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"Português Suave", edição de quarta-feira. Comigo, João Costa e Silva, e também com o Marco Neves, o nosso já consagrado ninja da língua portuguesa. Marco, seja muito bem-vindo.
Obrigado e bem-vindo também.
Aqui é o teu espaço. O espaço é teu, no fundo. Eu sou um convidado todas as semanas.
É dos dois. Tu também és ninja.
Tem dias.
As Tartarugas Ninja. Tu já alguma vez viste as Tartarugas Ninja?
Não vou falar do fato de me teres chamado tartaruga agora.
Não, os dois. Estamos quase bem. Mas já estamos na época do Natal. Tu gostas de Natal?
Sim, gosto. Especialmente de presentear pessoas que gosto.
Eu, com filhos, se eu dissesse que não, ia dormir não no sofá, mas no corredor.
Ias receber um hóspede em casa.
Até gosto. Hoje temos dúvidas, não de Natal, mas dúvidas de português, como é em geral, como fazemos sempre às quartas-feiras. Vamos ouvir a primeira?
Vamos. Vamos ouvir o Nuno Sousa.
Olá, João. Olá, Marco. O meu nome é Nuno Sousa. Gosto muito do vosso programa e oiço assiduamente, por duas razões: uma, porque interesso-me muito por etimologia e por tentar entender a origem das imagens e dos significados que queremos colocar em palavras. E outra, porque vivo na Inglaterra, onde tenho pouco contato com a língua portuguesa, e apraz-me muito poder integrar aquilo que vocês trazem na minha vida. E a minha dúvida vem do vosso último programa, em que o Marco falou da palavra apagar, dizendo que vinha de paz, de apaziguar o fogo. E então, pagar, de onde vem? Vem também de pacificar? E se assim é, o que isso nos diz da relação que temos com a palavra que estamos a usar? Se tiverem que cortar esta mensagem, que assim seja, paciência. Mas eu gostava de transmitir tudo aquilo que disse a vocês. Bem-haja.
Muito obrigado, Nuno. Eu vou dizer muito obrigado por vários motivos, porque primeiro, é bom pra nós saber que também é uma forma de pessoas que não estão em Portugal ou num país de língua portuguesa.
De contactar com a língua portuguesa.
E também porque ao ouvir o Nuno, lembrei-me de referir que também tenho a minha família em Inglaterra, tenho duas sobrinhas em Inglaterra.
Eu também já tive. Neste momento já não tenho, mas também já tive durante vários anos.
Eu ainda tenho. Lá da Olivia, que nasceram lá.
Tios e primos que estiveram lá cerca de 15 anos, se calhar mais.
Deve haver poucas famílias portuguesas que não tenham pessoas emigradas.
Sim.
Elas são filhas da Sofia e do Diogo. O Diogo é meu irmão, a Sofia é minha cunhada. E elas também falam muito inglês, obviamente, e falam português conosco sempre que podem, mas é muito engraçado ver também as duas línguas em contato nas minhas sobrinhas. Em relação àquilo que o Nuno diz, pagar vem também de pacificar, o que é muito curioso, porque se pensarmos bem, estamos a pacificar a dívida. Ou seja, há uma dívida, há algo a fazer e nós pacificamos a situação pagando. O que ele pergunta sobre o que isto nos diz sobre nossa relação com a palavra, eu diria que é muito interessante, mas a etimologia às vezes pode nos levar a querer chegar a conclusões sobre a cultura que nem sempre são tão relevantes. O que eu quero dizer com isto? Há uma coisa que se chama falácia etimológica, pra começar, que é considerar que a origem da palavra, o sentido original da palavra, é o mais correto, o mais verdadeiro. E isso é falso, muitas vezes. As palavras mudam. Aliás, quando nós dizemos a origem, normalmente é simplesmente o ponto onde nós conseguimos olhar para a história e ver ali a primeira vez que a palavra aparece na escrita, mas não quer dizer que ela tivesse sido inventada naquele momento. Já vinha atrás, calhou aparecer na escrita naquele momento. Portanto, muitas vezes nós falamos do étimo latino, mas os falantes latinos, os romanos, também já tinham ido buscar as palavras a outros povos anteriores ou vizinhos. Portanto, é difícil saber exatamente quando nós falamos da origem, é sempre preciso ter na cabeça que aquela origem não é exatamente o início. Passou por ali. Além disso, as palavras mudam de significado, e isso não quer dizer que o sentido original fosse mais verdadeiro, de certa maneira. Original, tendo em conta aquilo que eu tinha dito antes. Não foi isso que o Nuno perguntou. O Nuno perguntou é o que nos diz sobre nós. E eu não sei se diz alguma coisa. Diz talvez sobre a altura em que houve esta mudança metafórica, em que de repente nós dizemos pacificar a dívida. Talvez na altura significasse que as pessoas poderiam entrar em conflito. Talvez, mas eu tenho alguma hesitação em querer chegar a conclusões demasiado profundas, porque por vezes é simplesmente um hábito que se foi mantendo. Portanto, neste momento, as pessoas dizem pagar sem ter qualquer noção, no dia a dia, de que aquilo está relacionado com o verbo pacificar. E por isso é que é tão interessante depois nós descobrirmos que tem essa ligação. Se nós soubéssemos no dia a dia que tinha, não sei se o Nuno concorda comigo ou não, mas é isto que eu tenho a dizer sobre o pacificar. É interessante precisamente porque nós não sabemos, no dia a dia, de onde é que vêm as palavras.
