Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Quem matou António Sala? A radionovela da Rádio Observador.

A morte de António Sala continuava por esclarecer. Depois de interrogado o humorista Tiago Doors e provada, mais uma vez, a inocência de um suspeito, o último episódio havia deixado uma pergunta pertinente.

Mas o que é que dizemos à comunicação social que está lá fora sedenta por uma história?

A verdade é que a ausência de uma história começava a desinteressar a comunicação social, mas, e porque sempre existem os homens que compreendem quais os assuntos de interesse público, homens que vão atrás das histórias que interessa contar, recebemos Bagão Félix no Sob Escuta da Rádio Observador.

E deixe-me que lhe diga que no meio destas contas todas, entre economia e fiscalidade, o mais difícil de contabilizar é o número de cargos que eu já exerci, ou melhor, que as pessoas pensam que eu já exerci.

Doutor, daria certamente para uma belíssima conversa, mas na verdade, este momento é só uma forma de promover este podcast, o Sob Escuta, dentro da radionovela.

Edgar, esses apartes que visam explicar as entrelinhas desta radionovela não cabem aos atores. Para a próxima deixa comigo. Bom, depois de terminada a entrevista, Bagão Félix e Edgar Caetano mantiveram-se na regie à conversa.

Edgar, eu estou um bocado magoado convosco. Vocês trazem uma série de figuras públicas para falar do assassinato de António Sala, formulam uma série de teorias meio tontas, devo dizer, e a mim não me pedem nada? Eu sei que fui ministro das Finanças, mas também sou um apreciador de galhofa.

Doutor, desculpe, não foi por mal. Repare, esta novela está no domínio da parvoíce. Nós não queremos brincar consigo. O seu percurso académico e político faz com que queiramos tratar os temas pedagógicos.

Parvoíce, sim. Pedagogia também é preciso. É tudo quanto querem de mim. Mas se até hoje não consegui que a grande maioria das pessoas diga o meu nome certo, que é Félix e não Félix, de que vale a pedagogia? Aliás, deixe-me dizer-lhe uma coisa, eu próprio não consegui convencer o meu sobrinho, entre aspas, João Félix, que continua a chamar-se João Félix. Portanto, está a ver.

Não se deixe abater, doutor. Mais do que Félix ou Félix, o importante é ser feliz.

Agradeço a sua tentativa de me animar, agradeço mesmo, mas temo que esse trocadilho seja infeliz. Quanto à morte de Sala, é pena que não tenham tempo para me ouvir. Por acaso, até trouxe nesta pastinha a mais fresca das teorias sobre a morte do homem. Mas olhe, se não tem interesse, deixe estar. Daqui a bocadinho até tenho uma entrevista no Expresso.

Tenha calma, doutor, mas que teoria é essa? Fazemos assim. Fique aqui que eu vou chamar o Paulo Ferreira e o Miguel Pinheiro. Eles veem já isso consigo.

Corra, Edgar, corra.

Até que enfim, alguma credibilidade. Edgar Caetano correu tão depressa quanto pôde. Não havia dúvida de que podia muito bem estar aqui a solução para o mistério da morte de António Sala. Caetano chegou à meta e com as notícias que trazia, logo Miguel Pinheiro e Paulo Ferreira se puseram em sobressalto.

Doutor Bagão Félix, sente-se, por favor.

Eu preciso contar-vos tudo o que sei, ou melhor, suspeito saber, sobre a morte de António Sala.

Doutor, diga-nos lá o que é que sabe mesmo sobre a morte de António Sala.

Vamos lá ver, meus amigos. Estou em crer que é do vosso interesse ouvir o que eu tenho para vos contar. Vocês estão mesmo familiarizados com o Jogo da Mala?

Jogo da Mala! O telefone vai tocar.

Eu não estou. Eu ouvia sempre e sabia sempre ao rigor qual era a quantia que lá estava na mala. Mas o raio do telefone é que nunca tocou. Eu vou fechar os olhos ao facto de estarmos aqui a falar de um programinha da concorrência, mas também só vou fazer isso porque o nome do passatempo soa a nome de megaprocesso judicial.

Calma, Miguel, não se exalte. Nos anos 80, ainda por cá não andava a Rádio Observador. Mas olhe que isso do nome da operação judicial pode ser motivo certeiro até. Eu penso estar em condições de avançar que foi pelo Jogo da Mala que começaram os planos para matar o António Sala.

