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85 horas

Olá, chamam-me bebé Neves e esta é a história incrível de como nasci

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A minha mãe ficou infetada quando eu tinha 27 semanas na barriga dela. Foi para o hospital, deixou de conseguir respirar e tiveram de a ligar a um ventilador e a um pulmão artificial. Os médicos fizeram-me nascer sem terem a certeza se eu e ela íamos sobreviver. A minha mãe ficou em coma. Eu chorei e puseram este som ao lado dela para a ajudar a despertar.

Eu já tinha 16 dias de vida quando a minha mãe finalmente acordou e me viu numa videochamada. Mas só conseguiu ter forças para se levantar e vir ter comigo depois de mais quatro dias. Vestiu uma bata para me proteger do vírus e pegou-me ao colo — diz que fui um balão de ar e que lhe dei mais força para continuar a lutar, para ficar boa e poder tomar conta de mim. Foi uma luta difícil de muitos médicos e enfermeiros vestidos de astronautas. E também não foi nada fácil para o meu pai. Mas este é o nosso último dia no hospital, ao fim de quase dois meses. Mal posso esperar para chegar a casa e conhecer o meu mano mais velho.

Muito sofreu Adalberto, neste mês e meio em que teve a mulher internada e em coma, com o bebé na barriga ou depois numa incubadora longe da mãe. "O nosso bebé é muito importante, mas a minha preocupação era mais a minha esposa: é a minha companheira de guerra, estivemos sempre os dois juntos nas nossas batalhas, nas nossas dificuldades."

Muito telefonou Adalberto para o hospital, para perguntar como estava o bebé, mas sobretudo para saber como estava a mulher. "É chato para eles, mas eu pedia sempre desculpa: 'Não podendo visitar, sem poder fazer nada, a única coisa que posso fazer é ligar para vocês...'" Tranquilizaram-no e disseram-lhe que podia ligar sempre que quisesse.

Muita fé teve Adalberto, na mulher, nos médicos e em Deus — sempre a rezar com os pastores e os irmãos do seu círculo de oração na Igreja Evangélica. Na maioria das vezes, durante o coma, apenas lhe diziam que estava "estável", o que o deixava inquieto. Mas um dia um médico respondeu-lhe que a mulher estava "entre a vida e a morte" e foi ainda pior. Mesmo assim, acreditou sempre que ela ia sobreviver.

Adalberto Neves, 33 anos, engenheiro eletrotécnico de telecomunicações, e a sua mulher, Elisângela, 31 anos, contabilista, nasceram ambos em São Tomé e Príncipe, de onde saíram para Portugal em 2008. Tiveram o primeiro filho em 2015 e decidiram logo esperar cinco anos até avançarem para o segundo, para o mais velho ter tempo de ganhar autonomia.

Com "grande alegria", Elisângela soube que estava grávida no fim de abril, pouco depois do início da pandemia — que nunca julgou que atingisse esta gravidade: para o mundo e para ela própria, depois de ter corrido sério risco de perder a vida e a do seu bebé.

O vírus atingiu a família em outubro, na sequência de um gesto de altruísmo e de uma imprudência. O pai recebeu um telefonema de um amigo doente, a perguntar se podia ir à farmácia comprar-lhe medicamentos, e disse-lhe que sim. Mas entrou em casa do amigo sem pôr a máscara. A mulher pressentiu logo que tinha sido um erro e disse-lho: "Estás feito, já estás infetado. Se ele tem febre há três dias e não baixa, esquece, já está..."

Três dias depois, Adalberto começou a ter 38, 39 graus de febre. Ligou ao amigo doente a pedir-lhe para ir fazer um teste, deu positivo, e assim que receberam a notícia também ele e Elisângela se submeteram aos testes que confirmaram que estavam infetados, tal como a mãe de Elisângela, que vive com o casal.

A mulher deixou de ir trabalhar para ficar em isolamento e também começou a sentir febre e dores no corpo. Tentou atenuar os sintomas com paracetamol, mas nunca baixou dos 38. Uns dias depois, uma tosse persistente e dores no peito juntaram-se aos sintomas.

