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Este é o bebé Neves. Nasceu a 18 de novembro, nove semanas antes do tempo. Está dentro de uma incubadora, tem pouco mais de 1 kg e ainda não conhece a mãe, Elisângela, que está em coma, ligada a um ventilador e a um pulmão artificial. O choro do bebé Neves é colocado junto à cama da mãe para a ajudar a despertar.

Tendo em conta esta instabilidade da mãe e de ela parecer não ter grande melhoria ao longo dos dias, ou seja, os dias iam passando e parecia que estava sempre igual, nós lembrámos de fazer um vídeo com o som do bebé a chorar. Para quê? Para as colegas dos cuidados intensivos poderem colocar ao ouvido da mãe, transmitindo a informação. Ou seja, o seu bebé já nasceu, ele está bem, este é o choro do seu bebé.

Nádia Santos cuida do bebé Neves desde o primeiro minuto de vida, logo a seguir ao parto e depois na unidade de neonatologia.

A equipa lembrou-se de outra ideia ainda, que foi, apesar da mãe estar em coma, colocarmos fotografias do bebé em seu redor. Isto não seria tanto para o momento em que ela estaria em coma, mas para quando despertasse, poder ver fotografias do bebé.

A enfermeira envia essas fotografias para o telemóvel de Ana Margarida Santos, administrativa na Unidade de Cuidados Intensivos, onde a mãe está internada.

Eu as imprimia aqui e entregava. Fazíamos um esforço aqui para imprimi-las a cores, para fazer um pouco mais de chavela.

Os varões para cortinas que rodeiam a cama são decorados com imagens do bebé e da restante família de Elisângela, o filho mais velho, de cinco anos, e o marido, Adalberto Neves.

Antes mesmo de poder vê-lo, as enfermeiras daqui do hospital foram impecáveis.

O que é que elas faziam?

Mandavam fotos. Tiravam foto dele, enviavam por WhatsApp, faziam vídeos, enviavam. Mesmo antes de eu ir vê-lo pessoalmente, já as tinha visto por telefone.

O pai, depois de ter o teste COVID negativo, pode entrar. Mas tendo em conta que o bebé ficou ainda na sala de isolamento, ele não podia entrar. Por aí é que começámos a enviar mensagens e então as tais fotografias. E depois, quando ele passou para os cuidados intensivos, aí sim, foi o grande momento em que ele foi conhecer o filho.

Foi emocionante, foi uma coisa muito boa. Não tenho palavra para descrever, foi muito bom. Quando cheguei aqui, ele era muito pequenino, porque era prematuro.

Nádia Santos mostra-nos as mensagens que foi trocando com o pai por WhatsApp.

Esta é a primeira fotografia que temos do bebé.

Já estava bem, com uma sonda.

Que ainda estava entubado então. E mandámos esta fotografia ao pai, ele agradeceu.

Várias seguem também para o telemóvel da Unidade de Cuidados Intensivos, como se fosse o próprio bebé Neves a escrevê-las.

Em que a primeira mensagem diz: "Bom dia, sou o bebé-

"Bom dia, sou o bebé Neves, filho da Elisângela Neves. Já peso 1,100 kg. Obrigado por me fazerem chegar mais perto dela."

Chegam mesmo a enviar uma destas mensagens para o telemóvel da mãe, ainda em coma.

Demonstrava também a fé que elas tinham que a mãe iria recuperar.

E enquanto isso não acontece, o bebé Neves iria sempre ser chamado pelo apelido dos pais.

Só vai ter o nome definitivo quando a mãe acordar.

