Confirmou-se uma pesada derrota do partido de Trump. O resultado importa para o resto do Mundo porque os EUA continuam a ser c.25% da economia global e c.40% do investimento global em defesa. Por outro lado, convém não exagerar o impacto de umas eleições.
Um meteoro político
As eleições intercalares foram uma enorme derrota de um Partido Republicano que se transformou no partido de Trump. O governador republicano da Flórida comparou o resultado ao meteoro que extinguiu os dinossauros. A imagem não é inocente: DeSantis é um presidenciável republicano. Convém-lhe sublinhar o facto de que a Flórida foi a única exceção republicana nos 10 Estados que concentram mais de metade da população e do PIB dos EUA. Mas esses e outros dados estão aí para quem os quiser ver. Os democratas terão mais de 250 deputados na Câmara dos Representantes (a maioria são 218), no Senado terão 54 (e podem chegar aos 56) em 100, depois de conquistarem lugares em Estados tão conservadores como a Carolina do Sul, o Texas e o Kansas – neste último caso, pela primeira vez desde 1932. Os democratas tiveram no voto nacional uma vantagem de mais de 10%.
Escrevi aqui que o cenário de uma derrota republicana era quase certo e era bem possível que fosse pesada. Baseei as minhas previsões na análise de dados objetivos – o recorde de impopularidade de Trump, a mobilização de mais votantes inscritos como Democratas nas primárias, ou o foco dos eleitores em questões como o custo de vida ou a rejeição da guerra com o Irão – e não em preferências pessoais. Este tipo de análise desagrada a quem só quer ver confirmados os seus dogmas, mas continua a ser a melhor forma de perceber e antecipar o que realmente se passa.
Com o mesmo rigor há que dizer que em 2016 as sondagens subestimaram os republicanos, mas desta vez subestimaram os democratas. Não foi assim por parcialidade por Donald Trump, mas porque é difícil antecipar totalmente momentos de viragem política, e é impossível ter certezas em eleições realmente livres.
É cedo para decretar a morte do populismo
Pedro Sánchez parece acreditar que se pode dar o populismo nativista como derrotado globalmente. Nas redes apontou para a vitória de Lula e dos Democratas como prova de que também ele pode vencer em Espanha no final deste mês. No entanto, a média das sondagens em Espanha continua a apontar para uma vitória do PP e o melhor resultado de sempre do Vox. Em França, as sondagens continuam a dar Marine Le Pen como a vencedora provável das presidenciais de abril de 2027. Veremos. No entanto, ver numa eleição o fim do populismo nativista no Mundo, ou mesmo nos EUA, é claramente uma simplificação errónea. Trump simbolizou e deu força a esta vaga populista global, pelo que a sua derrota importa. Mas esta vaga populista resulta de uma série de choques económicos e culturais, de uma crise da mobilidade social, de uma crescente desconfiança das elites. Na verdade, os Democratas adotaram nesta eleição parte desta retórica populista, mas virando-a contra Trump e os seus amigos bilionários. O que se confirma é que – como vimos com Orbán na Hungria – este populismo nativista, esta direita declaradamente iliberal não é invencível.
O fim do trumpismo?
Há quem diga que sim, até dentro do trumpismo. Marjorie Taylor Greene, uma figura icónica do MAGA, acusou o presidente de ter ferido de morte o movimento. O trumpismo está mais fraco e mais dividido, no entanto, domina ainda um Partido Republicano purgado de boa parte dos seus moderados. Os militantes deste culto da personalidade têm sido decisivos nas primárias, ajudando a afundar os republicanos nestas eleições com péssimos candidatos, como o controverso Ken Paxton no Texas. A grande questão em aberto é saber o que fará o Partido Republicano: distancia-se de Trump? E será que o populismo de direita sobrevive, será que encontra outro líder no próximo ciclo eleitoral nos EUA, com as eleições de 2028?