"Vamos ter de ir ao hospital", decidiu Adalberto — e levou a mulher ao Beatriz ngelo, em Loures. A mãe de Elisângela necessitou igualmente de assistência clínica, pelo que chegaram a ficar ao lado uma da outra naquela unidade hospitalar. Por pouco tempo. Apesar de ser uma mulher jovem e saudável sem fatores de risco, a situação de Elisângela agravou-se rapidamente, com o nível de oxigénio no sangue a baixar para valores que obrigaram os médicos a entubá-la e a ligá-la a um ventilador.

Elisângela já não se lembra, mas antes desse momento que pode ser sempre derradeiro — sem saber se acordaria do coma e em que condições — teve tempo para fazer uma chamada a Adalberto, impedido de entrar no hospital, onde proíbem o acesso a acompanhantes. "Disse que a tinham mudado para os Cuidados Intensivos, porque estava com muita falta de oxigénio. Liguei ao hospital para saber mais, mas responderam-me que as chamadas eram só das 8 da manhã às 8 da noite e não se podia falar mais." No dia seguinte, Adalberto ligou de novo, mas a mulher já não estava ali: tinha sido transferida para o Santa Maria, por falta de vagas neste hospital de Loures.

"ECMO? Fui ver à internet e fiquei preocupado só de ver falar no sangue a sair fora do corpo"

O médico intensivista Gustavo Jesus estava de serviço na urgência do Santa Maria quando recebeu o telefonema a pedir uma vaga para Elisângela. Foi admitida às 3h23 da madrugada de sábado, 7 de novembro. Grávida de 27 semanas, infetada com Covid-19, ligada a um ventilador — o médico percebeu logo que viria a caminho uma doente cujo tratamento se poderia tornar muito complicado e ligou à obstetra de turno na urgência, Luísa Pinto, para o ajudar a avaliar se haveria indicação para interromper a gravidez. Naquele momento ainda não havia.

Mas logo ao segundo dia de Elisângela nos Cuidados Intensivos, os médicos concluíram que o ventilador não era suficiente e decidiram ligá-la a outra máquina, um aparelho de ECMO (sigla em inglês para oxigenação por membrana extra corporal). Esse aparelho faz circular quatro a seis litros de sangue por minuto fora do corpo, para ser oxigenado, substituindo assim a tarefa dos pulmões danificados e prolongando a vida da doente. Visualmente, de forma simples, há um pequeno tubo cravado numa veia junto à virilha, por onde sai o sangue, passa pelo aparelho que retira o dióxido de carbono e volta a entrar por um tubo junto ao pescoço.

Antes de submeterem Elisângela a esta intervenção, ligaram ao marido a avisá-lo. Adalberto foi ao Google: "ECMO? Eu não sabia bem o que era isso. Fiz uma pesquisa na internet e fiquei mais preocupado, só de ver falar no sangue a sair fora do corpo. Os médicos diziam que era um processo muito difícil e que ela estava entre a vida e a morte, mas mantive sempre a fé em Deus".

As enfermeiras Nádia Santos e Diana Eustáquio perceberam logo que o parto de uma mãe em coma ligada ao ventilador e ao ECMO podia ser um momento histórico. Fizeram esta selfie à porta do bloco operatório, enquanto esperavam para prestar os primeiros cuidados ao bebé. À direita, Elisângela segura pela primeira vez o seu bebé ao colo, 22 dias depois do parto.

Uma das primeiras imagens do bebé Neves, assim chamado pelas enfermeiras, a pedido do pai, que quis esperar que a mãe acordasse do coma para decidir o nome do filho. As enfermeiras enviavam regularmente a Adalberto mensagens com fotografias do recém-nascido.

Sabendo que a mãe continuava em coma, as enfermeiras da Neonatologia criaram um diário onde anotaram os momentos mais importantes da vida do bebé. Nas primeiras páginas colocaram o desenho do pé, a primeira fotografia, a hora e dia do nascimento (13h33 de 18 de novembro) e o peso (1.044 gramas).

Mais duas páginas do diário, com imagens da incubadora onde o bebé passou os primeiros dias de vida, descrita como "a minha primeira casinha transparente". O diário foi oferecido à mãe assim que teve alta do hospital.

