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É quarta-feira, é dia de "Português Suave" na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Marco Neves.

Olá, tudo bem? Cá estamos.

Cá estamos. Com frio.

Com frio.

O frio começa a chegar.

Natal também, não é?

Estamos aqui para falar de Natal.

Já não vamos falar disso outra vez, por amor de Deus. Já temos falado de Natal todos os episódios.

Temos dúvidas para esclarecer. Queres começar? Quero começar pela dúvida, uma dúvida muito curiosa do João. João, eu não assinalei o nome, mas vamos ouvir.

Vamos ouvir.

João Miranda.

Olá, daqui João, de Setúbal. Eu tenho uma dúvida que tem a ver com a maneira como pronunciamos o S a seguir ao N. Em palavras como "pretensioso", "considerar", "insistente", nós temos um S só e lemos como se fossem dois S. Mas depois na palavra "trânsito", nós lemos como se fosse um Z, em vez de ler "transito". Gostava de saber por quê. Obrigado.

Um abraço, João Miranda. Obrigado.

Eu não tenho aqui uma resposta fácil, mas o que eu posso dizer é: há uma regra do português, de facto, o S a seguir a uma consoante, lê-se como S, como "sse" e não como "zze". Esta regra aplica-se às letras, portanto, o N é uma consoante, embora, na verdade, quando nós lemos, por exemplo, "trânsito", o N não está a representar a consoante "n", mas é como se fosse um til. Está representada a nasalidade do A. Mas mesmo assim, a regra aplica-se ortograficamente. Portanto, para sermos precisos, tendo em conta a forma como nós pronunciamos, provavelmente deveria estar ali um Z, mas a verdade é que isto é uma exceção, mas não é a única. Portanto, primeiro, as pessoas decidiram pronunciar assim por si próprias. A pronúncia, embora a escrita tenha algum impacto na pronúncia, quando vivemos numa época como a atual, onde praticamente toda a gente escreve. Durante quase toda a história da língua, até há muito poucas décadas, a grande maioria dos falantes não escrevia nem lia e a pronúncia era um fenômeno puramente de pronúncia, não de escrita. A escrita representava e representa essa pronúncia. Hoje, como quase todas as pessoas escrevem e leem, às vezes há alguma influência da escrita.

E tomamos mais consciência destas coisas, como fala aqui o João.

Consciência. Mas aqui há uma exceção que não é só em "trânsito", é em todos, ou em quase todas, não quero dizer todas, porque pode haver também exceção à exceção, as palavras que têm o elemento de formação trans, que vem do latim, como Transalpino, transeunte, transação.

Gosto muito da palavra transeunte.

Pela regra, deveria ser "tranciunte", "transalpino", "transação". Mas não é, nós sabemos que não é. Não é nenhum erro, é mesmo uma questão de algumas exceções à regra geral. E a língua está cheia delas. Se fôssemos tirar todas as exceções, ficávamos com o esperanto, a falar esperanto. Mesmo na ortografia. A ortografia é mais regular do que a oralidade, mas mesmo na ortografia e nesta relação entre ortografia e pronúncia, há algumas exceções, e esta é um dos casos. Portanto, neste caso, uma pessoa que aprenda português, um estrangeiro que aprenda português tem de saber que a pronúncia é diferente daquilo que esperaria, tendo em conta a ortografia e tendo em conta as regras que aprende. Mas é muito bem observado. Há outros casos, nós já falamos de muito.

Muito, eu lembro. Não foi há assim tanto tempo.

Não, foi há pouco tempo. Ou seja, há casos em que aquilo que está escrito não parece corresponder àquilo que nós dizemos.

Exatamente. João Miranda, muito obrigado pela dúvida.

Posso só acrescentar. Estes elementos de formação, que nós podemos isolar, por vezes têm algumas pronúncias particulares, como o Luso, lusodescendente, por exemplo. "Luso", nós dizemos o O aberto, que não seria o mais habitual, tendo em conta a forma como a nossa língua funciona.

E às vezes implicamos quando abrimos o O em palavras em que supostamente não é necessário abrir.

Mas aqui o lusodescendente, todos os falantes dirão lusodescendente. E isto também levou a que depois nós também interpretássemos o nome da moeda como um elemento deste tipo, então dizemos "Euro", quando também pelas regras normais da nossa língua, seria "Euro". Mas eu acho que não há ninguém que eu conheça que diga Euro.

Por acaso, acho que já ouvi. Pessoas mais velhas. Um euro.

Vamos à próxima dúvida.

Vamos.

Eu não registei o nome das pessoas porque tive aqui um problema técnico.

Eu salvo. Vamos falar do opa, não é?

Sim, exatamente.

É o Rui Bento Costa, que enviou esta dúvida e que no fundo pergunta a origem do opa.

Sim, eu peço desculpa, foi mesmo aqui um problema técnico de descarregamento de imagens com as dúvidas.

As novas tecnologias pregam sempre partidas.

Nós já falámos disto, salvo erro, há muito tempo. Opa, tanto quanto se sabe, e isto parece ser consensual entre quem estuda a etimologia das palavras, vem mesmo de ó, rapaz. Rapaz, pá é rapaz, é a redução de rapaz, tanto que ainda há regiões do país, como, salvo erro, a Madeira, onde se ouve opa.

Sim, ainda se usa.

Exato.

Eu estive na Madeira este ano e ouvi essa expressão vezes sem conta.

