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Está no ar o Português Suave, na Rádio Observador, já em 2026.
É o primeiro episódio de 2026.
Bom ano, Marco Nunes.
Bom ano pra ti e também pra todos os que nos ouvem.
Esperamos que seja um ótimo ano.
Hoje temos a língua nas notícias. É inevitavelmente. Inevitavelmente, não. Podia ter ignorado completamente a notícia.
Mas nós gostamos sempre também de dar o devido destaque quando um tema também está a marcar muito a atualidade. Vamos falar da Venezuela.
Da Venezuela. E eu confesso que não fazia ideia de onde é que vinha o nome Venezuela e fui ver e tem até uma ligação. Eu fui passear com a família até uma terra, não na Venezuela, não estava lá quando tudo aconteceu, mas a Veneza. E descobri que há uma ligação entre Venezuela e Veneza. A etimologia da Venezuela é mesmo pequena Veneza. O nome do país vem de pequena Veneza. Quando aquela zona foi encontrada pelos navegadores, neste caso, o navegador italiano, ao serviço de Espanha, Américo Vespúcio, com Alonso de Hojeda, eu não pronuncio muito bem os J espanhóis, já. Encontraram, esta é a explicação tradicional, depois há outra, já digo qual é que é. Encontraram povoações das pessoas que lá viviam. Aquela zona já era povoada. Com estacas em cima d'água, com construções em cima d'água e decidiram que aquilo era a pequena Veneza. E então Venezuela acabou por ser o nome daquela zona.
Nasceu daí.
Nasceu daí. Há outra teoria que diz que vem de uma palavra indígena daquela zona, mas não parece ser tão sólida etimologicamente. Portanto, é muito provável que seja mesmo o nome que aqueles navegadores deram àquela zona, por causa da forma como aquilo lembrava a cidade italiana, que na altura era, e isto é curioso também, um país, um Estado. Veneza foi durante mais de mil anos um Estado e tinha uma língua, e tem ainda hoje, que não é só o italiano, que é o Vêneto, que nos deu uma palavra muito comum, mas falamos disso no final do episódio. É uma palavra que nós usamos quase todos os dias.
E Marco, nós começamos isto com tanta vontade que nem passamos o separador da língua das notícias.
É verdade.
É tamanha vontade de começar 2026.
2026 estamos com muita força. Vamos já pro mapa da língua.
Vamos.
Ainda estamos na altura das festas, portanto, o Natal já passou.
Pois é, ainda vem o Dia de Reis.
O fim do ano já passou, mas ainda vem o Dia de Reis. E o Dia de Reis, que é muito importante em todo o mundo cristão, mas principalmente em Espanha, porque é quando as crianças recebem.
Ainda se liga muito ao Dia de Reis aqui em Portugal, ainda há muita tradição.
Não é tanto como em Espanha, porque não temos a questão das prendas pras crianças.
Sim. As famílias também se calhar não se juntam tanto neste dia, mas há aquela, pelo menos a tradição em minha casa, de ainda fazer a consoada nesse dia.
Por acaso, na minha não havia. Há é a tradição de terminar, ou seja, de tirar a árvore de Natal naquele dia.
Sim, toda a tradição também.
Mas temos a figura dos três Reis Magos, três figuras tradicionais. E lembrei-me de, tal como eles trouxeram prendas, também mostrar algumas palavras que vieram daquela zona. A imagem dos três Reis Magos é a imagem de três reis que vêm do Oriente, da Pérsia, e por isso lembrei-me de falar de palavras persas. Já falamos aqui, mas eu vou relembrar algumas palavras que vieram do persa para o português, quase como se viessem trazidas pelos Reis Magos até a nossa língua. Há que dizer que muitas dessas palavras vêm através do árabe ou por outros caminhos. Já disse isto algumas vezes, quando nós falamos da origem das palavras, não estamos a falar do sítio onde elas foram inventadas de repente. Elas vêm sempre de outros sítios e são misturadas.
São influenciadas por muita coisa.
Portanto, dizer a origem da palavra é sempre um pouco impreciso, porque nós nunca sabemos exatamente qual é que foi a palavra original, que provavelmente já foi dita há milhares e milhares de anos.
E as transformações que ela teve ao longo do tempo.
Mas podemos dizer que açúcar passou pelo persa, depois foi dada ao árabe e acabou no português. Também foi dada ao italiano e foi através do italiano que chegou, por exemplo, a línguas como o inglês, tem sugar. Esta palavra passou pelo persa. Portanto, é uma palavra que veio de lá das rotas da seda até chegar aqui a esta zona. Tem uma origem ainda mais remota, como eu estava a dizer, do que o persa, que é o sânscrito, em que era sarkara. Sarkara deu origem ao nosso açúcar. Depois temos outra palavra que vem do persa, temos laranja. Laranja vem do narang persa, que passou pro árabe e depois acabou por chegar ao nosso.
Nós temos muita influência do árabe, não é? Na nossa língua.
