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Boa tarde, bem-vindos ao "Prémio de Jogo", o programa que semanalmente analisa as finanças e o marketing do mundo do desporto. E para isso contamos, como é habitual, com a presença do professor Daniel Sá, diretor executivo do Instituto Português de Administração e Marketing. Boa tarde, professor.

Olá, Miguel.

Esta semana vamos falar de um tema incontornável, o regresso do Liverpool à conquista do campeonato 30 anos depois. E apesar de ser um clube detido por um grande grupo empresarial, acabou por ter sucesso sem críticas por parte dos adeptos. Aquilo que eu começava por perguntar é qual é o impacto de uma vitória destas ao fim de três décadas.

Eu acho que ficamos todos um bocadinho satisfeitos e celebrámos todos um bocadinho esta vitória, porque o Liverpool acaba por ser um clube mítico do futebol europeu e mundial. E de facto, esta espera de 30 anos não é condizente com a dimensão do clube e ainda por cima nas condições que foi feito. Ou seja, por um lado, uma época absolutamente brilhante depois da vitória da Champions no ano passado, e sabemos quão difícil é vencer a Premier League, e depois esta ansiedade, esta paragem provocada pela pandemia, que acabou ainda por prolongar um bocadinho mais durante alguns meses, o que foi uma espera de 30 anos. Portanto, eu acho que é um momento muito bonito do futebol europeu e, de alguma forma, uma aposta ganha também da Fenway Sports Group, que adquiriu o clube há alguns anos e que, do meu ponto de vista, conseguiu preservar a história, manter alguma lógica dos adeptos do Liverpool, que são muito genuínos. Não tem havido muitas críticas aos donos dos clubes, como por exemplo, acontece com o Manchester City e Manchester United. Há uma corrente de grande contestação.

Era isso que eu ia perguntar. Foi uma empresa que apesar de ser grande, conseguiu interpretar essa história do Liverpool, interpretar o projeto e a coisa ser assim mais natural.

Exatamente, eu acho que a palavra certa é essa, interpretou muito bem, ou seja, não deixou de querer maximizar receitas, obviamente, estamos a falar de um desporto que é profissional, competitivo e é suposto ser rentável, portanto, é um investimento financeiro. E portanto, sem descurar a performance financeira, houve de facto uma interpretação muito correta. Basta lembrarmos do hino arrepiante que faz iniciar todos os jogos em Anfield Road, faz ver um conjunto de adeptos que nunca desmobilizou, apesar de 30 anos sem conquistar o campeonato, e faz também lembrar um público que é muito correto, que várias vezes, quando o Liverpool tem sucesso em casa, aplaude a equipa e os jogadores adversários. E portanto, esta é quase aquela parte histórica e genuína do futebol que mesmo assim, eu acho que esta empresa, este dono do Liverpool, tem conseguido saber compatibilizar com a necessidade de rentabilizar do mundo atual.

Eu ia perguntar isso sobre os adeptos, que é o facto deste clube viver muito pela paixão dos adeptos, acaba por ser uma marca identitária que não permite fugir muito àquilo que é o ADN Liverpool. Enquanto, por exemplo, o City entrou um pacote financeiro grande e não havia grande história, no Liverpool, essa história está toda lá, a paixão dos adeptos está anualmente lá, apesar de não existirem títulos, isso também não permite grandes mexidas naquilo que é a identidade do clube.

Tem havido esse cuidado. E nesta semana temos assistido em contraponto o que tem acontecido no Valência, em Espanha, que tem também um dono internacional, mas de facto a gestão que faz, quer desportiva quer financeira, é de permanente conflito com os adeptos. Quando olhamos para o Liverpool, a história é completamente diferente. Ou seja, há uma ligação emocional e inclusivamente o ambiente familiar, quando vemos os jogos do Liverpool, que é uma coisa extraordinariamente difícil de manter hoje. O estádio está sempre cheio. Anfield Road tem médias de assistências de 53 mil espectadores, portanto permanentemente cheio num ambiente vibrante. E depois tem uma performance digital que mostra bem o que é este alcance global desta marca. Trinta e seis milhões de seguidores no Facebook, 23 milhões no Instagram, 14 milhões no Twitter, 4 milhões no YouTube, mostram de uma forma muito evidente que o Liverpool acaba por ter muito mais adeptos fora de Inglaterra do que dentro de Inglaterra ou na cidade de Liverpool, precisamente por ser uma marca muito forte dentro do panorama futebolístico europeu e mundial.