Ou seja, no fundo, temos regiões que ainda não percorreram todo o percurso de desbaste da palavra e ainda estão com o opa.

Mas já é uma marca típica da Madeira. Portanto, acho que vai ficar sempre assim.

Portanto, tínhamos rapaz, ó rapaz, e depois tornou-se uma interjeição. Esta interjeição aparece agora no novo livro do Asterix.

Verdade.

De tal maneira que eu penso que quase todos os balões.

Aliás, o Rui Bento Costa diz mesmo isso, que é objeto de caricatura por muitos estrangeiros e nem o novo livro de banda desenhada do Asterix na Lusitânia escapou a essa referência.

Exatamente. É o estereótipo do português. Por exemplo, os brasileiros também têm esta ideia que nós dizemos muitas vezes pá, e nós dizemos muitas vezes, mas não tantas quanto a personagem Asterix, mas isso faz parte das caricaturas. As caricaturas exageram a realidade. Muito bem.

E esta é uma interjeição, vamos dizer assim.

Pode ser uma interjeição ou pode ser um vocativo. Ou seja, quando eu estou a chamar alguém: "Ó pá, vem cá", isto é um vocativo. Mas se eu estou simplesmente a dizer: "Pá, estou mesmo chateado, ó pá", isto é uma interjeição.

Mas este ó pá é associado sempre a algo mais depreciativo, não é?

Talvez.

Se calhar pelo tom, também.

No Asterix, não. No Asterix, eu penso que aquilo ali está como interjeição na maior parte dos casos.

Mas nós falantes.

Sim, usar como vocativo é muito agressivo, a não ser que seja mesmo entre amigos. Como quase tudo. Um palavrão entre amigos pode ser carinhoso.

Sim, depende da perspectiva.

E depende do amigo, claro.

Claro.

Meus santos amigos. Mas pronto. Vamos avançar.

Vamos então avançar. Temos mais dúvidas ou ficamos por aqui?

Não, eu não sei quanto tempo é que temos.

Temos três minutos.

Três minutos dá. Há uma outra dúvida sobre a língua portuguesa. Também não tenho o nome da pessoa que fez esta dúvida.

Diz lá, quem é que foi?

Sobre se é português de Portugal.

Eu ajudo-te. Eu estou aqui pra te salvar.

Então diz-me quem é que foi a pessoa.

Foi o Manuel Dias.

Manuel Dias pergunta-

Enviou um e-mail.

Pronto, ele pergunta se dizemos português, português de Portugal, língua portuguesa. O nome da língua é português. Língua portuguesa é o nome.

Isto se calhar por quê? Porque nós muitas vezes dizemos português do Brasil.

Ou português do Brasil ou português de Portugal. Eu vou tentar explicar isto rapidamente. Nós já falámos disto anteriormente. Nós podemos falar do português como língua e incluir todos os falantes de português e até ver, os brasileiros falam português, é isso que está na escola. Por exemplo, eles têm livros de português. Na Constituição do Brasil, a língua oficial é o português. É assim. Os brasileiros podem decidir um dia mudar o nome à língua e oficialmente seriam duas, embora isso também linguisticamente não fosse assim tão relevante quanto isso. Mas para já, a língua é o português, falado em vários países. Depois, nós podemos querer falar das características da língua em determinado sítio. E aí podemos ser mais ou menos particulares. Eu posso falar do português de Portugal, mas também do português do norte de Portugal, do português do Brasil, do português do sul do Brasil, do português do Rio de Janeiro, do português da Rua 56 de São Paulo, se é que há alguma rua com esse nome, do português dos Açores, do português de Luanda, de Angola, de Moçambique, do sul de Moçambique. Portanto, eu posso querer falar das características do português de algum sítio em particular. Além disso, há depois dois termos que irritam muito as pessoas, por algum motivo, que são dois termos técnicos criados no âmbito da linguística, que nós podemos não concordar com eles, mas são os termos que são usados pelos linguistas portugueses, brasileiros, angolanos e por aí fora, que são os dois termos que designam os dois padrões que a língua tem, porque além do uso, há dois padrões. Ou seja, dois padrões no sentido em que há duas gramáticas ligeiramente diferentes que são ensinadas na escola. Temos o português europeu, que é ensinado cá em Portugal, em Angola e Moçambique. Eu sei que é estranho pensar que o português europeu é ensinado em países africanos, mas é o termo técnico. Em Timor também é assim, em Macau também é assim. E depois temos o português brasileiro, que é usado no Brasil, que é o padrão do português no Brasil. Portanto, são dois padrões e o termo é português europeu, português brasileiro, e depois nós podemos usar os outros termos mais imprecisos, português de Portugal, português do norte, português do Brasil, e não brasileiro, português do Brasil, português do sul do Brasil, pra falar do uso da língua em cada um destes territórios. Pronto, espero que tenha ficado claro.

Três dúvidas esclarecidas em 10 minutos. És uma máquina, Marcos.

Quantos segundos faltam?

30.

Então pronto, até domingo.

Diz lá o número de telefone.

Português Suave.

Não, o número de telefone.

Não, portuguesesuave@sbt.pt, 910024185. Eu não decorei.

Dúvidas para o nosso WhatsApp e também para o nosso e-mail. Ficamos à espera disso mesmo. Marcos, estamos de regresso no domingo. Um abraço. Até lá.