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Português Suave na Rádio Observador, aos domingos. Episódio mais longo. Eu sou o João Costa e Silva, comigo o José Rafael Lopes e, claro, Marco Neves.

Olá.

Isto é sempre bom quando estás aqui conosco.

Viva, Marco, como estás?

Por quê? Porque vamos aprender.

Vamos aprender.

E hoje vamos falar de festa.

Hoje vamos a festas, vamos também passear pelo país, como no Mapa da Língua, e ainda vamos acabar num tema um pouco mais complicado, mas eu vou dar a volta para que seja mais interessante do que parece, que é a guerra que estamos agora a observar.

Ora bem.

Já lá vamos.

E nós estamos aqui para simplificar também este Português Suave e, Zé, ainda hoje, o Marco já sabe, estamos a fazer aqui muito suspense, mas no final temos aqui uma novidade para os nossos ouvintes, para simplificar o nosso contacto, para ser mais fácil enviar dúvidas.

E também para podermos ouvir os nossos ouvintes.

Exato. Isso mais para o final, fique conosco até o fim. Aqui é um pequeno teaser. Como é que eu poderia dizer isto em português?

Boa pergunta. Uma pequena antecipação.

Antecipação, foi o que eu pensei. Mas teaser é sempre aquela palavra que vem à cabeça.

É, claro. É como o spoiler. Não faça spoilers.

Exato. Vamos a isto. Marco, nova semana, temos de ir para a Língua nas Notícias, não é?

Vamos à Língua das Notícias.

Língua nas Notícias e vamos à festa. Vamos ao bailarico.

Estamos na altura dos santos populares. Santo António já se acabou, mas ainda temos alguns santos para celebrar pelo país fora. E decidi hoje falar da diferença entre São e Santo. Por que razão é que nós dizemos São Pedro e Santo António. É uma regra curiosa, que ainda por cima vai levar-nos a perceber uma característica das línguas todas, não só do português, porque nós olhamos só para uma palavra e às vezes conseguimos lá tirar muita coisa. São é antes de qualquer som que seja uma consoante. São Pedro, São Teotónio, São João.

Que vai acontecer entretanto. De segunda para terça.

Vamos ter o grande São João no Porto. E não só, não é só no Porto.

São, há mais sítios.

E tenho que dizer uma coisa.

Na minha terra é São João. São João da Madeira, celebra-se o São João.

Curioso.

Poderia ser outro qualquer, mas não, é São João.

São João. E também há festas.

Sim, há muitas. Aliás, a festa começou na quarta-feira e vai até, não quero estar enganado, mas até terça-feira.

Então ficam todos convidados para ir a São João da Madeira no São João. Eu estava a dizer que isto são consoantes, sons. Por quê? Porque imaginem que há um santo que começa por H. O H, tecnicamente, a letra é uma consoante, mas não conta para isto, porque o que conta é o som, porque quem fez esta regra não foi nenhuma pessoa num escritório a pensar: "A partir de agora, antes de uma consoante é uma coisa, antes de uma vogal é outra." Não, foram os falantes ao longo do tempo. Portanto, se tivermos um santo chamado Hilário, é Santo Hilário, porque antes de um som vogal põe-se Santo. E por que razão é que esta regra apareceu? Atenção, há exceções. Uma das exceções é muito importante, são todas as santas. As santas são todas de Santa. Por exemplo, temos uma terra também lá para o norte, Santo Tirso. Quando os santos estão no nome das terras, por vezes não cumprem a regra. Mas voltando um pouco àquilo que eu estava a perguntar, de onde é que vem esta regra? Basicamente, o que aconteceu foi: os falantes sempre disseram, muitas vezes, santo, sempre foi muito tradicional aqui em Portugal, e não só, claro, em muitos países, dizemos santo. E quando o nome a seguir começava por uma vogal, as pessoas juntavam o T à vogal seguinte, dizíamos Santo António. Isto foi feito com tanta frequência e com tanta força que até houve nomes que surgiram desta junção.

Santiago.

