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Está no ar o "Português Suave", na Rádio Observador. Comigo, o João Costa e Silva e também o José Rafael Lopes. Dupla reunida para receber o Marco Neves. Olá.
Olá, tudo bem?
Viva, Marco. Como é que estás? Bom dia.
Cá estamos.
Sobreviveste ao calor?
Mais ou menos.
Peniche faz muito?
Não. As pessoas de Peniche estavam todas a gozar, entre aspas, quando foi no calor, até punham fotografias. Por exemplo, uma piada que partilharam foi: "A Proteção Civil pede a todos os portugueses que se dirijam para Peniche."
É um sítio seguro.
Estava 20 graus quando estava o resto do país com 40, com 42, em Peniche estava 20 graus.
Aveiro também é aquele distrito que geralmente tem sempre as temperaturas mais baixas, quando o país todo está perto dos 30, 40.
A Zélia goza muito comigo, porque diz que a minha terra é muito fria.
Mas às vezes sabe bem.
Mas é isso. Fui-me casar com alguém ao pé da praia, mas depois é uma praia que é muito fria. Mas a verdade é que sabe bem. E ela agora nesta altura do calor está: "Ai, se fossemos para Peniche."
Às vezes dá jeito.
E também tem lá umas praiazinhas que aquilo aquece um bocadinho.
E muito boa sardinha.
Tem muita boa sardinha, tem o Baleal.
Nunca lá fui, tenho de lá ir.
O Baleal é bom, até porque tem uma praia para norte e outra para sul, portanto, se estiver vento de um lado, o outro lado está protegido. É sempre bom. Fica aqui o conselho.
Marco Neves a vender o seu peixe, não literalmente.
Quase literalmente. Porque há muito peixe lá.
Mas Marco, o que temos neste episódio domingo?
Temos calor, temos muito calor.
Nem de propósito.
Temos Coimbra, onde também passei muito calor. E temos o calor da discussão entre o "porque" com espaço e o "porquê" sem espaço.
Que é uma coisa que o Zé está aqui muito interessado e quer muito saber. Muito. Vamos a isto. Começamos, como é habitual, com a Língua nas Notícias. A Língua nas Notícias e Marco, tu há pouco já levantaste o véu, já desmistificaste. Será que calor esteve muito nas notícias, é verdade, por causa das temperaturas que ultrapassaram os 40 graus.
Eu fui de férias.
Não quis que vocês ficassem tristes. Como é que vamos olhar para o calor?
Vai ser apenas uma pequena viagem no tempo e depois também no espaço, que é quase o mapa da língua. A origem de calor é uma origem antiga, claro, é uma palavra que tinha de existir. Há aquelas palavras que todas as línguas ou quase todas têm, e calor é uma delas, porque é uma das experiências humanas comuns. Se não há uma palavra só para calor, há outra que serve naquela situação. E a origem é uma palavra muito antiga, de 6.500 anos, do protoindoeuropeu, que certamente já vem de outras palavras ainda mais antigas, que é algo como "kal», que quer dizer estar quente. Depois passou a "caleo", que é do proto-itálico, depois passou a "calor" do latim, que se juntou ao "or" e fez calor. Portanto, é uma palavra que já vem de há muito tempo. Isto para vos dizer outra coisa. Quem olha para o português e para o espanhol/castelhano, aqui ao lado e não só, vê que nós temos palavras que são diferentes de forma regular. Por exemplo, os espanhóis dizem muito coisas como "caliente", aquele "iente", aquele ditongo. E nós, em vez de "caliente", temos uma coisa mais curta, que é quente. E por que razão nós temos quente e não temos algo como "calente"? Poderia ser uma forma mais-
Mais colhida ali do terçaleiro.
Sim, exato, que estava mais próxima daquilo que nós temos aqui ao lado. A verdade é que os nossos falantes, e eu já falei disto outras vezes, mas isto é mais uma prova, deixaram cair aquele "L" no meio de muitas palavras. Portanto, começámos a dizer "caente", que está registado, "Está muito caente." Imaginem no século XII ou no século XI, algum português a dizer que está muito caente por aqui. E depois acabamos por deixar cair também o "A", e como não podíamos deixar o "C" e o "E" juntos na escrita, porque senão ficava "cente", tivemos de mudar aquela letra para o "Q" e por isso é que temos o quente. E queria ainda dizer que as línguas vão destruindo, fervendo a língua. As línguas latinas vão fervendo o latim de forma diferente e, por exemplo, o francês, o que faz muitas vezes é transformar aquele "Q" no início em "CH" e fica "chaleur" para o calor. Eu sei que as pessoas estão com mais vontade de ir para a praia e não de ouvir esta história, mas espero que pelo menos tenham gostado de perceber de onde é que vem a nossa palavra quente, calor.
