Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Prémio de Jogo". Como sempre, contamos com a presença do Daniel Sá, diretor do Instituto Português de Administração e Marketing, também especialista em marketing desportivo. Boa tarde.

Olá, Miguel. Muito boa tarde a todos.

E hoje com um dia particularmente interessante para o desporto português. Depois da Liga dos Campeões, agora é a Fórmula 1, é o segundo grande evento que Portugal acaba por conquistar na sequência desta pandemia, que obrigou as organizações a redefinirem os calendários. E eu pegava nestas duas competições. O resto da Fórmula 1 tem um impacto maior do que o da Liga dos Campeões, o facto de ser jogada em Portugal?

Acreditamos que não, que o impacto, apesar de tudo, vai ser inferior. A organização portuguesa hoje adiantou o valor de cerca de 30 milhões de euros de impacto econômico. Nós estamos a ultimar o estudo sobre o impacto final da Champions, que divulgaremos no início da próxima semana, e a Champions acaba por ter um valor ainda superior à Fórmula 1. De qualquer forma, a notícia é fantástica, como é evidente. Portanto, em poucas semanas, no contexto atual, termos a notícia que vamos acolher a final da Champions e uma prova da Fórmula 1 durante este ano, são excelentes notícias para Portugal a vários níveis.

E do ponto de vista televisivo, porque a Fórmula 1 é um espetáculo muito feito com base na televisão. Perguntava-se se do ponto de vista televisivo também continua a ser a Liga dos Campeões que desperta maior interesse ou se aí a Fórmula 1 acaba por ultrapassar?

Sim, a Fórmula 1 acaba por ultrapassar em termos acumulados. Ou seja, com as várias provas ao longo do ano. Mas por cada prova estima-se que haja, isto varia muito de prova para prova, mas qualquer coisa como 100 a 200 milhões de espectadores por prova, o que é uma audiência verdadeiramente importante. Neste caso, ainda com esta ausência de público que temos um pouco por todas as modalidades, acredita-se sempre, e os números têm mostrado isso, que as audiências televisivas sobem. E, portanto, mais uma vez, são ótimas notícias, porque vamos também na Fórmula 1 ter Portugal como um grande palco mundial, com muita visibilidade e muito impacto em termos internacionais.

E perguntava-lhe em especial para o Algarve, a Fórmula 1 quando esteve em Portugal foi no Autódromo do Estoril, agora vai para o Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão. Qual é que é a importância também de ser no Algarve, uma das regiões que acaba por ser mais afetada por causa da pandemia, com a falta de turistas. Isto acaba por ser uma lufada de ar fresco, e que um balão de oxigênio pode funcionar nesse sentido.

É particularmente importante para o Algarve, naturalmente. Acabámos por ter aqui duas opções e já temos inclusivamente hoje alguma polêmica e algumas queixas do Estoril e não ter havido a escolha do Estoril e sim do Algarve. Apesar de tudo, as notícias são ótimas. O Algarve vai ser claramente uma das regiões mais afetadas, porque seguramente é aquela que mais depende do turismo. E, portanto, a pandemia e estas últimas notícias de alguns países não confiarem ainda na vinda dos seus cidadãos a Portugal para férias, claramente a área, a região que mais ressentem é o Algarve, que tem uma capacidade hoteleira instalada tremenda e todos nós sabemos que vive muito do que é o período do verão. Portanto, não é também a Fórmula 1 que vai de alguma forma salvar o Algarve, mas vai acabar por ter um impacto direto muito importante com a prova e, de alguma forma também, é uma prova de confiança que pode ajudar a ultrapassar alguns obstáculos e a trazer mais turistas para a região mais procurada de Portugal.

De confiança também naquilo que é o histórico português. Nós falámos isso um bocadinho no Euro, na altura dos quatro anos do Euro 2016, que Portugal adquiriu um grande capital de organização de grandes eventos. Eu perguntava-lhe se do ponto de vista global, ou seja, das autoridades governamentais, da segurança, das unidades hoteleiras, se isso também pesou nesta decisão de trazer para cá a Fórmula 1, porque aqui não é como o futebol, ou seja, não há um histórico recente de que uma organização tenha corrido bem. Mas esse histórico global de Portugal, de receber bem, de ter segurança, pesa a favor do país nesta organização?

