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Já se sente o cheirinho a castanhas.
A castanhas.
Que ainda não tínhamos aqui à nossa frente, mas já se sente de alguma forma.
Eu pensava que ias falar outra vez de Natal.
Não.
Quem ouve todos os episódios sabe que nos últimos dois, salvo erro, falámos de Natal logo a começar.
Não, ainda falta muito. Ainda vamos ter muito tempo pra falar sobre o Natal.
A castanha é uma das paixões do meu filho mais velho, o Simão. Ele adora castanha.
Também.
Eu também gosto muito.
Gosto bastante.
Mas ele tem uma fixação, mesmo ao jantar, ele pede pra ter castanhas muitas vezes em qualquer prato.
Eu também sou fã. Pra mim era todos os dias do ano. Mas pronto, nem nos apresentamos. Olá, isto é o "Português Suave". Eu sou o João Costa e Silva, comigo está o Marco Neves. Temos muito pra falar esta semana, Marco. Queres fazer um lançamento?
Vamos falar de ténis e sapatilhas outra vez, porque isso é tema pra um podcast inteiro, só sobre ténis e sapatilhas. E vamos passear ao Uruguai e à Galiza e ainda vamos falar de mitos e dúvidas da língua portuguesa como sempre.
Então vamos a isto. Começamos com a língua nas notícias.
E a notícia esta semana foi a sondagem que fizeste
É verdade.
No Instagram, porque eu tinha feito uma sondagem na semana anterior a perguntar ao público em geral se usavam mais ténis ou sapatilhas. Ganhou por pouco, ténis.
Sim.
Foi uma diferença ali...
Rês vs. camarão taurico.
Exatamente, rês vs. camarão taurico. E a expressão muito lisboeta talvez mostre a razão porque ganhou o ténis. São pessoas mais a sul, talvez. E depois fizeste tu ao público em geral.
Eu fiz uma sondagem no domingo, fiz um vídeo aqui na rádio, e a sondagem favorável, com uma vitória, maioria absoluta.
Quanto é que foi?
57% sapatilhas.
Também não é assim.
É maioria absoluta.
É maioria absoluta. Mas no meu caso também foi. Ah, não foi não, porque tínhamos o ambos que tirava a maioria absoluta.
57% sapatilhas, 31% ténis e 12% pessoas que usam as duas expressões.
No meu caso, era preciso uma coligação pós-eleitoral.
Aqui não dava uma coligação, mesmo assim não tinha a maioria. Portanto, fiquei contente com os resultados.
É assim, assim se mostra que o país se divide entre o norte e o sul.
Com questões que importam.
E como nós vimos, não é uma divisão, não temos um muro de betão entre quem diz ténis e diz sapatilhas. Há variação, há ali uma zona de transição, mas parece haver uma tendência muito forte pra que no norte seja sapatilhas.
Se bem que há pessoas que eu conheço, que são do norte e que votaram ténis, e eu fiquei ofendido.
E já não vais falar com elas.
Não, vou, eventualmente. Também não sou assim tão extremista. Mas eu acho que eu sou muito apologista de que não devemos perder os sotaques, a forma como falamos. Ainda que eu já tenha vindo pra Lisboa há quatro anos, por exemplo, e já tenha perdido alguns trejeitos.
Eu também tenho um amigo que foi viver para o norte, para a Maia, o Nuno, e ele já tem um sotaque do norte.
Exato.
Não tem um sotaque muito forte do norte, mas ganha também o sotaque, tal como acontece ao contrário.
Mas eu orgulho-me muito de ter amigos que hoje em dia, por exemplo, já usam a expressão murcão, que antes não usavam.
Aqui em Lisboa?
Sim. Portanto, orgulho-me muito disso.
Muito bem. Temos que fazer um programa só sobre murcão.
Exato.
Mas pronto, hoje as notícias são só estas, o ténis e as sapatilhas.
Que privilégio.
E gostava de dizer ainda que daqui a pouco, na última parte, falaremos um pouco mais sobre os regionalismos.
Muito bem. Vamos a isso. Pra já, Mapa da Língua.
Então vamos a dois lugares muito diferentes um do outro. Vamos encontrar o português. Isto é só uma referência à existência de muitos falantes de português num país inesperado, que é o Uruguai. Existe o português do Uruguai, por estranho que nos pareça.
Ok.
