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Nova semana, novo episódio do "Português Suave". Marco Neves, hoje estás à distância e junta-se a nós o Miguel Cordeiro. Quero muito saber onde é que estás.

Onde é que eu estou? Estou aqui mais para cima no mapa. Estou na Beira Interior, ou Beira Alta, se quisermos, na Guarda.

Ótimo.

É bom, é uma boa zona.

É ótimo para comer, ótimo para visitar. É ótimo para descansar também.

Neste caso, não vim propriamente descansar, mas quero aproveitar um pouco, mas vim aqui para participar e ir a uma escola na Covilhã. Fui a essa escola na sexta-feira, já falo um pouco mais sobre isso, e também para participar no Salão do Livro da Guarda. Já agora, fica o convite para quem quiser ir. Eu estou aqui com o Sam the Kid a falar sobre língua portuguesa e por isso tenho que fazer aqui o "Português Suave" à distância, mas acho que não faz mal. Vamos continuando a conversar.

Muito bem. E então, o que temos para hoje, Marco?

Vamos falar sobre, como é habitual, a língua das notícias. Vamos falar de uma palavra que está nas notícias, que eu não vou dizer já, senão estou a revelar quase tudo.

Vamos já descobrir, já a seguir também.

Exato, é já a seguir. E depois também falaremos de palavras aqui da zona, neste caso da Covilhã, porque eu pedi na tal escola onde fui algumas palavras e acabamos com um mito que eu vou deixar para o final, para que as pessoas oiçam até o fim para saber qual é o mito.

Meteste as pessoas todas a trabalhar para ti. Tu, de facto, não paras um segundo. Vamos então arrancar este "Português Suave". Começamos, como é habitual, com a língua das notícias. Muito bem, Marco. Que palavra temos hoje que está em destaque nas notícias?

Há sempre muitas notícias, mas tivemos muita coisa na última semana. Tivemos o resultado das eleições, tivemos muita coisa, mas pensei nas negociações que existiram ou que ainda existem, não se sabe muito bem, entre a Ucrânia e a Rússia, para chegarem a algum cessar-fogo. Mas pensei então na palavra negociações, que é daquelas etimologias até relativamente bem conhecidas, mas não queria deixar de falar dela, porque tudo começa com a palavra ócio, em latim ainda, passamos para a negação do ócio, o negócio. Portanto, o negócio, na verdade, é o que nós fazemos quando não estamos no tempo de ócio. O que eu acho curioso nesta etimologia é que o ponto de partida é mesmo o ócio. E eu não tenho nada contra essa ideia. O centro da vida é quando nós não estamos no negócio, mas sim quando estamos a descansar, quando estamos a pensar noutra coisa. E depois temos aqueles momentos de não ócio, de negócio. E daí, se virmos bem, passamos aqui, deslizamos daquilo que fazemos quando não estamos a descansar para negócio, trocas, compra e venda, o que se faz no comércio. E depois começamos também a ter este sentido de negociação, de tentar discutir com a outra parte o que é que um faz e o outro aceita ou não. Portanto, partimos do ócio até chegarmos aqui às negociações para a paz. E as palavras fazem estas viagens ao longo do tempo. Neste caso, eu gostava que esta viagem terminasse com negociações que, de facto, dessem origem a alguma paz.

Ou seja, que tivéssemos negociações, um negócio que desse origem ao ócio para todos esses territórios que estão em conflito.

Que eles possam descansar, no futuro, possam chegar ao descanso.

Parece que vamos ter de esperar mais um pouco e quem sabe se esta palavra não volta a estar em destaque neste "Português Suave", porque é uma palavra de que vamos continuar a ouvir falar, com certeza. Entretanto, Marco, podemos já avançar para a próxima. Vamos até ao Mapa da Língua. Sei que andaste a pôr pessoas a trabalhar para ti e vamos descobrir o desfecho disto já a seguir. E por isso, Marco, pelo que percebi e pelo que disseste na introdução, vamos ter contigo até à Guarda. É isso?