Diogo Ayres de Campos, diretor de Obstetrícia do Santa Maria, fotografado no bloco operatório em que se juntaram mais de 12 profissionais para acompanhar o nascimento do bebé. Foi ele que tomou a decisão final sobre o momento em que se faria a cesariana. Esperar mais tempo podia ser um risco para a mãe e para a criança.

Mónica Centeno, uma das obstetras que esteve na cesariana de Elisângela, juntamente com a colega Luísa Pinto. Foi Mónica Centeno que ligou a Adalberto a dizer que iriam fazer o parto daí a duas horas.

As radiografias que mostram a evolução dos pulmões de Elisângela, uma mulher de 31 anos saudável, sem comorbilidades ou fatores de risco, mas que mesmo assim ficou ligada a um ventilador em coma nos Cuidados Intensivos. Em cima à esquerda, os pulmões no início dos sintomas. À direita, antes de a doente ser colocada em ECMO. Em baixo à esquerda, o momento pior ainda em ECMO. E à direita, no momento da alta.

As radiografias que mostram a evolução dos pulmões de Elisângela, uma mulher de 31 anos saudável, sem comorbilidades ou fatores de risco, mas que mesmo assim ficou ligada a um ventilador em coma nos Cuidados Intensivos. Em cima, o momento pior ainda em ECMO. Em baixo, no momento da alta.

Adalberto segura o bebé ao colo, sob o olhar de Elisângela, horas antes de o recém-nascido também ter alta do Santa Maria, na sexta-feira, 8 de janeiro. Na entrevista ao Observador, recordou o momento depois do parto em que a mulher continuava em coma: "A pessoa mais importante ainda estava hospitalizada: a minha esposa". A mulher retribuiu mostrando admiração pela forma como aguentou a situação e continuou a cuidar do filho mais velho: "Eras mãe e pai". E ele: "Foi muito difícil".

Os três médicos amigos de curso e as reuniões para decidir o momento da cesariana

Gustavo Jesus, o médico intensivista que recebeu Elisângela no Santa Maria, passou a acompanhar o caso em permanência com outros dois médicos da Unidade de Cuidados Intensivos, João Trindade Nave e Pedro Gaspar da Costa. Os três conheceram-se no curso de Medicina onde entraram a seguir ao Euro 2004 e ficaram juntos até hoje, na mesma especialidade e no mesmo serviço. Mais do que colegas, aos 34 anos são amigos e padrinhos de casamento e dos filhos uns dos outros. Um ou dois elementos do trio estiveram sempre presentes nos momentos mais determinantes para Elisângela — e iam mandando mensagens aos amigos que não podiam participar.

O objetivo inicial desta equipa que submeteu Elisângela à ECMO era prolongar-lhe a vida (e a do bebé) o tempo suficiente para tratar a pneumonia e poder eventualmente aguentar e recuperar até ao momento do parto, diz João Nave. Mas tiveram de manter sempre em cima da mesa outros dois cenários: uma cesariana programada, ou uma cesariana de emergência em caso de agravamento súbito do estado da mãe ou do feto.

A literatura científica aponta cerca de cinco dezenas de casos em todo o mundo de aplicação de ECMO em grávidas: mas todas antes da Covid-19 e em diferentes períodos de gestação. O resultado pode ser completamente diferente se o feto tiver quatro ou cinco semanas, ainda numa fase muito inicial de gestação, ou 33 ou 34, já perto do fim da gravidez. O diretor de Obstetrícia, Diogo Ayres de Campos, chegou a falar com um colega na Alemanha, que manteve uma senhora grávida seis semanas ligada a um aparelho de ECMO, mas nesse caso não foi necessário interromper a gravidez.

Já em plena pandemia, há notícias nos EUA de algumas grávidas submetidas a ECMO bastante antes dos partos, mas apenas um caso na Polónia em que a mãe infetada deu à luz ligada ao aparelho, também em novembro. Pode ter havido outros casos não reportados, como o de Elisângela — mas é tão raro a nível mundial que os médicos do Santa Maria estão a preparar um artigo científico, precisamente para poder ser usado como exemplo noutros países.

