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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave", edição de domingo. Eu sou o João Costa e Silva, estou com o ninja da língua portuguesa, Marco Neves.

Já me ias chamar.

Já não sou o único.

Não, parece que não. Recebemos aqui umas informações curiosas.

De quem? Quem é que partilhou contigo?

Ana Maria Cardoso enviou-me uma imagem de uma pesquisa que ela tinha feito.

Uma captura de ecrã.

Sim, nós na semana passada falámos da Google por causa das pesquisas de 2025 e, pelos vistos, o Google, o motor de busca, em conjunto com o Gemini.

Ou Gemini, nem sei.

Não sei. Temos de perguntar como é que ele quer ser chamado. Se nós pesquisarmos, não sei, queres dizer o que acontece?

Se colocarmos na barra de pesquisa do Google "ninja da língua portuguesa", aparece o seguinte: "Ninja da língua portuguesa pode referir-se a pessoas que dominam a língua com maestria, como o cantor Norai, Manuel Almeida, conhecido pelas suas imitações vocais, ou a Marco Franco Neves, 'Português Suave', que discute a língua na rádio. Também pode ser o nome de projetos educativos, como o jogo Ninja do Português", mas nós focamo-nos aqui em ti, Marco, ninja da língua portuguesa, já reconhecido pelo Google.

O que é engraçado é que eu pesquiso a mesma coisa e sai um texto um pouco diferente. É sempre assim, aparece só o meu nome, mas diz "o jornalista Marco Franco Neves". Eu gostava de informar o Google e espero que isto lá apareça.

Sim, eles ouvem-nos.

Eles ouvem-nos, porque nós nunca escrevemos isto. Nós simplesmente dissemos.

Nós só dizemos.

Por isso, eu gostava só de dizer ao Google, informar que, se faz favor, eu não sou jornalista, tenho muito respeito pelos jornalistas e não quero armar-me ao que não sou. E por isso fica aqui dito e muito obrigado, Ana Maria Cardoso. Eu praticamente morri quando recebi aquilo.

Eu também. Tu partilhaste comigo durante a semana e eu fiquei muito contente.

Qualquer dia, quando tiver de fazer cartões de visita, já sei o que vou pôr.

Já tens disfarce pro Carnaval.

Disfarce pro Carnaval ou pro fim de ano.

O que é que temos esta semana, Marco?

Esta semana temos a origem da palavra ninja. Não, estou a brincar, não vamos falar de ninja. Vamos falar do Pai Natal, vamos falar das línguas do Natal, vamos falar de mitos, não do Natal, mas da língua portuguesa.

Então vamos a isto. Começamos, como é habitual, com a língua nas notícias.

Nas notícias tivemos muita coisa, mas eu decidi não falar nada disso. Não falamos de greves, não falamos de nada.

Irreverente, sempre.

Vamos falar do Pai Natal. E depois das línguas do Pai Natal. O Pai Natal é uma figura curiosa. Há pessoas que acreditam que vem da Coca-Cola.

Há muito essa história. Porque o Pai Natal, se calhar pelos spots publicitários nesta altura de Natal, associou-se sempre muito à imagem da Coca-Cola.

E a Coca-Cola teve algum papel na transmissão de uma imagem particular do Pai Natal, mas não foi criada pela Coca-Cola. Isso é preciso dizer. O Pai Natal é uma figura que junta, para começar, o São Nicolau, que é uma figura muito antiga. Aliás, é uma figura muito importante em Guimarães, com as festas Nicolinas, não sei se alguma vez ouviste falar.

Sim, já ouvi falar.

São festas no início de dezembro. Eu não queria estar a dizer o nome, o dia errado, mas penso que será o dia de São Nicolau, que salvo erro, é dia 6 de dezembro, exatamente. Fizemos aqui só pra confirmar. Não sou jornalista, mas quero ser rigoroso nestas coisas. Dia 6 de dezembro é o dia de São Nicolau e era, aliás, nesse dia, primeiro as festas em Guimarães, mas esse dia era um dia em vários países onde se davam prendas. Tradicionalmente, era o dia em que se davam prendas. Também no dia de Reis, depois no dia 6 de janeiro. O dia 6 de janeiro é um dia em que ainda em Espanha, por exemplo, se dá as prendas. No fundo, as festas, quando nós dizemos boas festas, vem daqui, de vento, do início de dezembro até ao início de janeiro. E o São Nicolau era uma figura muito importante nestas festas e já é há muitos séculos. Tanto que São Nicolau deu depois, através de uma certa transformação que passou pelo neerlandês, deu Santa Claus, o Claus, São Nicolau. Há uma outra figura mais antiga, não religiosa, religiosa no sentido católico, embora seja religiosa no sentido mais pagão, do Father Christmas, em Inglaterra.

