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Rotatório de Jogo, Rádio Observador. Augusto Inácio, vamos fazer a análise ao Arsenal-Sporting, jogo da segunda mão dos oitavos de final da Liga Europa. Vinha 2x2 de Lisboa e hoje o Sporting precisava de vencer, precisava de fazer melhor que o Arsenal para seguir em frente. O que tivemos deste jogo foi um empate nos 90 minutos, um empate no prolongamento. Tivemos um gol na primeira parte para o Arsenal, um gol na segunda parte para o Sporting. O jogo segue para prolongamento e depois para grandes penalidades e aí o Leão foi melhor. Mas este jogo teve várias histórias. Vamos começar pela primeira parte, onde o Sporting entrou muito melhor, mas depois acabou por sofrer gol.

É verdade, os primeiros 15 minutos só deu Sporting, com uma grande personalidade de jogo, a circular bem a bola, uma defesa muito segura, não deu oportunidades do Arsenal poder atacar. O Sporting, nesse período, podia tentar mais o gol. Não conseguiu, mas controlou completamente o jogo. Dos 15 aos 25 minutos, em que o Arsenal sobrepôs-se ao Sporting, pressionou mais alto, circulou melhor a bola, o Sporting não conseguia respirar, não conseguia sair, já era lançamentos longos, dava oportunidade do Arsenal ganhar sempre a primeira e a segunda bola e o Sporting estava em sofrimento quando retomou outra vez o controle do jogo, tentou chegar à baliza do adversário já com mais intencionalidade, com mais confiança e o Sporting acaba por chegar ao intervalo a perder por 1x0, numa situação de jogo que acontece um acidente de jogo em que o Adán faz uma grande defesa e o Xhaka, na recarga, faz o gol e o Sporting foi para o intervalo a perder por 1x0. Mas era aquela situação que quem estava a ver o jogo dizia: "Mas o Sporting ainda não está eliminado, o Sporting pode fazer aqui um gol e pode empatar esta eliminatória". E foi assim que começou também a segunda parte. Não sei se queres comentar a segunda parte.

Sim, força. A segunda parte começa da mesma maneira.

Eu diria que a segunda parte, até ao apito final dos 90 e tal minutos, só deu Sporting.

Pois.

Um Sporting que entrou muito bem. Um Arsenal que, para mim, foi uma grande surpresa pela negativa, no sentido que não deu intensidade ao jogo, não pressionou já tanto, não ficou tanto com a bola, perdia a bola constantemente, fruto também daquilo que era a intensidade do Sporting em termos de marcação. Pensava eu, ainda bem que estava errado, que o Pedro Gonçalves não ia aguentar a segunda parte toda, que o Ugarte não ia aguentar a segunda parte toda. Eu acho que aguentaram mais tempo porque o Arsenal não intensificou o seu jogo, o que fez com que o Sporting tivesse sempre a bola em seu poder e quem tem a bola em seu poder desgasta os jogadores que não têm a bola. E nesse sentido, o Sporting foi desgastando o Arsenal. Até que aparece aquele gol. Aquele gol, não sei se é pulgas, se é da lua, se é de outra galáxia, não sei de onde aquilo apareceu. Sei que foi um chapéu, uma chapelada de tal maneira que levantou o estádio, não só para os 3 mil adeptos do Sporting que estavam lá, mas quem estava a ver o jogo na televisão, quem estava a ouvir o relato, certeza que toda a gente pulou para celebrar aquele gol.

Nós é que levantamos.

Pois levantámos.

Ó Augusto, alguma vez conseguiste fazer um daqueles, mesmo nos treinos, alguma vez meteste uma daquelas?

Nem nos matraquilhos. Não, eu nunca fiz, até porque uma razão muito simples: para marcares um gol daquela distância, tu tens que ter potência, tens que ter uma velocidade de bola, de força, em que a bola possa descrever o arco e possa cair na baliza.

Claro.