Adalberto e Elisângela vieram de São Tomé e Príncipe há 12 anos. Ele tem 33 anos e é engenheiro eletrotécnico de telecomunicações. Ela é contabilista e tem 31 anos. Era saudável, não tinha qualquer patologia que a colocasse num grupo de risco. O marido foi infetado por um amigo e passou o vírus à mulher e à sogra. Em Elisângela, a doença progrediu de forma galopante. Está ligada a um aparelho de ECMO que faz a oxigenação do sangue fora do corpo, como um pulmão artificial. Está nos cuidados intensivos, mas o seu caso envolveu vários serviços do Hospital de Santa Maria. Uma grávida, infetada com COVID-19, em coma induzido, ligada a um ventilador e a um aparelho de ECMO, é um desafio inédito e não há procedimentos testados que indiquem exatamente como atuar.

O doutor Gustavo Jesus foi o médico intensivista que recebeu esta doente do Hospital Beatriz Ângelo. Recorde-nos esse momento e as principais decisões que se seguiram.

Nós fomos contactados pelo Hospital Beatriz Ângelo porque a doente grávida e com pneumonia por COVID tinha atingido um patamar de gravidade que era incompatível com manter-se nesse hospital. Foi ventilada, foi transportada e obviamente percebemos de imediato que a situação teria que ser gerida de forma multidisciplinar.

Presumo que um dos primeiros contatos tenha sido com a obstetrícia, não?

Sim, eles foram de imediato, até antes da doente chegar ao hospital, contactados para a ocorrência, porque teria que haver de imediato à chegada uma avaliação obstétrica quanto ao bem-estar fetal e isso depois tornou-se uma prática didiária.

Ao segundo dia de Elisângela nos cuidados intensivos, concluem que o ventilador não é suficiente para garantir a oxigenação da mãe e do feto. Decidem ligá-la a esse pulmão artificial.

Nós nunca tínhamos feito ECMO numa grávida e em todo o mundo a publicação de casos é curta.

Este é João Nau, outro dos intensivistas que acompanha o caso.

Tem riscos para o bebé. Aqui existe um princípio de as nossas intervenções estarem a causar mais bem do que mal. Obviamente, há riscos para o bebé, há riscos para a mãe, mas a mãe estava numa situação em que a ausência deste suporte, de forma quase certa, iria comprometer a gravidez, o feto e mesmo a mãe.

A partir deste dia, numa sala mesmo ali ao lado da unidade isolada onde está a Elisângela, passam a reunir-se intensivistas, obstetras, neonatologistas e anestesiologistas. Avaliam regularmente os parâmetros de evolução da mãe e do bebé. O objetivo inicial é conseguir tratar a pneumonia de Elisângela e que a gravidez prossiga o seu curso natural, mas todos sabem que essa hipótese é tênue.

Mas depois tínhamos outros planos alternativos. O plano que acabou por se concretizar, que foi a realização de cesariana durante o curso de ECMO, e depois havia a possibilidade dessa cesariana ter que ser de forma emergente, porque a situação da mãe podia estar a ser desfavorável.

Por cada dia que o bebê passa na barriga da mãe, diminui o risco de sequelas ou de não sobrevivência. É um dos motivos para o diretor de obstetrícia, Diogo Aires de Campos, estar reticente em avançar com a cesariana.

Dentro do possível, nós fomos adiando a decisão, adiando durante 10 dias. Pode imaginar, com uma pressão muito grande de toda a equipa, porque estava nervosa, não sabia como é que iam as coisas. Há pouquíssima experiência com grávidas em ECMO e grávidas em ECMO com Covid a nível mundial.

Na manhã de 18 de novembro, decidem que não é possível adiar mais.

Estávamos no décimo dia de ECMO, a situação materna agravou-se.

Esta é a Mónica Centeno, uma das obstetras que vai operar Elisângela.

A Elisângela estava numa situação, para além de muito grave da sua pneumonia Covid e submetida à técnica de ECMO, estava com quadro de sépsis e com quadro de coagulopatia, ou seja, o sangue tinha dificuldade em coagular. Fizemos também um diagnóstico, nessa altura, de uma pré-eclâmpsia, é uma doença que complica a gravidez e cujo tratamento último é terminar a gravidez, ou seja, só se resolve com o parto. E esta pré-eclâmpsia podia estar a contribuir para esta coagulopatia. E esta decisão foi no sentido de tentar, obviamente, salvaguardar tanto quanto possível a vida da mãe, mas sabendo que corríamos riscos significativos ao proceder a uma cirurgia numa altura em que a doente estava bastante instável, até do ponto de vista de coagulação.

