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Tendo em conta o espectro político e tendo em conta que uma parte da nossa sociedade está bastante inflamada, nos últimos tempos todos nós sabemos o porquê, eu creio que o senhor presidente da República foi corajoso, porque já em 2018, quando ele esteve na Maia na comemoração do Dia Internacional do Povo Cigano, e mesmo após isso, depois de condições meteorológicas em Faro, em que ele foi visitar uma comunidade cigana de Faro afetada por essa situação, onde ele sofreu variadíssimas críticas, eu creio que é, no mínimo, corajoso. Não digo que peca por tardio, porque mesmo assim tem tido alguma coragem. Agora, claro, nós sabemos que queremos muito além disso. Nós queremos que essa história também seja importante que esteja nas escolas, que haja essa representação histórica nas escolas para que possamos de uma vez por todas, para que esta sociedade se possa conhecer mutuamente e que de uma vez por todas os ciganos portugueses, os portugueses ciganos, não sejam considerados forasteiros no seu próprio país, porque de facto não existe uma Ciganalândia. Nós somos portugueses de pleno direito, patriotas, e gostaríamos de ser aceitos com a nossa cultura, que grande parte das nossas tradições não são mais do que tradições dos portugueses não ciganos até o êxodo rural. Acho que denotou uma determinada coragem. Agora, claro, também tem que assumir de uma vez por todas, o senhor presidente da República, que o nosso país, estruturalmente e institucionalmente, é um país que tem um passado colonialista e que ainda temos muito racismo no nosso país, infelizmente.

Ficou surpreendido? Eu pergunto porque a sensação que dá é que os portugueses não têm muito conhecimento de que a comunidade cigana participou ativamente no processo de restauração da independência.

Sim, mas os processos históricos são um bocadinho assim. O processo histórico também de Portugal não difere dos outros processos históricos de outros países, sobretudo os colonizadores, que tentam esconder as partes que desejam e revelar aquelas que lhes mais interessa. Toda a história que todos nós sabemos é um bocadinho assim. E claro, omitir, branquear muitas das vezes certos e determinados atores que foram importantes e que não eram brancos, que eram negros ou que eram ciganos, faz parte do sistema, desta relação de poder que ainda existe na nossa sociedade portuguesa. Essa é que é a questão, não quero com isto vitimizar, pelo contrário, acho que já são cinco séculos de permanência dos portugueses ciganos em território português, acho que já chega. Claro que nós sentimos que nos últimos cinco, seis anos estamos a passar um ciclo muito difícil com a extrema-direita e os movimentos nacionalistas, que no fundo tentam inflamar uma parte da sociedade. Eu acredito que é uma parte da sociedade, acredito que há uma parte da sociedade que não está inflamada e, claro, felizmente conseguimos ver através, sobretudo das eleições legislativas, que isso felizmente não aconteceu, mas que seguem um bocadinho a onda de toda a Europa. E claro, eu costumo dizer que com os ciganos não há ciclos de discriminação ou de ataques. Os ciganos são cinco séculos de perseguição que eu gostaria que uma boa parte da sociedade portuguesa conhecesse, para entenderem que o passado provoca hoje um presente cheio de assimetrias. Portanto, o nosso passado, a questão quando dizem que somos nômades por estilo de vida é uma mentira. Nós fomos nômades porque fomos forçados a ser nômades e há capítulos já em plena República, de 1920, que só vão terminar sobretudo em 85, que há uma severa vigilância aos ciganos, que depois foi mudada em 85 após o 25 de Abril, para os nômades. Os nômades do nosso país, nessa altura, a maior parte eram ciganos. Portanto, como vê, há ainda muito por fazer e eu acredito que todos temos de dar as mãos e trabalhar, porque alguns grupos da nossa sociedade, e um deles é a comunidade cigana, que sofre e hoje neste momento sofremos acusações coletivas porque meia dúzia de indivíduos idiotas fazem algumas coisas, e isso tem provocado e tem sido uma grande barreira para que individualmente ou então coletivamente este grupo esteja noutro patamar que desejaria estar. E acho que todos os cidadãos deveriam também trabalhar. E claro, politicamente, acho que é preciso mais coragem dos nossos políticos, porque nós não temos representação política. Dos ciganos não há nenhum português cigano na Assembleia da República, temos sim um português cigano como secretário de Estado, mas precisamos de uma vez por todas também haver uma voz para que possamos todos lutar pelos portugueses, mas também ajudar a que estes grupos que estão mais debilitados por vários motivos, e um deles é a questão histórica, possam alcançar outras cotas de prosperidade que não têm.

