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"A vitória de António Costa" é este o título da crônica assinada pela jornalista Helena Garrido, publicada hoje no site do Observador. Helena, boa tarde.

Olá, boa tarde, Miguel.

Devolvo a pergunta que serve de mote a este artigo: o que têm em comum António Costa, António Guterres e José Manuel Durão Barroso?

Miguel, todos eles, bem nos lembramos, de maneiras diferentes, preferiram cargos internacionais a governar o país. É como que um fado que nós temos, os nossos governantes, alguns, pelo menos, preferem sair do país, assumir cargos internacionais do que estar conosco. O que geriu melhor e com maior mestria a sua saída foi, sem dúvida, António Costa, criando até teorias da conspiração por causa de um parágrafo do comunicado do Ministério Público. Aquele que geriu pior foi Durão Barroso. Além disso, eles estão, de alguma forma, unidos por não terem ou por pertencerem, se quiseres, ao grupo dos primeiros-ministros que menos bem fizeram ao país. António Costa, apesar de ter estado muito tempo como primeiro-ministro, não foi capaz de fazer uma única reforma, nem deixar um investimento estruturante. Por exemplo, não decidiu o aeroporto, não temos TGV, estamos tão parados como estávamos em 2010, uma década e meia depois. Diria que, de fato, foi o primeiro-ministro que teve todas as oportunidades e que não aproveitou nenhuma. E agora, como prêmio, é presidente do Conselho Europeu.

Eu queria perguntar, não será lá grande currículo este de António Costa, que Helena aqui faz menção, para assumir um cargo tão importante quanto este?

Pois, de fato. Nós quando olhamos para o país, vemos o estado em que está a saúde, a educação, a justiça, a administração interna, veja-se agora o caso dos polícias, o caso da imigração descontrolada, com desrespeito dos direitos humanos, além de que Costa nos deixou ir para eleições com o país mergulhado no caso de suspeitas de corrupção envolvendo o seu chefe de gabinete, o que obviamente ia beneficiar o CHEGA. Tudo isto foi o que nos deixou António Costa. Dizem-nos, obviamente, que temos as contas certas, mas são umas contas certas que foram obtidas à custa da míngua dos serviços públicos, como bem percebemos, e que por isso mesmo criam aqui problemas de sustentabilidade muito complicados. Não tem o perfil. Como executivo, não tem de todo o perfil, diria eu, mas como nós sabemos, o perfil do presidente do Conselho Europeu é um perfil muito mais político e é um perfil muito mais ajustado àquilo que nós conhecemos de António Costa. É um perfil mais de jogos políticos e de conciliação de contrários, embora, também aí, saibamos bem que esta conciliação de contrários que António Costa é capaz de fazer, também é capaz de não fazer quando isso não lhe dá jeito, ou quando não quer, ou quando não gosta das pessoas, ou quando as pessoas se atravessam no seu caminho. Sabemos bem como é que ele chegou à liderança do Partido Socialista, retirando António José Seguro. Assistimos aos debates, na altura bastante agressivos, com a então líder do CDS, Assunção Cristas. Vimos também como é que foi a relação com o Bloco de Esquerda, que também nunca foi uma relação muito pacífica, digamos assim, e até mais recentemente, a relação com André Ventura, do Chega, que ironicamente vai pedir para aderir agora ao grupo criado pelo primeiro-ministro Orbán, com quem António Costa, bem sabemos, teve boas relações, aliás, votou a favor da sua nomeação, da sua escolha para presidente do Conselho Europeu.

Precisamente, há pouco dizias que António Costa terá sido dos três, aqui incluídos António Guterres e José Manuel Durão Barroso, aquele que geriu com mais mestria esta ida para o Conselho Europeu. Neste artigo, fazes menção a alguns fatos, como António Costa ter assumido a dada altura a pasta dos assuntos europeus, de ter assistido, como há pouco dizias, ao lado de Viktor Orbán, à final da Liga Europa em 2023, no âmbito de uma visita oficial. Orbán que também, como referiste, apoiou a ida do primeiro-ministro para a presidência do Conselho Europeu. Sugeres que nada disto foi por acaso, que António Costa já estava nesta altura, ainda com as vestes de primeiro-ministro, a preparar a corrida ao Conselho Europeu?