Sim, eu estou na Guarda, mas estou na Guarda depois de ter estado um pouco mais a sul, na Covilhã. Na Covilhã, onde estive numa escola secundária e eu imagino que, eu disse mesmo na sessão, eu estava lá a conversar com o Sam the Kid sobre língua portuguesa, foi uma sessão muito curiosa e até profunda no que toca à criação com a língua. Nós aqui estamos a falar do material da língua portuguesa e ali foi uma conversa entre alguém que estuda a língua e alguém que usa essa língua para criar qualquer coisa. E foi uma conversa muito interessante. E eu disse aos alunos todos que lá estavam e aos professores que ia falar das palavras da Covilhã no programa "Português Suave" e eles disseram-

O nosso episódio vai disparar de plays no interior do país.

É uma zona montanhosa e ali vamos ter um pico de audiência na Covilhã. E eu pedi então se me podiam dar palavras e começaram a dizer, mas entretanto houve um aluno, o Matias, que eu prometi que dizia o nome dele no episódio, ainda por cima é o nome de um dos meus filhos.

Sim, estava a pensar nisso.

Exato, não me esqueci do nome. Ele enviou uma página, que não é dele, é de Paulo Jesus, com um glossário de palavras típicas ou da gíria covilhanense. E eu agora gostava de fazer-vos um desafio. Vou dizer aqui umas cinco palavras ao calhas.

Vamos a isso. Tu adoras fazer isto, não é? Ainda por cima hoje estás à distância, estás seguro.

Exato, vocês não me podem bater nenhum açoite. O que é curioso aqui, antes de começar, é que algumas das palavras eu até reconheço. Ou até de palavras da minha zona, de Peniche, que é bastante longe daqui, ou da zona da minha mulher, de Ponte de Sor, e algumas até de Lisboa. Mas eu vou tentar escolher palavras que sejam difíceis, não vos quero facilitar a vida.

Vamos a isso.

Então, a primeira será amadojar.

É marujar.

Não vem de marujo, não?

Somos bons no mar.

Pois.

Arranjar?

Não. Aqui o significado que o Paulo pôs nesta página é azedar, quando alguma coisa fica maruja.

Mas talvez de amadurecer, venha daí, talvez de ficar demasiado maduro, não sei.

Talvez, é bem possível.

Pode ser.

Não sei. Agora, uma um bocadinho arriscada, mas não faz mal: caganeirento. O que é que acham?

É uma pessoa muito vaidosa.

Exatamente.

Como é que sabes isto? Porque lá em cima, no norte, usa-se peneirento, que é o mesmo significado, que é uma pessoa muito vaidosa.

Sim, muito bem. Eu em Peniche também usava peneirento.

Eu nunca tinha ouvido. Peneirento já ouvi, mas não estava a fazer aqui uma ligação direta a caganeirento. Que é uma palavra difícil de dizer.

Sim.

Sim.

Bem, esta aqui eu não adivinhava: malápio. Eu digo já que de todas é a mais difícil. Nunca iria lá chegar.

Uma pessoa duvidosa.

Não.

Mas malápio é um adjetivo?

É uma fruta.

É uma fruta, então não chega lá.

É uma fruta?

É uma fruta.

Mas é uma fruta que já existe e estão a dar outro nome?

Nós comemos esta fruta várias vezes.

Ok.

Ela tem um nome muito comum, começa por M, começa por A.

Maçã?

Maçã, exatamente. Eu nunca descobriria.

Nunca chegaria lá.

Esta aqui eu julgo que é muito mais geral, não é só da Covilhã, porque eu lembro-me dela desde o início: malenjorcado. Desde o início da minha vida.

Repete lá, Marco, desculpa.

Malenjorcado. Eu usava isto em Peniche.

Não conheço essa expressão, por acaso.

Olha, então é mesmo duas ilhas: Peniche, Covilhã. A ligação. Temos mal arranjado. Isto é mal arranjado. Uma pessoa malenjorcada é uma pessoa mal arranjada, não está com a camisa bem posta nas calças.

