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Muito boa tarde, obrigado pelo convite. A mim parece-me que de facto sai muito mal na fotografia. Seria expectável ou seria natural que Luís Montenegro estivesse presente no local, portanto, lá acompanhar de um modo muito mais sóbrio, muito mais distante estas operações e a dar um sinal da presença precisamente do Governo e do Estado perante uma tragédia com esta dimensão. Mas há aqui dois episódios que estão interligados, que me parecem que prejudicam bastante toda a presença de Luís Montenegro no cenário do acidente. Em primeiro lugar, naturalmente, a presença na lancha, que é completamente desnecessária, ou seja, não acrescenta, seja no acompanhamento, seja na postura, na forma como o primeiro-ministro se envolveu diretamente a acompanhar este acidente, mas acrescentar à gravidade, do meu ponto de vista, da presença, o facto de terem sido tiradas fotografias dentro da própria lancha e essas fotografias terem sido divulgadas para os meios de comunicação social. Ou seja, demonstrando que havia previamente uma intenção de utilizar, em termos de marketing político ou de campanha política, a presença de Montenegro precisamente dentro da lancha, porque senão não havia a necessidade sequer de ir um assessor ou alguém da equipa de comunicação de Luís Montenegro para precisamente fotografar e depois fazer chegar às redações das televisões, das rádios, dos jornais, as fotografias que foram tiradas. Seria algo até que nós poderíamos associar mais a outro ator político, a Marcelo Rebelo de Sousa, que tem exemplos ao longo da sua carreira, precisamente de uma proximidade e de uma presença muitas vezes também criticada, mas aqui não deixa de ser interessante duas posturas completamente diferentes. Parece-me que a comunicação de Luís Montenegro foi sóbria, foi no tom adequado, mas naturalmente sai muito penalizado por não ter tido a perceção de que de facto a presença era completamente desnecessária e creio que não traz qualquer vantagem política ao atual primeiro-ministro.

Mencionou aí o nome de Marcelo Rebelo de Sousa, Bruno Ferreira Costa. Marcelo Rebelo de Sousa já tinha dito que aparecer no teatro de operações nestes casos pode prejudicar, também fruto talvez, como dizia, de ter aprendido também com algumas das situações em que esteve. Nesse sentido, por que terá decidido aparecer Luís Montenegro, tendo em conta que esteve também lá com Marcelo Rebelo de Sousa, mas desta vez foi o primeiro-ministro que decidiu ter este papel. Qual é que seria a estratégia, na cabeça de Luís Montenegro e da sua equipa política, de ter estado na lancha, de ter estado ali presente?

É muito difícil, naturalmente, estarmos aqui dentro da própria cabeça de Luís Montenegro. Parece-me que faltou bom senso e depois faltou acompanhamento da equipa de assessores do primeiro-ministro para alguém lhe ter dito que de facto este tipo de imagem não traria qualquer vantagem ou capital político para o primeiro-ministro. Parece-me é que foi, de certo modo, pensado. Ou seja, não decorreu apenas única e exclusivamente por um convite de algum elemento da equipa de resgate ou da Proteção Civil que estivesse no local a solicitar ou a sugerir ao primeiro-ministro que pudesse ir acompanhar mais de perto as buscas, o que é totalmente desnecessário, até porque as buscas estavam a decorrer no próprio momento. E há aqui um fator, que foi o fator que Marcelo Rebelo de Sousa referiu noutros cenários, é que a presença do primeiro-ministro acarreta, naturalmente, uma maior atenção de todos aqueles que estão a acompanhar o evento, porque se houvesse ali algum percalço, algum acidente com a lancha onde estava o primeiro-ministro, estaríamos naturalmente aqui a duplicar os meios necessários para todas as tarefas associadas ao resgate. Portanto, parece-me que houve aqui essencialmente falta de bom senso, mas a presença do tal assessor ou elemento da equipa da comunicação revela que foi aqui tentado e eventualmente um brilharete político do ponto de vista da comunicação. É a única justificação que eu consigo encontrar aqui para depois, inclusivamente, as fotografias terem sido divulgadas para os meios de comunicação social.

Bruno Ferreira Costa, uma última questão um pouco mais geral. Sendo Bruno Ferreira Costa politólogo, professor de Ciência Política, habituado a lidar também com o fenómeno da comunicação política. Num âmbito mais geral, o que é que faz com que estes atores políticos tenham tanto esta tentação de estar no teatro das operações neste tipo de casos e, por outro lado, na sua opinião, de forma generalizada, se faz sentido, se ajuda de alguma forma estar um primeiro-ministro, um presidente da República, nestes locais onde há tanto a fazer e há tanto trabalho e há tanto por resolver?

Nós estamos aqui a falar essencialmente da questão do binómio entre razão e emoção. Ou seja, os políticos procuram aqui potenciar esse seu lado emotivo e a perceção que os cidadãos têm, que os eleitores têm, precisamente do lado emotivo dos agentes e dos atores políticos, demonstrando naturalmente uma proximidade perante a dor, perante a tragédia, perante as dificuldades, na ideia de partilhar precisamente esse sentimento por parte dos familiares das vítimas ou daqueles que estão afetados por uma tragédia desta dimensão. A questão é que os dias de hoje e a volatilidade da comunicação, a rapidez com que a comunicação circula, o facto de termos múltiplos atores nas redes sociais, faz com que todas estas atividades ou todos estes comportamentos sejam muito mais escrutinados e haja um grau de maior exigência por parte dos eleitores e por parte dos outros atores políticos, dos outros partidos, perante a ideia de algum aproveitamento político perante a tragédia. Portanto, eu acredito que no fundo poderemos ter um conjunto de atores políticos que acreditam também que a presença corresponde precisamente a um sentido de obrigatoriedade perante o cargo que ocupam, de demonstrar precisamente essa proximidade, essa partilha e o respeito do país perante as vítimas, mas entre esse patamar e o patamar do aproveitamento político, a linha é muito ténue e, portanto, seria de maior preocupação para os políticos conseguir precisamente dividir as águas a esse nível. Mas de facto, são decisões de muito maior impulso na altura, não havendo quem, no apoio, na assessoria, consiga de certo modo travar os atores políticos nestes momentos.

Bruno Ferreira Costa, muito obrigado por ter estado conosco aqui no Jornal do Meio-Dia da Rádio Observador