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É domingo e, por isso, é dia de Português Suave. Está com a Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva. Marco Neves, ninja da língua portuguesa, também está pronto e à distância, o que lhe confere ainda mais poderes.

Sim, estou à distância e posso dizer já que estou num país em que a língua portuguesa é muito importante. Estou no Luxemburgo. Mas já falamos um pouco mais sobre Luxemburgo daqui a pouco. Eu tenho aqui muito pra dizer. Não tenha assim tanto, para as pessoas não se assustem, mas tenho aqui algumas coisas pra dizer sobre a língua portuguesa no Luxemburgo.

Diz.

Estava só dizendo: nós normalmente temos a língua nas notícias e falamos sobre alguns termos das notícias da semana, mas esta semana as notícias não foram nada boas. Acabei por ter de acompanhar essas notícias aqui à distância, no Luxemburgo, e por isso nem sequer vou me atrever a falar de palavras ou da origem das palavras. Vou só, primeiro, enviar força a quem ainda está a passar por tudo aquilo que aconteceu no centro do país. Eu não sou de Leiria, em particular, mas sou do distrito de Leiria, Peniche. Peniche foi poupado à tempestade. Quer dizer, a tempestade passou, mas não com tanta intensidade como um pouco mais ao norte, mas todo o centro do país está numa situação que nos preocupa a todos. Por isso, eu queria deixar aqui uma palavra de apoio e dizer às pessoas que tentem ajudar naquilo que for possível.

Sim, acho que é muito importante agora também podermos ajudar. É, de facto, uma situação muito difícil e só agora nestes últimos dias é que temos tomado real proporção, se calhar, dos estragos e das imagens que nos têm chegado, que são aterradoras. E, de facto, o distrito de Leiria foi o mais afetado e, portanto, cabe a nós aqui também, enquanto pessoas com visibilidade em rádio e nas nossas redes sociais, ajudar agora também a reconstruir, porque não é tarefa fácil e há vidas de famílias que estão paralisadas um bocadinho, porque há casas completamente destruídas, há empresas que não sabem quando é que vão voltar a trabalhar e têm muitos trabalhadores dependentes dessas mesmas empresas. Portanto, é uma situação muito complicada. Mandamos aqui um abraço apertado, não é, Marco?

Sim, é isso mesmo. Obrigado, João.

E vamos avançar, agora sim, e vamos, já que ultrapassamos a língua das notícias, vamos ao Mapa da Língua.

Bem, João, como eu te disse, estou aqui num outro país, um país pequenino.

É verdade. Mas com muitas línguas. Fala-se muitas línguas diferentes.

Exatamente. Eu, quando vim agora pra cá na quarta-feira, aliás, estavas a dizer ainda há pouco que as pessoas não tinham ainda bem noção. Eu, quando vim pra cá, já a tempestade tinha passado pelo país e eu não percebi, sequer, o que estava a acontecer, porque nós não tínhamos noção. Quando cheguei cá, depois é que comecei a ver as notícias. Mas pronto, cheguei cá e comecei a ouvir as notícias e falar do que aconteceu em português, o que é interessante, porque o Luxemburgo tem português em vários pontos da cidade. Eu não saí muito aqui da capital, da cidade do Luxemburgo. Eu já sabia que era um país com várias línguas, em que o português era muito importante, mas devo dizer que não estava à espera de ouvir tanto português. Começando do início, a língua mais falada no Luxemburgo é o luxemburguês, que é uma variedade germânica que já existe há muitos séculos. Há informações que nos permitem concluir que pelo menos desde o século XII que já existem variedades germânicas com características parecidas com a do luxemburguês, não só aqui, mas também na zona à volta do Luxemburgo, nos outros países aqui à volta. Portanto, esta variedade é muito antiga, mas não era considerada uma língua padrão, não tinha dicionários, não tinha gramáticas escritas. Tinha uma gramática, porque todas as línguas têm gramática, mesmo as que não são escritas. E só em 1984 é que esta língua foi declarada língua oficial do país, apesar de ser há muito tempo a língua mais falada. É a língua oficial do país, mas, por exemplo, não é uma das línguas oficiais da União Europeia. Eu vim cá ao Luxemburgo pra participar numa conferência organizada pelo Parlamento Europeu para comemorar a entrada do português e do espanhol no grupo de línguas oficiais da União Europeia. E a verdade é que a entrada do português, por exemplo, na União Europeia foi muito importante por vários motivos, por exemplo, pra criação também de materiais pra nossa língua. Os serviços de tradução da União Europeia, tanto da Comissão do Parlamento e das outras instituições, criaram não sei quantos materiais que são muito usados por tradutores, por vários profissionais da língua, mesmo fora da União Europeia, mesmo fora das instituições, é isso que eu queria dizer. O luxemburguês é a língua de um país que já está na União Europeia há mais tempo do que Portugal, desde o início, e, no entanto, a língua não é oficial na União Europeia, porque o Luxemburgo só optou por tornar a sua própria língua oficial no seu próprio país em 1984.