Muita influência, muitas palavras árabes. Temos também a palavra, esta é um pouco mais surpreendente. A palavra pato. Pato parece ter vindo do bat persa, que passou pro árabe. Isto já deve ser uma língua língua. Também temos a palavra xadrez, que também vem do persa. Temos a palavra pijama. Só que pijama tem uma curiosidade, porque chegou ao português por um caminho muito diferente, porque foi do persa pro hindi, do hindi pro inglês e do inglês para o português. Temos a palavra azul, que já falamos aqui várias vezes, essa nem vou repetir, também vem do persa. Temos a palavra magia, que vem da mageia grega, que tinha vindo do persa. E por fim, pra terminar este mapa da língua, temos a palavra mago.
Mago.
Mago, que vem de magia.
Que associa depois ao Rei Mago.
Os próprios Reis Magos, o nome deles, a palavra que nós associamos, veio do persa. E foi o nosso pequeno episódio do Dia de Reis. Ainda não acabou o episódio, mas foi a nossa pequena prenda de palavras que vieram do persa.
Sim, não trazemos nem ouro, incenso e mirra, mas trazemos palavras um pouco por todo o mundo. Vamos aos mitos. E eu aqui ainda quero responder a um comentário que recebemos no Spotify, mas deixo isso lá mais para o fim. Avança, Marco.
Hoje não tenho mitos, tenho a origem, como eu já tinha dito logo no início, a palavra tinha vindo do vêneto, que nos chegou ao português através do italiano. Portanto, o vêneto deu italiano. É talvez uma das palavras que nós associamos mais ao italiano. Não começou no italiano, como nós já tínhamos falado, também é raro que as palavras comecem numa língua particular. E estou a falar da palavra "tchau". A palavra "tchau" quer dizer adeus e veio de uma palavra do vêneto que queria dizer escravo, o que é muito estranho.
Essa ligação.
Havia uma expressão em vêneto em que a pessoa acabava ou começava, como sabemos, até em italiano, "tchau" quer dizer olá ou adeus. O que as pessoas diziam era: "Sou seu escravo, estou ao seu dispor, sou seu servo". Era uma forma de despedida que começou a ser reduzido e aquele "tchau", que era escravo inicialmente, acabou por ser um adeus ou um olá que se espalhou por muitas línguas, não só o português. Ao português terá chegado provavelmente pelo Brasil, porque no Brasil houve muita imigração italiana, principalmente aquela zona, e há até ainda localidades brasileiras onde o vêneto é falado ainda por muitas pessoas, a língua veneziana. Chamam essa língua os brasileiros, talian.
Talian.
Eu estou a ver que estás com muita vontade de responder ao comentário.
Não, por acaso estou curioso com essa história.
Não sabias que existia.
A ligação do Brasil. Se calhar era mais fácil ver essa ligação mais próxima a Portugal.
Não se tem a certeza de onde é que o tchau entrou na língua portuguesa, mas é bem provável que tenha sido o Brasil e que depois pelas telenovelas se tenha espalhado cá para Portugal. Mas a palavra tchau também se espalhou por outras palavras. Os ingleses às vezes também dizem tchau à italiana.
Sim, verdade.
Meio a brincar. Cá na nossa língua acabou por se tornar uma palavra tão comum que se a pessoa diz adeus, parece muito brusco. Se eu chego e digo: "Adeus". O tchau acaba por ser mais informal.
Não sei se é muito comum.
Tu costumas usar tchau?
Eu uso mais o tchau do que o adeus, até. Eu acho que o adeus é mais brusco.
É isso que eu queria dizer. Se nós hoje usamos adeus, acabamos por parecer que estamos mesmo a dizer: "Nunca mais te quero ver."
Sim, se calhar uma conotação. Não sei se isto pode ter influência ou não, isto pode ser muito parvo. Mas nos filmes, com as legendas, o adeus, se calhar, como é uma forma mais cordial, é mais utilizado e podemos associar aí.
Não sei. Eu tenho alguma hesitação em achar que as legendas, eu trabalho em tradução.
Claro, por isso é que eu te fiz esta provocação.
Não sei se tem uma influência tão forte nas palavras que nós usamos tão diariamente. Talvez possa ter vindo por aí. Há palavras que são só usadas nas legendas, como já falámos aqui.
Já, sim.
Por quê? Porque de facto são mais curtas. Mas não me parece que tenha uma influência tão forte nas palavras que nós vamos usar de forma tão comum. Poderá ter influência na forma como nós conhecemos mais palavras, isso sim, porque as legendas são a forma de escrita mais lida em Portugal.
E tens mais algum mito ou sugestão para hoje?
Eu queria só dizer que nós, este ano, já que este é o primeiro episódio, eu gostava de, para o futuro, dizer que era giro trazermos cá pessoas ao "Português Suave". E mais, se algum dos nossos ouvintes tiver alguma ideia ou quiser dar alguma sugestão para 2026 para o "Português Suave", eu ficaria muito contente.
Claro, é partilhar conosco, através dos comentários no Spotify ou através do nosso e-mail portuguessuave@observador.pt ou através do número de telefone.