Exatamente. Havia um santo que poderíamos chamar de Iago, que passou a Santiago, depois Tiago, e o Elmo, o Santo Elmo, que passou a Santelmo, e passou a Telmo. Portanto, houve nomes que foram criados. Claro, nós não criamos um Tantónio, que seria curioso, Santo António, ficávamos com Tantónio, mas mesmo assim, esta junção salvou o T. O T ficou lá guardado por causa da junção. Nos outros casos, nós fomos deixando cair. Dizemos tantas vezes Santo, ficou só San. E depois, mais tarde, acabamos por transformar o San em São. E ficamos com São João, São Pedro e por aí fora. Foram os falantes que criaram isto. As pessoas têm tendência, já ouvi isto muitas vezes e recebo comentários a dizer que ao longo do tempo a língua vai ficando mais simples. As pessoas vão deixando cair uns sons. Não é isso que acontece. Quando os linguistas vão estudar as línguas, é o contrário. As línguas vão ficando mais complicadas, porque reparem, um som caiu, o Tu, o Santo, o Tu caiu, mas criamos esta regra muito mais complicada. De repente, os falantes na sua cabeça têm de estar a pensar.

Se vem consoante ou vogal.

Se vem uma vogal, se é santa, se é santo, se é o nome de uma terra, se não é. Quando nós dizemos que os falantes têm de pensar, fazem isto sem pensar, na verdade. Fazemos isto de forma natural. E é o que acontece. Quando nós olhamos para línguas que ficam ou isoladas ou sem passar por certos processos, que eu já vou dizer o que são, as línguas vão ficando cada vez mais complexas ao longo do tempo com estas pequenas regrasinhas que se vão acumulando. Os processos que por vezes limpam as línguas são processos de quando um grande número de adultos aprende uma língua. Por exemplo, aconteceu com o inglês, quando os vikings invadiram aquilo que é hoje o Reino Unido, mas há muitos séculos Falam muitos. Aprenderam inglês já quando tinham 20, 30 anos e acabaram por simplificar muito alguns aspectos do inglês. Aconteceu provavelmente com o latim, que também acabou por perder certas características quando foi aprendido por todo o Império Romano. Mas são casos muito particulares. Em geral, as línguas ficam cada vez mais complicadas, e nós aprendemos isto tudo.

Grande festa que para aqui vai.

Eu sei que juntar santos populares à linguística parece um pouco estranho e não estou à espera que no São João, nem em São João da Madeira, nem no Porto as pessoas estejam a discutir isto.

Braga também. Braga é uma grande festa.

Mas enfim. Vão estar ocupados com as sardinhas. Vão estar ocupados com outras. Eu compreendo perfeitamente.

Alho-porro também, que há muito alho-porro nestes dias. É uma coisa que eu não gosto nada. Ir na rua e levar com alho-porro.

Num destes dias vamos ter de ver a origem de alho-porro. Prontos. Bons santos. Divirtam-se.

Bons santos, fica para ti o desafio, Marco. Vamos já seguir viagem aqui no "Português Suave". Vamos até ao Mapa da Língua.

Vamos.

E no Mapa da Língua desta semana, Marco, pelo que sabemos, pelo que vi, que eu andei atento, tu pediste ajuda aos teus seguidores.

Sim, andei a pedir, como já tinha feito há uns tempos. Houve episódios em que nós nos concentrávamos numa região. Desta vez eu abri a porta, fiz o desafio a todo o país para ver o que é que saía. Recebi muitas, eu só vou poder dizer algumas. Isto acontece sempre que nós fazemos estas perguntas. Há pessoas que dizem: "Na minha terra diz-se assim", e depois nós vamos ver e é no país todo. Mas é normal, isto significa que nós muitas vezes temos de fazer assim.

Ainda hoje, vou te contar aqui uma coisa, não tem nada a ver, mas ainda hoje estávamos aqui na rádio e surgiu aqui uma questão. Lá em cima, pelo menos na minha zona, diz-se "sarro". E aqui, nesta zona, diz-se "surro".

Mas também se ouve sarro, talvez.

Mas foi aqui uma conversa que estávamos a falar e do nada já tivemos aqui duas opções.

Nós temos de fazer um episódio só com o pessoal observador, se quiserem, com estas não só dúvidas.

No auditório, por favor.

Vamos fazer isso, vamos fazer um episódio especial. Mas vou-vos perguntar: sibinho, têm alguma ideia? Trás-os-Montes, sibinho.

É um sino?

Eu não conhecia e acho que nunca tínhamos falado desta.

Um menino pequenino?

Não, é um bocadinho. Um sibinho. Dá-me aí um sibinho de pão. É o que me disseram. Foi o Marco Batista. Há pessoas que eu consigo perceber o nome, outras pessoas não. Andar numa fona.

Esse eu sei, é andar muito acelerado.

Exatamente. A Joana Machado diz que é de Trás-os-Montes, mas penso que nós também conhecemos de outras zonas, andar numa fona. Já tínhamos falado disto. Filipe Sousa mandou-me dala. A palavra dala no Alto Minho é o sítio onde lavamos a loiça ou a louça.