Quase todas as manhãs, os três intensivistas recebiam colegas de Obstetrícia, de Neonatologia e de Anestesiologia, para analisarem os vários parâmetros de evolução da doente e do bebé que tinha na barriga. Estas reuniões, que juntavam regularmente oito médicos, decorriam presencialmente numa sala colada ao quarto onde Elisângela estava internada, na Unidade de Cuidados Intensivos para doentes Covid improvisada num espaço onde antes da pandemia funcionava um serviço de Gastroenterologia.

"Não foi fácil. Dentro da equipa uns achavam que devíamos fazer a cesariana, outros que devíamos tentar manter mais tempo o bebé na barriga da mãe. Tínhamos de balançar o risco entre trazer um bebé muito prematuro ao mundo e poder causar uma hemorragia muito grande à grávida; por outro lado, em ECMO há probabilidade de o desfecho ser negativo e perdermos a mãe e o bebé", recorda a anestesiologista Filipa Lança.

Quanto mais tempo o bebé aguentasse, mais hipóteses tinha de nascer sem sequelas de prematuro. "Com 28 semanas de gravidez, por cada dia que ganhamos dentro da barriga da mãe, reduz-se em 3% o risco de mortalidade do bebé ou de sequelas auditivas e visuais", quantifica o diretor de Obstetrícia.

Eram realizadas ecografias praticamente diárias. Duas vezes por dia fazia-se um CTG (cardiotocografia, que monitoriza o bem estar fetal e da mãe). As análises à grávida revelaram várias alterações preocupantes. Tinha sépsis, dificuldade na coagulação do sangue e um diagnóstico de pré-eclâmpsia, uma doença da placenta, que só pode ser tratada pondo fim à gravidez, recorda a obstetra Mónica Centeno.

Na manhã daquela quarta-feira, 18 de novembro, urgia tomar uma decisão. "Qual é o momento certo para agir, de forma a nem o bebé nem a mãe ficarem para trás e sobreviverem os dois?", resume Filipa Lança. Em cerca de meia hora, tudo se encaminhou para avançar com a cesariana.

A decisão final foi do diretor do serviço de Obstetrícia, quando chegaram os últimos exames de Elisângela para avaliar se a medicação estava a inverter o agravamento do seu estado de saúde — o que não se verificou. Diogo Ayres de Campos estava reunido no seu gabinete com as duas obstetras experientes que escolheu para fazerem a cesariana, Luísa Pinto e Mónica Centeno.

Mas havia um sinal muito preocupante que tornava a operação ainda mais perigosa. As plaquetas sanguíneas da mãe estavam em redução acentuada. Uma pessoa saudável tem 200 a 300 mil plaquetas por mm3 de sangue. Uma cirurgia é contra-indicada abaixo de 50 mil plaquetas. Elisângela estava nas 30 mil. Mesmo assim, a cesariana parecia menos arriscada para a mãe e para o bebé do que o cenário de deixar a gravidez evoluir. (Dois dias depois, de facto, Elisângela já teria apenas 8 mil plaquetas por mm3, o que tornaria a operação inviável, devido ao risco de hemorragia).

"Foi uma reunião difícil", recorda o diretor de Obstetrícia. "Podemos ouvir toda a gente, mas a decisão é obstétrica. Nesse dia senti-me pressionado a não terminar a gravidez por causa do nível das plaquetas e do enorme risco de hemorragia: após o corte no útero, os vasos ficam a sangrar e são as plaquetas que vão fazendo coágulos e estancando a hemorragia. Se não se consegue controlar uma hemorragia na cirurgia, pode ter consequências graves."

A decisão foi tão no limite que Diogo Ayres de Campos admite que chegou a temer o pior desfecho, para a mãe e para o bebé: "Nunca estivemos completamente tranquilos com o bebé, as ecografias não eram completamente normais. Havia um crescimento menor. E os CTGs não eram tranquilizadores". A obstetra Mónica Centeno admite que "havia um grande risco de uma hemorragia, que podia ser fatal para a mãe".

A anestesiologista Filipa Lança pôs de sobreaviso o enfermeiro Jorge Jesus, do bloco de urgência, e pediu-lhe para preparar medicamentos de que necessitassem durante a cesariana e uma máquina de gasimetrias: "Evita correr pelo hospital para fazer análises ao sangue, se for preciso. Com tanta gente envolvida, é quase como se fosse uma orquestra: o maestro é muito importante, mas quando a sinfonia começa todos os instrumentos têm de estar a postos".