Sem dúvida, quer neste caso, no automobilismo, quer na UEFA, com a questão da Champions, evidentemente, quando há uma decisão, e já se falava desta possível notícia há variadíssimas semanas. Para todos os nossos ouvintes entenderem o que é que se faz nessas várias semanas. Estas organizações avaliam todos os dados para poder tomar decisões finais sobre onde vão realizar os seus eventos. E nesta análise entram inúmeros critérios, que vão desde as condições rodoviárias, a capacidade hoteleira, a capacidade organizativa, o nível de segurança, todos os aspetos logísticos. Portanto, podem ser dezenas e dezenas de fatores que são analisados para uma tomada de decisão deste género e com a decisão da vinda da Fórmula 1 para Portugal, é uma enorme prova de confiança. Quando sabemos, como o Miguel estava a dizer e muito bem, há 24 anos que não há Fórmula 1 em Portugal, portanto, não há uma experiência recente na nossa capacidade. Tem havido no motociclismo, dentro do mundo dos motores, mas evidentemente que isto reforça a nossa capacidade, que também é vista, por exemplo, na organização de congressos, variadíssimos congressos também internacionais, fora do âmbito do desporto. Há reconhecidamente pelo mundo inteiro, um reconhecimento unânime da nossa capacidade de acolher, da nossa hospitalidade e de fazer as coisas com qualidade. E esta é uma prova, mais uma vez, inequívoca.

E há mecanismos que tanto servem para uns eventos como para outros, como disse com essa comparação, por exemplo, com o mundo dos congressos, em que Portugal também se tem vindo a afirmar. O Autódromo Internacional do Algarve, recebendo esta competição, passa também para um patamar diferente, enquanto instalação desportiva, enquanto recinto capaz de receber grandes eventos, por ser agora um circuito de Fórmula 1? Pode também iniciar com isso.

Claro que sim. Ganha aqui um novo estatuto, como é evidente. O projeto nasce, de alguma forma, com este conceito, ou seja, um autódromo na região mais hospitaleira de Portugal, com a maior capacidade hoteleira, com o melhor clima e, portanto, havia claramente aqui como vontade trazer equipes ligadas ao automobilismo, ao motociclismo, para treinos, mas também para grandes competições. O motociclismo já o tivemos variadíssimas vezes, a principal competição de motociclismo. E de facto havia um sonho antigo e provavelmente desde a inauguração deste autódromo, para que a Fórmula 1 viesse. Veio neste contexto, não um contexto muito normal, mas veio. Portanto, naturalmente que há uma subida de estatuto. Se vem para ficar? Ora, será difícil. Eu diria que neste momento Portugal beneficiou.

Era essa a minha próxima pergunta. Não queria já pôr a carroça à frente dos bois, permita-me a expressão, mas era se Portugal tem as condições para garantir esta prova depois no futuro ou se isto é apenas obra do contexto em que vivemos.

Não sabemos, naturalmente. Acabamos por beneficiar da decisão de não haver provas no continente americano. Tínhamos Brasil, México e Estados Unidos, e portanto acabou por a decisão beneficiar-nos a nós como país europeu. Se se vai manter ou não? Não sabemos bem, precisamente porque a organização tem nesta modalidade um alcance global, e o alcance global acaba por se dividir muito entre Ásia, Europa, América do Norte e América do Sul. E no caso europeu, a concorrência já é muito forte. Nós temos variadíssimas provas na Europa que são verdadeiros símbolos e são verdadeiras provas clássicas, onde dificilmente nós vamos conseguir conquistar esse lugar. Agora, a pandemia veio, de facto, alterar regras, veio alterar formas de pensar e eu diria que no mínimo temos aqui uma oportunidade e queremos lutar por ela, naturalmente.

Temos que fazer o melhor que conseguimos agora este ano. Eu perguntava-lhe se a questão da dimensão do mercado português tem aqui um peso nessa continuidade ou não. Ou seja, o facto de não termos eventualmente marcas que possam pagar uma prova em Portugal. Até porque este ano a prova terá como patrocinador principal uma marca de cervejas, mas através da sua sede mundial, que informou a subsidiária portuguesa de que daria nome a esta prova. Ou seja, Portugal não tem dimensão em termos empresariais para garantir uma prova destas aqui? Pergunto-lhe.

