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E o colunista do dia hoje é a arquiteta e deputada municipal de Lisboa, Margarida Mendes Penedo, a quem agradeço a disponibilidade para estar conosco aqui em estúdio. Bem-vinda, Margarida, mais uma vez.

Olá, Miguel.

"Mouraria: o medo vem de fora", este o título da crônica hoje publicada em observador.pt e que tem como ponto de partida a iniciativa do presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, o socialista Miguel Coelho, que organizou uma sessão pública de denúncia e alerta do aumento da insegurança na freguesia que abarca boa parte dos bairros históricos da cidade de Lisboa. Noto no texto que escreve, Margarida Mendes Penedo, alguma surpresa com esta iniciativa da Junta de Freguesia liderada por Miguel Coelho. É esse o sentimento que lhe suscita?

Por acaso não pensei que isso transparecesse do texto, mas de fato surpreendeu-me quando li a vossa notícia, porque esta iniciativa do presidente da junta foi notícia no Observador e a violência da própria denúncia, a violência das palavras usadas, ele apelava a um sobressalto e isto de fato surpreendeu-me, porque até à véspera eu associava este presidente de junta ao contrário.

Ao contrário?

Sim, dizia que não havia problema nenhum de segurança naqueles bairros que estão sob o governo dele, da freguesia dele, porque aquela freguesia abrange vários bairros.

Vários bairros, sim. A Mouraria.

Enfim. Diferentes, não é? Um pouquinho diferentes, sim. E o problema principal aparece na Mouraria. Foi aí que incidiram a maior parte das queixas dos vários moradores que se apresentaram nesta tal sessão no Hotel Mundial. Mas a sessão veio depois da notícia.

Denunciaram casos de violência, tráfico de droga.

Sim, coisas horríveis. Ele denunciava agressões, homicídios, uma tentativa de violação e dizia que havia um sentimento generalizado de medo.

Mas não é um problema que decorre da imigração, diz ainda.

Ele diz que nada tem a ver com etnias, nem com orientações sexuais. Eu acho que ele aqui não teve muito jeito pra expressar o que queria dizer, porque isso não faz grande sentido, nem as orientações sexuais, que é que são pra aqui chamadas, não faz grande sentido.

Mas são pessoas com hábitos culturais diferentes.

E não é só isso. De fato, a imigração tem um papel nisso, mas a imigração não é a única culpada, não é o único problema, o que se passa aqui nestes bairros.

Mas a imigração é parte do problema? É isso que defende a Margarida?

É parte do problema, sem dúvida nenhuma.

Em que medida?

Em várias medidas. A primeira é tornar aquele bairro, vamos centrar-nos na Mouraria porque este é um bairro que faz fronteira com a freguesia seguinte, que é a freguesia de Arroios, onde este tipo de problemas também já tem vindo a ser discutido. Por quê? Para já, a densidade populacional que se gerou ali quase que de um momento pra outro.

Com poucas condições.

Num espaço de tempo muito curto e com muito poucas condições. Exatamente. Quando nós ouvimos dizer que apartamentos muito pequenos, de repente, moram lá 30, 40, 50 pessoas, são apartamentos que são alugados muitas vezes pelas máfias, por gangs, por associações criminosas. Outras vezes não são por associações criminosas, mas são por conjuntos de pessoas que alugam aqueles apartamentos e depois ocupam-nos quase à hora. Portanto, na realidade, as pessoas não vivem ali, não se pode dizer que aquilo seja viver, morar.

Esse problema em concreto que aponta decorre da origem das pessoas que ali vivem ou da condição econômica e social dessas pessoas?

Não sou eu que determino de onde é que vêm as pessoas, eu só observo. E observo que estas pessoas que vêm pra ali desta maneira, grupos de homens, quase tudo são homens, e são homens muito novos.

Mais jovens.

Isso também tem alguma coisa a ver. E todos ali juntos. Repare, eu até digo no texto que não era preciso eles virem daquelas origens de onde vêm, se fossem grupos de portugueses. De resto, às vezes isso vê-se com estudantes, quando eles ocupam algumas áreas, depois aquilo há desacatos, e há barulho, e há boteiras, e há drogas. É verdade, de certa maneira, é próprio da idade, é próprio de uma superpopulação só de homens. Ali as coisas são agravadas. Sim, são agravadas por alguns fatores. Alguns têm a ver com eles, outros não têm a ver com eles, mas concorrem pro desacato. Da parte deles há, não todos, porque eles vêm da Índia, do Paquistão, do Nepal, do Bangladesh, e eles não têm uma religião comum, portanto nem todos têm a mesma religião. Mas alguns têm uma religião que subvaloriza as mulheres, portanto, isso ajuda. E têm hábitos culturais diferentes, muitas vezes hábitos culturais que decorrem da própria religião. A religião também, de certa maneira, determina, até certo ponto, os hábitos culturais. E portanto, isso ajuda a que o medo sentido pelas mulheres tenha, às vezes, algum fundamento.