Nos Cuidados Intensivos, entre os três médicos que mais seguiam o caso, João Nave estava de turno e foi ele que acompanhou a doente, juntamente com um perfusionista habituado a manejar o aparelho de ECMO, e com a enfermeira Fátima Noura, que todas as manhãs vigiava e tratava da higiene da doente, no quarto de duas camas onde estava internada.

Só o percurso entre a Unidade de Cuidados Intensivos e o bloco cirúrgico para doentes Covid, que em condições normais pode ser feito em menos de dez minutos, acabou por demorar uma hora. Seguiram com um vigilante a abrir caminho como é habitual sempre que circulam doentes infetados, mais o médico, a enfermeira, o perfusionista, a maca com a doente e todos os aparelhos à volta, para percorrer todos os corredores e elevadores sem se cruzarem com outros doentes.

No bloco com uma dúzia de médicos e enfermeiros com equipamento de proteção à astronauta, depois de tudo preparado, assim que chegou a doente a primeira tarefa foi retirá-la da cama de cuidados intensivos para a marquesa. Sete profissionais de saúde transferiram Elisângela com toda a cautela, para nada se desconectar. "Duas pessoas à cabeceira, uma de cada lado, duas aos pés e uma a fazer suporte da máquina de ECMO. Tinha imensas seringas e fios. Fletir a perna era o suficiente para interromper a circulação, qualquer trauma na região do abdómen podia fazer mal ao bebé", recorda o enfermeiro Jorge Jesus.

Foi a obstetra Mónica Centeno que ligou ao pai do bebé a dizer que iam avançar. Adalberto estava a levar o filho mais velho à escola quando atendeu e ouviu a médica dizer-lhe que a esposa tinha pré-eclampsia, a pressão arterial estava a aumentar e isso podia causar problemas à mãe e ao bebé se não tirassem a criança.

"Daqui a quanto tempo?", perguntou o pai. "Daqui a duas horas". Adalberto foi rapidamente para casa, contou à sogra que a mulher ia ser submetida a uma cesariana e ficaram ambos as duas horas seguintes a rezar: "Então vamos orar, para que Deus dê sabedoria aos médicos e tudo possa correr bem".

Mas era tudo muito incerto. Imediatamente antes de a cirurgia começar, Nádia Santos e Diana Eustáquio, as duas enfermeiras da Neonatologia que se voluntariaram para irem ao bloco de partos receber este bebé, ouviram um médico muito pessimista em relação ao desfecho da intervenção: "Acho que não vamos conseguir que ela regresse aos Cuidados Intensivos".

Vários dos médicos e enfermeiros envolvidos recordam neste vídeo os momentos mais tensos desta cesariana inédita para todos eles e a emoção do nascimento do bebé.

O resto da cirurgia durou uma hora e meia, devido a uma hemorragia sofrida pela mãe, precisamente o que os médicos mais temiam que pudesse acontecer. Mas conseguiram estancar a perda de sangue e dar a cirurgia por concluída.

O enfermeiro Jorge Jesus só aí sentiu a descarga de adrenalina e percebeu que estava completamente suado, por causa do calor provocado pelo equipamento de proteção. Filipa Lança fala de uma sensação de missão cumprida: faltava apenas garantir que a grávida recuperasse bem no pós-operatório para poder ficar junto do filho. "Temos tendência a preparar-nos para o pior, podiam morrer os dois, era um cenário em cima da mesa, mas nós percebemos: aquilo tinha corrido bem." A enfermeira Alexandra Vieira também fala de uma sensação de alívio, que partilhou logo com as outras enfermeiras: "Ainda bem que correu desta forma, porque estava mesmo com muito medo. Antes da intervenção ninguém se pronunciava de forma tão aberta, a partir daquele momento começámos a dizer que tinha corrido melhor do que esperávamos".

Elisângela foi transportada de volta para a sua cama na Unidade de Cuidados Intensivos. A obstetra Mónica Centeno ligou a Adalberto a dizer que a cesariana tinha corrido muito bem, apesar das hemorragias, e que o bebé estava bem.

