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Vou vos dar um exemplo. Já não vou falar outra vez das moradas, se mora ou não mora ali, mas a nível local, um médico de saúde pública, uma autoridade de saúde, um diretor de um ACES é capaz de ter conhecimento de um caso no momento em que ele ocorre. Fala com o seu colega do lado, fala com o hospital, fala com alguém do laboratório e consegue saber. E esse número, esse caso ainda não foi vertido nem no formulário do SINAV laboratorial, nem do SINAV médico e portanto há aqui discrepâncias ao dia que não são graves, são pequenas discrepâncias com as quais temos que viver. Por outro lado, a forma da Direção-Geral da Saúde captar informação com todos os dados do SINAV laboratorial e do SINAV médico, também nos permite captar alguma informação que a nível local nem sempre é logo encontrada. E portanto, é deste complemento entre o que o nível local encontra, o que o nível nacional encontra, que a rapidez de intervenção e aquilo que interessa é, de facto, agir rapidamente quando se percebe que existe um caso, isolar esse caso e os seus contactos. O resto, os testes a seguir, as notificações, as contas, nós acertamos e fazemos. E podem ter confiança, já aqui foi dito hoje, que nós estamos a dar informação com transparência, com rigor e eu posso garantir-vos que somos um dos melhores países do mundo porque temos, apesar de tudo, das fragilidades, melhoramos imenso nestes quatro ou cinco meses nas plataformas de informação que temos e continuamos a melhorá-las continuamente. E somos os países que reportam todos os dias, que reportam com transparência, que dizem quando tiveram algum problema e que o vão corrigir rapidamente, que admitimos as discrepâncias, que sabemos que elas existem. E portanto, eu creio que os portugueses, as pessoas que estão em Portugal, todos reportamos todos os dias internacionalmente. Já temos sido elogiados por esse reporte internacional regular. Todos os dias mandamos os nossos números para a União Europeia e depois para a OMS. E portanto, creio que podemos estar sempre a melhorar, obviamente, sempre a melhorar, a agilizar, a ser mais rápidos, mais precisos. Sabemos sempre que há pequenas limitações, mas dando a garantia da transparência. Nós temos até dito quando não sabemos, admitimos que não sabemos e portanto estamos a ser completamente transparentes e a trabalhar para uma informação cada vez melhor, sendo que os senhores jornalistas sabem perfeitamente que se tivermos fontes diferentes em momentos diferentes, a informação pode ser discrepante sobre o mesmo facto, mas isso não é grave e os boletins acabam por ter os seus acertos naturais à medida que os dias passam. O que interessa é agir, é a intervenção rápida, imediata, conhecer, aliás, vigilância epidemiológica é vigiar para agir. É isso que quer dizer. E portanto, aqui o mais importante é que quem está no terreno, quem está a nível local, faça uma intervenção rápida e eficaz.

Muito obrigado.

Muito obrigada a todos.

Bom fim de semana.

Está concluído este briefing da Direção-Geral da Saúde, agora três vezes por semana, no dia em que Portugal regista mais duas mortes e 402 novos casos por COVID-19.

Uma conferência de imprensa que acompanhámos em direto na Rádio Observador com o jornalista Miguel Viterbo Dias.

Rádio Observador. Aconteça o que acontecer.

E como é habitual a esta hora, à sexta-feira, é dia de prémio de jogo. Programa com o jornalista Miguel Viterbo Dias e Daniel Sá, o diretor executivo do IPAM.

Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do Prémio de Jogo, onde todas as semanas analisamos a vertente financeira e de marketing do mundo do desporto. E para isso contamos com a presença do professor Daniel Sá, diretor executivo do Instituto Português de Administração e Marketing e especialista em marketing desportivo. Boa tarde, bem-vindo mais uma vez.

Olá, viva Miguel.

Daniel, eu ia lhe fazer a pergunta que andamos aqui todos a fazer ao longo do dia, que é: lembra-se onde é que estava há quatro anos?

Estava em casa com amigos e com muita expectativa, naturalmente também. E facto, a viver como todos nós, aquele momento absolutamente incrível, aquele jogo absolutamente inesquecível e aquele remate improvável do jogador mais improvável, que nos fez celebrar de uma maneira absolutamente louca e, portanto, as recordações são ótimas, como seguramente de todos os portugueses.

Foi um grande dia, com esse gostinho especial, como disse, do patinho feio, como era muitas vezes tratado o Éder. Este é, sem dúvida, o assunto do dia. Assinalam-se quatro anos desde a vitória de Portugal no Campeonato da Europa de futebol em França em 2016, com esse gol solitário de Éder frente à equipa da casa, a França. E quatro anos depois olhamos para o impacto que esta vitória teve no futebol português. Antes de lhe lançar a primeira questão, vamos ouvir um registo de hoje do presidente da Federação, Fernando Gomes, neste balanço dos últimos quatro anos.

