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Estamos já no final de março e o "Português Suave" não para. Todos os dias pode ouvir em podcast, mas já sabe que ao domingo e às quartas-feiras temos encontro marcado por aqui. Marco Neves, olá, hoje estás à distância.
Olá, tudo bem? Estou à distância, estou no Porto.
Porque és um homem muito requisitado.
Andar de um lado para o outro a falar da língua portuguesa é sempre bom. Estive na Madeira, na Feira do Livro do Funchal, e agora estou aqui no Porto. Participei no TEDx ontem, no TEDx Porto, e foi muito engraçado. Sabes uma coisa curiosa que descobri ontem? Fiz um pequeno vídeo sobre as Ilhas Selvagens e recebi uma mensagem diretamente das Ilhas Selvagens.
A sério?
Eu não me quero enganar no nome da pessoa, deixa-me só confirmar, mas foi uma das pessoas que lá estão. Eles têm polícia, têm guardas, não é guardas-florestais, que aquilo não tem florestas, mas têm, por exemplo, vigilantes da natureza e um deles enviou-me, deixa-me só dizer o nome, que é para não me enganar. É o Miguel Machete, que me enviou uma mensagem. Fica aqui também um abraço para as Ilhas Selvagens.
Marco Neves, tu já és do mundo. Qualquer dia perdemos-te pra Austrália. Esperemos que não.
Esperemos que não.
Vamos arrancar com a língua nas notícias, vamos a isto. E então, o que é que temos esta semana?
Hoje sei que andam aí ocupados com o Congresso, se não estou em erro.
Sim.
E por isso, uma das primeiras palavras que pensei falar foi mesmo a palavra Congresso. Não há muito a dizer, é uma palavra que vem de uma forma verbal latina antiga que está relacionada com reunião, ou seja, com a junção de duas ou mais pessoas para estarem juntas ou para conversar. É daquelas palavras que não há grande surpresa.
Não há grande ciência.
Não houve assim uma grande mudança. Já em relação à outra palavra, que é hora, que mudou hoje. Hoje, domingo, dia 29 de março, nós tivemos uma mudança da hora. Aí já houve uma grande mudança ao longo dos milênios, porque a raiz indo-europeia, a palavra de onde vem esta palavra, queria dizer ano ou estação. Aqui, sim, houve uma grande mudança, uma grande redução da duração da hora. Mas hoje, de facto, quer dizer só esta divisão do dia. Uma curiosidade que não é linguística, mas que eu acho sempre muito interessante, que tem algumas implicações linguísticas, é o fato de as horas antigamente não eram certas ao longo do ano. Não é só esta questão de mudar a hora no inverno e no verão. Como o tempo do Sol durante o dia, o tempo em que o Sol estava visível variava e varia muito de estação pra estação, de altura pra altura, as horas também esticavam e encolhiam conforme essa mudança. No verão, as horas duravam mais, cada uma das horas durava mais. Eram contadas com, por exemplo, relógios solares e por isso as horas esticavam-se. No inverno, as horas encolhiam, tínhamos horas mais rápidas. Hoje, com os relógios que temos, a partir do momento em que há relógios mecânicos, as horas começam a ser contadas de forma mais certa. A implicação linguística disto é só porque é uma demonstração de como a sociedade se foi padronizando, passou a ter mais métodos certos de contar as horas e também uma língua padrão, regras que nós aprendemos. Aqui há um certo paralelismo.
Tu gostas mais do horário de verão ou de inverno?
Uma boa pergunta, não sei. Pessoalmente, gostava que não mudasse a hora, mas eu sei que há muitas-
Há muita contestação à volta disso
...contestação e há muitas ideias diferentes, e eu percebo que há argumentos dos dois lados. Não quero me meter nesse assunto. Pessoalmente, eu gostava de não ter este dia em que dormimos menos uma hora, mas é assim.
Não somos nós que decidimos, não somos nós que temos esses problemas, mas é bom sair do trabalho, às vezes, ali por volta das 19:00, 20:00 e ainda estar dia. Isso sabe mesmo bem.
Sem dúvida. Eu gosto mais dos dias longos à tarde. Ver os meus filhos agora já começar a poder brincar mais no pátio, durante mais tempo, é muito bom. Mas isso é a questão do próprio verão ter os dias mais longos, não é tanto a questão de mudarmos ou não a hora.
Bem, vamos avançar.
Vamos passear.
