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Seja bem-vindo ao "Quente e Frio", um novo programa da Rádio Observador com a Filomena Martins, que todos os dias olha para o tempo de amanhã. Olá, Filomena, bem-vinda.
Olá, tudo bem?
Amanhã vai estar quente ou frio?
Se acham que hoje esteve muito calor, é melhor esperar mesmo por amanhã. Vou-te já dizer que amanhã promete ser um dos dias mais quentes do ano em Portugal. Entramos mais ou menos num forno que vai ter temperaturas muito altas, as maiores no interior, no Alentejo. Beja e Évora, por exemplo, vão chegar aos 43 graus, sendo que algumas daquelas terras mais do interior vão ultrapassar estes números.
Amareleja, talvez.
Talvez Amareleja. Castelo Branco e Portalegre, 42. Santarém e Setúbal, 40. Depois tens Lisboa nos 39, ontem ficou nos 40, que é uma temperatura muito pouco habitual para a capital. No Porto, 33, também muito acima do normal para esta época de julho. E no Algarve, ali a zona de Faro, 34 graus. Quer dizer aos locais mais frescos?
Quero, por favor, e quem me dera lá estar durante o dia de amanhã.
Pronto, é o litoral norte e o nordeste Transmontano, não há aqui grandes novidades, mas fresco é uma palavra relativa, porque, por exemplo, Viana do Castelo vai chegar aos 33 e Bragança aos 36.
Viana não é nada habitual.
Não, nada. E o que impressiona mais nem vai ser estas temperaturas de dia, vai ser as de noite, porque algumas zonas do interior os termômetros vão custar a descer dos 26 a 27 graus, como por exemplo em Portalegre e em Santarém. São unas noites muito temperadas.
Há o termo das noites tropicais, mas não é o caso destas, pois não?
Não, estas são tórridas. Acima de 25 graus são tórridas, nem podes abrir a janela porque não ajuda. As tropicais acima de 20 vão estar em muitos sítios, nomeadamente em Lisboa, 24, no Porto, 21, em Faro também 24 e nem o mar, se quiseres ir dar um banho noturno, vai oferecer grande alívio, porque a água vai rondar os 17 graus na costa ocidental, depois os 19 aqui na região de Lisboa e Setúbal e 20 a 21 no Algarve. Quanto a avisos, já sabe que estamos sobre alerta. O aviso vermelho por causa do calor extremo está quase em todo o país, no interior e no sul, e depois laranja no resto. E o risco de incêndio é muito elevado ao máximo em praticamente todo o território. Portanto, um dia para esquecer.
Já não via uma mancha no site do IPMA relativa ao risco de incêndio tão grande há muito tempo. Mas vamos lá tentar perceber um pouquinho melhor o que é que se está aqui a passar. Podemos falar de uma onda de calor, de uma cúpula de calor. Também já ouvi o termo forno ibérico. Qual destes fenômenos é que mais se adapta à situação que estamos aqui a viver?
Na verdade, vão ser as três coisas, porque uma vai dar à outra e a outra vai dar à outra. Isto, se calhar, é fácil de explicar. Ia dizer que é difícil, mas não é. Ouvimos cada vez mais as duas expressões, onda de calor e cúpula de calor.
Heat dome, não é?
Heat dome é o chapeuzinho, que é uma cúpula de calor. Ouvem-se os três, mas não são a mesma coisa. A onda de calor é aquilo que nós sentimos na pele, são os vários dias seguidos de temperaturas muito elevadas, que não é o mesmo, por exemplo, no Alentejo ou no Douro. No Douro podem ser 33 graus, no Alentejo são 40 e muitos. Já o heat dome, a cúpula de calor, é um dos mecanismos que pode provocar ou agravar a onda de calor. É uma área de altas pressões que funciona como se fosse uma tampa, que ajuda a prender o calor num certo sítio.
Uma espécie de efeito estufa.
É exatamente isso. Uma forma simples de explicar pode ser isto: a onda de calor é a febre, o heat dome é uma das razões pelas quais a febre não passa.
Ok.
É precisamente isso que está acontecendo na Península Ibérica. Imagine-se uma panela ao lume, o ar muito quente que está a subir do norte de África é o calor dentro da panela e o anticiclone, que está sobre a Península Ibérica, é a área de altas pressões que funciona como a tampa.
Podia ser aquele grilinho da panela de pressão, quase.
Não. Era bom que houvesse esse grilinho, mas não há grilinho, porque aí o ar quente vinha cá para fora e assim não vai. Esta tampa faz duas coisas: comprime o ar, faz com que ele fique ainda mais quente e dificulta a entrada de ar mais fresco vindo do Atlântico. O calor vai ficar ali preso, cada vez fica mais quente, até que algo ou alguém desvia a tampa. E há ainda mais ingredientes neste forno, neste tal forno ibérico, por isso é que se chama forno ibérico. Tem a ver com a geografia, porque há montanhas e estamos perto do Atlântico e tudo isso. Os solos estão muito secos, aquecem, por isso, mais depressa e não tendo água nos solos, parte da energia do sol, que era usada para evaporar, se não há lá água, não evapora, essa energia vai diretamente para aquecer ainda mais os solos e o ar.
E durante a noite a coisa não melhora.
Exatamente. Durante a noite fica lá o calor preso, é um dos grandes problemas. As noites assim estão quentes, em muitas zonas do país nem descem dos 25 graus, a panela nunca chega a arrefecer. No dia seguinte, o sol já começa quente e em poucas horas, em pouco tempo, aquece ainda muito mais, portanto, faz com que as temperaturas disparem outra vez.
Há aqui uma combinação neste forno ibérico, não é? Ar muito quente que vem de África, essa espécie de tampa que agora estavas a explicar que prende o calor.
O anticiclone, sim.
Os solos muito secos que não arrefecem, muitas horas de sol.
Sim, porque já estamos no verão, os dias já são mais longos.
Exatamente. E as noites tropicais que impedem esse arrefecimento noturno, que é ótimo, por exemplo, para as casas, mas que não se verifica numa situação destas.
Não, e tudo isso faz com que Portugal e Espanha se transformem durante alguns dias num dos pontos mais quentes na Europa, o tal forno ibérico, que é conhecido, e não é nada de extraordinário, mas quando o tempo aquece, aquece.
Para terminar este "Quente e Frio", uma curiosidade, porque se Portugal está a suar em bica, há outros pontos do globo com muita gente a tremer.
Há, e neste caso eu vou falar só de um que é mais surpreendente, porque enquanto Portugal se prepara, de facto, para mais uma noite de ar condicionado e de ventoinhas, que parece que se estão a vender muito bem, o sul do Brasil continua a viver um filme oposto, porque nas últimas horas, ontem e hoje de manhã, voltou a nevar nas zonas mais altas de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, localidades como São Joaquim, Urupema e São José dos Ausentes. As temperaturas desceram abaixo de zero. Nevou, houve granizadas e está realmente toda a gente de cachecol e de casacão, imagens que não são muito comuns no Brasil. Portanto, no mesmo planeta, há quem vá dormir com 27 graus às 03:00 e há quem acorde com neve à porta de casa, num sítio onde normalmente se acha que está toda a gente sempre, de facto, bem.
Surpreendente. Filomena Martins com o "Quente e Frio" de hoje. Amanhã estamos de regresso, sempre depois do jornal das 16:00, para perceber que tempo vai fazer amanhã. Até amanhã, Filomena.
Até amanhã.