Neste caso, não me parece tão relevante, porque o circuito mundial de Fórmula 1 está montado para marcas globais. Evidentemente que há sempre patrocinadores locais que devem estar envolvidos e devem assiná-los, mas eles não fazem a diferença na tomada de decisão, precisamente porque os patrocinadores são globais, as audiências são globais e os números são mesmo muito altos. E, portanto-

É pensado em pacote, o circuito.

Exatamente, é pensado num pacote. Portanto, Portugal acaba por não ter esta dependência exclusiva, de ser um país relativamente pequeno, de não ter marcas com orçamentos tão grandes para esse tipo de eventos, porque há sempre forma de patrocinarem como patrocinadores locais do evento, com uma dimensão mais curta e claramente direcionada para o próprio mercado português, não beneficiando da visibilidade internacional. Portanto, não me parece um obstáculo essa questão.

Para terminar este capítulo da Fórmula 1, a presença de um piloto português aqui podia potenciar ainda mais esta prova e, por exemplo, por comparação no MotoGP com o Miguel Oliveira, nós vemos um interesse muito maior por parte do público português, mesmo os que não seguem a modalidade. A presença de um piloto português aqui daria ainda outro peso, outro élan à prova?

Evidentemente, faz toda a diferença. Nós temos uma experiência muito curta. Recordo-me de Tiago Monteiro, recordo-me de Pedro Lamy, recordo-me de Pedro Matos Chaves. Qualquer um deles conseguiu chegar a este patamar da Fórmula 1, mas também sabemos sempre em equipes pouco ou nada competitivas. E mesmo assim ainda nos recordamos que, de facto, termos portugueses entre esta elite faz a atenção disparar, faz a nossa motivação aumentar. E portanto, neste momento temos um vazio e nem sequer temos perspectivas neste momento. Portanto, claro que sim, se tivéssemos um Miguel Oliveira na Fórmula 1, aí as notícias seriam bem melhores para nós.

Ou o ideal era mesmo ter o Tiago Monteiro quando fez pódio uma vez numa prova de Fórmula 1. Isso em Portugal é que-

Em condições inéditas.

Exatamente, sim.

Muitas desistências, mas claro que sim.

Isso é que seria o ouro sobre azul. Passamos agora para a nossa multa da semana. Este tem sido outro dos temas incontornáveis desta semana, em específico por causa da situação do Clube Desportivo das Aves e da sua relação com a SAD, a Sociedade Anônima Desportiva, mas é um problema um pouco transversal a todo o futebol português, que é esta questão das SADs e da relação entre as SADs e o clube. E eu começava por lhe perguntar isso, que é: por que em Portugal o clube empresa tem sempre uma relação difícil com a casa de origem, quando obviamente o proprietário é outro?

Há, de facto, aqui um problema e o caso do Desportivo das Aves é apenas o mais recente. As SADs nasceram com o objetivo de dotar os clubes de níveis de profissionalismo e de uma lógica de gestão empresarial para um futebol que era profissional. Portanto, até aí, digamos, a medida é correta e já tem bastantes anos de implementação em Portugal. Onde é que os problemas surgem? É que, de facto, há aqui, do meu ponto de vista, dois fatores que têm dificultado tudo isto. O primeiro, há um certo vazio na legislação, o que torna as coisas difíceis de manobrar entre clube e SAD, e fundamentalmente há uma falta de supervisão. Ou seja, apesar da pouca lei que existe, ela, na verdade, não é monitorizada, corrigida, e não há aqui nenhuma figura que, na prática, acabe por acompanhar as situações nos vários clubes e atuar quando deve. E este caso do Desportivo das Aves é apenas mais um do que está a acontecer. Portanto É um problema. A ideia que gera as SAD é positiva, a forma como as temos implementado tem dado inúmeros problemas no caso do futebol português.

Isto porque não há forma de os clubes se protegerem melhor. Vendendo essa participação da SAD, ficarão sempre à mercê daquilo que depois os proprietários entenderem.

