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Segunda jornada do campeonato, Benfica regressa às vitórias depois de se ter estreado a perder frente ao Boavista por três bolas a duas, no Estádio do Bessa. Hoje, na receção ao Estrela da Amadora, mesmo apesar de algum sofrimento e de os gols terem sido tardios, o Benfica cumpriu e Filipe Coelho teve uma primeira parte em que, mesmo apesar de pouca inspiração, foi completamente dominante.
Sim, sobretudo no último quarto de hora do primeiro tempo, aí sim, o Benfica conseguiu subir de rendimento e acumulou algumas oportunidades de gol, inclusivamente. Houve duas surpresas na equipa inicial do Benfica, com a inclusão de Samuel Soares, ganha a titularidade a Vlad Radim, veremos qual o desfecho em relação a esta situação do grego, e Aouacheria, que foi o lateral esquerdo eleito por Roger Schmidt para fazer face à lesão de Jurásek. Aouacheria, como sabemos, é um médio-centro, mas já foi pau para toda obra nesta equipa do Benfica, já tinha inclusivamente jogado como lateral direito e hoje foi aposta na lateral esquerda. O Benfica assumiu a posse de bola sem grandes surpresas. Teve, sobretudo, Di María e Rafa a emergirem na partida, a tentar desequilibrar quase sempre pelo corredor central. Di María começou mais sobre a direita, mas procurava as zonas interiores para combinar com Rafa, mas apenas quando Kokçu emergiu na partida, por volta dos 25, 30 minutos, é que o Benfica, de facto, conseguiu empurrar o Estrela para trás. Parece-me que quer João Neves, quer Kokçu cometeram alguns lapsos em termos de passe nos primeiros 25 minutos e limitaram a capacidade de construção de jogo do Benfica. Capacidade essa que também está limitada por si só, face àquilo que são as opções de Schmidt para os flancos nesta fase. Por um lado, Aouacheria, que como sabemos, é um jogador que não tem essa capacidade de oferecer profundidade na esquerda, até porque não joga com o pé esquerdo, é um jogador predominante de pé direito, procura quase sempre esse pé e trava os ataques do Benfica, e limitou bastante o lado esquerdo, até porque João Mário apareceu nesse flanco, mas é um jogador que procura, também ele, o corredor central, e porque do outro lado, o Alexander Bah não está a arrancar a temporada da melhor forma. Já tínhamos visto limitações defensivas, quer contra Porto, quer contra Boavista, mas hoje quando foi solicitado, até no último terço, voltou a revelar bastantes dificuldades para criar diferenças. E, de facto, foi um Benfica algo limitado pelo próprio Arthur, que não tem a mesma disponibilidade em termos de movimentos à largura de Gonçalo Ramos, por exemplo, que era um jogador que caía facilmente nas faixas e podia arrastar um pouco a linha defensiva adversária. E portanto, foi o Benfica que foi paulatinamente empurrando o Estrela para trás, mas não teve um jogo assim tão asfixiante quanto seria desejável por parte de Roger Schmidt.
E na primeira parte, o Benfica, como dizias, a conseguir essa pressão sobre a equipa do Estrela da Amadora perto do final, mas também sinais de algum desgaste para a equipa do Estrela da Amadora, que esteve bastante compacta na primeira parte, sobretudo nos primeiros 15 minutos, em que chegaste a dizer que defendia num 5-4-1, sempre com Ronaldo Tavares a tentar segurar a bola ou levar o jogo pra frente.
Exatamente isso. Uma equipa do Estrela que se focou em fechar-se no seu meio-campo, embora os primeiros 10, 15 minutos até tenha conseguido esticar um pouco o jogo, sobretudo a partir das encostões do Ronaldo Tavares, o ponta-lança, que é referência, um jogador muito físico, capaz de segurar a bola, mas também de rodar e de tentar carregar até ao último terço. Mas, de facto, foi um Estrela, sobretudo focado em fechar-se dentro desse 5-4-1. Do ponto de vista da coordenação defensiva, deixou detalhes bastante interessantes, sobretudo nesse período. A verdade é que a equipa não deu muito espaço entre os elementos do setor defensivo, foi conseguindo controlar a profundidade também no espaço entre a linha defensiva e o guarda-redes e há uma exibição bastante destacável neste setor da equipa da Amadora. Aqui, à londa, Gaspar, que hoje até assumiu a braçadeira de capitão, era o central que estava a jogar no meio, com o Omuro à direita e com o Mansur à esquerda, e foi um jogador bastante importante na coordenação defensiva, na forma como antecipou alguns lances, na forma como se bateu com o Arthur Cabral, dando pouco espaço ao avançado do Benfica. E, portanto, foi um Estrela que com mais ou menos dificuldades, foi levando água ao seu moinho até ao intervalo.