Gostei de "chaleur", mas ainda assim prefiro "caliente". Acho que nós devíamos adotar esta expressão, "caliente".
Nós até dizemos de vez em quando a brincar.
Mas é sempre a brincar e não de uma forma assim mais oficial. Esse é um tema quente, João.
Exato. Se nós começarmos a dizer, quando começar a usar palavras espanholas, isto começa a aquecer.
Começa. O espanhol suave não tem tanta piada. Os comentários vão começar a surgir e a fervilhar aqui dos nossos ouvintes. Vamos fazer como o João agora, então, que partiu numa viagem e nós vamos também numa, mas para o Mapa da Língua. Vamos até uma cidade que eu gosto muito. Marco, no Mapa da Língua vamos até Coimbra.
Vamos até Coimbra.
Tenho muito boas memórias desta cidade.
Eu tenho memórias muito recentes, porque estive lá há poucos dias para a Feira do Livro. E gosto também de Coimbra. Nunca lá vivi, não estudei lá, mas vou lá passear de vez em quando. É uma cidade muito engraçada e gosto muito de a visitar. O Mapa da Língua hoje é sobre aquela ideia que muitas pessoas têm, que já ouvimos muitas vezes, que é em Coimbra que se fala o melhor português. Há muitas pessoas de Coimbra que dizem isso.
Isto quase podia ser também um mito, não é?
E é, na verdade. Nada contra Coimbra, nem contra a maneira de as pessoas falarem em Coimbra, mas particularizar Coimbra como sendo o sítio onde se fala bem é um pouco redutor.
Tem a ver, se calhar, com o facto de ser uma zona mais universidade e a questão de ser muito central, de estar ali entre Porto e Lisboa. Ser o ponto médio, no fundo.
Poderá ser, mas na verdade, penso que a razão principal é porque era lá que os filhos dos lisboetas mais ricos estudavam, para sermos um bocadinho simplistas. É da universidade, os lisboetas que iam para lá tinham a ideia que lá é que se estudava e se aprendia. Vamos separar aqui a oralidade da escrita. Na escrita, nós temos um padrão. E este padrão é criado com base em muitas escolhas ao longo do tempo, com base também no que se faz na universidade, e a única universidade durante muito tempo, Coimbra, com base também no que os escritores escolhem. E por isso, Coimbra tem um papel, por causa da universidade, na definição deste padrão escrito, mas não é o sítio onde se fala melhor.
O que tu foste dizer agora.
Quando usamos o verbo falar, estamos a falar da oralidade. E na oralidade, esta ideia de padrão está um pouco ultrapassada. Houve algum tempo ali entre o final do século XIX e meados do século XX, é um período muito curto na história da língua, em que se definia um padrão para a pronúncia, em que tínhamos de usar até para a comunicação social. E este padrão é muito baseado nos usos de várias cidades do litoral, não só de Coimbra. Lisboa é uma delas e com particular incidência em Lisboa. Coimbra também, Leiria, talvez, mas nem sequer é propriamente a forma de falar mais típica de cada uma destas cidades. É uma espécie de abstração de como é que algumas pessoas nestas cidades falam quando estão em público. E por isso não se pode dizer que em Lisboa se fala melhor, em Coimbra se fala melhor. Portanto, esta ideia de uma pronúncia certa era algo muito limitado no tempo e como nós já discutimos aqui muitas vezes, eu até sou a favor de que na comunicação social se usem muito mais sotaques.
Que haja pluralidade.
Incluindo os vários sotaques de Coimbra, porque quando nós vamos a passear por Coimbra, ouvimos muitos sotaques diferentes. Coimbra não é nada uniforme.
E há muita gente também em Coimbra, que quando eu estive lá na universidade apanhei, que também diz: "os ólios, as jaulas". Portanto, não é um fenómeno só de algumas regiões, até ali em Coimbra se fala assim.
As pessoas têm a ideia de que há uma forma mais perfeita de falar.
Mas o que é isso de ser perfeito? Deixa aqui a questão.