E há outro fator de risco que torna aquela decisão particularmente difícil. Elisângela está com os níveis de plaquetas no sangue demasiado baixos. Tem cerca de 30 mil por milímetro cúbico. O normal são 200 a 300 mil. Abaixo de 50 mil, é contraindicada uma cirurgia. O diretor de obstetrícia confirmará depois que tomou a melhor decisão, mas nesse dia não é claro.

As plaquetas baixas é um risco enorme de hemorragia. Quando as pessoas têm as plaquetas muito baixas, têm um risco de hemorragia numa cirurgia enorme. E toda a gente tem receio disso, porque se não consegue controlar a hemorragia na cirurgia, pode ter consequências muito graves.

Pesando risco-benefício, não foi uma decisão clara, mas foi uma decisão bastante consensual.

Assim que a reunião acaba, começam imediatamente os preparativos. Longe destes corredores atarefados, o telefone de Adalberto Neves toca.

Um certo dia, fui levar o mais velho pra escola e ao voltar pra casa, muito bem, eu ia comprar alguma coisa. Depois ligou pra mim uma médica dizendo que a minha esposa teve pré-eclâmpsia, ou seja, a sua pressão arterial estava aumentando e podia causar problemas a ela e pro bebê se eles não tirassem a criança.

Do outro lado está a obstetra Mónica Centeno.

Em relação à grávida, enquanto ela esteve grávida, fui eu que telefonei. Nomeadamente no dia da cesariana, eu própria telefonei a dizer que tínhamos decidido avançar pra cesariana.

E assim começam as horas mais desafiantes para a extensa equipa de profissionais envolvidos. João Nápol, intensivista designado para acompanhar Elisângela até ao bloco operatório.

Porque transportar estes doentes envolve uma logística grande, ainda mais em Covid. Ou seja, eu sabia que, sendo realista, ia demorar uma hora entre decidir sair daqui e conseguir chegar ao bloco operatório.

Percurso que demora, se calhar, 10 minutos.

Nem tanto, muitas vezes. Ou seja, portanto, a articulação toda que é necessária com os seguranças pra bloquearem os caminhos, bloquearem os elevadores, terem o caminho desimpedido.

A anestesiologista Filipa Lança guia-nos pelo espaço onde tudo acontece.

Aqui é a marquesa operatória. O espaço da anestesiologia é o espaço à cabeceira do doente, neste caso, a grávida. Então temos o ventilador, toda a nossa monitorização. Depois, a equipa cirúrgica são duas obstetras, uma de cada lado da marquesa operatória. Deste lado, tínhamos o perfusionista que estava a controlar o ECMO. No fundo, é como uma peça de teatro. Cada um sabe quando é que tem que entrar e quando é que tem que sair de cena, embora ficando atrás do pano para intervir se for necessário.

O espaço está preparado e os profissionais também, para qualquer cenário.

Eu e a minha colega, quando fizemos a cesariana, antes de entrarmos, preparámo-nos as duas emocionalmente para que pudesse acontecer um desfecho menos favorável. E isso é uma situação que não é fácil.

Uma dúzia de profissionais rodeiam Elisângela, com equipamentos de proteção dos pés à cabeça, a fazer lembrar astronautas. A enfermeira de obstetrícia, Alexandra Vieira, nunca tinha participado numa cirurgia assim.

Um bloco operatório cheio de profissionais multidisciplinares, uma equipa muito extensa, como eu nunca vi. Percebia-se claramente que havia aquele silêncio ensurdecedor, que toda mundo está ali com as emoções à flor da pele, mas que ninguém se pronuncia.

Fecham-se as portas, inicia-se a operação e não tarda uma primeira boa notícia.