É quase aquele clube que ninguém não gosta. Toda a gente tem alguma simpatia pelo Liverpool. Isso também enquanto marca é curioso.

E que não é muito fácil de atingir no desporto, porque semanalmente temos vitórias e derrotas. E portanto, mesmo os nossos clubes favoritos defrontam o Liverpool e perdem e ganham. E portanto, quando perdemos não é propriamente a sensação mais saborosa. Mas de qualquer forma, há efetivamente um respeito enorme e eu acho que o clube tem também conseguido trabalhar todos os atletas que por lá passaram e transformá-los em lendas. E lendas não apenas pela performance que tinham dentro dos relvados, mas pela postura. Parece-me que esta questão do sentido, do saber estar, tem sido muito importante nesta cultura organizacional que o Liverpool tem mostrado ao mundo inteiro.

Estamos aqui a falar daquilo que é a parte boa deste projeto da Fenway Sports Groups, mas antes eles tentaram aplicar uma estratégia que ficou até muito conhecida no filme, que é o "Moneyball", que era de adquirir jogadores apenas pelos números estatísticos, pelos dados estatísticos, e a coisa acabou por não correr bem e daí a aposta em Jürgen Klopp. Aquilo que eu lhe perguntava é se esta é a maior prova de que o futebol é mais do que os números e que esta parte humana, em especial num clube como este, como já aqui falámos, que move tanta paixão, se é a prova de que os números não são tudo e que é preciso olhar para outros fatores.

Evidentemente que sim. Não conseguimos, como no exemplo do Moneyball, muito raramente conseguimos ver aqui uma sistematização de dados e uma substituição quase total da liderança humana pela liderança pelos dados. Eu diria que naturalmente o segredo será na combinação das duas coisas. O exemplo do Moneyball, que é interessantíssimo, tentou ser feito no Liverpool, mas ficou de alguma forma aqui um rastro. O Liverpool tem, à data de hoje, um departamento de research de dados e portanto tem um departamento na estrutura do clube para apoio à componente desportiva, que é uma equipa que tem doutorados, astrofísicos e matemáticos, coisa muito pouco habitual no mundo do futebol, mas que existe em Liverpool. E isto permite que haja, por exemplo, nos 90 minutos do próprio jogo, dados em tempo real que ajudam Klopp a tomar decisões. Ora, evidentemente que ter toda esta ciência por trás é um apoio significativo, mas também só funciona com um treinador que possa entender e utilizar estes dados da forma como o Klopp utiliza.

Isso é, sem dúvida, um dado particularmente curioso quando olhamos para projetos bem mais amadores, ainda que profissionais. E falou aí numa questão que ainda não exploramos bem, que é Jürgen Klopp. Ele é, sem dúvida, um dos vetores principais desta aposta. Aquilo que lhe perguntava é se ele assumiu um papel maior do que o treinador e, por outro lado, se aquilo que ele teve possibilidade, ou seja, ele só agora nos últimos dois anos, dos cinco, é que conseguiu conquistar títulos relevantes, se isto só num clube como o Liverpool é que era possível.

Provavelmente. Eu acho que aqui é fácil dizermos agora com alguma distância, ainda por cima quando as coisas atingem sucesso ao fim de algum tempo, que Klopp é perfeito para Liverpool e o Liverpool é perfeito para Klopp. Torna-se fácil nesta altura dizer isso, mas parece ser verdade. Eu acho que nós nos últimos anos temos assistido à transformação do papel do treinador que deixou única e exclusivamente de ser o líder desportivo que define uma estratégia, uma tática e escolhe os jogadores. O treinador foi mudando muito ao longo dos últimos anos. Mourinho teve um papel tremendo nesta mudança, há alguns anos, onde acaba por ser o primeiro treinador superstar, onde percebe que para além do relvado, há também uma importância muito significativa fora dele. Temos Guardiola também como exemplo e muitos mais que nos últimos anos mudaram a forma de se ser treinador e Klopp vem também aqui com mais uma revolução, porque de facto é um treinador que esta semana, por exemplo, escreveu uma carta aos adeptos do Liverpool, algo não muito habitual no mundo do futebol.