E na segunda parte, a verdade é que o Benfica voltou mais ou menos mesma toada. O Estrela esteve bem também alguns minutos da segunda parte, mas a partir de certa altura o jogo tornou-se sentido único, muito em parte também graças ao desgaste físico dos homens do Estrela da Amadora, que também dissemos aqui na emissão, muito provavelmente é uma equipa com futebol para a primeira divisão, mas ainda com resistência de segundo escalão.
Sim, o Estrela acabou por pagar uma fatura física bastante pesada. Ainda apareceu nos primeiros cinco, 10 minutos da segunda parte a conseguir levar o jogo para o meio-campo do Benfica, sobretudo pelo Ronaldo Tavares, mas também com algumas encostões do Ronaldo Pereira, que estava a jogar ali como avançado interior direito. Mas parece-me que o Benfica conseguiu também reagir face à entrada, primeiro do Florentino, que deu alguma estabilidade ali na zona do meio-campo, soltou o Kokçu e permitiu também ao médio turco ter outro tipo de responsabilidades atacantes. Mas o que virou definitivamente a partida foi mesmo a entrada do David Neres, ali por volta dos 69 minutos. Foi um jogador absolutamente decisivo para dar outra dimensão atacante ao Benfica, sobretudo do lado esquerdo. E é um jogador Neste tipo de cenário, fará mais sentido ser aposta mais cedo, mais regular, por parte de Roger Schmidt, porque é um jogador que, por si só, é capaz de partir para cima dos adversários, com muita magia no seu jogo, elimina adversários, consegue atrair outros tantos e, com isso, inventa espaços que o Benfica nem sempre foi capaz de criar. Essa foi a grande chave do jogo do Benfica, a forma como lançou David Neres e como, a partir daí, conseguiu construir o resultado.
Filipe, tivemos a inserção de David Neres a fazer toda a diferença, belíssimas combinações, sobretudo lado esquerdo, sempre muito perigoso e a acabar o jogo com duas assistências. É uma pergunta que ainda não vimos ser colocada a Roger Schmidt, mas o que é que, na tua opinião, pode levar o treinador encarnado a adiar as entradas de Neres e também a não torná-lo um titular indiscutível, sendo que é também um dos jogadores favoritos dos adeptos? O que explica? É uma maneira de motivar o jogador, é uma espécie de arma secreta? Qual é a lógica de Roger Schmidt?
Será mais essa a questão, uma espécie de arma secreta para ser lançada a partir do banco quando os jogos estiverem mais fechados. O talento de David Neres é bastante insubmisso e há aqui uma certa ordem tática que Roger Schmidt vai querendo manter, muitas vezes com três médios de origem, além do duplo pivô, o próprio João Mário é um médio de origem, portanto ter um pouco mais de controle e mais de paciência na construção e na criação ofensivas. Mas parece-me que o David Neres, no último terço, quando o Benfica consegue lá chegar, é o jogador que pode dar maior dimensão de desequilíbrio. Isso ficou bastante evidente. Até me parece que é um jogador cujo futebol pode ganhar mais sobre o seu lado direito do ataque do Benfica, embora aí haja Di María. É preciso também fazer esta compatibilização. Di María joga sobretudo mais neste espaço, nesta fase da carreira, mas David Neres revelou capacidade para se adaptar ao lado esquerdo, forçar as entradas e, até pelo corredor central, foi capaz de oferecer isso. Beneficiou também da presença de um ponta de lança mais fresco. Arthur Cabral também acusou muito o desgaste e a verdade é que Tengstedt vai tendo raras oportunidades, nem sempre se afirma como uma solução para Roger Schmidt. Nesta fase, era o terceiro ponta de lança do plantel, acaba por beneficiar da ausência do Petar Musa, entra e no primeiro toque que tem na bola, a sacar muito bem a zona do primeiro poste e a permitir ao Benfica chegar à vantagem.
Arthur Cabral que se cuide também com esta entrada do jogador Tengstedt?
O futebol é o momento, portanto Tengstedt está aqui a aproveitar esta oportunidade, a ausência do Musa e este menor entrosamento do Arthur Cabral, que é um avançado muito poderoso fisicamente, capaz de reter a bola, de esperar que a equipa se aproxime, mas tem diferenças para Gonçalo Ramos. Tem muito menos mobilidade em largura, é um jogador que tem menos disponibilidade para tarefas de pressão e parece-me, nesta fase, um pouco pesado ainda, um pouco bloqueado em termos físicos, se quiseres. E Tengstedt, entrando nesta reta final, de facto aproveitou o espaço que teve e foi um jogador absolutamente instrumental nesta vitória.