Quando começa a cesariana, o bebê nasce pouquinho tempo depois. Assim que há a incisão cirúrgica, três, quatro minutos depois, o bebê está cá fora.

Às 13h33min nasceu um rapaz com 1kg e 44 g.

A neonatologia entra em cena e as enfermeiras Nádia Santos e Diana Eustáquio estão a postos numa sala próxima.

Uma enfermeira do bloco de partos sai, passa para a enfermeira que está-

Para quem é que passou?

Passou pra Nádia.

Passou pra mim e eu-

E disse alguma coisa? Não.

Não. É que é tão rápido.

É tão rápido.

Nem um: "Já chorou, tá tudo bem?" Nada disso.

Não, não chorou, porque ele não tinha respiração, ele estava mesmo sem respirar.

É à neonatologista Paula Costa que cabe a tarefa de comandar esta delicada operação.

Tem que ser tudo muito rápido e todas as pessoas que entram na reanimação têm que saber o que é que vão fazer. Eu fiquei a ventilar e entubar o bebê, as enfermeiras uma ficou a pôr o monitor cardiorrespiratório, outra enfermeira pôs o sensor de temperatura.

Num minuto, o bebê é ventilado e colocado dentro de um saco de plástico esterilizado para não perder a temperatura corporal.

Ele nasceu com uma frequência cardíaca ótima, rosado.

A boa notícia chega rapidamente ao bloco operatório.

Nem perguntamos. Espontaneamente vieram nos dar essa informação de novo ao bloco. Isso deixou-nos mais tranquilas, mas restava o resto da cirurgia.

Mas é um grande alívio pra continuar depois do resto da complexidade.

Muito. Pelo menos um, naquele momento, parecia estar a salvo.

A parte mesmo mais difícil foi a hemostase da parede, quer dizer, conseguirmos que parasse a hemorragia dos vasos da parede abdominal, da parede da barriga.

Luísa Pinto é a obstetra que faz equipe com Mónica Centeno.

Provavelmente 15 minutos ali a tentar laquear o maior número de vasos possível pra não ficar a sangrar posteriormente.

Ao todo, a cirurgia demora perto de uma hora e meia.

Foi um alívio, mas foi um alívio parcial. Devemos confessar que nas horas e nos dias a seguir, não estávamos completamente descansadas.

Por aquilo que poderia acontecer à mãe.

O que poderia acontecer. A senhora continuava com as plaquetas muito baixas e, na realidade, podia haver uma complicação no pós-operatório precoce.

Mónica Centeno volta a ligar ao pai.

Fez perguntas de ordem prática, mas essencialmente manteve sempre muito no registro de: "Os seus doutores é que sabem o que é o melhor, façam, por favor, o melhor pela mãe e pelo bebê, e nós estamos aqui a fazer a nossa parte do nosso lado."

Do lado da família, o empenho é colocado na oração. Foram partilhando as notícias com outros membros da igreja evangélica a que pertencem. Havia gente a rezar por Elisângela em vários pontos do mundo. Nas semanas que se seguem, o bebê Neves vai ficando cada vez melhor, mas Elisângela continua com o prognóstico muito reservado.

12 dias ligado ao ECMO, após a cesariana, até haver uma recuperação considerável dos pulmões, que permitisse fazer então em segurança a remoção do ECMO.

Este é o intensivista Pedro Gaspar da Costa.

Apesar do sucesso da gravidez e da cesariana, ainda poderíamos ter o fato de sobreviver o bebê e não sobreviver a mãe. Esse cenário ainda foi real durante mais de uma semana.

Adalberto liga todos os dias para falar com os médicos.

Os médicos diziam: "Um dia de cada vez, temos que esperar um dia de cada vez pra ver". O que nós pensávamos é que o dia passasse mais depressa, que passava o dia pra que viesse outro dia.

Parece-lhe que decorreu uma eternidade desde que o intensivista Gustavo Jesus recebeu Elisângela no hospital.