Acima de tudo, a grande conclusão que nós temos que retirar desta vitória é que nós somos capazes. Se planearmos, se organizarmos, se fizermos tudo aquilo que nós temos capacidade para fazer e acima de tudo, se o fizermos de uma forma coletiva, já o demonstramos que somos capazes. E é isso que eu desejo acima de tudo, é que consigamos trabalhar da mesma forma, com planeamento, com organização, com dedicação, para que tenhamos a felicidade de voltar a ter um 10 de julho de 2016 repetido daqui a algum tempo.

As declarações de Fernando Gomes ao site da Federação Portuguesa de Futebol. Daniel Sá, aquilo que lhe perguntava é: este caminho de profissionalização, como o Fernando Gomes estava aqui a dizer, já estava a ser feito, mas esta vitória pôs a Federação e a marca das seleções de Portugal num patamar totalmente diferente.

Indiscutivelmente. Nós temos que pensar aqui em dois pontos que me parecem importantes para entender este cenário. O primeiro é que, desde 1996, nós estamos presentes em todas as fases finais de europeus e de mundiais, uma coisa que anteriormente a essa data não era assim tão comum. E para além de sermos presença habitual nestas duas maiores competições do futebol mundial, temos tido resultados muito interessantes, ou seja, temos estado permanentemente em quartas de final, meias-finais, finais, inclusivamente, e ainda não tínhamos conseguido a cereja em topo do bolo, algo que felizmente conseguimos há quatro anos. Portanto, parece-me que há muita sustentabilidade e a vitória de 2016 é o culminar de um trabalho longo que nós temos assistido. E depois, por outro lado, temos aqui a felicidade também da data de hoje, sermos campeões europeus de futebol, de futsal e de futebol de praia. Ou seja, e esta é uma conquista absolutamente inédita, o que nos torna, neste momento, a nível de seleções, os reis do futebol europeu e eu acho que isso deve nos deixar, naturalmente, a todos, muito orgulhosos.

Isso prova, por exemplo, que esta conquista no futebol acabou por ser também catalisadora para essas modalidades que estão também sob a alçada da Federação, como o futsal e futebol de praia. Ou seja, esta vitória foi bem aproveitada para desenvolver todo esse ecossistema?

Sem dúvida que sim. Eu diria que é muito comum em Portugal nós desdizermos e falarmos um pouco mal de todos os agentes do futebol, mas eu acho que por vezes nós temos que mudar aqui um bocadinho a conversa e sermos justos com o que tem acontecido, particularmente com a Federação Portuguesa de Futebol, que me parece que tem feito um trabalho extraordinário, não apenas do ponto de vista desportivo, e acabámos de comentar vários dos sucessos, inclusivamente de camadas jovens, que são muitíssimos, mas estamos a falar de uma federação que nos últimos anos teve uma capacidade de se modernizar e de se profissionalizar de uma forma extremamente potente, o que a torna, à data de hoje, uma referência em termos europeus e em termos mundiais. Não é a despropósito também que depois desta vitória já organizámos a primeira final da Liga das Nações, foi-nos atribuída este ano uma Champions League, temos uma televisão que foi a primeira a nível mundial, a primeira federação a lançar um canal televisivo próprio. Temos uma federação que lançou uma academia de formação para promover a aprendizagem de dirigentes, árbitros, gestores associados ao futebol e, portanto, não apenas naquele trabalho que é visível, que são as conquistas desportivas, mas de facto o que temos assistido é que é uma federação que tem olhado para a indústria de uma forma transversal e vertical e que procura desenvolver o futebol para os próximos anos. Portanto, desse ponto de vista, eu acho que nós temos que estar muito satisfeitos.

Daniel Sá, e porque conhece este mundo também muito bem, eu perguntava-lhe se uma conquista destas, o tornar-se campeão da Europa, tem uma implicação direta naquilo que é o budget e a presença dos patrocinadores à seleção de Portugal. Por exemplo, não só de marcas, mas de outros países que querem receber a nossa seleção para jogos amigáveis. Todo esse interesse aumenta com uma conquista desta dimensão?