Vamos passear. Vou passear contigo, Marco Neves, vamos a isso. A pergunta é: para onde?
Tendo em conta aquele percurso que eu te contei há pouco, que andei a fazer esta semana, vou ter de falar aqui um pouco da Madeira e do português da Madeira. Eu fartei-me de conversar com pessoas no Funchal sobre as várias palavras.
Eu vi os teus vídeos, eu estive atento.
O primeiro, que eu fiz logo quando cheguei, teve umas reações muito engraçadas, porque eu disse lá uma palavra que a maior parte dos madeirenses disseram: "Não, isso não quer dizer isso". Então eles quiseram me explicar e às vezes vieram mesmo ter comigo na rua, muito contentes, e foram todos muito simpáticos, mas: "Olha, mas aquilo não quer dizer o que tu disseste". O que foi muito bom. Mas eu vou então dizer as cinco palavras que usei nesse vídeo. Depois também fui a uma loja muito interessante chamada Madeirense Puro, lá que vende produtos sobre o português da Madeira. E estivemos até a conversar e fazer um vídeo sobre o português da Madeira, sobre os livros, sobre este tema. E também a Bruna, que foi a que me convidou.
Há quase um dicionário próprio, não é?
Exatamente. Há até um dicionário, jogos, é muito engraçado. Então, a primeira palavra que eu usei, que é buzico, isto com a pronúncia um pouco diferente, há que dizer, mas explicaram-me que é uma criança, como eu disse, mas é uma criança Mais nova, um bebé. Basicamente, quer dizer um bebé. A segunda palavra foi o grande ponto de-
Discórdia
...discórdia, se quisermos, que foi "bizalho". Eu disse que queria dizer criança e algumas pessoas disseram que podem usar como criança, mas o grande significado da palavra é pintainho, ou seja, o bizalho é um pintainho. E um pintainho que nós podemos dizer: "Olha, este meu filho é um pintainho, é um bizalho".
Mais para a ideia de criança. Podemos assumir, digo eu.
Eles disseram que usam mais para pintainho e eu vou acreditar nos muitos madeirenses que me disseram.
Claro, eles é que sabem.
Que o bizalho é pintainho. Temos uma palavra muito curiosa, "rueza", que eu expliquei nesse vídeo que é fome, e é, mas também já percebi que é uma fome não muito forte. Ou seja, como é que tu dirias?
Uma larica.
Uma larica, exatamente. Quando estava com a Bruna a fazer o vídeo, andei à procura da palavra certa que nós diríamos aqui no continente. A palavra certa para o continente. E agora que me dizes isso, acho que sim, é larica, uma certa larica no estômago. A quarta palavra foi "caçoar", que quer dizer brincar, mas brincar no sentido muito particular, que é meter-se com uma pessoa. Ou seja, um amigo que se mete com outro. É gozar, mas no bom sentido. É quando uma pessoa brinca, mas de forma-
Amigável
...amigável, não maldosa. Isso é caçoar. E aqui apoio-me nas referências das várias pessoas que falaram comigo na Madeira. E por fim, uma palavra muito interessante que é "à paz". Eu disse só paz, mas todos os madeirenses me disseram: "Mas nós dizemos sempre com o A no início". Temos esta palavra como à paz, com entoações muito diferentes, que corresponde um pouco ao nosso pá, mas com mais sentidos. E é muito interessante porque, na verdade, mostra porque o nosso pá vem de rapaz e este rapaz foi sendo reduzido de maneiras diferentes em diferentes territórios, quase como se ainda pudéssemos ver as diferentes fases da palavra a ser reduzida para pá em diferentes sítios. Temos rapaz, ainda é possível ouvir pessoas a dizer: "Ó pá, rapaz".
Usam muito essa expressão, não é, na Madeira? Eu tenho amigos que continuam a usar essa expressão.
Mas eles passam muitas vezes para à paz. Já não dizem rapaz, mas são à paz. E nós cá dizemos pá e ainda há zonas do país pelo que me disseram, que dizem paz. Temos várias fases desta palavra em todo o nosso mapa. E agora digo-te uma coisa, está-me a fazer falta ir aos Açores. Eu tenho de ir aos Açores.
Tens mesmo.
É a grande falha. Para depois fazer um vídeo quando lá chegar e depois as pessoas aparecerem na rua a dizer que não era bem como eu tinha dito, o que é engraçado.