Sim, isto acaba por ter vários problemas. Para o adepto, tinha aqui o problema emocional, o adepto não é adepto nem da SAD nem do clube, é adepto daquela marca. Portanto, o próprio adepto, por vezes, tem dificuldade, excetuando aqui o caso do Belenenses, que é um caso quase de estudo.

Eu ia referir exato que obrigou essa mudança de marca, não é?

Exatamente. Na prática, o clube tem, por um lado, aquela lógica mediterrânica que nós temos de sermos os donos do clube. Culturalmente, nós sendo sócios, sentimos os donos do clube e tomamos as decisões e votamos, mas depois, na prática, o bolo central, que é o futebol profissional, ficou reservado para as SADs, onde o sócio nada pode fazer, apenas pode intervir se for acionista. Portanto, isto gera uma dificuldade grande, porque acaba por termos o que é produto, o que é rentável, fica na SAD e tudo o que é mais amador, que numa lógica é mais amadora, fica no clube. Para além de depois termos o problema, que se nalguns clubes quem lidera a SAD são os mesmos que lideram o clube, mas em muitos casos isso já não acontece e normalmente aí é quando surgem os conflitos.

Exatamente, é aí que surgem os problemas. Perguntava-lhe se um dia é possível algum dos três grandes vender essa participação maioritária na SAD e se isso ia mudar um bocadinho as coisas também no futebol português.

Pode acontecer, perfeitamente. Não podemos falar apenas de exemplos do Aves, como temos o Belenenses, como já tivemos o Leiria, como já tivemos o Beira-Mar. Eu acho que no caso dos três grandes clubes, pode perfeitamente acontecer uma mudança de dono e de uma perda de maioria. E quanto mais frágil for a situação deste clube grande, pior. Aparentemente, à data de hoje, o Benfica é o clube mais sólido do ponto de vista financeiro. O Futebol Clube do Porto atravessa há vários anos dificuldades financeiras e o Sporting mais ainda. Nós já não estivemos muito longe de termos um estrangeiro, pura e simplesmente, a tomar conta do Sporting Clube de Portugal, com todo o impacto social, mediático, cultural e financeiro que isto pode ter. Há seguramente esse risco e eu acredito que pode acontecer esse cenário, perfeitamente.

Sim, no Sporting é um cenário que de quando em vez surge novamente em cima da mesa e com mais força. Para concluir, perguntava-lhe se esta questão das SADs, porque isto tem também aparecido cada vez com maior frequência no futebol dito amador, o futebol não profissional. Se isto muda também um bocadinho a forma como esse futebol amador é vivido, porque há empresários de menor dimensão que não precisam de investir tanto e acabam por comprar clubes de divisões distritais, de campeonatos de Portugal, se acaba por mudar um bocadinho a forma como aquele tipo de futebol é vivido, que é o futebol do domingo à tarde, da diversão e do convívio.

Temos esse risco e no caso do futebol português, temos dezenas de clubes desses escalões inferiores onde isto já aconteceu. E eu acho que o amadorismo e aquele estado do futebol puro correm o risco de se perder, como é evidente. Normalmente, quando há uma tomada de posição numa SAD, nós temos tido três cenários, se olharmos bem para a história do futebol português. O primeiro é onde há um interesse comercial do ponto de vista do negócio, portanto, parece uma opção mais legítima, mas infelizmente, há mais dois cenários onde a honestidade não é o fator principal. Sabemos muitas vezes que a tomada de posições de alguns clubes por parte de SADs tem a ver com agentes e portanto, o grande objetivo acaba por transformar o clube quase num interposto comercial de rotação de jogadores, com muito pouco interesse no futuro a longo prazo do clube, ou pior ainda, quando muitas vezes sabemos que o que está por trás são negócios de apostas e onde a origem do dinheiro do investidor é extraordinariamente difícil e complexa de entender. Ora, quanto mais pequeno o clube, mais sujeito está a este tipo de tomadas de posição que não são propriamente positivas para o futebol.

São situações difíceis que o futebol português vai vivendo, em especial esse futebol amador também. Daniel Sá, obrigado. Marcamos encontro novamente daqui a uma semana, sexta-feira, por volta das 16h30. Obrigado e boa semana.

Obrigado. Boa semana, obrigado.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.