E no jornal local, até.

Exatamente, onde para além de celebrar a vitória, não deixou de criticar a festa em tempos de pandemia. E isto é feito por alguém que de facto é reconhecidamente um indivíduo com uma liderança reconhecida como sendo genuína. E é isto que eu acho que ele tem. Da mesma forma que consegue trabalhar com astrofísicos e matemáticos, lida com estrelas mundiais de futebol e simultaneamente consegue ser um indivíduo genuíno no meio disto tudo, que várias vezes é visto até em bares a festejar com os próprios adeptos. Esta é uma liderança, de facto, inovadora e que inclusivamente é apontado muitas vezes em termos internacionais, fora do mundo do esporte, como exemplo em termos de liderança, em termos de práticas de liderança e de facto é o treinador do momento, seguramente, nesta altura do campeonato.

Daniel Sá, num clube destes, com esta base de adeptos que aguentou 30 anos para ser campeão, agora o facto de ter títulos que sejam a base desta dimensão acaba por tornar o clube ainda maior, não é? Porque a base de apoio estava sempre lá e agora está galvanizada com esta conquista de títulos. Isto acaba por tornar o clube invencível ou mais perto de estar invencível.

Muito perto. Neste negócio do desporto, a componente desportiva interfere, obviamente, sempre e com grande dimensão. O Liverpool, à data de hoje, é o sétimo clube europeu com mais receitas. Está, apesar de tudo, ainda a uma distância significativa de Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, Manchester United. Está aqui numa espécie de segunda linha. Apesar de tudo, apresentou receitas recordes no ano passado, superando os 600 milhões de euros de receitas. Metade deste valor veio de direitos de transmissão televisiva, 200 milhões vieram de patrocínios, onde houve aqui bônus significativos pela vitória na Champions e quase 100 milhões de euros de bilheteira. Estamos a falar de um clube com uma performance financeira muito relevante. Nem de propósito este ano termina também a sua relação com a New Balance ao fim de vários anos e passa a vestir Nike no futuro, o que significa que há claramente aqui da própria Nike também, e para o Liverpool, uma intenção muito significativa de aumento de receitas nos próximos anos. Esta marca vencendo vai cavalgar cada vez mais também este campeonato das receitas.

Porque isto é um pouquinho do: a base já lá estava, agora tudo o que vier é a somar. Os que se juntarem agora porque estão a pé um clube campeão ou que é campeão europeu, é a somar aos que já lá estavam, mesmo não ganhando nada.

Completamente. Tendo a base preparada, que é o caso, porque Liverpool tinha um nível de receitas sempre muito elevado nos últimos anos, quando soma sucesso desportivo, como digo, mais atenção midiática. Ora, mais atenção midiática significa melhores bônus de patrocínio, significa mais bilheteiras, mais acordos comerciais e, portanto, naturalmente que sim, acredito que vamos ter um Liverpool estruturado desta forma e mantendo esta performance, que não significa ser campeão todos os anos, vai seguramente ter receitas cada vez maiores nos próximos anos.

E com isto encerramos a primeira parte deste prémio de jogo. Vamos agora ao nosso prémio de jogo da semana. Neste segmento vamos falar da Fórmula 1. Recomeçou esta sexta-feira com treinos livres para o Grande Prémio da Áustria, que está marcado para domingo. Fala-se muito na possibilidade deste circo da Fórmula 1, circo no bom sentido, circo mediático da Fórmula 1, vir também para Portugal. Isso ainda não está confirmado. Já vamos falar sobre um possível impacto disso em Portugal. Mas aquilo que lhe perguntava primeiro é como olha para a empresa que gera a Fórmula 1, que tentou reorganizar o calendário um pouco por continentes, repetindo até circuitos, para que consiga na mesma terminar o Campeonato do Mundo, e também para o papel das equipes que dependem muito do espaço mediático. Isto são equipes com um elevado orçamento, que dependem muito das transmissões televisivas. Qual é o impacto de estarem seis meses paradas?