Sem dúvida, os impactos financeiros são positivos e imediatos. Olhe, por um lado, temos vendas de merchandising que aumentam, ou seja, estes estados emocionais de vitória fazem-nos comprar mais camisolas, mais cachecóis e a Federação, naturalmente, que beneficiou com esta vitória. Por outro lado, os patrocinadores pagam bônus. Os contratos normalmente preveem este tipo de situações em caso de vitória e, portanto, seguramente que a Federação Portuguesa de Futebol também acabou por arrecadar mais receitas com os bônus dos patrocinadores que já tinha. Cachês de jogos de exibição, que Portugal também os teve após a vitória no Europeu, porque no fundo é atrativo receber os campeões da Europa. E portanto, há um conjunto de benefícios para além do próprio prize money de ter sido campeão europeu, que nos elevou as receitas para patamares nunca antes atingidos. Portanto, ser campeão europeu é um bom negócio e a Federação Portuguesa de Futebol aproveitou muitíssimo bem nestes quatro anos.

É também indissociável de falar de Cristiano Ronaldo. Fala-se muito na Federação para além de Ronaldo. Eu perguntava-lhe se a Federação já existe para além daquele que é considerado o melhor jogador português do mundo e se é preciso preparar esse futuro quando o Cristiano Ronaldo pendurar as botas, se isso implica uma perda de algum interesse ou se a Federação já está para além disso.

Eu julgo que a Federação tem absoluta consciência disso, porque ter alguém como Cristiano Ronaldo como bandeira é, de facto, um privilégio, mas simultaneamente causa o desafio, quer do ponto de vista desportivo, quer do ponto de vista comercial, de perceber o que é que se faz a seguir. E do meu ponto de vista, a Federação tem muita consciência de todo esse tópico, quer do ponto de vista desportivo, quer não desportivo, e o que eu acho que procura fazer é maximizar ao máximo a vantagem de ter Ronaldo e simultaneamente preparar as próximas estrelas. E de facto, quando olhamos para a seleção portuguesa de futebol, conseguimos perceber e visualizar um punhado de uma nova geração de atletas que já está num nível muito alto. Claramente, com a certeza que Ronaldos nunca virão uns atrás dos outros. E que isto são fenômenos que, de facto, acontecem de muito em muito tempo. Mas quando olhamos para uma federação que tem um orçamento para este ano superior em 90 milhões de euros, onde 36 milhões de euros deste budget vêm de patrocinadores e de direitos comerciais, que renovou o contrato com a Nike em 2018 por mais seis anos Tudo isto, no meu ponto de vista, são indicadores de que a federação planeia este sucesso para os próximos anos, contando já que vai deixar de ter o Ronaldo mais tarde ou mais cedo, naturalmente.

Deixe-me perguntar ainda só nesta questão da conquista do Euro e porque também há poucas semanas com a questão da Liga dos Campeões, tivemos os principais protagonistas políticos a apresentarem essa competição, aqui também com a conquista do Euro. Lembramo-nos do autocarro a chegar ao Palácio de Belém, também a ser recebido por todas as figuras políticas. Ao nível do marketing, estas conquistas acabam por ser também motivadoras para a população portuguesa. O próprio Fernando Santos disse hoje também no balanço destes quatro anos, que sente que a autoestima dos portugueses aumentou. Esse aproveitamento, e digo isto no bom sentido, não no sentido pejorativo, mas é também porque os principais responsáveis sentem que estas vitórias podem ajudar a motivar o país no seu todo, que são uma boa metáfora depois para o restante.

Sem dúvida. Nós no IPAM estamos habituados a estudar o impacto económico deste tipo de competições e não tanto o impacto social, mas parece-me indiscutível. Aliás, a pergunta com que começámos este programa, que foi onde é que eu estava há quatro anos e acho que toda a gente consegue responder, precisamente porque a memória é tão forte que nós conseguimos gravar exatamente o local onde estávamos. E, portanto, é de facto indiscutível que há uma dose de motivação para o país extraordinariamente importante. E este é um fenómeno que o mundo do futebol, pela visibilidade global que tem, consegue permitir de uma forma muito intensa. No caso português, ela ainda é extremado por ter sido conquistada em França e onde nós temos muitos imigrantes, onde de facto o impacto nessa população ainda terá sido maior. E, portanto, é seguramente uma bola de neve positiva que acaba por promover o desenvolvimento do país e que nos faz pensar um bocadinho que o futebol é muito mais do que uma modalidade e que tem uma capacidade de impacto social e cultural bem mais longe do que o próprio território do desporto. E eu acho que nós sentimos claramente isso nos últimos quatro anos.

