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Paulo Ferreira, morreu Bernie Madoff, o autor de uma das maiores fraudes financeiras da história. Paulo Ferreira, com 82 anos, por que recordar Bernie Madoff? Ele estava a cumprir uma pena de prisão de 150 anos por esquemas de fraude fiscal. Por que é importante recordar Bernie Madoff e este caso na justiça e na economia norte-americana?
Ele tornou-se conhecido mundialmente precisamente por causa dessa fraude. As pessoas podem chegar à fama por várias razões e não todas muito nobres, e o caso de Bernie Madoff é precisamente um desses casos. Era um financeiro muito conhecido nos Estados Unidos, sobretudo na elite nova-iorquina. Desde os anos 70, 80, que ele criou uma sociedade de gestão de fundos de investimento, gestão de fortunas. No fundo, era uma espécie de banqueiro privado dos ricos, de alguma elite americana e nova-iorquina que tinha dinheiro, e ele foi construindo uma fama ao longo de algumas décadas de saber gerir esse dinheiro, aplicar na bolsa, em imobiliário, em arte, e de dar bons retornos, boas rentabilidades aos seus clientes. E depois nessa elite, o nome dele ia passando de boca em boca e foi assim que ele construiu, de facto, uma reputação muito boa junto desse mundo, até chegarmos à crise financeira de 2007, 2008. E com a crise financeira, com o fecho de muitas facilidades de financiamento que ele tinha e que muitas outras empresas, gestoras de fundos e mesmo bancos tinham, percebeu-se que essas rentabilidades que ele dava e essa sagacidade na gestão era uma fraude, de alguma maneira. Não era mais do que um esquema de Ponzi, um esquema piramidal em que o dinheiro de novos clientes que entrava para o investimento servia para pagar os outros clientes que tinham que receber o retorno dos seus investimentos. E esses esquemas, como se sabe, só funcionam se nunca pararem. É como andar de bicicleta, nós não podemos parar, senão temos que pôr o pé no chão. E a partir do momento em que, com a crise financeira, se fechou esse financiamento, percebeu-se isso e deixou de haver dinheiro para pagar aos clientes que iam pedindo o retorno dos seus investimentos. Foi um caso muito falado mundialmente em dezembro de 2008, estávamos em plena crise financeira. Foi uma autodenúncia de seus filhos, aliás, aquilo funcionava como uma empresa familiar, os filhos trabalhavam com ele. Os filhos perceberam que não havia dinheiro para pagar. Nesse dezembro de 2008, foram eles próprios chamar as autoridades e apresentar o seu caso. E a partir daí foi tudo muito rápido. Ele foi detido, as autoridades investigaram. Obviamente que a autodenúncia facilitou muito as investigações, mas mesmo assim é daqueles casos em que nós olhamos para aquilo que se vai passando em Portugal e costumamos fazer a comparação. Em meio ano, houve a denúncia, houve a investigação, houve o julgamento e houve a condenação. Tudo isso em apenas meio ano. Em meados de 2009, ele estava a ser condenado aos tais 150 anos de cadeia, o que para alguém com a idade dele, já teria 70 e tal anos nessa altura, no fundo, era uma prisão perpétua, aliás, como acaba de se verificar agora.
Paulo, deixa-me perguntar-te acerca deste impacto, porque é uma fraude que terá envolvido alegadamente 65 mil milhões de dólares. Como é que fica a justiça norte-americana na fotografia depois da celeridade em julgar este caso e também de deter Bernie Madoff, uma vez que este era um esquema desta dimensão sem precedentes na história, como é que fica a justiça norte-americana na fotografia neste caso?
A justiça americana sai bem, obviamente, deste caso, pela rapidez com que atuou, com que resolveu o caso, com que o condenou e com que fez justiça. Claro que a confissão dos autores, de Madoff e dos seus filhos, ajudaram obviamente a deslindar o caso. Mas de qualquer maneira, a rapidez da justiça também tem outra vantagem neste caso, que é conseguir recuperar o mais possível de dinheiro para pagar aos lesados, aos clientes lesados, e calcula-se que mais de metade tenham recebido de volta totalmente o dinheiro que tinham investido nos fundos e nos produtos financeiros que tinham entregue ao Madoff para gerir. Por quê? Porque a rapidez impede também que se desviem da justiça ativos que ainda valem ou que se entre em desvalorizações muito grandes dos ativos. Portanto, a justiça sai bem. Julgou, condenou, conseguiu recuperar uma boa parte daquilo que eventualmente podia ser perdido. Os clientes acabaram também, muitos deles, por recuperar aquilo que tinham investido. E a rapidez da justiça é uma questão absolutamente essencial para que ela própria se faça, para que haja justiça, e isso funcionou lá. Não foi o caso aqui, mas a justiça americana também tem uma flexibilidade muito grande, nomeadamente a negociar com os próprios criminosos, quando é caso disso, negociar confissões de alguma maneira que permitem andar muito depressa e quando é caso disso, também recuperar bens e recuperar ativos para que as perdas possam ser estancadas de alguma maneira.