Ei-lo. O primeiro da temporada. O recordista. Isaías. Nasceu na madrugada desta quinta-feira, dia 8. Há 121 anos que o primeiro furacão no Atlântico não surgia tão tarde. É preciso recuar 121 anos, a 8 de outubro de 1905, para encontrar um furacão tão tardio, ainda eles nem tinham direito a nomes. Outra marca importante: o Isaías surge depois de 342 dias sem furacões no Atlântico, que este ano tem parecido quase um lago.
É mais uma força de expressão. O Isaías é a nona tempestade da época, só que a primeira a passar a furacão, para já apenas de categoria 1. As oito anteriores não ultrapassaram a intensidade de ventos de tempestade tropical. Numa temporada normal, a média é de 14 tempestades que ganham direito a nome, sete furacões e três megafuracões (categoria 5). Mas não quer dizer que já tenha passado todo o perigo. Basta um furacão atingir uma zona muito povoada ou ganhar uma grande intensidade para causar danos graves.
O Isaías nem fez o percurso normal das tempestades no Atlântico. Estas começam, regra geral, no Senegal ou Cabo Verde, como perturbações, avançando até às Caraíbas graças à água quente à superfície do oceano. Mas o forte El Niño deste ano tem feito com que os ventos em altitude não permitam às tempestades organizarem-se: tende a favorecer ventos mais intensos e variáveis, o que se chama cisalhamento vertical, que desorganiza os ciclones e os impede de se transformarem em furacões. O Isaías acabou por se formar de uma perturbação tropical nas águas quentes do Golfo do México, onde encontrou águas muito quentes e condições atmosféricas para se organizar.
Está a andar devagarinho, a cerca de 13 km/h, para nordeste, em direção à costa norte do Golfo do México. Está previsto que ainda faça estragos no Alabama e no noroeste da Flórida e que toque terra na sexta-feira à noite ou no sábado de madrugada. Há uma grande probabilidade de se intensificar antes de atingir terra e passar a furacão de categoria 2. Prevê-se uma subida perigosa do nível do mar que pode ir até aos 2,1 metros, chuva generalizada de até 180 mm (localmente pode chegar aos 250 mm), ventos com rajadas destrutivas e possibilidade de tornados. Os maiores riscos centram-se no litoral do Mississippi, no Alabama e no noroeste da Flórida.
Antes de Isaías se tornar furacão, tinham-se formado oito tempestades com nome no Atlântico. O Arthur, a Bertha, o Cristobal, a Dolly, o Edouard, a Fay, o Gonzalo e a Hanna. A Fay e a Hanna formaram-se perto dos Açores (algo pouco normal) e afetaram o tempo do arquipélago, sendo que a sua humidade intensificou depois os rios atmosféricos das frentes que nos atingiram. A Fay foi a mais intensa, chegou a ventos de 110 km/h, a 9 km/h dos necessários para ser furacão. A Hanna não passou de ventos de 75 km/h, mas também afetou o tempo nas ilhas. E o Gonzalo deixou cheias em Cabo Verde e teve ventos de 85 km/h.
É que isto para se ser furacão não é para todos. Uma depressão tropical tem ventos até 62 km/h. Segue-se a tempestade tropical, cujos ventos vão de 63 a 118 km/h. E só depois, aos 119 km/h de ventania, se ganha a categoria 1 de furacão. A partir dos 159 km/h, passa à categoria 2; dos 178 aos 208 km/h, à categoria 3; dos 209 aos 251 km/h, já se chega à categoria 4; e daí para cima, entra-se na categoria 5 dos megafuracões.
Apesar do Isaías, há recordes que ficam por bater. Porque houve anos inteiros sem furacões: 1907 e 1914 são dois exemplos históricos. E também houve muitos furacões depois de 8 de outubro, mesmo muitos, mas já tinha havido muitos outros antes deles. E há até o recorde do furacão mais tardio de sempre, que pertence ao Alice, em 1954: era furacão a 31 de dezembro e manteve-se furacão até janeiro de 1955.
Mas na era da vigilância via satélites meteorológicos, que começou em 1966, os furacões mais tardios da temporada tinham chegado ambos a 11 de setembro. Era um recorde que pertencia ao Gustav, em 2002, e ao Humberto, em 2013. Agora, o Isaías empurrou essa data quase um mês para a frente. Antes, as medições eram menos rigorosas e alguns ciclones que não chegavam a terra nem eram detetados: mas sabia-se de um furacão a 8 de outubro, sem nome, em 1905. Outra marca que agora o Isaías derrubou.