Agora, se me deres assim: mas tu já tentaste rematar assim de longe? Já, mas a bater na trave, fazíamos jogos desses. A bola a bater na trave, quem acertasse na trave, o outro pagava o almoço. Mas conseguir acertar na trave, isto é uma questão de treino, mas isto não é uma questão de treino do Pedro Gonçalves, o que aconteceu ali. É daquilo que é momentâneo, sai da cabeça dos jogadores, sai na hora, é daqueles gols que sai um coelho da cartola e fez um grande gol, mas fez um grande gol justo para aquilo que o Sporting estava a produzir. E o Sporting acaba o jogo com a sensação de que poderia ter matado o jogo naquele lance do Edoardo, se está isolado, a bola bate na cara do guarda-redes, mas também é verdade que o Adán depois salva também o Sporting numa jogada que Trossard está isolado e com a luva. Com a luva não, porque para teres a luva, tens que ter uma mão. E com a mão consegues desviar a bola pro poste e o Sporting foi feliz. Mas sinceramente, para aquilo que foi o jogo, para aquilo que foram as oportunidades, para o rumo que o jogo tinha que levar, só podia dar a vitória do Sporting. Pronto, fomos ao prolongamento e aí já se sabe. Aí o jogo foi mais dividido, o Arsenal colocou o Odegaard e o Saka em campo, podiam marcar a diferença com a sua velocidade de jogo, mas o Sporting estava muito bem organizado e, acima de tudo, estava muito confiante para o jogo.

E aí o Roberto Moreno foi ao banco. Já tinha mudado Cher Mitma, mesmo no final da segunda parte, tinha sido a única mudança, e depois com o prolongamento começam a sair as substituições do banco.

Umas por obrigação, porque Pedro Gonçalves já ia de maca. O Trincão também já estava com falta de oxigênio há algum tempo. Enfim, o Sporting fez aquilo que tinha que fazer e o Esgaio só entra porque Pedro Gonçalves pede para sair, porque não tem mais hipótese, não saía. Mas depois com a saída do Ugarte àqueles dois minutos, o Arsenal já estava numa de estar mais por cima do jogo, sem criar grandes oportunidades até lá, mas entretanto há um lance em que, de cabeça, num livre com o Odegaard de marca e que um jogador do Arsenal, ao salvar o central do Arsenal, o Adán faz uma fantástica defesa.

Pois é.

E depois, logo a seguir, num canto, o jogador do Arsenal também rematou e é o Diomande em cima do risco da baliza que tira a bola. O Sporting aí sofreu, mas era injusto. O Sporting sofreu um gol naquela altura por tudo aquilo que fez.

Sofreu e depois, já na segunda parte do prolongamento, depois de sofrer bastante, ainda teve uma contrariedade. Já para os últimos três, quatro minutos, fica sem o Ugarte, que recebe o cartão vermelho e que não vai estar na próxima eliminatória.

O problema foi aqueles minutos que ainda faltavam jogar e depois não ter o Ugarte no próximo jogo. Mas o Sporting já não estava a chegar à frente. Arthur entrou para dar velocidade àquele corredor Praticamente a bola só chegou lá uma vez. O Cher Mit entrou mais para incomodar e segurar a bola do que aquilo que o Paulinho tinha feito. O Nuno Santos entrou, mas mais naquela de defender melhor do que atacar, porque já não havia forças para atacar. Enfim, foi o Sporting realmente em sofrimento naquele período de tempo, mas soube estar em grupo, soube sofrer. E estas equipas só passam a estas eliminatórias quando também têm uma capacidade de sofrimento muito grande.

E nas grandes penalidades, fala-se de sorte, fala-se de capacidade, fala-se de qualidade. O Sporting teve um bocadinho disso tudo, porque conseguiu vencer nas grandes penalidades sem nenhum remate para fora da baliza. Os remates foram todos à baliza, foi Adán que defendeu um e o Sporting, na verdade, marcou todos os penáltis que teve para marcar.