São semanas difíceis, porque obviamente o pai, que acabou de ser pai de uma criança, mas está obviamente preocupado com a mãe e não se pode tranquilizar a dizer que isto vai correr bem.

São situações extraordinariamente difíceis, a que acresce o que deve compreender, que numa situação normal, há um ano atrás, esta mesma situação permitia que nós estivéssemos pessoalmente com o pai de forma regular, que o pai da criança estivesse regularmente com a criança de forma regular e que estivesse aqui presencialmente até a perceber a situação real da sua esposa. Obviamente, com a dinâmica atual da gestão dos espaços Covid, este contato físico é praticamente abolido e isso só gera uma maior dificuldade na comunicação e na compreensão das pessoas da sua situação.

A preocupação espalha-se por vários pisos do hospital. Nádia Santos dá conta da ansiedade entre quem cuida diariamente do bebê Neves na neonatologia.

Sempre que chegávamos, antes de começar a receber o turno, a equipe no geral perguntava sempre: "Como é que está a mãe? Já saiu o ECMO?" "Não, ainda não, mais um dia."

Até que no início de dezembro.

Quando acordei, a primeira coisa que fiz é procurar a minha barriga, porque faltava-me alguma coisa. E eu apalpei o meu corpo e vi, não tinha barriga. No quarto onde eu estava, tinha sim umas fotos do bebê, mas eu não conseguia associar o bebê ao fato de não ter a barriga.

A enfermeira Fátima Noura está ao lado de Elisângela todos os dias. É ela que pendura as fotografias do bebê em volta da cama.

Quando percebi que já estávamos na fase do acordar, do vamos então agora devês sair desta situação, aí, sim, eu comecei a interagir com ela. Dizia-lhe: "Elisângela, não se preocupe, se não sentir o seu bebê, o seu bebê nasceu, nós tivemos que tirar o seu bebê". Dizia-lhe o dia que estávamos, a hora que era.

Os intensivistas que a acompanham testemunham sempre esta desorientação nos doentes.

O despertar destes doentes que ficam muito tempo ligados ao ventilador é, regra geral, um despertar desorganizado. Ou seja, se nos tentarmos todos transportar para aquilo que será uma situação de passar 20 ou 30 dias em coma, acordar e só ver pessoas vestidas com fatos de cima a baixo, a única coisa que eu lhes consigo perceber são os olhos, num ambiente estranho e, no caso dela, até não reconhecendo a sua barriga, não tendo a barriga, não percebendo o que está a acontecer, muitos destes doentes têm acordares desorganizados, despertares agitados.

Elisângela acorda e é entubada grávida no Hospital Beatriz Ângelo e acorda depois de uma cesariana sem nenhuma memória pra esse processo, depois de uma cesariana em ECMO e ventilada no neonatal de cuidados intensivos aqui neste hospital.

Foi estranho. Porque quando eu estava a sedar, eu tinha a sensação que já estava naquele lugar, porque eu sonhei bastante durante-

O que é que sonhou? Lembra-se de algum sonho?

Sim, sonhei que viajei muito. Fui ao Polo Norte, fui ao Brasil, fui ao meu país. Sonhei que viajei bastante.

E essas viagens eram o quê?

Foi tudo de barco, de navio.

De navio. E para passear, não era com nenhum objetivo específico?

Não, eu estava no hospital. O navio em que eu viajava era o Hospital Santa Maria, as instalações eram lá. Até os camas que ficam assim no teto eram iguais à roupa dos enfermeiros e auxiliares também.

No piso da neonatologia, Nádia Santos e Diana Eustáquio tinham finalmente a resposta para a pergunta que faziam todos os dias.

Disseram: "Ou ele já acordou ou a mãe acordou do coma." E então disseram: "Vamos ver."

Para nós foi uma festa.

Quem é que disse? Os colegas dos intensivos?

