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Manuel Alegre, muito obrigado pela sua disponibilidade. Estamos a poucos dias de mais uma comemoração do Dia da Liberdade, o 25 de Abril. Entretanto, já temos essa certeza, também pelas autoridades de saúde, que vai haver desfile na Avenida da Liberdade. Mas há aqui também outra questão relacionada com o assinalar desta data, nomeadamente no que diz respeito ao desfile e a quem vai ou não integrar este desfile. A comissão promotora do 25 de Abril, de alguma forma, e também por causa das questões sanitárias, restringiu o número de pessoas que poderiam participar. Temos já um partido, a Iniciativa Liberal, que diz que foi afastada deste desfile e que já se propôs também avançar com um desfile próprio. Queria perguntar-lhe como é que olha para esta situação e para esta alegada partidarização desta data de 25 de Abril, do Dia da Liberdade.
O dia 25 de Abril é o Dia da Liberdade. E a liberdade não é suscetível de apropriação. A liberdade não é propriedade de ninguém, de nenhum partido, de nenhuma organização, de nenhuma associação. A liberdade pertence a todos aqueles que se identificam com a liberdade. Eu não conheço bem esse caso concreto, nem os problemas de saúde, mas em princípio, no meio e no fim, a Iniciativa Liberal, que está representada na Assembleia da República e que tanto quanto me dá a dizer se identifica com os valores da liberdade, tem todo o direito a participar no desfile do 25 de Abril.
Entretanto, as justificações dadas pela comissão organizadora do desfile do 25 de Abril prendem-se com essas questões sanitárias da necessidade de reduzir o número de pessoas. Parece uma justificação plausível?
Não, que seja necessário justificar o número de pessoas por razões sanitárias e de acordo com as diretivas da Direção-Geral de Saúde, estou de acordo, mas não é a Iniciativa Liberal que vai com certeza desequilibrar o número de pessoas. Neste aspecto, eu estou solidário com a posição da Iniciativa Liberal e acho que sendo o Dia da Liberdade, eles têm todo o direito de comemorar o Dia da Liberdade.
E quanto a esta posição por parte do partido Iniciativa Liberal de avançar agora para um desfile à margem desse que é considerado o desfile oficial do dia 25 de Abril.
Não, com isso eu já não estou de acordo. Gostaria que eles estivessem presentes juntamente com os outros. Ninguém os pode proibir de lá participarem, como cidadãos.
Entretanto, também temos aqui um outro partido, o Partido Livre, que faz parte da comissão organizadora do desfile, que já adiantou que está disponível também para ceder lugares à Iniciativa Liberal.
Sim, mas aqui ninguém dá lugar a ninguém, há lugar para todos na Avenida da Liberdade, respeitando as normas da Direção. Eu sou sócio da Associação 25 de Abril, sou muito amigo do coronel Vasco Lourenço, mas acho que neste caso é preciso acabar de vez com a noção de que há uns que são bons e há outros que são maus. O 25 de Abril pertence a todos aqueles que se identificam com a liberdade. Não aos inimigos da liberdade, mas a todos aqueles que se identificam com a liberdade, sejam quais forem os seus pontos de vista.
O coronel Vasco Lourenço, que é também o presidente, como disse, da Associação 25 de Abril, já disse que está a haver aqui uma tentativa de aproveitamento político desta data.
A liberdade é sempre o direito de pensar de maneira diferente. Sempre.
E na sua opinião, Manuel Alegre, está a haver aqui algum tipo de aproveitamento político desta data?
Eu não sei. Em todas as coisas há sempre aproveitamentos políticos. E se a Iniciativa Liberal quer fazer um desfile à parte, está a fazer um aproveitamento político. Isso é óbvio. Acho que eles tinham o direito ou até dever de protestar por não participarem, mas a atitude mais bonita seria participarem mesmo.
Num plano mais abrangente, considera que tem havido uma tentativa de partidarização e de politização desta data do 25 de Abril ao longo dos últimos anos?
Não, não me parece. Eu participei em muitos desfiles do 25 de Abril, nunca vi ninguém ser excluído. Participa quem quer, alguns autoexcluem-se, mas isso é outro problema. Também há aqueles que se autoexcluem. Também há os que não gostam do 25 de Abril, atenção. Também há os que nunca usaram cravos vermelhos. Ou usam cravos brancos nesse dia, inclusivamente alguns presidentes da República. Mas isso é outra história. Há os que se autoexcluem. Também há esse problema. Para mim, liberdade é liberdade e o 25 de Abril é o dia da liberdade. Ou como disse o Igor Lourenço, a liberdade feita dia. Portanto, há lugar para todos aqueles que se identificam com essa essência do 25 de Abril.
Manuel Alegre, posso perguntar-lhe como é que vai cumprir também este dia 25 de Abril? Quais são os seus planos para este domingo?
Ainda não sei, depende do tempo, etc. Também já não estou para grandes marchas.
Mas vontade não lhe falta.
Sim, sou capaz. É a minha vontade. Fui muitas vezes, quando não fui, fui por razões ou de estar ausente ou por estar noutras localidades, que também festejo o 25 de Abril e tenho festejado noutras localidades, mas eu identifico-me totalmente com o 25 de Abril. Sou solidário com a Associação 25 de Abril, mas neste aspecto não estou de acordo. Não há donos do 25 de Abril. Ninguém é dono do 25 de Abril, nem mesmo aqueles que fizeram o 25 de Abril.
Haverá também, como é hábito, a habitual sessão solene do 25 de Abril na Assembleia da República.
E mesmo aqueles que não gostam do 25 de Abril ou se manifestam contra o 25 de Abril, devem isso ao 25 de Abril, porque antigamente não havia o direito de protestar, nem de manifestar, nem de ser contra. Até é uma homenagem ao 25 de Abril. Quando alguns dizem que não gostam ou se manifestam ou não comemoram o 25 de Abril, é uma maneira de prestar homenagem ao 25 de Abril.
Essa discórdia e essa divergência que foi permitida também com a data. Manuel Alegre, eu perguntava-lhe sobre essa cerimônia que haverá, essa sessão solene, mais uma vez no Parlamento. Obviamente que o ano passado foi um ano um pouco atípico também com os discursos muito marcados pela questão da pandemia, ou pelo menos havia um ambiente um pouco diferente por causa da pandemia e do desconhecimento que havia em relação a tudo isto. Este ano, que tipo de mensagem é que esperava ouvir por parte dos vários intervenientes na sessão no Parlamento?
Eu não dou recados desse género. As pessoas são livres de falar. Acho que o dia 25 de Abril devia cingir-se ao significado do 25 de Abril, ao significado histórico e a uma visão futurante do 25 de Abril, ligado sempre à questão essencial que é a questão da liberdade. Que a liberdade nunca é um bem completamente adquirido