Só fazer aqui uma pequena correção, porque aqui há uns episódios eu falei da Elisa e disse que ela era açoriana e ela é madeirense, mais um talento madeirense que também já participou na Neurovisão. Eu tinha aqui a ideia que ela era açoriana, mas não, ela é madeirense. Há muito talento madeirense por aí espalhado e canta muito bem. E nos Açores também. E tu vais conhecê-la, Marco Neves, muito em breve nessa tua viagem que vais fazer. Vamos para os mitos?
Vamos. Hoje estou aqui a usar esta secção não para falar de mitos, mas para dizer que recebi uma mensagem muito simpática do Luís Aguiar Conraria, que de vez em quando nos envia algumas mensagens.
E é nosso colaborador aqui na Rádio Observador também, no "Fora do Baralho". É um crossover entre os podcasts.
Exatamente. É bem-visto. Temos aqui o Luís Aguiar Conraria, que me enviou uma mensagem a dizer que encontrou uma diferença muito curiosa entre Portugal e Brasil, em que ele nunca tinha reparado, e eu também não. Que é como é que os alunos dizem que alguma coisa vai, como nós dizemos cá, sair no teste. Isto sai no teste. E pelo que ele me disse, no Brasil, as coisas não saem no teste, a matéria não sai no teste. A matéria entra no teste, o que é muito curioso. E nós quando reparamos nisso, até pensamos: "Bem, se calhar a versão deles até tem um pouco mais de lógica". Mas estas questões não são uma questão de lógica, são só uma questão de uso continuado. O sair no teste, no fundo, é nós pensarmos que a matéria está numa gaveta e sai para o teste. Fica lá no teste depois do professor decidir que é aquilo que vai sair. Mas é uma diferença muito curiosa, em que eu nunca tinha reparado. E lembrei-me só aqui de referir várias outras diferenças que nós temos. Diferenças que por vezes nós não reparamos, ou seja, em que a pessoa só repara quando vem, por exemplo, do Brasil para cá e começa a ouvir e percebe que nós usamos de maneira diferente aquele ponto particular da língua. E nós também fazemos o mesmo quando vamos para outros países que falam português. Há sempre estas diferenças. As outras três que eu gostava só de apontar é: o que nós demos na aula, por exemplo, eu estou numa aula e vamos dar matéria. E pelo que eu percebi, no Brasil, este uso também causa estranheza, dizer que alguma coisa é dada numa aula. Mais quando é o próprio aluno a dizer, quando chega a casa: "Olha, eu hoje dei os verbos". Se for no contexto do português do Brasil, que eu, aluno, dei qualquer coisa, fica muito estranho.
Sim, o verbo dar no Brasil tem um significado, não digo diferente, mas com outra conotação.
E não é só isso, porque os verbos têm sempre muitos sentidos e esses não são sempre iguais de um lado e do outro. Depois temos também a expressão "vou lá ter", que pra nós é perfeitamente natural e nem sequer percebemos como é que pode ser estranha, mas se nós começarmos a olhar pra ela com intensidade, percebemos que vou lá ter não tem muito sentido. Ter o quê? O que é este ter? E por fim, o "gostava de", que um brasileiro diria quase sempre "gostaria de", e também acham muito estranho que nós usemos o gostava. E pronto, foi aqui mais uma viagem, hoje foi só viagens.
Foi só viagens. Eu saio daqui cansado. A vantagem é que não saí do lugar.
Eu saí um pouco, é verdade. Estou agora aqui mais longe, mas vou voltar e na quarta-feira já estarei para falarmos de dúvidas.
Exatamente, com dúvidas dos nossos ouvintes, que ainda podem enviar para o e-mail. Marco Neves, qual é que é?
portuguessoave@observador.pt.
É isso mesmo. E o número de telefone é muito fácil, se bem que o Marco Neves tem aqui alguma dificuldade em decorar, mas nós vamos conseguir. Eu faço aqui a promessa que nós um dia vamos ter o Marco Neves.
Houve uma madeirense que tinha uma dúvida e queria enviar para o "Português Suave". Eu disse: "Então pode enviar para o número de telefone." E ela: "Então qual é que é?" É mesmo verdade que eu não sei qual é o número, mas ela perguntou aqui.
É o 91 002 41 85. Mensagens de texto, mas nós gostamos sempre de ouvir a sua voz, portanto, uma mensagem de áudio fica sempre bem. Marco Neves, um abraço. Estamos de regresso na quarta-feira. Obrigado.
Na quarta.