Entretanto, o novo Congresso só toma posse em dois meses, Trump tem mais dois anos de mandato como presidente e não creio que vá mudar de personalidade aos 80 anos. Com um Congresso nas mãos dos democratas o poder do presidente fica mais limitado, mas continua a ser significativo. Quem levou a sério a promessa de Trump de colaborar com os democratas deve olhar para a nomeação, na sexta-feira, do mais extremista dos seus conselheiros, Stephen Miller, como novo chefe de gabinete, gerindo o acesso e a agenda do presidente. O presidente não dá, portanto, sinais de se moderar.
Os democratas prometem três prioridades para a sua ação no Congresso: custo de vida (affordability), escrutínio de abuso de poder (accountability), e o fim do conflito no Irão. Só esta última tem diretamente a ver com a política externa, mas todas podem ter implicações nas relações dos EUA com o resto do Mundo. A maioria democrata pode tentar reverter as tarifas, desde logo as aplicadas ao Canadá, alegando que contribuem para a inflação. Trump pode vetar, mas pode ser demasiado impopular fazê-lo. A multiplicação de comissões de inquérito parlamentares e o esforço de limitar benefícios económicos para Trump e companhia também pode dificultar as negociatas em curso com a Rússia de Putin, retirando margem de manobra para um acordo com o Kremlin à custa da Ucrânia e dos aliados europeus. O Congresso também tem a arma orçamental – por exemplo, o orçamento da defesa, que Trump terá dificuldade em vetar – e pode usá-la para incluir provisões que dificultem alterações relevantes nas relações com os aliados na Europa ou com a Rússia.
Um efeito imediato da impopularidade da guerra contra o Irão, e da perceção de que Israel de Netanyahu teve aí um papel decisivo, é o facto de o próprio Trump já ter anunciado o fim do bilionário apoio financeiro a Israel. Em relação ao Irão os democratas podem recusar-se a continuar a financiar a guerra, mas se forçarem uma retirada precipitada podem acabar por ser culpados por um Médio Oriente ainda mais caótico. Os democratas arriscam-se a redescobrir que não há soluções fáceis para o conflito com o Irão e que no campo externo a Casa Branca tornou-se realmente imperial.
Quem será presidente em 2028?
Certo é que começou a pré-campanha para as primárias dos dois principais partidos norte-americanos para as presidenciais de 2028. Teremos provavelmente dezenas de candidatos, alguns já evidentes. O vice-presidente J. D. Vance apresentou a sua explicação da derrota republicana: o problema foi a guerra contra o Irão, e a solução é o isolacionismo de que Vance tem sido um campeão. Ou seja, Vance apresenta-se como o candidato do futuro do trumpismo. Este isolacionismo ideológico de Vance seria pior do que o sultanismo de Trump para o futuro da Aliança Atlântica. Os vice-presidentes em funções, no entanto, não têm grande histórico de vitórias eleitorais: no último século só George H. W. Bush foi bem-sucedido, em 1988, graças à popularidade de Reagan. Marco Rubio encarna um possível regresso a um Partido Republicano mais moderado e tradicional na política externa. Seria uma boa notícia para a Europa. Teria, no entanto, de se distanciar de Trump sem o hostilizar, o que será difícil.
Do lado democrático, a vitória foi tão grande que venceram candidatos de todos os tipos. Mas os moderados mostraram-se mais eficazes eleitoralmente. O mais carismático dos moderados, Jon Ossoff, ganhou num Estado do sul com uma margem de 18%! Este último consolida-se, portanto, como um dos nomes mais fortes de um grande número de pré-candidatos. Ossoff como senador tem sido um crítico da aproximação de Trump a Putin e um apoiante da Ucrânia. Sobre a NATO disse ser um compromisso “inviolável e indispensável” dos EUA. É, no entanto, demasiado cedo para fazer grandes previsões. E convém que os europeus percebam que não é realista esperar um regresso ao passado. Seja com trumpistas mais diplomáticos ou com democratas mais moderados, o facto é que a grande maioria dos norte-americanos está cansada de policiar o Mundo.