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"Português Suave" na Rádio Observador. Não sei se vamos falar hoje do Natal, Marco Neves.

Ainda não, ainda falta um mês.

Mas eu acho que agora já é aceitável.

Já é aceitável. Já podemos descongelar a Mariah Carey.

Eu acho que agora era a altura ideal. Um mês dá perfeitamente para celebrar o Natal.

Sim, vamos a isso.

Oh, I want. Não vamos cantar, porque senão isso vai correr muito mal.

Para a semana já começamos a falar. O Natal tem muita coisa para falar. Nós podemos conversar sobre muitas coisas, as línguas do Natal, a língua do Menino Jesus, do Pai Natal.

A comida, os bolos, tudo.

Vamos falar disso. Qual é o plural de filhós?

Olha, boa.

A grande discussão linguística do Natal. Hoje vamos à Galiza, às Caraíbas e às Caldas da Rainha.

Ainda bem. Só viagens. Vamos a isso, não podemos perder mais tempo.

Não é nenhuma notícia, pelo menos da última semana.

As 50 notícias.

Não é nenhuma notícia. Exato, não é nenhuma notícia, mas é uma notícia constante sobre uma língua muito próxima de nós. Ou será que é mesmo uma língua e não será uma variedade de outra língua maior?

Hermana.

Neste caso, não, irmã. Hermana é ali mais ao lado. Estamos a falar do galego. O galego oficialmente é uma língua diferente do português. O que quer dizer com oficialmente? Se eu for ao notário, eu não posso fazer nenhuma tradução oficial entre o português do Brasil e o português de Portugal. Isso não existe. Mas entre o galego e o português, posso. Portanto, oficialmente são línguas diferentes, mas há uma discussão na Galiza e em Portugal, de vez em quando, também. Aliás, eu já escrevi um livro há uns anos que tinha este título: "O galego e o português são a mesma língua?" Porque é uma pergunta que cá em Portugal não se faz muitas vezes, mas na Galiza faz-se. Tanto que foi o único livro que eu publiquei, não em Portugal, mas na Galiza, porque cá em Portugal se calhar não era tão interessante.

É um artista que está em todos os pontos do globo.

Quer dizer, também não é muito longe.

Mas conta.

Ao lado, não. É em cima. A Galiza é o nosso sótão.

Não sei se as pessoas vão-

Não, é um sótão com carinho. Digo isso com carinho, gosto muito de ir à Galiza, já lá fui muitas vezes e é engraçado pensar que temos ali uma região por cima de Portugal, que é muito importante pra nossa história, porque de facto a nossa língua surge no noroeste da península, na região que é hoje a Galiza e o norte de Portugal, que já foi há muitos anos o reino da Galiza. E esta língua está muito próxima do português. Há galegos que consideram que ainda é uma variedade de uma língua, que eles chamam galego, claro, não chamam português, mas que o galego e o português são variedades da mesma língua, enquanto que oficialmente nós sabemos que o que se considera é que o galego e o português já se separaram, mas foram a mesma língua durante muito tempo.

Tiveram um divórcio.

Sim, uma separação.

Com separação de bens.

Mas ainda conseguem conversar. É um divórcio muito amigável. Se for um divórcio. Ou se calhar não é, ainda está tudo em discussão, porque há muitos galegos, os reintegracionistas, que são uma minoria, mas que defendem que a língua é a mesma. Agora, eu queria falar hoje é de um fenômeno que eu reparei na internet. No último episódio falámos da palavra internet e eu estou a usar agora. Eu reparei em discussões no Instagram.

Fizeste depósito, admite.

Eu reparei em discussões no Instagram. Eu disse num vídeo, no Instagram, que o galego é cada vez menos falado. E é verdade, infelizmente é. E houve pessoas que disseram: "Mas eu já sou bastante mais velho do que tu", dizia uma pessoa, "e eu ia quando era novo à Galiza e não via nada em galego, o galego não existia. E agora vou lá e só o vejo em galego. Por que razão é que dizes que o galego é cada vez menos visível?" E isto é um fenômeno que não é só da Galiza, está em muitos outros pontos do mundo. É um fenômeno em que algumas línguas eram muito faladas, mas eram desprezadas. Não eram oficialmente reconhecidas, não se usavam na escola, na rádio, na televisão, nos jornais, mas as pessoas usavam-nas, as pessoas falavam nessas línguas. Isto acontece com o galego, e acontece, por exemplo, com o crioulo cabo-verdiano em Cabo Verde, que já é usado em muitas situações, mas não é usado, por exemplo, no Parlamento em geral, não é usado na escrita tantas vezes, mas, no entanto, é a língua que as pessoas falam no dia a dia. Na Galiza acontecia uma coisa parecida. Se eu fosse à Galiza nos anos 50, não poderia ir, porque não existia, mas se fosse, ia ver tudo escrito em castelhano, em espanhol. Na escola era tudo em castelhano, a televisão era em castelhano, a rádio era em castelhano, mas as pessoas falavam em galego. Tanto que estudos dizem que ainda há 50 anos, aproximadamente 90% dos galegos usavam principalmente o galego no dia a dia.