Muito bem. Um grande abraço pro Nuno.
Grande abraço pro Nuno.
Que nos ouve longe, mas sempre perto.
Fico contente. Já agora, as minhas sobrinhas estão em Cambridge e pergunto ao Nuno, se ele quiser responder, pra onde é que ele anda.
É, e que nos diga, através do 91 002 41 85, o nosso número do WhatsApp, ou através do e-mail portuguessuave@observador.pt. Temos mais uma dúvida, Marco, desta vez do Mário Videira.
Olá, olá, "Português Suave". Antes de mais, os meus parabéns por este programa incrível. Eu tenho aqui uma questão que me assombra já há muitos anos: como é que nós definimos como é que Denominamos pessoas de determinado país. Havia aquela lengalenga clássica que dizia: "Por que os da Suécia são suecos e os de Marrocos não são marrecos? E se os de Marrocos são marroquinos, por que os suecos não são suinos?" Um abraço para os dois e bom programa.
Eu acho que esta dúvida passa pela cabeça de qualquer criança. Na altura que nós estamos a formar.
As crianças são ótimas para ver este tipo de faltas de lógica da língua, que são muito interessantes.
Eu tenho a certeza que isto me passou pela cabeça em algum momento da minha vida.
A única coisa que eu posso dizer é o seguinte: a língua tem vários sufixos que servem para fazer este tipo de coisas e nós vamos escolhendo ao longo do tempo. O que eu quero dizer com isto? Para não ser assim, para nós termos sempre a mesma forma de criar os nomes ou os adjetivos relativos a países, teria de haver ou melhor, teria ter havido uma espécie de comitê que se reuniu a certa altura e tinha na ordem de trabalhos: qual é que vai ser a forma de criar. E não foi isso que aconteceu. Os falantes foram usando vários recursos da língua diferentes. Aquele país surge numa determinada época, os falantes, por algum motivo, vão buscar um sufixo particular. E eu sei que esta resposta não agrada muito, que as pessoas gostavam de ter uma lógica mais.
Ter uma resposta para tudo.
Ter uma resposta para tudo, mas posso dizer, por exemplo, espanhol. Espanhol é uma palavra que nós fomos buscar não ao espanhol, nem espanhol, vem do espanhol, mas ao provençal. Ou seja, foi a língua, o occitano, no sul de França, que nos deu a palavra para nós designarmos o espanhol, porque naquela altura, provavelmente, o occitano, que chamaríamos provençal, tinha muito prestígio, era a língua da poesia. Então ficava bem dizer espanhol para falarmos de alguém da Península Ibérica, que na altura nem sequer queria dizer uma pessoa daquele estado, queria dizer alguém que existia na Península Ibérica. Depois, mais tarde, este termo acabou por ser aproveitado para falar de pessoas que vivem num estado particular chamado Espanha. E foi a história dessa palavra em particular. Se eu agora fosse investigar marroquino, teria outra história, e o sueco teria outra. Agora, por que os marroquinos não são marrecos? Porque também aí há que dizer. Haverá marroquinos marrecos, como há em todos os países.
Sim, em todo o mundo.
Há que dizer que os falantes também evitam, nem sempre, às vezes se sobrepõem, mas provavelmente evitadas marrecos para não estar a insultar todos os marroquinos. E é isso que eu posso dizer sobre isto. Mais uma vez, eu sei que talvez não agrade a todas as pessoas, mas é assim. Temos depois uma outra dúvida que nos chegou.
Tem que ser muito rápida.
Não sei quantos segundos temos. Estou agora agastado. O Francisco pergunta se é o autoestrada ou a autoestrada, porque ele ouve pessoas a dizer o autoestrada.
Eu nunca ouvi.
E eu gostava de dizer ao Francisco: "Diga-me, onde é que estão essas pessoas? É estranho." Haverá sempre, porque a língua não sabemos assim toda, mas eu nunca ouvi ninguém dizer o autoestrada.
Eu também não.
Só ouvi a questão de UI&P ou A&P.
Aí já há mais dúvidas.
E aí há uma dúvida, mas fica dado para o próximo episódio.
Excelente teaser. Feliz Natal, mas nós ainda voltamos.
Voltamos. Sim, feliz Natal, porque estamos na época. Boas festas. Feliz Natal.
Entre com o pé direito, essas coisas todas. Dúvidas para o e-mail portuguesfuavo@observador.pt ou então através do nosso número de telefone, para onde podem enviar dúvidas para o nosso WhatsApp. É o 910024185. Um abraço, Marco, e até breve.