Bem recente.

Sim, é recente e já percebi que há alguma tensão, alguns políticos luxemburgueses que não gostam desta situação, desta situação de terem uma língua que não é a língua oficial da União Europeia. Percebi um eurodeputado luxemburguês que há uns anos tentou falar o luxemburguês no Parlamento Europeu e foi calado, não pode continuar. Portanto, é uma situação particular. De qualquer forma, além do luxemburguês, o francês é importantíssimo, é a língua que mais se vê aqui escrita à volta Nos hotéis, no aeroporto, nas ruas. O alemão também é muito importante, embora menos do que eu estava à espera. Ouvi muito pouco alemão. E depois temos aquela que é, na verdade, a língua mais falada no Luxemburgo, a seguir ao luxemburguês, mais ainda do que o francês, que é a língua muito visível, que é o português. O português é falado por uma quantidade enorme de pessoas aqui no Luxemburgo, claro, pela imigração, ou seja, os portugueses que vieram para o Luxemburgo. Mas a presença do português no Luxemburgo também me surpreendeu, apesar de eu já saber isto em teoria. Eu ouvi mesmo muito e em muitas gerações. Percebi, e muitas pessoas disseram-me isto, que o português é mantido pela segunda geração de imigrantes com mais força do que noutros países, por exemplo, em França. Ou seja, filhos e netos de portugueses no Luxemburgo mantêm o português com muito mais força, pelo que me disseram. Portanto, aqui estou a repetir o que me disseram. E a verdade é que estávamos a andar pela rua, eu e a Zélia, a Zélia também veio comigo, e ouvíamos muito português à volta de adolescentes, de adultos, de crianças, e isso foi muito interessante. Acabei por conhecer também a coordenação do ensino do português aqui no Luxemburgo, porque o português não é só uma língua em casa, também existe na escola. Temos miúdos a aprender português durante a escola do primeiro ciclo. Depois, temos também algo que eu não fazia a mínima ideia que existia, que é projetos nalgumas escolas em que algumas das outras disciplinas, que não são a disciplina da língua, também são dadas em português. E isso pra mim foi uma surpresa, ver essas escolas aqui no Luxemburgo. E ainda um projeto muito interessante da coordenação do ensino de português aqui no Luxemburgo, ligado ao Instituto Camões e à Embaixada de Portugal aqui. Um projeto que tenta ensinar a professores luxemburgueses interessados, português, para que eles possam conhecer também a língua dos seus alunos. E há algumas dezenas de professores aqui no Luxemburgo que não são portugueses, não têm nenhuma ligação a Portugal, que estão a aprender português só para poder conhecer um pouco melhor a língua de alguns dos seus alunos. Isto foi uma surpresa para mim.

O português a percorrer o mundo, mas já sabíamos que aqui no Luxemburgo tinha uma preponderância, vamos dizer assim, elevada e se calhar também por aquilo que aconteceu esta semana. Acabaste por ouvir mais portugueses do que aqueles que se calhar contavas, porque as notícias também corriam depressa.

Exato, as notícias correm depressa sempre. E é verdade. Falei muito português e falei muito português também sobre temas que não eram assim tão agradáveis. Antes de avançar para os mitos e dúvidas, deixa-me só dizer que há depois uma espécie de território multilingue aqui na zona das instituições europeias, onde ouvimos todas as línguas e mais algumas da Europa. Estive a conversar com funcionários, tradutores, encontrei os tradutores. Eu me sinto muito em casa quando estou a falar com tradutores. A minha primeira profissão foi tradutor e continuo a considerar-me um tradutor. Conheci a equipa de tradutores de português que trabalham para o Parlamento Europeu. Foram muito simpáticos, estivemos a conversar durante bastante tempo. Encontrei, aliás, uma amiga da minha terra que trabalha cá. E depois acabámos por conversar naquela situação muito curiosa entre espanhóis e portugueses, em que misturamos as línguas e depois, de repente, chega um italiano e já estamos a falar inglês, e depois falam os portunhol e os espanhóis tentam perceber-nos, mas não conseguem assim tão bem e estão sempre a perguntar: "Por que razão é que vocês nos compreendem tão bem e nós não?" Mas isso fica para outro dia.

Fica para outro episódio. Vamos avançar e vamos para os mitos e dúvidas.

Bem, João, hoje queria só recuperar um mito que nós já falámos dele aqui várias vezes, aliás, mas eu penso que era interessante voltar, ou melhor, não é uma questão de ser interessante, é uma questão de necessidade, porque eu tenho ouvido esta-

Recebeste muitas mensagens.