Mal recebeu a chamada, o pai ligou aos irmãos da sua igreja, que estavam em oração pela família. "Agradecemos a Deus e ficámos à espera. A partir daquele momento, as coisas podiam melhorar, porque o bebé já não estava na barriga e podiam dar-lhe mais antibióticos, para ajudar o pulmão a sarar. Foi uma vitória, mas ela ainda estava em coma."

Dentro de um saco para não ter frio, entubado e ventilado para conseguir respirar: as primeiras horas do bebé

E o bebé? Assim que saiu da barriga da mãe com 1.044 gramas, menos de dez minutos depois do início da cesariana, foi entregue à enfermeira Nádia Santos que o levou para a mesa de reanimação na sala ao lado.

"Sabíamos que ia nascer com os músculos respiratórios paralisados e teria de ser ventilado. Não chorou por estar sob efeito da medicação dada à mãe para induzir o coma", explica a neonatologista Paula Costa. Para não perder a temperatura corporal, o bebé foi colocado dentro de um saco de plástico esterilizado, com abertura no abdómen e na cabeça.

No primeiro minuto de vida, foi entubado e ligado a um ventilador, descreve a mesma médica: "Usámos um laringoscópio, visualizámos as cordas vocais e colocámos na traqueia do bebé um tubo de 2,5 mm de diâmetro que é conectado ao ventilador. Tem de ser tudo muito rápido. Mas de resto nasceu com uma frequência cardíaca óptima, superior a cem, e teve 8 [em 10] no teste de Apgar, o que é óptimo para um prematuro com tão pouco tempo de gestação." Só não estava muito reactivo e a cor ainda não era tão rosada como é suposto.

Depois desta reanimação inicial, o bebé Neves foi levado na incubadora de transporte até à sala de isolamento Covid (por a mãe ser positiva), de onde só pôde sair ao fim de dois testes negativos. O saco que o protegia do frio foi-lhe retirado na incubadora da unidade de Neonatologia, já com a temperatura regulada. E ficou a receber a alimentação através de um cateter na veia.

Horas depois do nascimento, já com o bebé estabilizado, também Paula Costa ligou a Adalberto a fazer o ponto de situação: "O pai estava muito emocionado, não estava à espera que o bebé pudesse nascer tão estável, choramingava um pouco".

Nessa noite, às 22h00, Adalberto ainda recebeu outra mensagem do hospital, enviada via Whatsapp pelas enfermeiras da Neonatologia que ficaram a tomar conta do recém-nascido: a primeira fotografia do bebé, ainda entubado, com a legenda "O seu filhote", a que juntaram um emoji ternurento. No dia seguinte, mais duas fotos às 12h25, acompanhadas por um texto escrito como se fosse o bebé Neves a falar: "Olá papá, portei-me muito bem e decidiram que já não preciso de tubinho para respirar. (...) Já respiro quase sozinho."

Neste vídeo, as enfermeiras e o pai contam como estas emotivas trocas de mensagens os preencheram a todos.

Um dos momentos mais tocantes deste vídeo é a descrição do pai sobre o momento em que pela primeira vez pôde ver ao vivo o seu filho, que afinal era ainda muito mais pequeno do que lhe parecia nas fotografias — e também a admitir o receio que teve em pegar-lhe ao colo. "Todos os pais têm receio de abrir a incubadora e pegar no bebé, acham que podem fazer algum mal", conta a enfermeira Nádia Santos.

O bebé Neves rapidamente deixou de precisar de oxigénio, aumentou de peso, e passou a tolerar 24 horas por dia a alimentação parentérica, uma solução farmacêutica com proteínas, lípidos, glicose e sais minerais.

O momento em que Elisângela despertou e procurou o bebé na barriga

"Como está a mãe? Já saiu de ECMO?", perguntavam as enfermeiras todos os dias, quando se apresentavam ao serviço. Uma das enfermeiras enviou uma foto para o telemóvel da mãe, que continuava em coma. Adalberto ficou comovido com o gesto, por mostrar a confiança que os profissionais de saúde tinham na recuperação da sua mulher.

