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Rui Pedro Antunes, editor de Política do Observador. Vamos a uma análise que pode ser interrompida caso Vasco Cordeiro, líder do PS Açores, se prepare para falar também nos próximos instantes. Mas antes de mais, vamos a estas leituras, em particular depois daquilo que foi dito quer por Rui Rio, quer também por António Costa, o primeiro-ministro e secretário-geral do PS, que falou por diversas vezes em vitória, sublinhou as vitórias consecutivas do PS nos Açores.

É curioso e é a ironia do destino que António Costa, no caso dos Açores, esteja a fazer aquilo que Pedro Passos Coelho tentou fazer em 2015, quando ganhou, ficou em primeiro lugar nas eleições, mas não tinha maioria absoluta para governar. E foi aí que surgiu a chamada geringonça. E aí António Costa criou uma coisa que até aí não tinha existido na política portuguesa, que depois até foi denominada de geringonça, que é uma espécie de uma megacoligação parlamentar para que o segundo partido mais votado, podia ser o terceiro, mas o segundo, consiga governar. Isso foi feito a nível nacional e é uma invenção de António Costa na democracia portuguesa. E agora essa própria invenção vira-se contra o PS nos Açores. Não sei se isso vai ser possível, não sei qual é a probabilidade disso acontecer, mas dos poucos argumentos que António Costa não deveria utilizar, um deles é: o PS ficou em primeiro e o PSD ficou em segundo.

Até porque já sabemos o que aconteceu nessas eleições legislativas de 2015, por exemplo.

Sim, nessas eleições formou-se a chamada geringonça, e António Costa ficando em segundo, chefiou o governo, e isso está previsto na Constituição e o sistema nos Açores é igual. Se houver uma maioria parlamentar que sustenta um governo, consegue de alguma forma bloquear um governo e formar outro.

Mas aqui uma geringonça açoriana é ainda mais complexa, não é?

É e não é, porque havia aqui uma questão que é: havia a hipótese de não haver maioria, mas ser uma verdadeira geringonça anti-PS, ou seja, que incluísse o Bloco, o PAN, tudo junto. E neste caso, consegue haver uma maioria quase de direita. Uma maioria de direita mesmo, com Iniciativa Liberal, PPM, PSD e CDS. Estes partidos, que são todos de direita, não é preciso meter aqui o Bloco ou o PAN.

Ainda assim, João Cotrim Figueiredo, o deputado único da Iniciativa Liberal, ele que já reagiu também aos resultados, de alguma forma até confiante depois deste resultado de hoje, mas dizia que sobre essas contas que se fazem à direita, que a Iniciativa Liberal não é bem um partido de direita, que não se identifica de uma forma clara com a direita. Mas ainda assim, obviamente que é um dos partidos aqui na linha da frente para fazer essa coligação, que possa formar essa maioria que permita ao PSD governar nos Açores. E acrescentando a isto, o Chega estará disposto também a uma coligação?

Não, isso é o ponto, que a Iniciativa Liberal, independentemente do espectro político em que se coloque, e naturalmente que tendo em conta o sistema português ou a matriz política portuguesa, a Iniciativa Liberal está mais à direita, mas mesmo que eles não se considerem à direita, já se disponibilizou, o João Cotrim Figueiredo, a integrar esta geringonça à direita. E, portanto, por aí é logo um ponto para esta geringonça funcionar. O grande ponto, e aí respondendo também à questão do Chega, é precisamente o Chega. Mas inicialmente havia aqui um ponto que é: quem se quer coligar com o Chega? E o PSD Rui Rio não disse: "Nós com o Chega nunca na vida", como tem dito a nível nacional. Ele deixou uma declaração suficientemente aberta para permitir a José Manuel Bolieiro fazer essa coligação que integra o Chega. E ele pareceu dizer ali outra coisa: "O PAN também pode entrar". Não sei se Rui Rio quer também chamar o PAN para esta coligação, dizendo que não é um partido nem de esquerda, nem de direita, mas é uma possibilidade. Mas o grande ponto aqui é o Chega, porque o Chega, o que tem a dizer, já vimos até inclusivamente aqui uma declaração no Expresso em que diz que não está disponível do próprio líder, mas ainda falta a reação oficial, portanto, vamos aguardar. Mas o Chega pode fazer aqui uma coisa meio envergonhada, que é: André Ventura sempre disse que não iria para o governo com o PS, nem com o PSD, nem com o CDS, que não iria para o governo, não queria coligações. Mas ele pode fazer aqui precisamente o que os partidos da esquerda, de uma forma envergonhada, fizeram em 2015. Mais uma vez, para o PSD basta aprender com António Costa, que é convencerem o Chega a votar contra o programa de governo regional do PS. Portanto, o Chega pode inviabilizar um governo regional do PS.

E aí qual é que é a saída? Eleições antecipadas?

Não, depois o que acontece é o representante da República chama novamente, se o primeiro partido mais votado não conseguir nenhuma combinação, chama o segundo partido mais votado, tal e qual como é a nível nacional, o PSD, para tentar. Se o PSD tiver uma solução governativa, pode ser dada posse a esse governo. Depois para esse governo ser confirmado, é preciso que haja essa aprovação. E há outras formas de fazer isto, até o próprio governo PS tomar posse e haver uma moção de censura, enfim, há várias formas de contornar isto. Mas o que é certo é que é possível, tendo em conta aquilo que se passou em 2015, repetir a história nos Açores. Resta saber, de facto, quem quer casar com o Chega e com quem é que o Chega quer casar, porque daqueles todos é o partido que encaixa pior.