.

Sobre saudade.

Sobre saudade, porque há aquela ideia muito comum de que saudade é intraduzível. E na verdade, eu gostaria de dizer duas coisas, ou várias, mais do que duas. Desculpem. Primeiro, intraduzível não é, porque todos os dias nós encontramos tradutores que traduzem frases que têm a palavra saudade. Nós traduzimos frases, não traduzimos palavras isoladas.

Tenho saudades tuas, I miss you. Sinto a tua falta.

E para as outras línguas todas também, não nos podemos esquecer que não é só o inglês, e se é verdade que em inglês nós vamos ter soluções diferentes em frases diferentes, I miss you, como disseste, se for saudade noutra frase, já pode ser longing. Há várias soluções no inglês.

Há sempre uma forma.

Há sempre uma forma. E há também línguas onde até há palavras que o significado é muito próximo da nossa saudade, só uma palavra. O romeno tem dor, o galês tem uma outra palavra. O que as pessoas me respondem sempre que eu digo isto? "Está bem, mas em inglês é preciso sempre dar a volta, dizer várias palavras, não é só uma." Mas isso acontece com muitas outras palavras, não é só a saudade. E depois respondem: "Mas mesmo quando se traduz, não é exatamente a mesma coisa. Não tem exatamente o mesmo peso que tem em português." E eu digo que é verdade, não tem. E saudade, em particular, tem uma força muito grande na nossa cultura. Nós temos esta ideia de que é uma palavra muito portuguesa, mas também brasileira, angolana, galega. De qualquer forma, o que eu depois respondo é o seguinte: isso é uma característica da palavra saudade, mas também de todas as outras palavras, ou quase todas as outras palavras, se pensarmos bem. Nós não conseguimos encontrar nenhuma palavra que Ou melhor, para não ser muito radical.

Radical? Tu, Marco Neves?

Não quero ser.

Não conheço essa tua faceta.

Não e não vais conhecer hoje, porque eu vou dizer uma coisa relativamente moderada. A grande maioria das palavras terá uma conotação diferente noutra língua do que tem em português.

Claro.

Se eu disser café, a pessoa vai pensar, na Inglaterra, num café grande. Nós pensamos numa chávena pequenina. Se eu disser praia, nós pensamos nas praias portuguesas, se for um inglês. Ou seja, é claro que saudade em português tem um sabor diferente de dizer longing em inglês ou dizer I miss you, como as outras palavras todas têm. As línguas são diferentes, e as palavras usam-se de maneira diferente em cada língua, em cada cultura. Se saudade é intraduzível, uma grande parte das palavras são intraduzíveis. É traduzível, tem, no entanto, um lugar muito particular na nossa língua, como muitas outras palavras têm, mas não pensemos que os tradutores chegam à palavra saudade e depois no texto de saída vão pôr lá um espaço em branco para dizer: "Isto não deu, nós não conseguimos traduzir. Esta palavra é intraduzível." Ela é traduzível e é também, de certa maneira, indefinível, como muitas palavras são.

Fica aqui a explicação sobre saudade. Não tenha saudades nossas, porque nós voltamos já na quarta-feira. Sigam-nos.

Sim, bom ponto, João.

Exato. Sigam-nos nas plataformas de podcast, assim recebe sempre uma notificação quando sai um episódio novo. E envie dúvidas para portugues suave, com os dois S's, tanto português e suave, para o e-mail. Aliás, já me perdi aqui, mas eu vou refazer. Não se preocupem, que eu sei fazer malabarismo. Português suave, com os dois S's, de português e suave, sem o acento circunflexo, @observador.pt.

Enviem as dúvidas e nós estaremos à quarta-feira a responder. E se calhar, às vezes, também no episódio normal, pode acontecer que haja alguma dúvida.

Sim, pode acontecer, sempre.

Já me enviaram várias vezes esta dúvida: saudade tem tradução? Esta foi a minha resposta.

Muita gente pergunta isso, não é?

Pergunta. E atenção, acho que concordam que isto é uma resposta muito pessoal, não é uma questão técnica, é uma questão de interpretação da realidade e por isso admito que haja pessoas que dizem: "Não, mas não tem tradução." E terão os seus argumentos, que eu aceito.

E nós contamos sempre com a tua ajuda, Marco Neves. Um abraço e até quarta-feira.

Até quarta.

Até quarta.