Nádia Santos foi ainda mais longe: lembrou-se de fazer um vídeo com o som do bebé a chorar, para ser colocado junto à cama da mãe nos Cuidados Intensivos, na esperança de que ajudasse Elisângela a despertar. Em seu redor estavam também penduradas fotografias do bebé, do marido e do filho mais velho. "Era para criar uma bolha de energia positiva quando a mãe acordasse", justifica Diana Eustáquio.

De cada vez que Adalberto ligava aos médicos dos Cuidados Intensivos para saber se havia alguma perspetiva de a mulher acordar do coma, esbarrava em respostas evasivas. "Uns diziam daqui a duas semanas, outros diziam um dia de cada vez. Só queria que o dia passasse mais depressa, para vir outro dia."

"Não era certo que a mãe fosse melhorar", explica agora o intensivista João Nave. "Após a cesariana, a Elisângela esteve 12 dias em ECMO. Ainda podíamos ter o cenário de sobreviver o bebé e não sobreviver a mãe, esse cenário ainda foi real durante mais de uma semana", admite Pedro Gaspar da Costa.

Fátima Noura, a enfermeira dos Cuidados Intensivos que todas as manhãs cuidava de Elisângela, chegou a perder a esperança de a ver recuperar: "Costumo ter um 'feeling': 'Vai conseguir, vai conseguir'. Dois dias depois do parto o meu 'feeling' mudou: 'Não vai conseguir'. Mas depois, de repente, tive outra mudança de 'feeling'. Vi uma esperança, ela estava a dar a volta. Há pessoas que desistem e outras que lutam: a Elisângela lutou".

Depois de provas diárias bem sucedidas para ver se a doente aguentaria só com os pulmões, foi-lhe finalmente retirado o ECMO. Foi um momento de alívio e descompressão para os intensivistas. "Quando a retirei do ECMO, disse-lhe que íamos tirar estes cateteres chatos e ia ver-se livre de nós, acabou por ser um momento mais feliz e descontraído", assume Pedro Gaspar da Costa. Depois foram-lhe reduzindo os sedativos e a pouco e pouco Elisângela começou a despertar.

Acordou rodeada de enfermeiras com equipamento de proteção individual, todas cobertas dos pés à cabeça, em que apenas lhes via os olhos, ainda confusa com os sonhos que teve durante o coma. "Sonhei que viajei muito, ao Polo Norte, ao Brasil, ao meu país, sempre de navio."

A própria Elisângela conta neste vídeo a impressão que lhe fez procurar a barriga e já não encontrar o bebé.

O primeiro encontro da mãe com o bebé: "Fiquei um pouco assustada, porque ele era mesmo bem pequenino"

"Já viu o seu bebé? É lindo", disseram-lhe as enfermeiras, apontando para as fotografias do recém-nascido que rodeavam a cama. As enfermeiras foram-lhe contando com calma que o bebé já tinha nascido de cesariana, e que estava internado no hospital.

Logo no dia em que despertou, organizaram uma videochamada para o marido. "Estava mesmo ansioso", recorda Adalberto. "Chamei a minha sogra e o meu filho [mais velho], sentámo-nos os três no chão do hall de entrada. Foi um momento muito especial, de muita alegria. Só vê-la acordada já foi um grande alívio e motivo de festa. Agradecemos a Deus e aos médicos o trabalho muito bom que eles fizeram, tiveram muita paciência." Elisângela recorda-se sobretudo da fraqueza que sentia: "Nem se ouvia a minha voz. Não tinha força nenhuma, nem para segurar a cabeça. Mas foi memorável".

Nesta videochamada, o casal fechou um tema importante: o primeiro nome do novo filho. O irmão mais velho tinha avançado uma sugestão assim que souberam o sexo. Mas Adalberto quis esperar: "Quando nasceu não lhe dei nome. Era só o bebé Neves aqui no hospital. Dizia aos médicos e enfermeiros: 'Só vai ter nome definitivo quando a mãe acordar'".

O pai perguntou à mãe que nome iriam dar ao bebé. Elisângela respondeu baixinho, com a falta de forças, tendo as enfermeiras ajudado a transmitir o que estava a dizer: "Vai chamar-se (...)" Os pais preferem que o primeiro nome não seja divulgado — tal como também pediram para não ser mostrado o rosto do bebé. Assim que fecharam o nome, que tinha sido sugerido inicialmente pelo filho mais velho, Adalberto foi registar o seu segundo filho.