Também se usa.

E esta figura, curiosamente, deu-nos a nós o nome, deu-nos ao português o nome, mas não é a figura principal. A figura principal é mesmo o São Nicolau, que aparecia vestido de uns robes de cores, podia ser verde, podia ser vermelho.

Ou seja, podia ser mais cores que não o vermelho.

Não o vermelho. Depois começou a estabilizar no vermelho e aí penso que a Coca-Cola ajudou a estabilizá-lo no vermelho, mas não apareceu ali. Ou seja, mesmo aquela figura gorducha e com aquela parte branca à volta, tudo isso já existia antes. Talvez a Coca-Cola, é bem possível e muito provável que tenha ajudado muito a que hoje associemos só o vermelho e só àquela figura, mas ela já existia. Há uma figura curiosa, há uma imagem curiosa do nosso rei Dom Fernando II, a figura é a preto e branco, não sabemos que cor é que ele estava a usar, mas em que ele está vestido de algo parecido com o Pai Natal, a oferecer prendas aos seus filhos, com uma árvore de Natal, isto no século XIX. Dom Fernando II era um rei de origem alemã, era casado com a nossa rainha, por isso é que era rei. Não era um rei por ser filho de rei, mas sim por ser casado com a rainha. E é provavelmente a partir daí que nós começamos cá em Portugal ter também o Pai Natal a oferecer prendas e depois acabou por ser a tradição é oferecer prendas às crianças na noite de Natal. O Natal já existia antes, claro, mas estas tradições todas associadas ao Natal são mais recentes do que nós pensamos, mas também não são assim tão recentes que venham da Coca-Cola.

Em Espanha continua a ser no dia 6, no dia de Reis.

No fundo, se nós olharmos para os reis espanhóis que aparecem, também têm uma figura muito parecida com o Pai Natal. As figuras foram ganhando aspectos parecidos, mas digamos que Espanha cristalizou a tradição ali no dia 6 de janeiro, nós cristalizamos no dia 25 de dezembro, embora tradicionalmente as prendas até fossem do São Nicolau, do dia 6 de dezembro. Acho que temos tempo ainda pra falar de que língua é que o Pai Natal falaria se existisse mesmo. Já agora, o São Nicolau é da Anatólia, da atual Turquia, não é da Finlândia.

Pois. Mas há muito essa tendência de associar a países nórdicos.

Sim, à Finlândia, o Pai Natal vem lá do cima, vem do Polo Norte. Nos Estados Unidos diz-se que vem do Polo Norte, cá nós dizemos que vem do norte da Finlândia, e lá nessa zona Fala-se que língua? Finlandês. Há uma outra língua na Finlândia muito famosa que é o sueco. Não sei se te lembras que chegámos a falar-

Falámos, sim.

Da Eurovisão deste ano.

Não foi há muito tempo.

Não, foi na Eurovisão, foi em Maio. O grupo que representou a Suécia é um grupo finlandês.

Sim, exacto.

Mas da zona que fala o sueco. Mas no norte da Finlândia fala-se o Sami, que nós poderíamos chamar lapão. Portanto, o Pai Natal se calhar fala lapão. E é só isso. Só isso não, ainda temos muito para falar hoje.

É verdade. A língua das notícias fica por aqui. Agora temos um mapa para percorrer, o mapa da língua.

O mapa da língua. Onde é que nós vamos hoje? É um mapa temporal, digamos assim. Vamos falar das línguas do Natal.

Ok. São muitas?

Sim. O Natal, as tradições natalícias existem, pelo menos na nossa zona, por causa do nascimento de Jesus Cristo. Nós sabemos que havia tradições anteriores que foram repescadas ou foram aproveitadas para pôr o Natal nesta altura. A Igreja Católica não tem a certeza que Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, isto foi uma convenção pôr nesta data. Mas seja como for, o primeiro relato do nascimento de Jesus está no Evangelho. Os primeiros relatos, aliás, não é só um. E estes foram escritos em grego. Nós esquecemos às vezes que a língua em que foi descrito o nascimento de Jesus foi o grego. Agora, se nós perguntássemos que língua Maria e José estariam a falar, não era grego, seria aramaico.

Aramaico.