Que eu hei de decorar ao longo deste ano, é uma das minhas promessas. Eu estava a contar até zero, na contagem que estive a pensar: "Este ano, a minha promessa é decorar o número de telefone para onde as pessoas podem enviar as suas mensagens."
Exatamente, é o 91 002 41 85. E eu vou responder aqui a um comentário que surgiu no Spotify, naquele episódio especial que nós fizemos de Natal, juntou-se a nós também o Ricardo Conceição e a Maria João Simões, e recebemos um comentário do Paulo Lopes dirigido a mim, ainda que eu não sei se seja dirigido a mim porque não disse bem o meu nome, mas vou passar a ler.
Ai, meu Deus.
"Queria só fazer uma crítica amigável, porque é Natal, é muito comum o Diogo Teixeira", não sei quem é o Diogo Teixeira, não sei, mas eu suponho que seja eu, porque depois eu relacionei-me com isto.
Nós pedimos sugestões de pessoas para vir cá falar connosco. Uma das sugestões foi o Diogo Teixeira.
"É muito comum o Diogo Teixeira dizer lá no Norte, entre aspas, como se todo o Norte de Portugal falasse da mesma forma. Por exemplo, esfarrapada, para designar aquilo que na minha terra é esfarrapo velho. Faz isso muitas vezes e restringe os vários falares do Norte, como Minho, Trás-os-Montes, Profundo, etc. E diz que lhe faz bastante confusão." E depois mandou um abraço: "Até ao Diogo e Boas Festas. Paulo Lopes." Eu não me chamo Diogo, sou o João Costa e Silva, mas compreendo a sua crítica e percebo. Eu muitas vezes faço isto e não é para esquecer todo o Norte.
Eu posso dizer uma coisa, que é: nós temos mesmo de fazer isto. O que eu quero dizer com isto é, nós quando estamos a falar de sotaques e da língua, às vezes falamos com diferentes níveis de aproximação. E claro, quando falamos lá do Norte, parece que estamos a pôr tudo no mesmo saco e é muito diferente.
Não, mas não é.
Mas é a mesma coisa. Muitos brasileiros dizem: "Os portugueses dizem isto ou aquilo", depois nós vamos ver e depende da zona. Mas mesmo assim, eu também às vezes digo: "No Brasil usa-se esta forma, há o sotaque brasileiro e os brasileiros dizem, e com razão também, não há um sotaque brasileiro, há muitos sotaques brasileiros. Mas não deixa de haver algumas características que são comuns. Agora, claro, quando tu muitas vezes dizes lá do Norte, estás a falar de características da tua terra.
Em São João da Madeira, na minha casa.
Sim, mas é um problema de quando se está a discutir a língua, nós não podemos escapar a este problema. Eu também sei dizer: "Em Peniche". Eu vou ter pessoas a dizer: "Mas em Peniche de cima não se diz assim".
Sim, corremos sempre o risco de dizer uma palavra que nunca ninguém ouviu.
Ele tem razão, mas nós pedimos perdão, porque é inevitável cair, neste caso, na generalização linguística.
Às vezes não é mesmo por mal, é mesmo uma questão de nos situarmos geograficamente e não quer dizer que todo o Norte fale da mesma forma, porque não fala.
Lisboa sofre o problema contrário, que é, muitas vezes as pessoas associam, porque Lisboa tem aquele poder linguístico que nós sabemos e que já criticámos também, acaba por ser identificada com uma série de características que às vezes não são só de Lisboa, são de zonas muito mais abrangentes do país. Portanto, Lisboa tem o problema contrário. O Norte às vezes é posto tudo no mesmo saco. Lisboa parece que é responsável por muita coisa que no fundo é do Sul inteiro, ou zonas do Sul, de um centro, de uma fronteira que é difícil de definir. Mas pronto, o Paulo vai te perdoar.
Espero que sim.
Tu perdoaste o facto de ele te chamar de "il", por isso ele vai te perdoar.
É João, Paulo. Um abraço e um ótimo 2026. Eu não levo nada a mal. Queria só esclarecer, porque de facto eu sei, e muitas vezes digo lá no Norte, quando me refiro à minha terra, que é São João da Madeira, que fica ali entre Aveiro e Porto, mas estamos mais perto do Porto, até da área metropolitana do Porto, e pertencemos à área metropolitana do Porto, e portanto, tenho essa tendência a dizer lá no Norte, mas não levem a mal.
E mesmo quando nós dizemos o sotaque do Porto, em particular, as pessoas estão já a dizer: "Do Porto? Mas qual bairro do Porto?" Nós poderíamos estar aqui o dia todo a esmiuçar estas generalizações.
Um grande abraço para todos, seja no Norte, no Centro, no Sul, nas ilhas, em todo o mundo.
No Brasil, em Cabo Verde, em Angola, em Moçambique, em todo o mundo, até quarta-feira estamos de cá.
Estamos de regresso. E com dúvidas, envie para o 91 002 41 85 ou portuguesuave@observador.pt. Um abraço, Marco.
Um abraço.