Há uma grande discussão entre quem estuda aquilo que é uma variedade do português ou, de acordo com alguns especialistas, já uma língua separada que vem do português, mas que pode ter outro nome. Portanto, há quem chame dialetos portugueses do Uruguai, variedades portuguesas do Uruguai. Há quem chame aquilo já uma língua e até lhe dá um nome muito curioso, que é portunhol, que é um nome que nós damos.
Sim, usamos muitas vezes.
Usamos muitas vezes pra aquela mistura entre português e espanhol, que nós usamos de forma informal, sem grande sistema, quando vamos à Espanha, sem saber falar a língua ou uma das línguas.
Sim, eu nunca tive espanhol na escola e sinto que...
Vais te safando como sais.
Vou safando com o portunhol, de alguma forma.
Há quem queira atribuir este nome de forma mais oficial a este português do Uruguai, mas também há quem recuse a atribuição deste nome porque diz que é quase depreciativo. É uma discussão interessante, mas agora, que há variedades que não são castelhanas, que não são do espanhol, no norte do Uruguai, principalmente, sim, isto tem que ver com a história do Uruguai, que andou ali a saltitar entre Portugal e Espanha durante algum tempo, depois do próprio Brasil, e acabou por ficar um país independente. A língua oficial é o castelhano ou espanhol, que já sabemos que temos estes dois nomes, isso é outra discussão, mas o Uruguai continua a ter muitos falantes de português. Porque nós não nos podemos esquecer que lá porque um país ou um território muda de mãos, as pessoas não passam imediatamente a falar outra língua. Portanto, há uma certa inércia da língua ao longo dos séculos e ainda encontramos por lá um português muito influenciado pelo espanhol, claro, mas na fronteira entre o Brasil e Uruguai não se nota uma quebra muito forte, ou seja, não há uma separação entre as duas línguas e por isso nós também podemos falar a nossa própria língua quando vamos ao Uruguai, provavelmente com um certo sotaque misturado entre o português do Brasil.
Por acaso é um país que eu gostava de conhecer.
Sim, também gostava de conhecer o Uruguai.
E é daqueles países em que não íamos Por exemplo, eu não gosto muito de ir para um país em que a língua seja uma barreira. Há aqueles países, por exemplo, vamos a França, e os franceses têm muito aquele hábito de só falar francês. E eu, por acaso, vou lá em janeiro e já sei que vou ter dificuldades, porque o meu francês está muito enferrujado.
Tens de falar portucês.
Exatamente. Enquanto se eu fosse para um país em que se falasse espanhol.
Conseguirias.
Conseguiria, através do portunhol, dar aqui uns toques.
Por acaso tenho já há muitos anos muito interesse em Uruguai. Na primeira turma a que dei aulas, havia uma aluna bastante mais velha do que eu, chamava-se Laura, que era uruguaia e era tão entusiasmada com o Uruguai, falava-me tanto, que eu acabei por ficar com muita vontade de ir lá e ainda não fui.
Isso é bom, quando as pessoas vendem bem de onde vêm e nos deixam com curiosidade.
E agora, tenho que falar ainda, não sei se temos tempo, espero que sim.
Sim, sim.
Tenho que falar aqui de outra situação na fronteira, tal como o português do Uruguai, é uma situação na fronteira, uma situação mais geopolítica, que é o Couto Misto. Nós já falámos do Couto Misto aqui no "Português Suave" há muito tempo.
Eu acho que ainda não estava cá.
Provavelmente não. Foi mesmo quase no início.
Deve ter sido logo no início.
O Couto Misto, conheces a situação de Andorra.
Não estava cá no programa, atenção.
Sim, já cá estavas no universo.
A impressão que eu tenho.
Não és tão novo.
Um ano e meio de vida.