Considera, portanto, que esta decisão do Presidente da República vem ajudar nesse sentido de educar também, de certa forma, a população que não tinha este conhecimento?

É assim, não podemos só ficar por essa declaração. Temos que passar aos atos e politicamente, o Ministério da Educação também terá que tomar uma atitude e os manuais escolares têm, de facto, de serem referentes para este conhecimento mútuo que desejamos. Os manuais escolares, embora haja flexibilidade, as coisas estão um bocadinho diferentes, sobretudo nos currículos, mas temos que falar dos grupos que estão presentes em Portugal. Nós somos um país diverso e multicultural. A comunidade cigana está cá há cinco séculos, não pode ser omitida nem ostracizada. Isso tem que estar plasmado, sobretudo nos manuais escolares e no currículo escolares, que a comunidade cigana é portuguesa, não é forasteira, tem coisas para acrescentar e enriquecer a nossa sociedade. E acho que de uma vez por todas devemos todos nos unir nesse sentido. Não podemos só passar, porque amanhã ou depois isso vai ser esquecido. Agora temos é que aproveitar estas declarações, que são importantes, para transformar o futuro. E o futuro transforma-se com políticas. E agora o que nós precisamos? Precisamos de atores políticos que sejam corajosos, que não tenham vontade só, porque muita gente tem vontade. E sou muito sincero, a nível do poder central, há muita sensibilidade, há pessoas com vontade e há pessoas até corajosas. Eu fico preocupado, sim, é com o poder local, onde se joga aqui um papel primordial na inclusão também destes grupos. E eu sinto que há muitos políticos a nível local que estão a olhar muito para questões eleitoralistas e que daqui a dois anos, quando houver novas eleições, muitas vezes as políticas de inclusão não surgem. De facto, as pessoas têm medo. Cada vez mais há um partido, infelizmente, que o Tribunal Constitucional aprovou, que tem ganho muito espaço. Tem ganho muito espaço e tem plasmado de alguma forma todo o ódio contra estes grupos, que é um ódio cristalizado. E isto torna as coisas muito mais difíceis. Eu acho que a nível central já foram passos dados, há espaços que estão a ser criados para melhorar essa situação, mas todos nós sabemos, os municípios são autónomos e as suas políticas, muitas vezes, por muito que haja recomendações, são políticas que são levadas a cabo muito internamente e muito localmente. E isto para mim tem sido o principal problema, além do grande principal problema, que para mim são as acusações coletivas que cada vez mais surgem e são amplificadas muitas vezes pela comunicação social, e eu peço imensa desculpa de dizer isso, mas tenho que dizer, que não sabe filtrar. Comportamentos de pessoas não podem ser englobados em toda uma cultura. Isso jamais nós podemos aceitar. E nunca vou aceitar, nos meus 47 anos de vida, não vou aceitar isso. E se eu puder minimamente fazer alguma coisa para isso, com o meu trabalho, sendo dirigente associativo, sendo ativista, irei fazer, porque eu tenho consciência de uma coisa: mudar mentalidades é das coisas mais difíceis. Nós podemos mudar nomes de ruas e pontes e outras coisas de um dia para o outro, mas mudar mentalidades é uma das coisas mais difíceis, e temos consciência disso. Agora, não podemos é desistir e sermos resilientes. Uma coisa que a comunidade cigana tem é resiliência e resistência. E vamos continuar a ter, apesar de todos os ataques diários que sofremos. Eu posso dar-lhe um exemplo. Eu sou uma pessoa licenciada, estudei, vivi num bairro social com imensas dificuldades, tive uma infância que não posso dizer que foi a melhor infância. As minhas oportunidades foram diferentes de outros que não viviam naquele território. Mas posso dizer uma coisa, apesar de ser licenciado, de ter sido já autarca numa junta de freguesia, autarca quer dizer, assembleia de freguesia da minha cidade, eu ainda hoje sou conhecido como o cigano e não como o Bruno. E acho que é isso que nós todos temos que mudar, que apesar de termos uma cultura, que apesar de querermos enriquecer esta sociedade, temos que ser tratados por aquilo que nós somos, não pela cultura da qual somos portadores, que embora seja muito importante, mas para a construção de uma sociedade, não pode ser por aí. Se formos por aí, não. E outra coisa que eu não gosto: não quero que me tolerem, porque eu não quero que me suportem. Eu quero que me aceitem. E aceitem o Bruno, português, cigano com muito orgulho, como portador de uma cultura rica, que também é um pouco da cultura portuguesa há décadas atrás ou há séculos atrás.