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Boa tarde, bem-vindos ao "Prémio de Jogo". Semanalmente vamos olhar para esta vertente financeira e de marketing do mundo do desporto. Para isso contamos sempre com a presença do professor Daniel Sá, diretor-executivo do Instituto Português de Administração e Marketing, e também especialista em marketing desportivo. Boa tarde, Daniel, bem-vindo.

Boa tarde.

Esta semana vamos abrir esta conversa com um tema incontornável: a realização da fase final da Liga dos Campeões em Portugal, que foi oficializada esta semana. Vamos ouvir.

Os quartos de final, as meias-finais e a final da Liga dos Campeões vão ser jogadas num torneio ao oito, em Lisboa, entre 12 e 23 de agosto de 2020. Os jogos que faltam da segunda mão dos oitavos de final vão ser jogados a 7 e 8 de agosto, dependendo do local onde se realizarem. Pode ser nos estádios da equipa da casa ou em Portugal. Isto ainda não foi decidido, mas se os jogos que faltam dos oitavos de final se jogarem em Portugal, as cidades do Porto e de Guimarães vão juntar-se à cidade de Lisboa.

O anúncio oficial de que Portugal vai receber sete jogos da Liga dos Campeões. Daniel Sá, já disse que esta é a melhor campanha de marketing que Portugal pode ter nesta altura. Eu ia um bocadinho mais longe e perguntava-lhe se é também um selo de qualidade e segurança que acaba por ser atribuído a Portugal em vários setores, não só no desporto, mas também na questão hoteleira e de segurança.

Indiscutivelmente, é uma notícia que extravasa completamente a área de atuação do futebol. Não esquecer que do ponto de vista de qualidade, nós temos um Euro 2004, uma final da Champions em Lisboa em 2014 e uma Liga das Nações no ano passado, ou seja, para um país apenas, são três grandes competições e, portanto, esta novidade, esta Final 8, é seguramente um carimbo de qualidade que a UEFA nos entrega. Do ponto de vista de segurança, naturalmente que sim, tem tudo a ver com o contexto que estamos a viver, uma pandemia, o mundo paralisado durante três meses e é preciso agora gradualmente desconfinar, que é a palavra que nós nos habituámos a ouvir muito nas últimas semanas e, portanto, para quem precisa de desconfinar e de recuperar a economia, esta é a melhor campanha publicitária que nos podia sair, porque basicamente nós temos a final da Champions, tipicamente é vista em televisão por 800 milhões de pessoas. Vamos ter 12 dias intensos de competição onde vamos ser o palco do mundo com esta Final 8 e já estamos a capitalizar com praticamente dois meses, desde que sai a notícia, onde vamos poder, na prática, melhorar a perceção que os estrangeiros têm sobre nós. Ou seja, esta mensagem diz-nos claramente que somos um destino de qualidade para quem quer vir fazer turismo, para quem quer vir fazer negócios e para quem quer vir viver para Portugal. E portanto, são excelentes notícias para nós.

E numa decisão destas, há vários fatores que entram aqui na tabela de peso e medida da UEFA que atribui este evento. Portugal, que como o Daniel Sá estava a dizer, tem também já este histórico na organização de vários eventos desportivos. Este é um setor que tem sido, aliás, a aposta de vários promotores e é também isso que deu conta o Turismo de Portugal em reação a esta atribuição.

Acho que é também um reconhecimento daquilo que foi feito nos últimos anos. O facto de Portugal estar no top 10 dos países mais competitivos para organizar eventos desta natureza e Lisboa ser a segunda cidade no mundo mais competitiva, é também sintomático daquilo que foi feito nos últimos anos, que é de posicionar Portugal também na área dos eventos e neste campo dos eventos desportivos, como um dos melhores destinos do mundo.

Luís Araújo, do Turismo de Portugal, em reação a esta atribuição. Aquilo que lhe perguntava, já falámos aqui um bocadinho disso, mas numa altura destas de particular sensibilidade, é este histórico, mais do que a capacidade de infraestruturas, diria eu, em Portugal, é este histórico das pessoas que lideram a Federação Portuguesa de Futebol, por exemplo, que pesou aqui nesta atribuição, porque a UEFA sabe que pode ficar descansada?