A língua que os judeus da época falavam. O aramaico foi uma língua muito importante durante muito tempo, que ainda hoje se fala em certos pontos do Iraque e da Síria, mas muito alterado. Tal como o latim já não se fala, foi alterado e hoje estamos a falar o latim mudado. O aramaico ainda hoje se fala, mas nessa época e naquela zona, seria uma língua muito diferente daquela que é hoje. Há um outro relato do nascimento de Jesus, que as pessoas esquecem muitas vezes, que está no Alcorão. O Alcorão em árabe descreve o nascimento de Jesus, que para os muçulmanos é um profeta muito importante. Foi o último grande profeta antes de Maomé e por isso está lá o nascimento com elementos que nós reconhecemos bastante bem. O anjo Gabriel, Maria, o nascimento virgem, de acordo com esta tradição. Temos também ali em árabe o relato do nascimento de Jesus. Voltando ao Novo Testamento, o Novo Testamento foi traduzido para latim e provavelmente muitas pessoas ainda se lembram de ouvir a missa em latim, que foi durante séculos a língua da igreja. Ainda é, mas já podemos ouvir noutras línguas. E depois foi traduzido para muitas línguas do mundo. Calcula-se que são milhares as traduções.

É impossível quantificar.

O Novo Testamento talvez seja o texto mais traduzido, e por isso existem relatos do nascimento de Jesus em muitos milhares de línguas. É mesmo um acontecimento multilinguístico.

Pelo mundo, vamos dizer assim. As línguas do Natal pelo mundo.

Estamos a falar do mapa. Este relato está pelo mundo fora e está traduzido para muitas línguas. E é isso. Vamos agora às mitos e às dúvidas.

Vamos a isso.

Como é um episódio de Natal, no fundo-

Jingle bell, jingle bell.

É uma árvore.

Tu nunca cantas, Marco, deixas-me sempre sozinho.

Não, eu não canto.

Também não quer dizer que eu cante bem.

Eu diria que o número de ouvintes iria baixar.

E as pessoas a trocar a frequência no carro.

Iriam anular a subscrição, iriam deixar de assinar, se me ouvissem cantar. Se houver aí uma vaga de fundo para que eu cante, tudo bem, pode ser que-

Digam, por favor, deixem comentários no Spotify e por e-mail.

Eu tenho trauma. Na escola primária, precisamente no Natal, aqueles coros de Natal da escola primária, na minha escola do primeiro ciclo, hoje já o primeiro ciclo, mas eu fui dos últimos alunos a ter ainda.

Eu tenho um segredo para ti. Podes contar a história, eu já te digo.

É? Então estou a ficar curioso.

Não, mas conta.

Havia um professor daquela escola que estava a organizar um coro de Natal e convidou todos os alunos e pôs-nos todos à frente: "Cantem agora esta música." Cantámos, ele parou e apontou para mim: "Sai." E eu: "Eu saio?" "Sim, fica a ouvir e pode ser que consigas voltar, mas não dá." E eu fiquei muito assustado, fiquei a ouvir e a certa altura: "Olha, acho que já está." E pus-me outra vez no meio do coro e comecei a cantar e ele: "Não, sai, esquece, não dá mesmo."

Que mau!

E eu fiquei traumatizado para o resto da vida.

Sabes que eu tenho um truque para isso.

Qual?

Não se adequa tanto ao Natal, nem às canções de Natal, mas quando cantamos os parabéns, quer seja a amigos, quer seja a conhecidos, pais.

Tu mexes a boca e não cantas?

Eu faço playback. Eu nunca canto. Nunca. Portanto, nunca me podem acusar de cantar mal.

Na minha família, eu e o meu irmão-

É esse o segredo

...um dos meus irmãos, principalmente ele, e eu depois também copiei, decidiram abraçar o caos e ele canta propositadamente muito mal todos os parabéns. E de repente a minha família toda faz isso quase por tradição. Não é que alguém cante bem os parabéns, acho que ninguém canta bem.

Só os cantores profissionais.

Mas nós estamos todos a tentar cantar ainda pior.

Olha, é o meu truque, se alguém quiser adotar, o problema é se todas as pessoas no próximo aniversário-

Não, aí é tudo a abrir a boca e não sai nada.

Por acaso era giro se um dia acontecesse. Um parabéns silencioso.

Não sei se já viste aquele vídeo do Bob Dylan a cantar num daqueles vídeos para ajudar a Etiópia, salvo erro, em 1985.

Não me estou a recordar.

Mas há um vídeo em que se vê claramente que ele não está a cantar. Estão todos a cantar à volta e ele está só a olhar com aquele ar de "o que é que eu estou aqui a fazer?"