O que é facto é que o Benfica conseguiu chegar à vitória, mas a coisa esteve um pouco tremida e muito em parte por causa de um homem do lado da equipa do Estrela da Amadora. Falo de Bruno Brígido, o guarda-redes, que teve aqui uma espécie de duelo à parte esta noite com Di María.
Absolutamente. Foi um dos destaques desta equipa do Estrela. Já tinha sido na temporada passada, foi fundamental no playoff contra o Marítimo, que permitiu à equipa da Amadora regressar à Primeira Liga e hoje, em particular, fez várias defesas de grande nível. E esse duelo particular com Di María, pelo menos duas bolas de grande qualidade do extremo argentino, que foram paradas pelo Bruno Brígido. A verdade é que o Estrela também ficou muito limitado em termos físicos. Primeiro com a substituição por lesão do João Reis e mais tarde, numa altura em que a equipa já tinha esgotado as substituições, o Estrela fez cinco substituições até aos 71 minutos, o Mansur, que era o central que estava a jogar pela esquerda, rompeu autenticamente, portanto já estava a jogar como um segundo ponta de lança. E houve um reajuste que teve que ser feito em termos táticos, que prejudicou a coesão defensiva. O Estrela está habituado a defender com cinco elementos e no momento em que o Benfica lança o Tengstedt já tinha só quatro. E nesse lance do primeiro gol ficou bastante visível o menor preenchimento da área em termos defensivos e permitiu ao Tengstedt ganhar vantagem sobre o adversário. Do ponto de vista físico, o jogo acabou por ficar muito comprido para o Estrela da Amadora.
E resta saber o que é que pra ti, Filipe Coelho, nesta segunda jornada, primeira vitória do Benfica na edição 2023-2024 do campeonato, o que foi o pior?
O pior acabou por ser a falta de rendimento dos flancos do Benfica e se calhar podemos alargar a análise até um pouco mais, porque por um lado o Alexander Bah não tem concorrência neste momento face à saída do Gilberto e é um jogador que não está a dar grande resposta às exigências de Roger Schmidt, não só do ponto de vista defensivo, como tínhamos visto, mas hoje do ponto de vista ofensivo, quando era preciso criar mais face ao abandono de Di María do flanco direito pra zona central e Bah não conseguiu criar. E depois, a opção, que não deixa de ser estranha, de Roger Schmidt do lado esquerdo, porque Juranšek vai ficar de fora por algum período de tempo. Riccitiello seria a opção mais evidente, mais óbvia, e de facto o Schmidt prefere colocar o Aouina naquela função, sendo certo que as limitações são evidentes. Aouina não é um lateral, não oferece esta capacidade de profundidade, de chegar até o último terço, limita muito o jogo do benfiquista e portanto há aqui dúvidas para perceber qual é o real estatuto do Riccitiello no plantel do Benfica. Para já, a verdade é que não tem havido capacidade de desequilíbrio exterior do lado dos encarnados.
E pra fecharmos e entregarmos este relatório de jogo, o que foi o melhor esta noite no Estádio da Luz?
Não dá para fugir à entrada de David Neres. Foi um jogador que virou autenticamente o tabuleiro da partida, revolucionou o ataque do Benfica, sobretudo o lado esquerdo, tem pormenores absolutamente estonteantes. É um jogador que tem esta coragem, esta vontade de ir para cima do adversário. Numa altura em que o Estrela também já estava a revelar algum desgaste, Neres foi capaz de cavar fundo na ferida, de eliminar adversários. Está ligado aos dois gols do Benfica, o primeiro a romper pela esquerda, no segundo, a forma como retira o adversário em pleno corredor central e depois entrega a bola de bandeja a Rafa, foi de facto o jogador diferencial e que explica esta vitória do Benfica.
Filipe Coelho, está feito e entregue este relatório de jogo. Benfica 2, Estrela da Amadora 0, segunda jornada do campeonato, a estreia do Filipe Coelho na época 2023-2024 aqui na Rádio Observador. Na verdade, também passaste pela .
Já tinha feito o jogo do Sporting, portanto já aqui há uma estreia com o Benfica.
É uma estreia com o Benfica que tínhamos esquecido, foi com a vitória, a primeira vitória do Sporting contra o Vizela, é verdade. Eu é que parece que estou precisado de uma estreia, alguma coisa assim do gênero. Um grande abraço, Filipe, e um bom descanso.