Ora bem, nunca saberemos, porque a história nunca há de ser contada devidamente, mas parece evidente que sim. Ou seja, a partir do momento que Istambul colocou bastantes reservas, porque antecipou, para além das questões de saúde pública, que nunca iria ter o retorno financeiro que esperava num cenário destes, eu na prática acho que com muita rapidez, Fernando Gomes deixou a abertura total, aliás, esta informação até é pública, junto dos responsáveis máximos da UEFA dizer: "Contem conosco, nós com muita rapidez conseguimos montar esta Final 8 e garantimos o apoio do governo". E portanto, com muita rapidez, foi mostrada a disponibilidade à UEFA, houve uma rápida atuação junto do governo também para que houvesse o devido apoio, empenho e compromisso. E, portanto, diria eu que a UEFA, perante uma mensagem dita desta forma, num país que tem feito um trabalho tremendo, que tem este histórico a nível de turismo, com prémios atrás de prémios, que provam de uma forma clara a nossa capacidade organizativa e de hospitalidade. Eu diria que isto foi uma enorme mensagem de tranquilidade para a UEFA, que apesar de outras candidaturas, vale a pena recordar, não hesitou em selecionar Lisboa e presumo que estejam bastante descansados e confortáveis com a decisão que acabaram de tomar.

Falou no retorno financeiro e ia lhe perguntar isso, que em 2014 Lisboa já tinha recebido uma final no Estádio da Luz, mas este vai ser um formato totalmente diferente. Aquilo que lhe perguntava era se os sete jogos que vamos ter em Portugal sem adeptos são mais ou menos proveitosos do que uma final tradicional, com todas aquelas atividades paralelas que conhecemos, com as questões corporate que existem nesses jogos, de patrocinadores, de convidados. Vão ser mais ou menos proveitosos estes sete jogos à porta fechada?

Falta-nos saber ainda uma variável para responder com clareza a pergunta, que é: vamos ou não ter público? E se sim, que quantidade de público é que vamos ter? Porque, a título de exemplo, em 2014, nós estudámos o impacto económico da final do Atlético de Madrid e Real Madrid realizada no Estádio da Luz e a nossa estimativa apontou para o impacto económico na cidade de Lisboa que superava os 50 milhões de euros. Estes 50 milhões de euros vinham praticamente metade de hotelaria, 22% de restauração e depois todos os outros fatores relacionados com uma final da Champions. Não são apenas os 90 minutos de jogo. Há uma espécie de circo montado durante uma semana na cidade, com muita ativação de patrocínio, muita ativação, muita ligação com os adeptos. Portanto, há uma série de serviços aqui que são consumidos também. E os 70 mil visitantes que nós tivemos entre adeptos dos clubes e todo o staff da UEFA e dos patrocinadores, é de facto uma enchente que tem um impacto muito significativo num país. Ora, o que é que nós podemos contar? Em vez de um jogo de 2014, vamos ter sete em 2020. Logo aqui à partida, é muito mais interessante, mas não sabemos exatamente. Podemos correr o risco de ter uma final de estádio vazio. Eu não acredito, honestamente, porque a Champions é paga pelos patrocinadores e pelas televisões e eu acho que não vão abdicar, dentro das regras de segurança e de saúde que vai ser necessário manter, de ativar estes seus patrocínios e estas suas participações na competição. Portanto, falta-nos aqui responder a esta questão, que daqui a cerca de um mês vamos ter certeza sobre a presença ou não de adeptos. Num cenário de não termos adeptos, eu diria que entre staff, patrocinadores, comitivas de equipas, nós, no mínimo, teremos um impacto de 10 milhões de euros. A partir daqui, se tivermos público, tudo isto se vai incrementar de uma forma muito significativa.

Porque abre depois também possibilidades novas para os patrocinadores ativarem essa marca com a presença de adeptos.