Paulo, foste tu? Só porque nunca ganhaste um dinheirinho? Tu tens noção que podes ir preso? Tens noção que pode ser ainda pior? Podes perder a carteira de jornalista.

Calma, Miguel, pode ser mais sumarento até do que isso. Envolve interesses económicos, mas não os do Paulo.

Doutor, por favor, diga-nos então o que é que sabe.

Pode entrar até uma musiquinha para dar mais ênfase a esta coisa?

Acho que se arranja, sim.

Ora cá está, muito melhor. Bom, o Jogo da Mala foi durante muito tempo um passatempo em que se usava uma parte do dinheiro envolvido no negócio. Para quê? Para distrair o público desse mesmo negócio. Um tráfico obscuro onde se ganhava verdadeiro dinheiro. Era este o verdadeiro sustento do Jogo da Mala.

O que está então a dizer é que enquanto as pessoas estavam atentas ao programa, a ouvir o programa, na esperança de ganhar algum dinheirinho, havia um negócio obscuro que se aproveitava dessa distração, é isso?

Exatamente isso, Paulo. Toda a gente parava para ouvir o dito passatempo.

Mas afinal, que negócio era esse que, pelos vistos, atuava nestes momentos de distração? Eu não estou a perceber.

Nada mais, nada menos do que o que eu chamo o tráfico de bigodes falsos. Daqueles que quem já se mascarou de mexicano, sabe que estão sempre a descolar da beiça.

Desculpe, Paulo, eu não estou a ver, mas o que é que esse negócio tinha de ilegal?

Enquanto a Polícia Marítima trocava o radar pela telefonia, entravam pela costa barcos e barcos carregadinhos de bigodes falsos. E depois, o que é que acontecia? Iam para o mercado sem pagar o conhecido imposto sobre postiços e até sem certificado de maciez. Imaginem. Podiam muito bem estar a áspero esses bigodes, que eram vendidos praticamente ao mesmo preço.

Mas afinal, onde é que o António Sala entra nisto?

Ora pense comigo, caro Miguel. Quem era o principal responsável para entreter o público no jogo da mala?

O António Sala. Que com o seu poderoso bigode, fomentava no público a vontade de adquirir uma penugem semelhante.

Ora aí está, o esquema perfeito. António Sala distraía as pessoas para que os bigodes postiços entrassem contrabandeados no mercado, enquanto fazia com que o público desejasse ardentemente ser dono proprietário de um adereço semelhante.

É genial, mas o crime aqui é fiscal. E como é que se explica, então, que tenha sido esse negócio que levou à morte António Sala?

Porque o António Sala quis sair da rede. Aliás, saiu mesmo. Acabou o jogo da mala. Acabou-se, pois, o próprio bigode. A indústria dos bigodes, como é óbvio, quase ruiu.

Mas espere aí, há aqui algumas pontas soltas. Se o jogo da mala já acabou há tanto tempo, por que é que só agora é que esses mafiosos se vieram vingar do António Sala?

A sua pergunta faz sentido, mas repare bem, porque estavam à procura do momento perfeito. Ora, Miguel, pense comigo, a morte de António Sala, ao que sei, sucedeu em fevereiro. E o que é que há em fevereiro?

Bolas. Carnaval!

Ora lá está, nem mais, nem menos.

Meu Deus, com a morte de António Sala e o Carnaval à porta, dispararam as compras de bigodes postiços. E de Torres Vedras a Ovar, o Carnaval fez-se de homenagens ao António Sala.

"Et voilà"! Aí têm, meus caros, a vossa história.

Doutor Bagão Félix, como é que podemos agradecer-lhe por isto?

Investiguem, meus caros. Cheirem ao cerne disto. Vão ver.

E assim foi. Bagão Félix abriu o caminho. Com o intuito de descobrir mais sobre esta obscura indústria dos bigodes falsos, cujos interesses foram salvaguardados pela morte de António Sala, o Observador enviou uma equipa de reportagem às principais cidades do Carnaval português. Uma equipa que agora seguia em busca de pistas que conduzissem à sede desta organização criminosa. A grande máfia do pelo sintético era agora a principal suspeita da morte de António Sala.

"Quem matou António Sala?" A radionovela da Rádio Observador.

Participaram neste episódio por esta ordem: António Bagão Félix, Edgar Caetano, Paulo Ferreira e Miguel Pinheiro. Texto de Vicente Figueira. Narração de Nelson Ferreira. Sonoplastia de Diogo Casinha, Beatriz Martelo Garcia e Bernardo Almeida.