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Juntou-se agora a nós neste jornal Paulo Portas, foi ministro, foi diretor do "Independente", amigo também de Miguel Esteves Cardoso, também pessoa próxima de Vasco Pulido Valente. Boa tarde, Paulo Portas, começava por falar da questão da geringonça. Já falámos aqui dessa expressão que foi cunhada por Vasco Pulido Valente e que Paulo Portas viria a utilizar também num discurso feito em plena Assembleia da República.

É verdade. O Vasco Pulido Valente tinha escrito um artigo, creio eu, sobre a evolução da natureza do Partido Socialista, onde usou a expressão geringonça. Eu era leitor habitual do Vasco, conversava com ele com alguma regularidade e quando fiz esse discurso, citando o autor original da expressão, como é devido, alarguei um pouco o sentido que a palavra geringonça podia ter para definir o momento que nós estávamos a viver. Mas como eu sempre disse, o autor original dessa muito interessante expressão era o Vasco Pulido Valente. Para mim, o Vasco Pulido Valente é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheci. E custa-me dizer isto, a partir de hoje, no passado. E não estou seguramente a exagerar, pelo menos no perímetro das pessoas que eu conheci. Era também, a meu ver, o melhor historiador do século XIX português e o mais luminoso historiador sobre esse período de difícil discussão em Portugal que é a Primeira República. Sem compreender a Primeira República, não é possível compreender o século XX português. E o livro que a mim me marcou mais sobre a Primeira República, independentemente depois de muitas conversas pessoais, foi "O Poder e o Povo", que eu acho que devia ser leitura obrigatória no sistema de ensino. Depois era uma pessoa que, como disse o Miguel Esteves Cardoso, escrevia primorosamente português e usava a língua de uma forma impecável. Sabia escrever português, e isso não é dizer pouco nos tempos que correm. Era uma pessoa muito disciplinada a escrever.

Já agora aproveito, o Paulo Portas foi também diretor do Independente, foi no fundo diretor também do Vasco Pulido Valente. Queria perguntar-lhe como é que era lê-lo na altura e lê-lo agora.

O Vasco sempre foi claro, nítido, duro e não tinha gordura nas palavras. O Vasco Pulido Valente eu acho que usava a língua portuguesa de uma forma primorosa, conhecia muito bem os clássicos portugueses e não só. Há pessoas que dizem: "bem, o feitio dele era difícil", mas isso fazia parte do carisma dele. Para mim, por exemplo, foi absolutamente extraordinário poder passar horas, durante muitos anos, até bem recentemente, a conversar com ele sobre livros, sobre história, sobre política, sobre viagens. E portanto, eu hoje fiquei muito impressionado, porque foi certamente das pessoas mais importantes na minha formação.

Inclusive apresentou o livro dele em 2018, o livro "O Fundo da Gaveta", o último livro de Vasco Pulido Valente.

E foi muito determinante para o êxito do Independente que ele aceitasse escrever no projeto que o Miguel Esteves Cardoso e eu próprio lhe apresentámos. O que também mostra alguma maior generosidade do que aquela que muitas vezes lhe é atribuída. Ele confiou em pessoas que pareceriam imaturas à época ou que não tinham ainda dado suficientes provas para que ele pudesse acreditar nelas. E a verdade é que acreditou e foi certamente um dos colunistas mais brilhantes da imprensa portuguesa e no caso, do Independente.

Muito obrigado, Paulo Portas, por se juntar a nós aqui neste jornal na Rádio Observador. Mais um dos testemunhos, um dos contributos ricos também nesta tarde em que assinalamos e tivemos essa notícia da morte de Vasco Pulido Valente, o historiador e colunista morreu aos 78 anos