Sim, transmitiram que a mãe já teria acordado. E então a primeira coisa que se pensou foi: "Vamos fazer uma videochamada para esta mãe conhecer o bebê, porque ela deve estar em pânico. Olha, acorda, não tem barriga, não tem bebê, onde é que eu estou?" Agilizaram e conseguiram fazer. Foi um dos momentos mais altos do internamento do bebê e que ficou tudo super emocionado e a mãe também, claro.

Foi um balão de ar, deu-me mais força para continuar a lutar.

A Elisângela tem de esperar vários dias até conseguir reunir forças para ver o bebê pessoalmente. As enfermeiras vão encontrando outras formas de encurtar distâncias com fotos e vídeos enviados para o telemóvel da administrativa dos cuidados intensivos, Ana Margarida Santos.

Chegava ao meu telemóvel, eu enviava para o telemóvel das videochamadas que temos lá dentro, passávamos lá para dentro e as enfermeiras mostravam-lhe a ela para ela ver. Inclusive, filmes, há aqui um filmezinho dele a tomar banho. Nessa fase, a Elisângela já estava acordada e já viu. Meu Deus! Jesus! Olá. Diz assim: "Bom dia, mamã". Diz lá. Bom dia, mamã. Bom dia. Anda. Vamos para dentro da piscina? Anda lá para dentro da piscina. Anda, meu bebê, anda.

Elisângela inicia, entretanto, um intenso trabalho de fisioterapia para recuperar a massa muscular perdida durante o coma.

Não conseguia levantar os braços nem virar o corpo, não conseguia fazer nada. Era tudo com ajuda. Mas eu tinha sempre força para melhorar. Eu nunca pensei: "Não vou sair desta cama, não vou voltar a andar." Isto nunca chegou a passar pela minha cabeça.

Melhora de forma tão rápida que deixa os cuidados intensivos para ser colocada numa enfermaria normal. Mas é ainda de cadeira de rodas que consegue deslocar-se à neonatologia para finalmente ver o filho.

Foi uma alegria tê-lo comigo e saber que ele está bem. Também fiquei um bocadinho assustada que ele era mesmo pequenino. Sim, bem pequenino. E estava ligado, cheio de tubos e fios.

Nas orações, Adalberto tinha pedido que a mulher pudesse sair do hospital antes do Natal. Vai buscá-la no dia 17 de dezembro.

Já conseguia sair pelo meu próprio pé. Já comia sozinha, basicamente as coisas mínimas já conseguia fazer sozinha, levantar, sentar.

O bebê Neves tem alta a 8 de janeiro, dois meses e um dia depois de a mãe ter entrado no Santa Maria. Agora já tem nome próprio, mas os pais preferem que não seja revelado. Encontramos os pais e o bebê numa das enfermarias da neonatologia, rodeados de outros berços com prematuros. Elisângela e Adalberto revezam-se a pegar no bebê ao colo, completamente embrulhado em mantas.

Mãe para o colo da mãe, que é para a mamãe dar o colo.

Já foi muito bom.

Ficaram cá, não ficaram?

Não, nós tivemos que estar no dia de Natal.

Dia de Natal.

Já foi bom a mãe estar em casa.

O dia em que o bebê saiu com alta com a mãe, foi uma emoção muito grande, ver aqueles dois. Vitória, tipo assim.

Sim, final feliz.

Completamente.

Como desejávamos desde o início.

Elisângela Neves perdeu os primeiros 22 dias do filho, mas tem agora o resto da vida para compensar. Foram salvos, acompanhados e acarinhados por dezenas de profissionais de saúde, como a enfermeira Fátima Nora, que não chegou a despedir-se de Elisângela. Provavelmente não a reconheceria. Estava em coma enquanto Fátima lhe ia repetindo ao ouvido que o bebê Neves estava bem.

Então se pudesse estar com ela e falar com ela, o que é que lhe diria?

Diria que ela foi uma vencedora. Nós vencemos, mas ela foi a principal vencedora. Ela e o bebê. Nesta batalha, o Covid não venceu, fomos nós, fomos nós todos que vencemos.