Recebi muitas mensagens porque há uns dias, já faz uns dias, uns quantos dias, estávamos ainda agora a falar dos espanhóis e dos portugueses, e eu falei de um vídeo nas redes sociais, de um facto linguístico que eu achei muito curioso quando eu percebi, ao ir a Badajoz falar com alunos de português em Badajoz, porque também existem, não é só no Luxemburgo, também em Badajoz. Percebi que estavam a pedir bicas, ou seja, um espanhol chega a um café em Badajoz e pede a outro espanhol uma bica e não um café. Às vezes, não estou a dizer que isto é sempre, mas acontece isto às vezes. E isto foram alunos e professores de português que me disseram. E depois eu falei disto e tive a confirmação, vários espanhóis a dizer que de facto é assim em Badajoz, em Cáceres também. Recebi também mensagens a dizer que até mais para sul, para a Andaluzia, em Ayamonte, até em Huelva, pelos vistos, há pessoas que pedem bicas, o que é muito curioso, porque é uma palavra tipicamente portuguesa e não de Portugal inteiro. Nós sabemos que a bica é muito mais para sul, várias regiões do sul.

Há essa tendência, pelo menos.

Sim, também da Madeira. Também recebimos. As pessoas não fazem ideia se pedem bicas ou não, ou se já se perdeu, ou se alguma vez se pediram. Eu quando falo aqui da bica, claro que estou a falar da bica enquanto café. Não estou a falar da bica da fonte, que também existe. A bica enquanto café é usada em várias regiões do país, parece estar em decréscimo de uso, em decadência, mas em Badajoz, em Espanha, em vários sítios aqui da zona perto da fronteira, está a ser muito usada e, pelos vistos, cada vez mais usada. Isto é engraçado, mas o mito não é este. A origem, porque várias pessoas me disseram: "Então e sabe qual é a origem? É de 'beba isto com açúcar'." Eu: "Não, isso é um mito". É uma história engraçada.

Mas as pessoas acreditam muito nisto, não é?

Acreditam. É muito fácil acreditar em certas histórias que são interessantes por si próprias. Porque nós pensamos: "Alguém no café escreveu 'beba isto com açúcar' e de repente começamos todos a pedir bica". Mas por mais interessante que seja, é falso por vários motivos. Primeiro, porque é muito raro, embora isto não seja um argumento definitivo, mas é muito raro que de um acrônimo nós passemos para uma palavra usada no dia a dia. Acontece, por exemplo, a palavra OVNI vem de um acrônimo, mas não é assim tão comum. Depois, é muito difícil imaginar que alguém queira escrever um cartaz num café que diga: "Beba isto com açúcar" para tentar que as pessoas bebam café com açúcar. Naturalmente, nós escreveríamos: "Beba café com açúcar". Portanto, vê-se mesmo que foi uma expressão que foi inventada depois da palavra para se encaixar na palavra e não houve sorte. E depois, porque eu acabei por receber há uns dois anos, depois de falar disto pela primeira vez, uma mensagem de João Galvão Teles, que pertence à família que começou por ter a Brasileira durante muitos anos e que contava que na sua família sabe-se que a origem foi um pedido de um cliente em particular, que pediu ao avô do João Galvão Teles para lhe tirar o café diretamente da bica, ou seja, da máquina, e foi daí que veio a expressão bica. E curiosamente, uns meses depois recebi uma mensagem de um comentário de alguém que dizia: "Olha, eu posso dizer que o meu trisavô contava muitas vezes que era ele o cliente do café que pediu ao Adriano Galvão Teles para tirar o café da bica pela primeira vez". Não sei se isto terá mesmo sido assim ou não.

Mas fica para a história, para contar.

Exatamente. E é muito mais fácil de imaginar que a bica venha desta conversa entre pessoas no café do que num cartaz onde umas letras ficariam destacadas e as pessoas de repente começavam a pedir: "Olha, passe-me aí um beba isto com açúcar, passe-me aí uma bica". Não faz muito sentido. Mas pronto, foi uma viagem aqui entre Badajoz e Lisboa.

E a tendência agora até é beber mais sem açúcar. A quantidade de pessoas que, por exemplo, às vezes vêm aqui à rádio convidados e que eu recebo, às vezes, até mesmo tu, Marcos, não sei se tomas café, nem com açúcar ou não, mas as pessoas tomam cada vez mais sem açúcar.

Eu, por exemplo, bebo sem açúcar. E diz-se que os grandes apreciadores de café bebem sem açúcar. Não sei se é assim ou não.

Isso é outra questão também.

Exato. Mas pronto, João.

Ficamos por aqui este domingo. Estamos de regresso na quarta-feira, só com dúvidas, para responder aos nossos ouvintes. O e-mail para enviar essas dúvidas, Marco, qual é?

portuguessuave@observador.pt.

Muito bem. E o número de telefone é o 91 002 41 85. Podem enviar mensagem de voz ou então mensagem escrita.

Não sei porque não perguntas o telefone.

Por que será? Marco Neves, um abraço e até quarta.