Elisângela iniciou entretanto um intenso trabalho de fisioterapia, para recuperar a massa muscular perdida durante o coma. "Não conseguia levantar os braços nem virar o corpo, nada. Sentia-me inútil, tinha de ter ajuda para fazer tudo. Mas tive sempre força para melhorar. Nunca pensei: 'Ai não vou sair desta cama, não vou voltar a andar', isso nunca chegou a passar pela minha cabeça. Tive sempre ânimo e sabia que em cada dia tinha de melhorar nalguma coisa".

Aos poucos, começou a conseguir alimentar-se melhor: já conseguia beber um iogurte ou comer uma fruta cozida, embora a "tremelicar" com o prato. Quando o fisioterapeuta a pôs de pé pela primeira vez, viu tudo às voltas, não tinha equilíbrio. Recebeu depois uma bicicleta para fazer exercícios musculares e disse a si própria que iria tentar chegar sozinha à casa de banho. Devagarinho, agarrada à parede, conseguiu.

Ainda de cadeira de rodas, levaram-na a ver o filho pela primeira vez, na Neonatologia. "Entrei, vi-o e fiquei um pouco assustada, não queria passar-lhe o bicho. Já estava negativa, mas passei por corredores, elevadores, cruzei-me com pessoas, tinha muito receio de tocar nele", recorda. Só o pôs ao colo porque as enfermeiras insistiram muito, e depois de lhes ter pedido uma bata. "Foi uma alegria tê-lo comigo e saber que está bem. Também fiquei um pouco assustada, porque ele era mesmo bem pequenino. E estava cheio de tubos, fios, sonda e cateteres".

A neonatologista Margarida Abrantes estava presente quando a mãe entrou de cadeira de rodas para ver o filho pela primeira vez: "Explicámos a situação clínica do bebé à mãe. Fizemos uma grande festa, a senhora não nos conhecia de nenhum lado e deve ter ficado muito surpreendida." A visita durou meia hora: "Fiquei cansada, mas foi gratificante: foi mesmo um incentivo ter visto o meu bebé".

Elisângela melhorou de forma tão rápida que pôde deixar os Cuidados Intensivos para ser colocada numa enfermaria normal, onde continuou o trabalho de fisioterapia. Nas orações, Adalberto tinha pedido que a mulher pudesse sair do hospital antes do Natal. Foi buscá-la no dia 17 de Dezembro. Já conseguia mudar de posição na cama, comer sem ajuda, até pentear-se sozinha e, talvez, o mais importante: "Já consegui sair do hospital pelo meu próprio pé".

Elisângela e Adalberto voltaram ao Santa Maria na véspera e no dia de Natal, para estarem com o bebé Neves. Houve tempo para prendas? "Não estávamos preocupados com isso", responde o pai. "Foi uma fase muito difícil para nós. Desde que estejamos todos juntos e com saúde é o mais importante. A prenda foi nós estarmos vivos".

O momento em que o bebé Neves teve alta, a 8 de janeiro, dois meses e um dia depois de a mãe ter entrado no Santa Maria já entubada e ventilada. Quando chegou a casa, o irmão mais velho conheceu-o pela primeira vez. Nestes primeiros dias, ainda dorme no quarto dos pais, que o acordam de três em três horas para beber leite. Às vezes demora uns dez minutos a despertar para se alimentar. Exceto quando lhe trocam a fralda, momento em que deve sentir frio, não tem chorado muito — não precisa: agora tem a mãe ao pé dele.

Elisângela está a adaptar-se à vida em casa com dois filhos, enquanto lida com toda a fadiga, de que ainda não recuperou. O Observador começou a fazer as reportagens da série "85 horas" no Hospital de Santa Maria precisamente no dia 18 de novembro, a quarta-feira em que nasceu o bebé Neves. Tomou conhecimento da saga de Elisângela em conversas nos corredores e gabinetes do hospital, mas decidiu aguardar para ver se o bebé e a mãe sobreviviam sem sequelas. Valeu a pena esperar: nada como uma história com final feliz.

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