Para mim foi uma surpresa, não que o Sporting tivesse marcado os 100 penáltis, mas foi uma surpresa porque eu não via alguns jogadores ali a marcar penáltis, e mais a mais num jogo desta natureza, ainda por cima na casa do Arsenal e contra o Arsenal, que estava em causa uma eliminatória para os quartos de final. Realmente, os jogadores do Sporting foram fantásticos e fiquei especialmente contente. Não foi só com o último penálti do Nuno Santos, mas fiquei especialmente contente com o penálti do Usai. Um jogador que às vezes é muito criticado pelos adeptos, parece que os adeptos veem nele o patinho feio. Quando não joga menos bem, são logo as críticas todas em cima dele, mas ele mantém uma postura, uma capacidade de sofrimento, uma personalidade muito grande e chegou ali e marcou um penálti de classe mesmo. E quando ele levanta o braço, ele estava a agradecer aos adeptos, mas estava a dizer assim: "Epá, não me chateiem mais, porque eu marquei o penálti. Penálti importante". Não, o Usai mereceu. Eu gostei muito do Usai ter marcado. Fiquei um bocado a tremer do Usai marcar penáltis. Nunca tinha visto o Usai marcar penáltis, mas quando ele marcou, eu digo assim: "Grande Usai, estiveste muito bem, porque deste uma chapada de luva branca a muita gente que diz mal de ti".

Inácio também marcou e depois Nuno Santos a fazer o final.

O Nuno Santos disse que gosta do último penálti. Não é, se calhar, para ser a figura, mas porque ele sente-se bem com esta carga psicológica, que é muito grande. Sabes que quem está a marcar penáltis, eu falo por mim. Quando eu ia marcar penáltis, por exemplo, naqueles torneios em que eu também às vezes marcava e era penáltis, eu olhava e dizia assim: "Epá, mas a baliza não tem ângulo nenhum. Epá, o guarda-redes ocupa uma baliza toda". E umas vezes marcava, outras vezes falhava, não era certo a marcar penáltis. Mas admiro estes jogadores com esta frieza, com esta personalidade de marcar penáltis desta forma. É realmente de tirar o chapéu.

Augusto, antes de irmos à conferência de imprensa de Rúben Amorim, vamos ao melhor e ao pior deste encontro. Começamos pelo pior. O pior, o que tiras de pior deste jogo?

Nada. Não há nada de pior.

O Ugarte fora da próxima eliminatória.

Não, mas isso é outra coisa. Isso é outro jogo. O Ugarte fez um jogo fantástico. É que hoje foi uma noite tão fantástica para o Sporting, que eu para dizer alguma coisa de crítica ao Arsenal, parece que estou a tirar o mérito ao Sporting. E eu não quero isso.

Eu percebo.

Eu não quero isso. Por isso, negativamente, não houve nada. Positivamente, fantástico. Muita coisa boa hoje no Sporting.

Mas alguma que tenha sido melhor?

Primeiro, coletivamente, o Sporting foi extraordinário. Segundo, Rúben Amorim montou muito bem a equipa e aquela injeção psicológica que deu aos jogadores para acreditarem foi fundamental. Terceiro, o Pote, aquele golo, nem noutra galáxia, nem no outro mundo. Eu não sei se há outro mundo, mas se houver outro mundo, ele marca lá também. Quarto, o Ádan fez defesas fantásticas. E quinto, e deixei para último, para mim o homem do jogo foi o Ugarte, porque além do jogo que fez, do que correu, aquilo que foi o equilíbrio nas jogadas ofensivas do Arsenal, em que ele esteve sempre no caminho da bola e que tapou muitos ataques do Arsenal à custa da sua leitura de jogo, da sua entrega. E a entrega foi tanta que teve que levar o segundo amarelo para não acabar o jogo todo.

E está feito o relatório de jogo de Augusto Inácio na análise ao jogo entre Arsenal e Sporting. Terminou empatado a um igual, foi para penáltis, o Sporting venceu por 5x3. Os Leões estão nos quartos de final da Liga Europa.