Falar de forma perfeita é o quê? Qualquer um dos sotaques pode ser falado de forma mais clara ou menos clara. Agora, poderia ter perfeitamente acontecido que, quase de forma aleatória, o "os ólios" ter sido a forma escolhida para esse padrão. Não há nada na fonética que indique que dizer "os ólios" é melhor do que dizer "os ólios". Portanto, calhou ficar o "os ólios" porque era o hábito também de muitas pessoas em Lisboa, em Coimbra, algumas, não todas, como já disseste, e como estas pessoas acabaram por ser as que falavam nos primeiros tempos na comunicação social, ficou esta ideia de que era a forma certa de falar. Portanto, não, Coimbra não tem o melhor português, o melhor português é o que está na boca dos portugueses em geral e dos outros falantes também da língua, que não são só os portugueses, claro. Teve a sua importância na definição do padrão escrito, mas convinha, se calhar, começarmos mais a lutar por respeitar todas estas variações do que propriamente estar a impor uma delas.
Bem, Marco. Muito bem. O melhor português, ele está na boca dos portugueses.
Não sei se as pessoas de Coimbra vão gostar muito desta explicação, porque eles defendem muito isto.
Eu ainda vou fazer pior agora a seguir nos mitos.
Eu espero poder voltar a Coimbra em paz.
Vamos já, vamos para os mitos. Marco, cá estamos nos mitos, mitos e origens da língua. Sempre foste muito bem recitando Coimbra.
Vai mudar agora.
Vai mudar a partir de agora. Então, por quê?
É assim, dois mitos. O primeiro não tem nada a ver com língua. De vez em quando também podemos passear um bocadinho e sair, mas este foi um mito que eu vi num vídeo. Vamos ao de Coimbra e depois a seguir um mito útil sobre o porquê. Com espaço e sem espaço.
Estás a ficar ligeiramente nervoso, Marco Neves.
Estou a ficar. Estou aqui a pensar nas pessoas de Coimbra.
Estás a pensar no que vais fazer.
Não, mas há uma ideia. É assim, eu esta semana publiquei dois vídeos sobre as capitais de Portugal. E no segundo vídeo eu ia dizer as várias cidades que foram consideradas capital, ou que nós hoje dizemos que foram capitais, quando, na verdade, por exemplo, nós dizemos que Guimarães foi capital de Portugal, é muito anacrônico, porque na altura não havia propriamente capitais de um Estado, era uma coisa um pouco diferente. Mas enfim, é costume dizer-se que Guimarães foi capital, que Coimbra foi capital. Que Lisboa foi e é capital, que o Rio de Janeiro foi capital durante algum tempo e Angra do Heroísmo também durante as guerras liberais. Tradicionalmente, são estas as cinco cidades. Depois há pessoas que defendem que Santarém também, que o Porto e poderíamos estar aqui a discutir o dia todo. Mas eu já sabia que ia receber um comentário muito curioso, que eu só descobri na internet. É aquelas ideias que aparecem na internet, como também quem tem boca vai a Roma e vai a Arnon. Já sabia que ia receber muitos comentários a dizer: "Não, a capital de Portugal é Coimbra ainda". E é verdade que nesse segundo vídeo recebi dezenas de comentários a dizer: "Coimbra que é a capital de Portugal", mas eu tinha publicado um vídeo antes a dizer por que razão é que não é. Este mito, que surgiu também provavelmente na internet, é que nunca houve nenhum documento a passar a capital de Coimbra para Lisboa e que, por isso, tecnicamente, e não há nenhuma lei, nada que diga que Lisboa é a capital de Portugal e, por isso, tecnicamente, Coimbra é a capital. E as pessoas repetem isto até à exaustão, mas é falso do princípio ao fim, porque nunca houve nenhum documento em que se dissesse: "A capital passa de Coimbra para Lisboa", mas também nunca houve nenhum documento que dissesse: "A capital passa para Coimbra". Por essa lógica, Coimbra também não era capital. A Constituição de 1822 diz que Lisboa é capital. Há não sei quantas leis em Portugal que dizem que Lisboa é capital. Portanto, é algo que é repetido à exaustão na legislação portuguesa, e por isso não há razão nenhuma para considerar que Coimbra é capital. Há algumas pessoas que argumentam, e eu aceito isso, que é um pouco estranho que a nossa Constituição não diga que Lisboa é capital, mas isso é questão só de estar ou não estar escrito na Constituição. Acho que é óbvio que Lisboa é. E acho muito estranho, ou melhor, não acho estranho, acho que é uma característica muito humana, que nós, quando ouvimos este tipo de ideias, que também acontece muito na língua, que são contra aquilo que a maior parte das pessoas pensa, gostamos muito de acreditar nisso. Ir atrás daquilo que é diferente. E às vezes acontece, mas neste caso, não. Coimbra não é capital de Portugal. Será que posso lá voltar?