Mas o Couto Misto, conheces a situação de Andorra, um país que foi criado por uma situação curiosa em que aquele território não era governado nem de um lado, nem do outro, e ficou independente, e é independente, é um país independente, sem qualquer dúvida hoje. E um país até bastante antigo. O Couto Misto era um território que não era controlado nem pelo Reino de Portugal, nem pelo Reino de Espanha, na zona da Galiza, portanto, era um território que está ali entre o norte de Portugal e a Galiza. Nos mapas mais antigos, aparece aquele território praticamente como se fosse um território independente, as pessoas não pertenciam nem a um lado, nem ao outro. Até 1868, tivemos aquilo que poderia ter ficado como a Andorra portuguesa, entre Portugal e Espanha, mas não ficou. Hoje, quase todo o Couto Misto pertence à Galiza, mas há uma pequena parte no sul do Couto Misto que pertence a Portugal, e depois houve outros territórios que foram divididos para compensar. Agora, há uma pergunta interessante em relação ao Couto Misto. Até 1868, ou seja, até ao século XIX, até muito tarde, que língua é que se fala lá? Na verdade, fala-se galego. E em 1867, antes do desaparecimento, as pessoas não se preocupariam em chamar à língua nada, porque havia uma continuidade. Os portugueses que estavam do lado de cá da fronteira falariam algo muito parecido com os que estavam no Couto Misto, que falariam algo muito parecido com os que estavam na Galiza, e havia uma continuidade, e a própria existência do Couto Misto é uma lembrança dessa continuidade. E na Galiza fala-se muito Couto Misto. Há, salvo erro, um bar em Santiago Compostela que se chama O Couto Misto. O Couto Misto está hoje a ser recuperado enquanto tradição. Eu fui lá há dois anos, salvo erro. Há uma tradição anual de atribuição do título de juiz, salvo erro, que é assim que se diz. Eram as pessoas que governavam aquele território. É um território muito interessante e que vale a pena visitar.
Couto Misto, agora que eu estou a ouvir isto demasiadas vezes, faz-me lembrar o nome de uma sandes rústica. Se quiserem batizar o Couto Misto de alguma coisa, nós vamos deixar aqui a receita no Português Suave e depois criam a sandes.
Sempre que eu falo disto, as pessoas dizem: "Não é Couto Misto, é Couto Misto", porque sendo norte, tens de pronunciar como deve ser. E agora ficamos aqui à espera que alguém faça uma sandes.
Batizem, por favor.
Do Couto Misto. E vamos lá nós fazer um episódio do Português Suave.
Mas com o Couto Misto aqui ao lado.
Exatamente.
A sandes, neste caso.
Muito bem.
Vamos avançar para a última rubrica, vamos aos mitos e dúvidas da língua.
E hoje queria fazer aqui um apanhado de várias questões que nos têm atrapalhado, entre aspas, no bom sentido. Alguns deles são regionalismos, outros nem por isso, são diferenças sociais no uso da língua.
Isto vai gerar discussão, não vai?
Vai gerar discussão, mas eu só queria dar aqui vários exemplos.
Deixem nos comentários.
Vários exemplos para mostrar que a língua varia. Primeiro, de onde é que vêm os regionalismos? Para começar. Por que razão é que há regiões onde se usa uma palavra particular? Porque tudo que nós falamos começa por ser regionalismo. O que eu quero dizer com isto é: não há uma palavra que seja de todo o país. Ou seja, o que acontece é: a língua sempre foi variada, sempre mudou de região pra região. Quando eu falo aqui de região, falo de maneira muito imprecisa, de terra pra terra ou de zona pra zona, de área pra área, aliás. Agora, quando se criou aquilo que se chamou padrão, ou seja, o português que viria a ser ensinado nas escolas, houve uma certa escolha, foi-se escolher uma palavra de uma região, outra palavra de outra, normalmente era mais para uma região em particular.
O que se costuma dizer para alegrar a gregos e a troianos.
Sim, embora se alegrasse muito mais os gregos que viviam em Lisboa e em Coimbra. É verdade. Houve aqui uma seleção que também tinha que ver com o sítio onde estava a universidade, em Coimbra, onde estava a capital, Lisboa. Depende do grau de normalidade. Mas isto para dizer que não há nada de melhor nas palavras que são usadas no padrão em relação às palavras que não são usadas. Como o caso que nós já falámos aqui, alga e água. As duas formas eram formas tradicionais da língua portuguesa. Água acabou por ser a escolhida para o padrão, mas alga é tão antiga.
A minha avó dizia alga.
Ainda se usa muito. Depois temos questões mais sociais, e esta traz muita discussão entre o comer e a comida.
Já falámos disso.
O comer. Isto é uma questão social em que, mais uma vez, se aplica o mesmo princípio, mas temos de imaginar um mapa social da língua e não um mapa territorial. Tanto uma como outra eram usadas por várias pessoas em diferentes contextos. Aliás, o comer enquanto nome, não enquanto verbo, com o significado de algo que se come, está nos primeiros dicionários da língua portuguesa e não havia lá nenhuma indicação sequer que fosse popular.