Indiscutivelmente, e é esse o grande objetivo. Aliás, a título de curiosidade, numa final da Champions, quase um terço da lotação do estádio é reservada a patrocinadores para os seus clientes, parceiros, por aí fora. Nós às vezes não temos bem essa noção, achamos que é só adeptos das duas equipas finalistas, mas não é assim bem verdade. Isto é um negócio e o negócio tem este tipo de características que eu acho que se vão manter, naturalmente.

Daniel Sá, para rematar este assunto da semana, isto para os clubes nacionais, em especial para o Sporting e o Benfica, é também uma oportunidade para ganharem know-how. E aqui se calhar falo mais do Sporting, porque desde a final da Taça UEFA que não recebe um grande evento de futebol.

Sim, neste caso, sem dúvida que sim. Uma organização de uma competição deste género eleva a fasquia e eleva a vários níveis. Há aqui uma participação muito ativa dos profissionais do Benfica e do Sporting a vários níveis, que colaboram ativamente com todo o staff da UEFA. Portanto, indiscutivelmente que sim. E os eventos têm evoluído muito nos últimos anos, o nível de detalhe, a experiência que é montada para televisão e a experiência que é montada para o adepto, vai evoluindo com muito significado. E o Benfica já tinha tido uma final mais recentemente, apesar de já lá irem quase seis anos, o Sporting com uma distância bem maior, mas evidentemente que sim. E há também aqui um benefício financeiro para Benfica e Sporting, seguramente pela utilização dos estádios. Não é conhecido o valor, a UEFA normalmente não o divulga, mas também há essa vantagem de haver aqui uma receita adicional para os dois clubes de Lisboa.

A Liga dos Campeões, que se vai jogar em Portugal entre os dias 13 e 23 de agosto. Vamos agora, ainda neste prémio de jogo, olhar para o prémio de jogo desta semana. Daniel Sá, esta semana vamos olhar para o caso do Bayern de Munique, que sagrou-se novamente campeão alemão, é o oitavo ano consecutivo. E olhando aqui para este modelo de gestão, há uma particularidade que me saltou à vista, que é muito assente em jogadores. Primeiro Franz Beckenbauer, agora Karl-Heinz Rummenigge, é o atual chairman do clube, e o sucessor vai ser Oliver Kahn, que era o antigo guarda-redes. Esta junção entre a paixão e a capacidade de gestão acaba por ser curiosa.

Muito curiosa mesmo, eu quase que diria que é atípica no contexto do futebol europeu, porque na verdade os ex-jogadores, habitualmente nós estamos habituados a vê-los mais encaminhados para a componente desportiva ou enquanto treinadores ou em direções desportivas, e muito raramente vemos os jogadores evoluírem para estas funções de liderança e de gestão. Ora, sendo capazes, tendo o conhecimento e a formação que o têm, certamente, eu diria que conseguem aliar aqui numa combinação explosiva, o que podem ser as capacidades técnicas e de gestão com um profundo conhecimento, porque um ex-atleta vive o futebol de uma forma completamente especial, ou seja, entende o raciocínio dos adeptos de uma maneira muito significativa, que noutros negócios teria muitas vantagens. Às vezes temos líderes empresariais de empresas que estão tão distantes do contacto com o cliente, que às vezes acabam por não ter bem noção de algumas decisões, de algumas atuações que eles podem ter enquanto clientes. Neste caso, é seguramente uma vantagem.

É um bocadinho aquela ideia de empresa familiar, não é? Porque acaba por sentir o clube de outra maneira.

Sem dúvida. E vale a pena aqui também explicar aqui um bocadinho os resultados financeiros de um clube como o Bayern de Munique. Ou seja, em primeiro lugar, eu diria que eles são alemães e nós estamos habituados a tudo que seja alemão.

Ter contas certas.