Com mau aspeto, pode ser?

Como?

Uma pessoa de mau aspeto.

Sim, não é bem mau aspeto. Imagina, tu até podes estar bem vestido, mas não estás bem arranjado.

Quase desengonçado.

Exatamente. Desengonçado, a roupa está fora do sítio, a gravata já vai para trás. Quando vamos a um casamento, por volta das três da manhã estamos todos malenjorcados.

Sim, verdade.

Agora, esta também é muito famosa e não vos quero dar só coisas difíceis: armado ao pingarelho.

Ter a mania.

Isto é excesso de bazófia. Ou não?

Sim, exatamente. Bazófia, exatamente. E só a última, já nem sei se vão das cinco, se vão das seis.

Já ultrapassámos.

Acho que já ultrapassámos, mas mesmo assim fica aqui: tortulho.

Vem de tortura?

Não.

Tortulho.

Desajeitado de corpo. Pode ser uma pessoa que é torta.

Por acaso é desengonçado.

Pois, é um bocado desengonçado, malenjorcado, tortulho, enfim, estamos aqui várias palavras.

Então podemos ter um tortulho malenjorcado.

Exatamente, uma pessoa que é desengonçada do corpo e não se veste bem.

Já estás a juntar as palavras.

Eu tenho que dizer que esta lista é enorme, mas eu fui escolhendo aqui um bocadinho a olho. A letra V tem aqui uma muito curiosa: vacão, que é preguiçoso.

Vacão.

Fica aqui uma série de palavras. E eu agradeço muito ao Matias e a todos os alunos da Escola Secundária Quinta das Palmeiras, que estavam muito entusiasmados e ficaram muito contentes por saber que iam participar assim indiretamente.

Um abraço pra eles. Devem estar a ouvir o "Português Suave", cheios de orgulho. E nós enviamos daqui um grande abraço, em especial ao Matias, que contribuiu com esta lista, que é do Paulo Jesus, e que está na internet e pode ser consultada por todos. Não consultem, porque num próximo episódio, se calhar, ainda trazemos mais umas quantas, não é, Marco Neves? Fica aqui prometido.

Sim, talvez. Podemos ficar aqui virtualmente ainda pela Covilhã e pela Guarda, por esta zona que é muito boa. Para dizer a verdade, eu gosto muito de estar por aqui.

Fica combinado. Vamos seguir em frente e pra nossa última rubrica.

Vamos falar de mitos e que mito vamos analisar hoje?

Bem, é uma daquelas ideias, de vez em quando nós falamos aqui de mitos que são comuns, que muitas pessoas acreditam neles, e nós todos acreditamos. Certamente, eu tenho a certeza que não há ninguém que não acredite em algum disparate. Isso todos nós temos algum mito na cabeça, seja da língua, seja do que for. Mas aqui é um mito mais raro, mas que mesmo assim se encontra de vez em quando. Eu há uns tempos, naquelas conversas que vamos tendo nas redes sociais, falo da língua portuguesa, e depois há pessoas que fazem perguntas, outras pessoas que dizem coisas acertadas, outras que criticam e até têm razão, outras criticam e nem sempre têm razão, digo eu, na minha perspectiva. E neste caso, foi alguém que me disse que eu estava a usar muitas vezes uma palavra completamente errada. E a palavra era, e esta, claro, diz muito, a palavra língua. Esta pessoa dizia-me que eu não posso usar língua para me referir ao português, porque língua é o órgão do corpo humano que está dentro da boca e por isso tenho sempre de usar a palavra idioma. Ele já vinha com a solução.

Ou seja, tens sempre de dizer idioma português.

Idioma português. Nós estamos aqui a discutir o idioma português ou só o português. Mas eu fiquei assim com aquele ar de: "Mas cai de...."

Estou a imaginar a tua cara neste momento.