Exato. Ainda que agora seja associado.
Agora é associado a um uso mais popular, mas reparem, e normalmente o argumento é: um verbo não se pode transformar em nome. Nós transformamos em nome todos os verbos e mais alguns, alguns com muito mais frequência do que outros: o saber, o olhar, o jantar. Jantar também vem do mesmo sítio. Comida também é uma forma verbal, não nos podemos esquecer quando as pessoas dizem: "Não, comida é que está certo", porque o comer vem de um verbo, comida também é do verbo comer, é o particípio do verbo comer. Portanto, não há nenhuma razão de ser melhor ou pior para que comida nos soe menos popular.
Exato.
Portanto, o comer, em termos linguísticos, está perfeito. Agora, claro, acabou por ficar reservado a certas regiões do mapa social da língua, o que é curioso. Também não há uma razão para isso.
Estou-me aqui a lembrar que quando era mais novo ouvia muitas vezes a minha avó dizer, não dizia pão, mas dizia trigo: "Dá-me aí um trigo." E referia-se ao pão desta forma.
Olha, por acaso essa nunca tinha ouvido. Isso é que é curioso.
Por acaso, não sei se isto é específico da região de onde eu sou, mas a minha avó referia-se ao pão: "Dá-me aí um trigo." E referia-se assim ao pão.
Eu sei que o pão tem várias designações pelo país fora. Devemos também fazer aqui um mapa da língua com as designações do pão, do café.
Sim. Sabes o que é um pão italiano?
Não, não faço ideia.
Pronto. As pessoas daqui de Lisboa, quando eu falo com os meus amigos, não sabem o que é um pão italiano. Há um pão redondo, há o pão da avó e há o pão italiano, que é uma forma de pão diferente. Ali na minha zona, muito fofinho, é o pão que eu mais gosto. Eu aqui em Lisboa não costumo comer pão porque sinto que o pão não faz jus ao pão do norte. Um dia vou trazer um pão italiano para tu comprovares aquilo que eu te estou a dizer.
Repara, aquilo que estás a dizer do pão ser melhor na tua terra, também se aplica à língua.
As pessoas que ouvem este podcast vão achar que eu odeio Lisboa.
Não é isso, mas na nossa língua, em geral, as pessoas têm uma relação forte com duas variedades da língua: a variedade que é considerada o padrão, porque é ensinada na escola, e depois a da sua terra, a da sua família.
E a minha referência é sempre essa. É a primeira.
E as pessoas que estão numa zona onde o que é considerado padrão está muito próximo daquilo que elas ouvem desde crianças, não percebem esta questão e pensam que só temos português correto, o delas, e o português incorreto, o dos outros, quando na verdade temos esta relação muito diferente com várias variedades da língua e não é uma questão de correção ou incorreção, é só mesmo de variedade.
Mas esta questão do pão italiano é importante, porque já perguntei a vários amigos daqui e ninguém faz ideia do que é. E depois eu mostro e a pessoa fica: "Ah, é um tipo de pão." Mas eu penso do gênero: "Não, este não é um tipo de pão qualquer, este pão é muito bom." Mas pronto, um dia traz-te um pão italiano e quando terminarmos este episódio já te vou mostrar.
Quando é que vamos combinar um episódio em São João da Madeira?
Olha, era giro. Temos de falar com a Câmara Municipal.
Acho que sim.
Acho que era giro. Temos lá a Casa da Criatividade, portanto, um episódio ao vivo. Marco, nós ficamos por aqui neste episódio de domingo. Dúvidas, em enviar para onde?
Para portuguesuave@observador.pt e o número de telefone, eu sei que tenho por aqui apontado.
Será?
Vou fingir que decorei. Meu Deus, não encontro, diz-me tu.
910 002 41 85. Eu encontrei aqui no nosso documento.
Tenho um problema com este número. 910 002 41 85.
Envie áudios até 30 segundos para o nosso WhatsApp da Rádio Observador ou se quiser escreva-nos através do e-mail, como disse muito bem o Marco: portuguesuave@observador.pt. Nós estamos de regresso na quarta-feira.
Até quarta.
Até quarta, Marco.