Ter as contas muito certas. Basta olharmos, começando pelo próprio governo alemão e por todo o poderio económico das empresas alemãs, e entendemos que o futebol não é exceção Para entendermos um pouco o que estamos a falar. O Bayern de Munique do ano passado, onde até teve uma má prestação na Champions League, teve uma receita de 660 milhões de euros, o que lhe dá o quarto lugar no ranking europeu dos clubes mais ricos, apenas atrás de Real Madrid, Barcelona e Manchester United. Estamos a falar de um clube que tem um nível de receitas absolutamente espantoso num estádio que tipicamente tem 75 mil espectadores em termos de assistência média. Quando nós vemos o sucesso desportivo do Bayern de Munique, não esquecer também que há um sucesso empresarial muito significativo aqui por trás.

É um modelo que faz escola. Voltamos agora a território nacional para fechar este primeiro programa, vamos à multa da semana. Esta semana, seis clubes do Campeonato de Portugal protestaram em frente à Cidade do Futebol contra a solução encontrada pela Federação Portuguesa de Futebol para a subida à Segunda Liga, ou seja, só dois clubes é que vão subir à Segunda Liga, enquanto os restantes foram impedidos de jogar o playoff. Esta foi uma decisão que mereceu até o reparo do treinador do Sporting, Rúben Amorim.

O presidente do Sporting vai ser recebido agora pelo Presidente da República e poderá responder melhor. Para nós é um orgulho sempre receber a maior competição de clubes da Europa. Também não queria deixar de dizer que o empenho que se mostrou para trazer esta prova também poderia ser utilizado para determinar, por exemplo, o CNS. E eu falo disto porque estive lá há pouco tempo e sei dos sacrifícios que os clubes fazem. Acho que era importante também haver essa atenção com esses clubes. De resto, acho que é importante recebermos estas competições. É um sinal de que Portugal tem valor na sua organização, que respondemos bem à pandemia e portanto vamos ter futebol de espetáculo aqui e é sempre bom.

Daniel Sá, pegando neste recado do Rúben Amorim, eu perguntava-lhe para um clube desta dimensão, que está ali naquele limbo entre ser totalmente profissional e semiprofissional, qual é que é o impacto de ter este sonho adiado um ano financeiramente? Até porque há muitos que acabam por viver um bocadinho acima das possibilidades com o objetivo de subir muito rapidamente.

É um impacto muito grande, naturalmente. Nós acabamos por ter aqui quatro níveis no futebol português. Temos a Primeira Liga, claramente profissional e com um fosso enorme já para o segundo patamar, que é a Segunda Liga, apesar de ser profissional. E depois temos, efetivamente, o Campeonato Nacional de Seniores aqui numa terceira onda, com bastantes clubes, e depois temos puramente o futebol amador. Vale a pena dizer que este terceiro escalão, este Campeonato Nacional de Seniores, é constituído por cerca de 80 equipas e estão lá vários históricos com muitas passagens pela Primeira Divisão Nacional, ou seja, clubes como Felgueiras, Leça, Vizela, Sporting de Espinho, Beira-Mar, Leiria, Olhanense, Alverca. Portanto, há aqui vários clubes que não há muito tempo andavam na Primeira Liga. Estão neste momento aqui neste campeonato, que na prática acaba por ser uma porta de entrada para a liga, porque uma subida significa passar a fazer parte da liga do top 36 dos clubes portugueses e isso imediatamente gera visibilidade e direitos de transmissão televisiva, ou seja, muda completamente a vida de um clube. Portanto, a luta é muito grande nestes 80 clubes para a ascensão à Segunda Liga e o facto de este ano estarem impedidos de o poder fazer é, de facto, um grande problema, principalmente para aquelas equipas que apostavam bastante nesta subida.

Isso também num dia em que começaram as obras de demolição do Estádio Mário Duarte do Beira-Mar, é outro histórico também que vai tendo alterações. Foi uma notícia que me saltou hoje à vista e que falando aqui destes clubes históricos que agora andam pelas divisões mais baixas, saltou também à vista. Daniel Sá, obrigado. Fechamos aqui a nossa conta-corrente desta semana. Voltamos na próxima sexta-feira.

Muito obrigado. Boa semana para todos.

Obrigado.