Acredito que sim. Eu ia dizer isso.
Já disse que eles não têm o melhor português, mas também não têm.
Não são a capital. A seguir vais acusar: os museus também não prestam.
Os museus são muito bons. Coimbra é uma ótima cidade.
Riquíssima em termos de cultura.
Falam-se tão bem, como em Lisboa, como no Porto, como em qualquer outro sítio. E já foi a capital.
É verdade. Apesar de não haver documentos oficiais.
Exatamente. Espero lá poder voltar.
Um abraço para Coimbra.
Um abraço.
Marco, ainda temos aqui um segundo.
Tenho muitos amigos em Coimbra, atenção.
Vamos ver se continuam.
Tinha. Veremos.
O que também tens é um segundo mito para nos trazeres.
Sim, temos tempo este dia?
Sim, temos.
Muito bem.
Já falámos sobre isto aqui, mas convém sempre.
"Porque" com espaço e "porquê" sem espaço. O que temos aqui é uma dúvida muito antiga, recorrente, que me aparece muitas vezes: quando é que nós usamos "por que" com espaço e "porquê" sem espaço? O problema aqui é que no Brasil usa-se de uma maneira, em Portugal usa-se de outra. E em Portugal há duas correntes de pensamento. Há pessoas que defendem que devíamos usar a forma brasileira, digamos assim. No Brasil, quando é uma pergunta, usa-se sempre com espaço: "por que foste lá, foste a Coimbra?" E quando é a resposta, usamos sem espaço: "Fui a Coimbra porque me apeteceu". Agora, em Portugal, nós não fazemos bem assim, pelo menos desde meados do século XX, que a convenção, estas convenções surgiram ali em meados do século XX. A convenção é: nas perguntas usa-se também tudo junto, nas respostas também tudo junto, com uma exceção. Quando nas perguntas nós temos um nome a seguir, "por que razão", "por que motivo", aí separamos, porque a estrutura sintática é diferente. Quando nós podemos substituir por "por qual": "Por qual motivo foste a Lisboa?", "Por qual razão foste ao Porto?". Então aí devemos usar "porquê" separado. Nas outras situações todas, é sempre junto.
Excelente explicação.
Mas isto é um mito. Sabes aquela expressão inglesa que temos o trigger, como é que nós podemos dizer isto?
Ficas engatado com o quê?
O gatilho.
Isso aconteceu há uns episódios quando, lembras-te quando eu disse teaser e eu perguntei: "Como é que podemos dizer isto em português?" E tu disseste: "Antecipação". Nós estamos sempre muito mais habituados a dizer teaser do que antecipação.
E o gatilho será uma tradução para trigger, mas se calhar as pessoas também, enfim. Isso é um bom tema para o programa.
Sim.
A utilização destes termos ingleses.
Expressões portuguesas que são substituídas por expressões em inglês com muita facilidade.
Mas pronto, então há aqui um gatilho, que eu já sei que se eu escrevo algum texto em que tenho "porque" no início e uso "porquê" tudo junto, eu vou receber comentários de pessoas a dizer que está mal. E às vezes quando eu estou para discutir e dizer isto, eu deixo de propósito. Quando estou numa altura em que estou mais cansado e não me está a apetecer responder a tantas respostas, eu ponho "por que razão", porque aí não há dúvidas, é "por que razão".
E há sempre um português suave para esclarecer tudo. Nós vamos ficar por aqui neste episódio domingo. Só lembrar os nossos ouvintes, podem continuar a enviar dúvidas, agora para o nosso número do WhatsApp, 910024185. Já recebemos alguns áudios, agradecemos por isso e na próxima semana fica aqui prometido que vamos ouvir os nossos ouvintes com dúvidas que eventualmente vão surgindo.
Não já no próximo episódio extra, este ainda não, mas no outro vamos juntar várias dúvidas.
Exatamente. Estamos aqui a juntar tudo para fazer um grande episódio. E não se esqueça, áudios até 30 segundos, porque o episódio só tem 10 minutos.
Só 31 segundos, nós aceitamos.
Nós cortamos o bom dia.
Exato, nós cortamos. Se for um obrigado, fica "obrig". Pronto, fica assim. Eu tenho uma dúvida.
Passa: "Tem dúvida".
Será que se diz 31 segundos ou 31 segundo? Fica a sugestão que os leitores enviem o áudio com esta dúvida e eu depois respondo.
Já estás aqui a solicitar inscrições, vamos dizer assim. Marco Neves, Zé, um abraço.
Grande abraço.
Estamos de regresso na quarta-feira com o episódio extra. Até lá.