Porque só há homens nestes grupos.

Só há homens e pela atitude deles, a atitude muitas vezes é ostensiva. E portanto, isso agrava. Mas não é o único problema. Depois tem outros problemas Quando a imigração é descontrolada, cresce desta maneira e se concentra em dois ou três bairros de Lisboa, no fundo, são poucas freguesias, a freguesia de Arroios e a freguesia de Santa Maria Maior, designadamente este bairro. Alguns encontram trabalho, alguns inserem-se e outros não, com o grande problema da imigração.

Isto não acontece também com os portugueses? Alguns têm problemas de inserção.

Mas os portugueses desempregados não estão todos em grupos de homens e vivendo no mesmo bairro. Ali, estão. E além de que os portugueses que cá estão e que não encontram trabalho, também não estão nas mãos de máfias, e aqui muitas vezes estão.

Por que questiona o timing escolhido para Miguel Coelho, do PS, ter feito esta denúncia?

Porque isso foi a resposta que eu encontrei pra minha surpresa inicial.

Ok.

Para uma pessoa que até à véspera se sobressaltava e se agitava sempre que se falava de imigração, porque via racismo e xenofobia em todo lado, muitas vezes quando não havia. Ele queria se mostrar o mais piedoso, o mais politicamente correto, o mais woke de todos. E depois, de repente, está a fazer um estardalhaço destes quanto à criminalidade, aquilo pareceu-me estranho. Depois percebi, afinal, a resposta é clarinha. Ele faz isto nesta altura, porque as exigências dele recaem sobre dois governos, o governo municipal e o governo da República. As soluções dele dependem de dois governos que neste momento são liderados pelo PSD. Portanto, ele quer atacar o PSD, ele não quer defender a população dele, nem quer defender o bem-estar nas freguesias dele. O que ele quer é atacar estes governos. Isso é nítido. E mais, quer atacar e quer, de facto, que a direita, PSD, resolva o problema que ele, de certa maneira, até pelo seu próprio passado, se tornou incapaz de resolver. Mais do que isso, ele fomentou. Ele ajudou muito a fomentar este problema.

Em que medida?

Em várias medidas. Nem todas dependem dele, mas ele ajudou a fomentar. Aqueles bairros há muito tempo que são bairros de grande fragilidade, porque antes de começarem a ser reabilitados pelo alojamento local, eles eram bairros onde vivia gente muito pobre em casas com muito poucas condições. Portanto, já não eram bairros que se caracterizassem pelo bem-estar das pessoas que vivem ali. E é importante que haja uma determinada porcentagem de população residente nos bairros. Isso dá estabilidade e qualidade de vida aos bairros. E a população residente que ali estava não era uma população feliz, era uma população que ali estava porque não conseguia ir para outros sítios, porque vivia em casas muito degradadas, na maior parte das vezes. Depois o alojamento local começou a resolver esse problema, mas trouxe o turismo. Uma coisa traz a outra. E este presidente de junta começou a zangar-se muito com o alojamento local. Ele muitas vezes até vai à televisão contra o alojamento local.

Margarida, vamos ter que acelerar, temos 20 segundos.

Então, diga-me onde é que quer que eu incida.

Não, precisamente, que concretizasse.

Quando veio a imigração, ele não só deixou que se acumulasse o problema desta maneira, como se zangava, se insurgia e exibia uma grande indignação contra quem mencionasse quer a existência do problema, portanto, muito menos tentasse resolver o problema. Portanto, o que eu acho e digo é que o Partido Socialista e a esquerda instrumentalizaram, fizeram o aproveitamento político da imigração. E agora querem que a direita resolva o problema que eles não são capazes de resolver, com a vantagem de poderem ainda insultar a direita chamando de fascistas e populistas. E para eles ficam as frases piedosas, o problema fica resolvido.

Margarida, eu julgo que fica claro, mas quem não ficou totalmente clarificado, então aconselho a ir ao observador.pt e a ler esta crônica, "Mouraria: o medo vem de fora". É assinada pela arquiteta e deputada municipal de Lisboa, Margarida Mendes Penedo, a quem renovo o agradecimento pelo facto de ter vindo hoje aqui aos estúdios do Observador. Boa tarde, Margarida.