E oxalá essa conquista se repita no futuro. Passamos agora para outro assunto. Vamos ao prémio de jogo da semana. Esta semana falamos dos equipamentos, até porque confesso que é uma curiosidade que tenho, que é agora com a conquista do Campeonato Inglês por parte do Liverpool, surgiu uma polémica com a New Balance, que é a marca que equipa o Liverpool e que termina contrato este ano. E acontece que o stock de camisolas esgotou e a New Balance disse que não ia produzir mais porque o clube vai passar para a Nike já dentro de um mês. A nível nacional, este mercado é totalmente diferente daquilo que se passa lá fora, o de venda de camisolas, porque fala-se muito no peso que as transferências de alguns jogadores têm, o facto de mudarem de clube que passam a vender muito mais camisolas. No estrangeiro, no exterior, nas grandes ligas, isso tem um peso muito grande, esta venda de merchandising e de equipamentos.

Sim, indiscutivelmente. Nós quando olhamos para os números do ano passado, vemos que os dois clubes europeus que mais venderam camisolas foram Manchester United e Real Madrid, que ultrapassaram a fasquia dos três milhões de camisolas vendidas numa época. Ou seja, que é um número absolutamente extraordinário.

E que no caso do United, desculpe-me só interromper, é um clube que nem sequer tem ganho títulos nos últimos anos, nem tem estado em particular destaque, é o peso histórico.

Com essa particularidade. Se o Real Madrid tem, entre Liga Espanhola e Champions, conquistado pelo menos algo, o Manchester United, desde a saída de Ferguson, anda à procura de um caminho que o possa levar, em termos desportivos, ao sucesso, mas mesmo assim consegue a vários níveis comerciais e do ponto de vista de rentabilidade de negócio, estar sempre no topo da lista do futebol europeu e também a nível de venda de camisolas. Importa perceber que muitas dessas camisolas, quer de Manchester, quer de Real Madrid, quer de todos os outros grandes clubes, não são vendidos apenas nos seus países de origem, mas uma grande parte destas vendas são efetuadas fora dos seus países, o que prova a dimensão global destes mercados e o que mostra também a enorme competição que existe entre as marcas para agarrar estes clubes, da qual esta luta, que inclusivamente chegou a ser judicial entre New Balance e Liverpool, vai dar origem agora a um novo contrato com uma nova marca para os próximos anos. Portanto, isto é um grande negócio e que nos grandes clubes europeus tem um peso percentual muito importante.

E é um setor também com uma economia paralela muito grande, não é? Com as camisolas não oficiais que vendem quase tanto como as oficiais.

É verdade, claro que sim. Este é um mercado onde a contrafação é um problema muito grande, onde os clubes investem muito tempo a tentar diminuir os prejuízos que essa situação acarreta, mas que é difícil de fazê-lo desaparecer completamente. Importa também perceber que quando falamos de merchandising e destas vendas de camisolas com valores astronómicos dos clubes, importa também perceber que o dinheiro não vai todo para os clubes. Convém explicar às pessoas que este negócio acaba por ser dividido em três partes. Ora, sempre que se vende uma camisola do Real Madrid, há uma parte que vai para o próprio Real Madrid, há outra parte que vai para a marca, neste caso a Adidas, que é a marca que tem o negócio com o Real Madrid, e há uma terceira parte também que acaba por ir para o retalhista, ou seja, para a loja, porque estas camisolas não são apenas vendidas nas lojas oficiais dos clubes, mas também em espaços multimarcas. E, portanto, quando assim acontece, há uma terceira parte que vai também para esse retalhista. Portanto, este é um negócio dividido a três, mas que mesmo assim acaba naturalmente por ser interessante para qualquer uma das partes.

Daniel Sá, para terminar, deixe-me só perguntar-lhe, porque falou que muitas das camisolas se vendem no estrangeiro, o facto desse mercado não ter assim tanto peso para os clubes portugueses pode-se justificar eventualmente com essa falta de projeção internacional?

Sim, um dos problemas da nossa liga ter pouca visibilidade internacional é também este. Ou seja, acabamos por não ter a notoriedade suficiente para conseguir ter esta expressão que clubes como Manchester, Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique e afins conseguem e acabam por conseguir fazer vendas muito avultadas de merchandising em vários países, nomeadamente na Ásia. E de facto, a nossa pouca visibilidade não nos permite isso, não nos permite ter estrelas nem valor de mercado suficiente para vender camisolas dos clubes portugueses, razão pela qual depois também não temos os circuitos de distribuição, ou seja, nem sequer conseguimos ter as nossas camisolas dos nossos clubes à venda em tantos sítios, em termos internacionais como estes clubes. E portanto, este é um dos problemas do facto da nossa liga portuguesa acabar por ter pouca expressão internacional.

Daniel Sá, obrigado. Está encerrada a nossa conta-corrente desta semana no Prémio de Jogo. Voltamos na próxima sexta-feira, como sempre, por volta das 16h30.

Esta edição do Prémio de Jogo vai ficar disponível daqui a instantes em podcast, nas plataformas habituais e em op-- Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.