O que eu disse foi uma coisa muito simples, mas já agora aproveitamos esta pequena daquelas discussões um pouco absurdas de internet para sublinhar algo que é comum a todas as línguas do mundo. Ninguém encontrou até hoje uma língua que não fosse assim, e houve até filósofos ao longo do tempo que tentaram criar uma língua que não fosse assim e não conseguiram, que é: em todas as línguas, as palavras têm vários sentidos. E podem dizer: "Algumas palavras têm." Não. Abram o dicionário e lá, de vez em quando, encontramos uma palavra ou outra que só lá tem uma entrada no sentido, mas quase todas têm vários significados. E isto é curioso, porque nós lidamos bem com isto. Temos uma palavra que tem vários sentidos, e nós quando usamos a palavra num contexto, ou numa frase, ou num texto, ela ganha um sentido preciso. E isto é algo que é muito óbvio, mas ao mesmo tempo as pessoas, como é que eu vou dizer, às vezes caem neste erro de: "Não, não é língua, porque língua é o órgão". E eu respondi uma coisa também a este senhor que me disse isto: órgão Também é o instrumento musical.

É verdade.

Usar órgão. Faz sentido. Portanto, deixo de usar órgão, uso outra palavra qualquer. Isto só para dizer que nós temos esta característica universal da língua. Se há poucas características universais da linguagem humana e esta é uma delas, em todas as línguas, uma grande parte das palavras é uma espécie de nuvem de sentidos que depois se concretiza em cada frase. E isto, para mim, é algo curioso e também é o que permite depois criar poesia.

Olha o que bonito que tu acabaste de dizer.

O que eu acabei de dizer?

A questão da poesia, levas isto tudo para a poesia. Começas isto no conflito e acabas com a poesia.

A culpa foi da conversa com o Sami, que estávamos a falar de poesia.

É para a poesia, eu uso muito para a poesia, para a música, para o humor, esse duplo sentido das palavras.

Exatamente. Os trocadilhos. Se a linguagem humana não tivesse esta característica, seria muito mais desinteressante, na minha opinião. É só para dizer que eu posso dizer língua e vou continuar a dizer. Com certeza que todos nós erramos e eu também terei errado. Não foi neste caso, não foi nesta conversa. E estamos aqui a apontar, e usei este mito só para apontar para esta característica central e deliciosa da nossa linguagem, nem sequer da nossa língua, da linguagem humana.

Talvez quando seja preciso comunicar com aliens seja mais complicado, mas para já estamos bem com isto.

Estamos seguros. Para já, ainda estamos bem. Ainda não chegámos a esse ponto. Depois podemos ter duas palavras para discutir nesta semana.

Não te metas em conflitos, Marco Neves. Não te metas em conflitos, entre aspas, que a nossa língua é diversa e é bom que tenhamos essa diversidade. Sempre. E nós falamos muito disso.

Estavas a falar de conflitos com aliens.

Não. Também. Cada um faz o que quer. Entretanto, nós fechamos este capítulo do "Português Suave". Quarta-feira temos um episódio especial. Especial no sentido de ser extra, só com dúvidas. Devo dizer, Marco, que recebi muitas mensagens, até mesmo aqui das pessoas que trabalham conosco no Observador, a propósito do episódio da semana passada, o extra, em que falámos do top 10 dos erros mais irritantes do português, e as pessoas querem muito ouvir o top das palavras mais feias e também das mais bonitas. Portanto, temos de tratar disso. Mas dizer também que dúvidas, já sabes, diz lá o e-mail. Sabes de cor e salteado.

portuguessuave@observador.pt, o e-mail. Eu não me esqueço dele, nem em Lisboa, nem na Guarda, nem na Covilhã. É só enviar dúvidas e nós tentaremos responder logo que possível.

Exatamente. E podem também sempre chatear-te nas redes sociais, porque tu também recebes muitas mensagens por lá.

Já sabem, se me vierem dizer que eu não posso usar a palavra língua, depois eu aborreço-me um bocadinho.

Marco Neves, um grande abraço e ficamos por aqui no episódio desta semana.

Um abraço.