Ora, o impacto é dramático na Fórmula 1. Já tivemos a oportunidade de discutir em edições anteriores o risco que esta paragem provocada pela pandemia significou para o futebol. Falámos da volta a Portugal em bicicleta durante a semana passada e neste caso os valores são estratosféricos e dramáticos. A empresa que detém os direitos da Fórmula 1 perdeu, em valor de mercado, nos últimos três meses, 5000 milhões de dólares. Ou seja, estamos a falar de uma depreciação absolutamente assustadora pela indefinição do futuro. Este é um negócio, uma modalidade totalmente sustentada por direitos de transmissão televisiva e pelos patrocinadores. E esta reorganização do circuito deste ano, com mais oito provas, significa tentar faturar 500 milhões de euros, o que é uma espécie de pequena tábua de salvação ou de minimização de todos estes prejuízos. Portanto, a Fórmula 1 está a tentar salvar-se com esta solução que acabou de apresentar.

Mas ainda assim, estes são desportos em que o facto de não ter público acaba por não ser muito prejudicial naquilo que é o produto final. Porque a questão televisiva acaba por compensar a falta de público.

Indiscutivelmente. Ou seja, o circuito mundial de Fórmula 1 consegue, por televisão, atrair anualmente quase 500 milhões de telespectadores e, portanto, estamos a falar de uma audiência televisiva assustadoramente estrondosa, o que lhe permite cobrar naturalmente direitos de transmissão muito elevados e negociar contratos de patrocínio muito elevados também. As receitas de bilheteira, os bilhetes para as provas de Fórmula 1 são muito caros, mesmo assim, por ano significam 670 milhões de euros de receitas para a Fórmula 1. Portanto, neste caso, não ter público tem um impacto também muito grande e é dentro desta combinação entre público e televisão que não podendo ter público, pois naturalmente a televisão acaba por ser a tábua de salvação para as provas que aí vêm para terminar o campeonato este ano.

Como eu disse há pouco, em Portugal fala-se muito da possibilidade de Portimão receber um grande prémio este ano. Seria algo inédito, histórico. Aquilo que eu perguntava é qual é o impacto que uma competição destas pode ter em Portugal. E pedia-lhe até, se fosse possível, uma comparação face à Liga dos Campeões. Isto porque uma equipe de Fórmula 1, embora tendo apenas dois pilotos, a estrutura é enorme e eu diria até que toda essa entourage é superior a um clube de futebol ou uma equipe de futebol.

O impacto é difícil de calcular, mas é seguramente muito alto. Ou seja, se por acaso tivermos a felicidade de acolher em Portimão uma etapa do circuito este ano, são mais uma vez, tal como na Champions, excelentes notícias para nós. E isto de facto, porque o circo que falávamos há bocado da Fórmula 1 é muito grande, mesmo sem público, acaba por ter uma operação logística muito grande e que acaba por ocupar praticamente uma semana a 10 dias em termos da instalação e com todas as despesas associadas a uma competição deste gênero. De qualquer forma, não temos Fórmula 1 há muitos anos em Portugal, portanto, não existem valores de referência recentes e no caso da Champions, também não conseguimos comparar muito bem à data de hoje, porque temos esta indefinição ainda, se vamos ou não ter público. De qualquer forma, seguramente que a visibilidade de uma prova destas realizada em Portugal, somada ao impacto econômico feito cá, seriam seguramente excelentes notícias e bons contributos pra retoma da nossa economia.

São dois grandes eventos com um grande interesse televisivo, lá está, como falámos, e também da importância da transmissão televisiva no desporto. Daniel Sá, obrigado mais uma vez. Fechamos aqui a nossa conta corrente desta semana. O Prêmio do Jogo volta, como sempre, na próxima sexta-feira.

Muito obrigado. Boa semana.

O Prêmio do Jogo para ouvir à sexta-feira depois das notícias das 16h30. Hoje, excepcionalmente, a esta hora. Esta edição que vai ficar disponível em podcast já a seguir, nas plataformas habituais e em observador.pt. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.