Era eu. Sou eu agora.

Tu pelo menos mexes os lábios.

Ah, sim. Isso sim. Eu faço um bom playback.

Acabaste de revelar o teu segredo.

É verdade Mas não acho que seja assim tão grave.

Tenho a impressão que os teus amigos vão todos fazer uma festinha.

O meu sonho um dia é cantarmos os parabéns e ninguém cantar, fazermos só o playback e ficar uma coisa extraordinária.

Os parabéns também não são das músicas mais efémeras, não é só nós que fazemos. Mas enfim. Eu tinha mitos, não sei se temos tempo ainda para os mitos.

Sim, temos. Vamos a isso. Desculpa.

Não vamos falar do Natal, mas vamos falar de um dos mitos mais arraigados da língua portuguesa, que é a ideia de que a palavra "arigatou" vem do obrigado. E não vem.

Não vem.

Diz o ninja.

Se o ninja diz, é porque é verdade.

Não, é porque arigatou já era usado antes dos portugueses lá chegarem para dizer obrigado. Mas há outras palavras japonesas que vêm do-

Tu esclareces isso no teu livro, que é uma ótima prenda de Natal. Diz lá.

Não queria dizer isso.

Diz lá.

Não, porque eu estou aqui com o livro para me ajudar, que é o "Queria, já não quero: mitos e disparates da língua portuguesa". Um livro que já não é deste ano, mas continua a ser uma boa prenda, porque o Natal é quando-

O homem quiser.

O homem quiser.

E a mulher, toda a gente.

Exactamente. Podem oferecer o livro, o livro tem umas histórias engraçadas. E diz que se o arigatou não vem do obrigado, há outras palavras japonesas que vêm do português, como "biīdoro". Sabes o que é isto? Consegues adivinhar?

Não.

É difícil. Os japoneses dão cabo da língua portuguesa.

Pois, o que é?

Vidro. Biīdoro. Garasu.

Rapaz?

Não vem do português. Esta é outra palavra para vidro que vem do holandês, agora enganei-te, glas. Não, mas há mais.

Vamos a ver.

Por exemplo, furasuko. Vem de frasco.

Pois é difícil. É que algumas parecem parecidas.

Esta tu sabes. Botan.

Botão.

Certo.

Ok.

Pan.

Pão?

Certo.

Boa.

Eigirisu. Esta é mais difícil.

Enguiça.

Não, quer dizer inglês. A palavra inglês, para inglês em japonês.

Algumas são parecidas, mas outras não têm nada a ver.

É, porque o sistema fonético do japonês é muito diferente do nosso e por isso nós também quando trazemos alguma palavra do japonês também não deve ter nada a ver com o que os japoneses dizem. Mas só para dizer que de facto arigatou não vem do português, por mais que as pessoas gostem de acreditar nesse mito. Mas há outras palavras que vêm. Foi só aqui um pequeno mito de Natal.

Sim. Arigatou.

Porque é que eu me lembrei do japonês? Porque eu estava a tentar ter ideias para publicar aqueles vídeos que às vezes publico. E acabei por republicar um vídeo que eu fiz o ano passado, está uns dois ou três dias, que falava de uma tradição japonesa. E há uma tradição japonesa de Natal, que é, não sei se posso fazer, não é publicidade, ir ao KFC.

Sim, podes.

Particularmente ao KFC. É muito estranho. Imagina.

Eles têm essa paixão muito pelo-

Pelos marcas ocidentais, marcas americanas. Mas imagina nós-

E o KFC é uma delas

...mas nós estamos todos à mesa a comer bacalhau na consoada e os japoneses vão ao KFC. Mas pronto, é uma tradição curiosa. É assim. Agora, a palavra consoada também merece um episódio, mas fica para o próximo.

Sim, nós vamos já revelar. Vamos ter aqui um episódio especial que vai ser no dia 24 e em que vamos juntar aqui reforços a esta equipa do Português Suave. Depois adiantamos nos próximos episódios quem é que se vai juntar a nós. Marco Neves, nós ficamos por aqui. Quarta-feira há episódio dúvidas. Qual é o e-mail? Isso sabes.

portuguessuave@oobservador.pt e o telefone começa por nove.

Adorava que tu agora me surpreendesses e dissesses assim 91 002 41 85.

Eu não sei cantar, nem sei decorar este número de telefone.

É o nosso número do WhatsApp para onde pode enviar as suas dúvidas. Nós voltamos na quarta-feira. Até lá, Marco.

Até lá.