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Um dos focos da Direção-Geral da Saúde tem sido os lares de idosos. É para as medidas aplicadas aos lares que olhamos agora, com a ajuda do presidente da Associação Amigos da Grande Idade, Rui Fontes. Olá, Rui, boa tarde.

Boa tarde.

Antes de mais, muito obrigado por se juntar à emissão da Rádio Observador. A Associação Amigos da Grande Idade é muito próxima dos lares de idosos e aquilo que eu lhe pergunto é se estas medidas que foram apresentadas pela DGS, e outras que já tinham sido apresentadas durante as últimas semanas, se são suficientes para que os lares consigam enfrentar este surto.

Antes de mais, é um honra estarmos a falar para o Observador. Em nome da Associação Amigos da Grande Idade, agradeço este contacto. Sobre as medidas, eu não ouvi medida nenhuma. A medida que eu ouvi foi sobrecarregar os lares com doentes que possam vir do hospital. Eu julgo que era mais fácil encontrar instituições que pudessem libertar as camas todas e encontrar soluções em que não houvesse ninguém nos locais para onde são enviados doentes potencialmente infetados, vindos do hospital. Nós recebermos pessoas, mesmo fazendo o teste, num lar de idosos, eu julgo que devemos apelar ao bom senso e cumprir as determinações que o senhor Presidente da República nos deu: falar verdade. E falando verdade, é do conhecimento das entidades que os lares de idosos não podem esconder a sua realidade, as suas deficiências, a sua falta de formação para estas situações. Não são unidades de saúde, têm uma quantidade de problemas para resolverem e, portanto, não vão ser a solução e a resposta para isto. Bem pelo contrário.

Rui Fontes, estávamos aqui a falar precisamente desta medida conhecida hoje, creio que era essa a que se estava a referir, esta decisão de testar todos os doentes que vão ao hospital antes de regressarem aos lares.

Se forem doentes que vão dos lares para o hospital e depois regressarem aos lares, já é diferente. O que eu percebi foi que os hospitais pretendem, em princípio, libertar algumas camas, colocando pessoas em lares de idosos, que nunca estiveram em lares de idosos. Pelo que eu percebi, parece que a medida é essa, mas posso estar confundido, posso ter entendido mal. De qualquer forma, uma coisa ou outra, é um bocado difícil de nós entendermos. Vamos para a realidade da situação. Nós temos dificuldade neste momento, se tivermos um doente infetado, de mandá-lo ao hospital, não só porque faltam ambulâncias, não só porque não há preparação dos transportadores para fazer isso, e que se recusam, que vão arranjando algumas dificuldades para não fazerem esse transporte, e se essas pessoas vão para os hospitais, facilmente, falando verdade, daqui a pouco tempo não temos ninguém, não temos possibilidades de atender as pessoas no hospital, pensando que um lar infetado, rapidamente, terá 50% ou a este nível de pessoas infetadas num lar. Ora bem, um lar de 60 camas, em princípio, nós podemos contar com uma taxa de mortalidade quase de 40%. E isto é a realidade, isto são os dados que nos foram dados, que nós temos neste momento conhecimento. Há situações destas já passadas em Madrid, há situações destas já passadas nos Estados Unidos, em que metade da população de um lar, depois de entrar a infecção, não sobrevive. Portanto, são pessoas de alto risco.

Falou da realidade de Madrid. Acha que essa é uma realidade que pode acontecer em Portugal também?

Pode. E eu digo-lhe por quê. Os lares, como lhe disse ao princípio, não são unidades de saúde, não estão vocacionados, como deviam estar, para a área da saúde. Têm enfermeiros que não estão a tempo completo, portanto, aos fins de semana, a maior parte dos lares em Portugal não tem um técnico de saúde. E portanto, não estão vocacionados para isto. Limitam-se. Nunca usaram máscaras, nunca usaram luvas, nunca usaram aventais, nunca usaram toucas, não têm nada deste material à sua disposição. E portanto, o que eu acho é que, falando verdade, nós devíamos tentar atenuar a situação com outras medidas mais realistas. Fazendo com que os diretores técnicos permanecessem durante este período mais nos lares e talvez fossem compensados por isso e conseguissem controlar a situação através de inventar, porque agora temos que inventar. Nós já estamos com muitos lares a pedirem-nos informação e nós já estamos a inventar. Já estamos a inventar fazermos desinfetantes com Civia misturada com água, com sal, com água e vinagre, porque não há desinfetantes para os lares de idosos e eles não os têm. Já estamos a inventar máscaras feitas com guardanapos.