Uma grande percentagem, ainda assim.

Das regiões espanholas que têm outra língua, era a mais falada, de longe. Muito mais do que o catalão e do que o basco. Agora, nos últimos 50 anos, a língua tornou-se visível, oficial, está nas ruas, é a língua dos nomes das localidades, é uma das línguas ensinadas na escola, é a língua da televisão da Galiza, é a língua de alguns jornais, de muitas rádios. No entanto, é menos falada. Hoje, só 50% é que habitualmente falam galego. Há várias razões para isto. Foi uma língua muito perseguida e muito malvista em muitos regimes políticos espanhóis, mas hoje não é. Politicamente é uma língua protegida, muito protegida. No entanto, os jovens-

Está a perder falantes

...estão a abandoná-la, o que é estranho. E quanto a mim, é pena, até porque tem muito a ver conosco.

Marco Neves, vamos avançar, até porque temos mais viagens para fazer. Agora até às Caraíbas, no Mapa da Língua.

Se o galego é uma língua-

E fomos de comboio, já viste?

Fomos de comboio até às Caraíbas. Deve ser a primeira vez que isso aconteceu. Se o galego é uma língua que está em Espanha, muito próxima do português, temos uma língua nas Caraíbas que mistura o português e o espanhol. Não sei se alguma vez ouviste falar desta língua Chama-se Papiamento. É falado em Curaçá, Aruba e Bonaire, três ilhas que pertencem aos Países Baixos, são parte do reino dos Países Baixos, com muita autonomia. Estas três ilhas falam neerlandês ou holandês, como quisermos, inglês também, e Papiamento. Papiamento é uma língua crioula.

Papiamento parece-me tudo, menos uma língua.

É, mas é. Vem de "papiar", que é uma forma que se usa, por exemplo, no crioula cabo-verdiano para dizer falar. É a fala. Papiamento é a fala. É uma língua muito próxima do crioula cabo-verdiano, mas está do outro lado do Atlântico. Está relacionada com a escravatura, mas foi uma língua criada por gerações que não tinham nenhuma língua que lhes tivesse sido transmitida de forma inteira, então recriaram uma gramática. É uma língua com uma gramática própria, muito sistemática. Uma língua que é hoje, ao contrário do que acontece com o crioula cabo-verdiano, é uma língua oficial nestas ilhas e é usada na escrita, usada em todas as situações e tem muitas palavras portuguesas. Eu não sei falar Papiamento. Galinha é uma palavra desta língua. Tem "por favor", que parece um pouco português, um pouco espanhol. Há uma grande discussão sobre algumas palavras que parecem ter vindo do espanhol, a Venezuela está mesmo ali ao lado, outras parecem ter vindo do português, mas a grande maioria dos especialistas afirma que o grande tronco é o léxico português, mas a gramática é a tal gramática criada por gerações que acabaram por criar uma nova língua. Não se sabe bem se criaram ainda em África e só depois é que foram pra ali, se foi criada ali. Houve também um movimento de judeus que foram expulsos de Portugal e de Espanha e que foram pra aquela zona e que também levaram o português e o espanhol. Houve aqui uma confluência, de tal maneira que essas três ilhas holandesas têm uma língua que nos lembra muito o português.

Papiamento faz-me lembrar o nome de uma especiaria. Passa aí o Papiamento. Mas é uma língua.

Pode ser uma sugestão, quem sabe, de futuro. Pode ser uma língua, mas pode ser o nome de mais coisas.

Pode ser também o nome de uma especiaria.

Era engraçado, não é? Nós já falámos do coto misto enquanto uma sandes rústica. Quem sabe? Estamos aqui a dar ideias. É apontarem.

Vamos começar a ter um restaurante que vai ter refeições baseadas em coisas que falamos por aqui. Já temos uma sandes rústica. Acabei de dizer sande, reparaste?

E o Português Suave será o quê?

O nome do restaurante.

O nome do restaurante. Mas também pode ser um prato. Eu criei um Português Suave.

Ah, também era bom.

E ele: "Tabaco? Não, não é tabaco." Até porque nós queremos que o Português Suave tenha outra conotação.

E seja suave e saudável, acima de tudo. Eu acho que sim. Vamos aos mitos e origens da língua. Aliás, mitos e dúvidas, assim é que é.

Também. Mas pode ser origens também. Já falámos do galego, portanto estamos a falar da origem. Rosa Machado, que é muito simpática e que fala comigo muitas vezes, normalmente por mensagem.

