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Boa tarde, Dr. Bernardo Gomes. Antes de mais, muito obrigado pela sua disponibilidade em falar com a Rádio Observador. Perguntava-lhe que análise faz destes números divulgados pela Direção-Geral de Saúde em relação ao excesso de mortalidade nos últimos dias de junho e princípio de julho, quando se registaram aquelas temperaturas muito altas.

Primeiro de tudo, acho um exercício importante de informação e relativamente a dados que estão até disponíveis publicamente, numa plataforma própria de vigilância de mortalidade. E ao consultar essa mesma plataforma, nós até verificamos a curiosidade de que, aproximadamente nesta mesma altura do ano passado, nós tivemos um fenômeno com características similares, ainda que com menores números de mortes. Na prática, nós sabemos que quando existem fenômenos deste tipo, de ondas de calor, o que acontece é que existe um aumento expectável da mortalidade. Nesse contexto, o que é feito habitualmente e o que a Direção-Geral de Saúde tem promovido é um reforço do exercício dos chamados planos de contingência para que, em termos sazonais, quando faz muito frio ou quando faz muito calor, exista um conjunto de preparações e avisos à população para que se diminua o impacto. Portanto, diria o seguinte: julgo que é algo expectável que aconteça nestes fenômenos. Claro que há sempre alguma margem para melhoria e a divulgação dos números neste contexto também mostra um pouco o impacto dessas circunstâncias e daquilo que se pode fazer também para o evitar.

Referiu que é possível fazer melhorias. Na sua opinião, o que se poderia fazer mais em termos de prevenção?

Há aqui várias dimensões. Uma das lógicas que vale a pena sempre destacar é que, apesar de podermos apelar e poderem ser transmitidas recomendações de modificação comportamental, o grau em que essas recomendações são implementadas também depende um pouco dos indivíduos. Esse é um aspecto que pode ser trabalhado, nomeadamente da perceção de algo que tem sido batalhado, entre aspas, também pela Direção Nacional de Saúde Pública, que se prende com a preparação das jornadas de trabalho, nomeadamente de indivíduos que estão expostos aos alimentos, mas também, em geral, da população relativamente à exposição ambiental. Dito isto, há, de facto, um pensamento estratégico que tem que ser tido em muitos níveis da política, seja ela local ou seja ela nacional, porque um dos determinantes principais para o bem-estar térmico é a habitação. E é um dos problemas que mais nos ocupa, digamos, em termos sociais hoje em dia. Para além da questão da habitação, nós sabemos que os espaços públicos, nomeadamente nas cidades, por vezes têm carências no que toca à oferta de espaços de sombra, espaços verdes, que naturalmente fazem com que existam temperaturas mais amenas e onde as pessoas se podem refugiar de alguma forma, com maior facilidade. E, portanto, julgo que nós temos que ter esta perceção de que existe um conjunto de modificações estruturais e comportamentais que nos podem ajudar a lidar com isto. Obviamente, assumindo que isto também faz parte de um contexto das chamadas alterações climáticas e que o aumento da frequência destes fenômenos é expectável. E, portanto, nós também temos que trabalhar neste conjunto de preparações que é preciso ser feita. Dito isto, a observação do excesso da mortalidade é algo que é expectável, é algo que se não fosse feito algum deste trabalho, seria certamente pior. Mas também serve para chamar a atenção da importância destas medidas para minimizarmos estes fenômenos ao máximo.

As medidas que se referiu são medidas a médio e longo prazo. Pensando, por exemplo, a curto prazo, estava a pensar no cenário oposto. Muitas vezes acontece, por exemplo, quando há as chamadas temperaturas muito baixas e noites que se preveem muito frias, as Câmaras Municipais ou Metropolitano abrem determinadas infraestruturas para que, por exemplo, os sem-abrigo se possam proteger do frio. Neste caso, notamos que o excesso de mortalidade é acima dos 85 anos. Haveria alguma medida prática de curto prazo que se pudesse fazer no imediato?

Na verdade, o que acontece é que existe sempre um conjunto de indivíduos mais vulneráveis em cada momento, em cada sociedade. Neste caso, temos a ver com o fator de idade e/ou também as doenças crônicas que muitas vezes acompanham o envelhecimento. O que é que acontece? Por mais medidas que sejam tomadas, existem indivíduos que têm um intervalo de resistência mais curto. E, portanto, aquilo que vale a pena dizer neste contexto é que se, por exemplo, em contexto de frio e de contexto de inverno, nós temos o papel adicional, nomeadamente as infeções para as quais, por exemplo, nós temos vacinas que evitam os males maiores decorrentes dessas mesmas infeções, na questão do calor, aquilo que nós podemos oferecer é um planeamento daquele tempo passado em circunstâncias que sejam de maior conforto térmico. E, portanto, em medidas de curto prazo, relativamente a isto, é sempre a escolha dos locais onde as pessoas vulneráveis estão, para os quais também existem abrigos em diversos locais que podem ser ativados para essas devidas circunstâncias, mas sobretudo pensar que nos locais habituais onde essas pessoas estão, sejam elas habitações unifamiliares ou sejam elas instituições onde estão a residir, os chamados estabelecimentos residenciais para pessoas idosas ou outras desse caráter, existem formas de otimizar a questão da temperatura para que eles se sintam mais confortáveis. Agora, não vou esconder uma coisa que acho que é importante, que é: de facto, essas ondas de calor são desafios importantes, porque nós não estamos a falar de um dia apenas, nós estamos a falar de vários dias em que vários espaços que nós conhecemos no dia a dia, sejam eles de caráter familiar ou profissional, têm dificuldade em arrefecer. Sofrem daquilo que nós chamamos de inércia térmica. E, portanto, eu julgo que o primeiro passo para nós termos mais perceção a curto prazo, é a perceção das limitações que nós temos. Nomeadamente nos espaços. E sabermos ajustar dentro do possível. Obviamente que depois as autoridades e mesmo as unidades locais de saúde, as unidades de saúde pública, tomam medidas adicionais quando de facto as condições são extremas. Mas de facto, o que vale a pena realçar é que efetivamente existem circunstâncias difíceis nos contextos em que nós habitualmente nos movemos. E ignorar essas dificuldades e não alterarmos nossas rotinas é que é asneira. E, portanto, tentamos fazer o possível, mas de facto vale a pena dizer que esta divulgação é positiva no sentido de nós percebermos o impacto que isto tem. E há esta perceção de colheita, digamos, antecipada de pessoas mais vulneráveis e que efetivamente nós podemos tentar evitar algum deste impacto, sendo que há certamente uma margem que é difícil de evitar.