Tudo indica que sim. Aliás, se nós bem nos recordamos, a primeira fase da maioria absoluta, na campanha eleitoral, houve alguns eventos que parecia que António Costa não queria ganhar as eleições. E depois, nos primeiros tempos da maioria absoluta, António Costa passava mais tempo fora do país do que dentro do país. De alguma forma, deixou o governo ao Deus-dará e não é por acaso que depois tivemos todos aqueles casos e casinhos de ministros e secretários de Estado que tiveram de se demitir. O que dá a ideia é que, de fato, António Costa e o presidente da República sabiam disso. Aliás, no discurso de tomada de posse, avisou que se António Costa saísse no meio do mandato Existiriam eleições antecipadas. De alguma forma, claro que tudo indica que andou a preparar o seu caminho para ser presidente do Conselho Europeu.

E nessa perspectiva, aquele último parágrafo do comunicado da Procuradoria-Geral da República acabou por ser uma bênção.

Ora bem, é isso mesmo, apesar de quer o primeiro-ministro, quer o Partido Socialista terem criado várias narrativas em torno desse tal parágrafo, com teorias da conspiração em torno do tal parágrafo, essas teorias da conspiração eram muito mais adaptadas em termos de ficção. Aliás, o Paulo Ferreira um dia destes falou disso no Vencedor. Essa teoria da conspiração era muito mais ajustada, virava ao contrário, ou seja, pensando que esse tal parágrafo não foi cozinhado, como se deu a entender na altura, ou como andavam a dar a entender os socialistas, não foi cozinhado pelo Ministério Público numa espécie de cabala contra o primeiro-ministro, mas deu imenso jeito e numa teoria da conspiração ficcionada, daria até para construir uma história em torno da construção desse parágrafo e como António Costa pode ser a mão atrás do arbusto nesse tal parágrafo. Porque a teoria da conspiração, depois de tudo o que sabemos hoje e depois de tudo o que já aconteceu, adapta-se muito mais na sua versão oposta àquela que o Partido Socialista e o próprio António Costa, de alguma forma, construíram na altura e transformando o Presidente da República num alvo.

Terminas o teu artigo com esta frase: "Há qualquer coisa de fato neste nosso destino de não sermos capazes que os nossos governantes gostem de nos governar." O problema está em nós, Helena?

Eu penso que não. E espero que não. Penso que o problema parece estar mais nos governantes. Nós tivemos outros governantes que nos conseguiram governar e que não tiveram tanta sorte assim para cargos internacionais. O problema pode estar na falta de capacidade executiva de alguns governantes. Não é fácil governar, obviamente, há muita conciliação de interesses que é preciso fazer, de interesses económicos e interesses financeiros. Esse tipo de conciliação de interesses para chegar a uma decisão, António Costa não foi capaz de fazer, até chegar a uma decisão de investimento. Veja-se o caso do aeroporto, os anos que estamos a tentar decidir isso, mas eu diria que a responsabilidade, obviamente, nunca é do povo. A culpa não é do povo. A culpa, com certeza, e a responsabilidade é de quem não tem capacidade ou não tem tido capacidade para ser executivo, para executar políticas que transformem o país e que consigam que o país seja mais próspero e mais desenvolvido. E todos estes líderes dos nossos governos que nos deixaram por troca de cargos internacionais, alguns deles até, na prática, trabalham para líderes internacionais. No fundo, António Costa vai trabalhar para pessoas com quem estava enquanto o primeiro-ministro de um país soberano, estava de igual para igual. Agora não estará de igual para igual. Assim como aconteceu com José Manuel Durão Barroso e de alguma forma até com António Guterres. Preferem não estar de igual para igual e escolher um cargo internacional, mas obviamente, a responder à tua pergunta, é uma espécie de fato sim, mas eu diria que a responsabilidade nunca é, nem pode ser, do povo, porque os bons líderes é que conduzem o povo para a prosperidade.

É esta reflexão feita pela jornalista Helena Garrido num artigo com o título "A vitória de António Costa" e que pode ler em observador.pt. Helena Garrido, obrigado por teres aceitado o nosso convite para seres hoje a colunista do dia.

Muito obrigada.