Pois, mais uma.

Se calhar lá é mais a louça. Já tínhamos falado disto, a dala. Eu confesso que a primeira vez que ouvi falar desta palavra foi quando alguém me disse isto. Vamos continuar com: faz muita calma. Também já falámos desta, muita calma. No Alentejo, faz muita calma, faz muito calor. E o calor leva à calma, o que levou depois àquele estereótipo que nós conhecemos dos alentejanos.

Que são muito preguiçosos.

Que estavam de ver pessoas de outras zonas do país a trabalhar com 40 graus. Eles simplesmente trabalham nas horas em que está mais fresco.

Exato, e fazem muito bem.

Eu às vezes brinco com a minha mulher, porque os meus sogros são alentejanos, a minha mulher também é, e quando lá vou passar, eu às vezes brinco com ela: "Eles não dormem, porque eu vou me deitar e eles estão acordados. Eu acordo, eles estão acordados. Depois descansam a meio do dia, mas basicamente é mais à noite e logo de manhãzinha que as pessoas estão acordadas a trabalhar, porque é a única hipótese. E agora, temos a burra nas couves.

A burra nas couves?

Sim.

Literalmente?

Temos um problema.

É a burra nas couves ou uma burra nas couves?

Temos a burra nas couves, foi como disseram aqui. Giladas é o nome.

Está a barraca armada. Está aqui uma situação a desenvolver-se que não está a nosso favor.

Exatamente. E depois temos aqui em Salvaterra de Magos, a Diana Cardoso enviou-me balhana.

Balhana?

Que significa porcaria. Eu não sei se temos tempo para mais uma ou duas.

Mais uma ou duas, sim, vamos.

Pronto. Uma que já me tinham também enviado anteriormente, que é a palavra canalha, não como insulto, mas que significa criança. Essa também é curiosa.

Uso muito.

E ficar a ver navios, acho que é do país todo.

Sim, essa é universal.

Esta expressão idiomática é do país todo, fica para o país e estava aqui a ver se encontrava mais alguma expressão de Penicheira, o mar natado de peixe, primo, que não há peixe no mar. Reparem numa coisa, se eu vos disser o mar natado de peixe, sem vos ter dito que era Peniche, vocês associavam a que zona? Com esta pronúncia.

Eu sou péssimo com pronúncias.

Se eu não fosse de Peniche, eu diria que parece muito algarvio. Não sei se concordam. E isto é algo curioso, porque eu muitas vezes quando ouço um algarvio falar, parece mesmo muito alguém da minha terra, de Peniche, a falar.

Há aqui uma ligação que ressoa.

Que não é geográfica, porque Peniche está mais a norte do que Lisboa. Está no centro. Mas parece haver uma ligação.

Que é para o mar. E vocês não sabem.

Sabemos. É o mar. Mas ficámos aqui com algumas. Fomos fazer aqui um pequeno percurso pelo país, que também faz falta.

Ora, faz falta este percurso e faz também falta um segmento para fechar este "Português Suave". Neste caso, os mitos e a origem da língua. E esta trilha sempre misteriosa quer dizer que tu vens aqui com algum enigma?

Não é um enigma, é uma origem.

Origem. Vamos a isso.

Hoje não vamos falar de mitos, mas no fundo, isto também poderia ser a língua das notícias, porque tem a ver com a guerra que neste momento estamos a observar. Mas eu decidi não falar da guerra em si, já falámos desse nome, mas sim daquilo que provocou a guerra, ou pelo menos este novo conflito entre Israel, o Irão e os Estados Unidos. Tem a ver com o fato de o Irão estar ou não a criar uma bomba atómica. Então pensei falar da palavra átomo. Vamos esquecer a guerra agora, vamos olhar para o átomo. E vou dar três exemplos de palavras que são curiosas. Por quê? Porque são palavras que têm origem científica, são palavras que têm origem no trabalho dos cientistas, de quem estuda o mundo, quem tenta descobrir, mas que depois foram ganhando novos significados e passaram a ser palavras também que nós todos usamos todos os dias. São palavras técnicas que passaram para a língua geral. E a primeira é átomo, que é muito curiosa. Por quê? Porque queria dizer, em grego, na origem, algo indivisível. E hoje sabemos que não é assim. Aliás, tudo isto que nós estamos a falar tem a ver precisamente com o fato de o átomo ser divisível. A divisão do átomo levou à criação das bombas atómicas e não só, da energia atómica. Mas a palavra ficou. Isto acontece também com alguma frequência. As palavras são criadas com um significado, mudam, mas não vamos mudar a cor da palavra. Mas o que eu acho muito curioso nestas palavras e nas duas seguintes também, é que nós ao olharmos para a história da palavra, vamos acabar por perceber também a história da própria evolução do conhecimento humano. Nós pensávamos que o mundo era composto por pequenas partículas chamadas átomos, que não eram divisíveis. Depois percebemos que afinal são divisíveis e que têm lá dentro outras partículas que se calhar também são divisíveis. E, portanto, no fundo, nós se olharmos para a palavra e se a abrirmos, vamos perceber esta história. A segunda palavra é galáxia, só para dar mais um exemplo de uma palavra que queria dizer uma coisa e agora quer dizer outra. A palavra galáxia, hoje todos sabemos que quer dizer um grupo de estrelas.