Rui Fontes, mas não tem havido contacto com a Direção-Geral da Saúde para tentar perceber quais é que são?

Não. A Direção-Geral da Saúde manda informações gerais. O organismo coordenador desta área chama-se Instituto de Segurança Social, que para os lares privados e mesmo para os públicos, não mandou qualquer informação. Até hoje não fez qualquer informação, não fez qualquer avaliação da situação, não há perguntas, não há nada. Eu posso-lhe dar a realidade de um lar que ainda esta manhã falou conosco. Tiveram a queixa de uma auxiliar de um lar de idosos com possibilidades de infecção, porque às três da manhã despertou-se em estado febril, com dores intensas e com cansaço muito significativo, e foi ao hospital. O hospital disse-lhe para ela ir nesse mesmo dia, que foi ontem, às 21:00, a um centro de saúde. Ela foi a um centro de saúde, o centro de saúde mandou-a para o mesmo hospital, esteve durante a noite com oxigênio e com soro e foi enviada para casa, dizendo que lhe davam o resultado da análise até hoje às 18:00. Vamos ver se dão o resultado da análise. Contudo, esta auxiliar referiu várias vezes que trabalhava num lar de idosos, numa população de risco, e esse lar ainda não foi contactado e não há nada. Esse lar fez uma comunicação à Direção-Geral de Saúde, através do Saúde 24, de um e-mail, a explicar a situação. E o lar ainda não foi contactado. Que, de facto, não é possível contratar, fazer isto. Portanto, a Direção-Geral de Saúde tem que reconhecer a incapacidade do país de resolver esta situação e reconhecer a incapacidade de resolver a situação dos lares e dizer-nos como é que nós podemos atenuar o efeito disto. Atenuar, não é resolver, porque isto não se vai resolver nos lares de idosos. Segundo a evidência científica que nos têm demonstrado e que nos têm dado. Portanto, um residente infetado num lar ou um trabalhador que infeta um lar, o lar tem a possibilidade de tentar fazer não sabemos bem o quê. Atenuar, mais nada. Portanto, não há mais nada. Esta é que é a realidade.

Há uma notícia que está a ser veiculada que diz respeito a um lar de idosos em Alcainhões. Falamos de uma diretora técnica e creio que de mais uma funcionária, creio que são duas funcionárias deste lar que estão infetadas. Tem alguma informação sobre este caso?

Não tenho nenhuma informação sobre esse caso, mas isso é o drama dos dramas. Sinceramente, a nossa opinião sobre isto é tentarmos atenuar o máximo efeito, isolarmos os residentes todos nos seus quartos. Mesmo assim, os quartos são duplos e muitas vezes triplos, e tentarmos resolver a situação dessa forma, porque não há mais nada a fazer.

E no resto do país, há indicação de funcionários infetados em lares? Há casos registados?

Eu julgo que esta é uma realidade que está a ser um bocado escondida. Sabemos que há, por exemplo, situações em que equipas de 30 auxiliares, 17 concretamente estão em casa, não infetadas, mas estão em isolamento e, portanto, há esta falta enorme de pessoas, etc. Também me parece que a Direção-Geral de Saúde devia, neste momento, liderar este processo e tentar a intervenção de técnicos de saúde no terreno dentro dos lares, porque muitos dos lares não têm sequer informação técnica sobre a situação, não têm ninguém que possa coordenar esta situação. E portanto, devíamos fazer algum esforço nesse sentido, dentro das nossas possibilidades, porque, na realidade, nós vamos daqui a uns meses fazer as contas e vão ser brutalmente chocantes para os lares de idosos e para esta área do envelhecimento.