Dá-te feedback dos episódios.

Não dos episódios, porque ela normalmente não fala sobre o Português Suave, tenho que reconhecer, é mais porque me conhece e envia mensagens, mas enviou uma dúvida que eu decidi aproveitar para este episódio. Ela é filha de José Pedro Machado, que é um grande etimólogo, por exemplo, entre outras coisas, tem um dos grandes dicionários, senão o grande dicionário de etimologia da língua portuguesa. E eu gostava de deixar aqui a minha homenagem a José Pedro Machado. Seria quase impossível fazer muitos dos episódios que fazemos aqui sem o trabalho que ele fez. Portanto, fica aqui a minha homenagem e também o meu agradecimento pelas conversas que tenho tido, mesmo à distância, com Rosa Machado, que me enviou uma dúvida. A dúvida é Caldas da Rainha. Deve ser município ou Câmara de Caldas da Rainha ou das Caldas da Rainha? Já falámos destas coisas aqui.

Já. Presidente de Câmara, presidente da Câmara, foi na altura das autárquicas.

Neste caso, é o nome da própria terra. Nós sabemos que Lisboa não leva artigo, portanto, é Câmara Municipal de Lisboa, mas que o nome do Porto leva artigo. Dizemos Câmara Municipal do Porto, eu vou ao Porto. No caso das Caldas, o que é que se faz? Diz-me a Rosa que o pai afirmava que era as Caldas da Rainha. Vou às Caldas da Rainha, que deveria ser Câmara das Caldas da Rainha. E eu concordo inteiramente, por vários motivos. Embora, pelo que ela me diz, a Câmara Municipal das Caldas não cumpre tão muitas vezes, escreve Câmara Municipal de Caldas da Rainha, embora a maior parte da população diga das Caldas.

E acho que funciona melhor.

Das Caldas.

Das Caldas, do que de.

Sim, porque é o que nós usamos. Os meus argumentos são os seguintes: há uma tendência, que nós já discutimos aqui, não é uma regra, é uma tendência para os nomes que vêm de nomes comuns, como Porto, Guarda, terem artigo. Não é uma regra, como eu estava a dizer, há exceções, mas esta é uma tendência. A tendência depois pode ser confirmada ou recusada pelos falantes ao longo da história. E acho que é absolutamente inegável que a grande maioria dos falantes diz: "As Caldas da Rainha. Eu vou às Caldas da Rainha." Aliás, eu sou de lá perto e dizia sempre que ia às Caldas da Rainha.

Tu tens conhecimento de causa, no fundo.

Há aqui talvez uma tendência que algumas Câmaras Municipais revelam para retirar o artigo. Eu já vi isso noutros pontos, porque parece ser um pouco mais correto, mas quanto a mim, está errado. Se os falantes deixaram lá o artigo, na transferência entre o nome próprio Caldas, que quer dizer termas, para o nome da cidade, penso que a Câmara Municipal poderia muito bem também manter o artigo. Fica aqui a minha sugestão à Câmara Municipal das Caldas da Rainha.

Se nos ouvirem.

Até porque é algo muito próprio daquela cidade, porque é um artigo definido plural, e isso também é muito interessante.

Convidem-nos para ir às Caldas da Rainha fazer um episódio ao vivo. Nós vamos com todo o gosto. E a Rosa Machado fica à vontade para chatear o Marco Neves sempre que for possível, sempre que quiser, porque ele adora receber dúvidas, assim como nós. E já sabe pra onde é que pode enviar. Marco, será que hoje consegues dizer o número de telefone?

Não sei, deixa-me pensar. Eu acho que o número de telefone, eu estou aqui a pensar, será 910 024 185.

Minha cabeça fez assim.

910 024 185.

Muito bem. Envie áudios para o nosso WhatsApp até 30 segundos. Quarta-feira temos episódio de dúvidas. Se quiser, também pode enviar para o e-mail portuguessuave@observador.pt. Pra semana estamos mais perto do Natal, Marco.

Estamos.

Já vens com o gorro?

Temos que começar a pensar em falar de Natal, sim.

E trazer-

Tens alguma dúvida sobre o Natal?

Devo ter, eventualmente. Sabes que eu sou aquela pessoa que me esquece sempre de muita coisa. Eu se não apontar nas notas do telemóvel.

O plural de filhós é uma das dúvidas. Qual é a língua do Pai Natal? Há resposta pra isto.

Boa. Então temos que falar sobre isso.

Qual é a língua do Menino Jesus? Já tinha dito, temos que falar sobre estas dúvidas.

Temos muito pra falar. Até dia 25 de dezembro, ui, temos tanto tema. Marco Neves, um abraço e até quarta-feira.