Sim.

Um agrupamento de estrelas. Até há 100 anos, as pessoas pensavam que galáxia, começou por querer dizer aquela mancha que se vê no céu ou quase que não se vê. Não sei se alguma vez conseguiram ver a Via Láctea, porque, na verdade, nós não a conseguimos ver, porque vivemos em cidades, vivemos em sítios com muita luz, o que é pena. Um dos meus objetivos é ir para um sítio em que eu consiga ver a Via Láctea como deve ser. Mas essa mancha no céu que se via no mundo quando não tínhamos estas luzes todas à nossa volta, tinha o nome de Via Láctea. Galáxia é uma palavra grega que vem de leite. Começou-se a perceber depois que aquilo era um grupo de estrelas, que é o centro da nossa galáxia. Mas o que as pessoas nem sempre sabem é que até há 100 anos pensávamos que isto era tudo, que a nossa galáxia era o universo todo. Até há 100 anos. Einstein, quando fez a sua teoria da relatividade, ainda pensava que a galáxia era tudo o que existia, que não havia mais nada. E só há 100 anos, nos anos 20 do século XX, é que se percebeu que esta galáxia é apenas uma de várias galáxias. E por que eu estou a falar disto? Porque a palavra foi mudando de significado ao longo do tempo por causa das novas descobertas. E por fim, apenas para terminar, uma palavra que nos andou a irritar nos últimos anos, quer dizer, sempre nos irritou, que é a palavra vírus, que começou por querer dizer qualquer coisa que criasse doenças. Aparece assim nos maias, se alguém quiser procurar, mas depois começou a querer dizer aquela partícula, que não é uma bactéria, que tem informação genética, que entra numa célula e começa a controlar como se a célula fosse um zumbi controlado por um vírus. Mais uma vez, a palavra mudou de significado por causa das novas descobertas científicas.

E ganhou significados novos.

Ganhou significados novos, exatamente. Isso depois é outra questão, que as palavras tornam-se vírus, começam a viralizar. E todas elas acabam também por ter depois significados que são de metáforas. Nós também usamos galáxia para falar da galáxia dos livros, por exemplo, ou galáxia do que for. Usamos átomo para falar de qualquer coisa que é muito pequenina. E vírus usamos para tudo e mais alguma coisa. E pronto.

Ficamos por aqui neste "Português Suave", mas vamos cumprir aquilo que prometemos no início, a antecipação. Nós temos um e-mail portuguesSuave@observador.pt, com os dois S de português, sem o acento circunflexo. É por aí que podem enviar dúvidas. Também já dissemos que pode chatear o Marco Neves nas redes sociais, nomeadamente no Instagram, que ele anda sempre por lá muito ativo, mas passamos a ter agora também um número de telefone, o 910 0241 85, para os nossos ouvintes usarem o WhatsApp e nos enviarem dúvidas. Pode ser por mensagem de voz até 30 segundos, porque o episódio de quarta-feira também é sempre mais curtinho.

Depois nós ouvimos as pessoas no episódio e respondemos diretamente.

Identifiquem-se, digam olá, e nós depois passamos por aqui esse respectivo áudio no "Português Suave", com as dúvidas dos nossos ouvintes. É uma forma de também tornar este programa cada vez mais dos nossos ouvintes e tê-los perto de nós.

Acho que é ótimo. Acho que sim. Estou com muita curiosidade para ouvir as primeiras dúvidas.

E agora vamos ouvi-los, não é? Ainda mais interessante. Nós ficamos por aqui neste "Português Suave". Marco, estamos de regresso.

Marcamos encontro na quarta.

Quarta-feira. Até lá.