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Obrigado por se juntar a nós, Ana Jorge. É a antiga ministra da Saúde e uma das signatárias do apelo público para que as vacinas contra a Covid-19 sejam consideradas um bem de interesse comum. Começava por pedir para explicar aos nossos ouvintes o que se pretende com este apelo.

Sim, bom dia. Eu sou uma das signatárias do apelo, que assinei com todo o interesse, considerando que as vacinas, neste momento, contra a Covid-19 são, de facto, o único meio eficaz para pormos fim a esta pandemia. Precisamos que grande parte da população esteja vacinada para se poder libertar a sociedade, passarmos a vida e reduzir as mortes, reduzir as doenças e isso tudo. E, portanto, aquilo que era necessário neste momento é que, quer Portugal, que está inserido na União Europeia, e o problema não é só Portugal, quer na União Europeia, quer no resto do mundo, as vacinas possam ser produzidas em número suficiente para que haja disponibilidade de vacinar o maior número da população possível no mais curto espaço de tempo. Como se sabe, está a haver algumas dificuldades, nomeadamente na produção e naquilo que é a aquisição das vacinas ou a atribuição das vacinas à União Europeia e, consequentemente, a Portugal. Portanto, isto é um apelo para se chamar a atenção que há capacidade na Europa com outras empresas e outras fábricas de vacinas que podem ser postas em funcionamento para que haja o maior número de produção de vacinas. Portanto, isto tem que ser negociado com as empresas, obviamente. E era esse o apelo que estamos a fazer de acordo com o que a Organização Mundial de Saúde vem apelando, que o presidente António Guterres também tem dito, e era importante que isso fosse, de facto, feito.

E esse apelo para que sejam compradas vacinas a outras farmacêuticas é um apelo para que isso seja feito em grupo ou individualmente por Portugal?

Eu penso que era melhor que fosse feito em grupo pela União Europeia. Nós estamos inseridos na União Europeia. Esta medida que a União Europeia, no meu conceito, fez, que é a aquisição das vacinas e distribuição por todas, é um modelo que do ponto de vista conceptual corresponde àquilo que são os princípios da União Europeia. Este é um modelo que é bom se funcionar e, para ele funcionar, é necessário haver uma força maior, maior capacidade de diálogo, de pressão, de negociação. E tem que se fazer valer os valores de que as vacinas são, de facto, do interesse público, é um bem público e que tem que ser ultrapassados aqueles que são os interesses económicos de muitas das farmacêuticas. As farmacêuticas que produzem foram apoiadas pelos governos, têm que produzir mais, têm que ter em consideração também quem os apoiou e não só, porque não podemos criar só vacinas para a União Europeia e não pensar no resto do mundo. Portanto, é necessário produzir mais vacinas e mais vacinas no curto espaço de tempo, porque senão perdem-se vidas e é isso que é importante fazer: impedir que mais vidas se percam por uma pandemia que pode ser controlada por uma vacina. Não a 100%, mas obviamente muito eficaz.

E tem havido falta de transparência neste acesso às vacinas?

No acesso às vacinas, do ponto de vista global da União Europeia, eu penso que sim. Há ali alguma coisa que não é entendível, porque as empresas foram financiadas para poderem desenvolver o processo de vacina no mais curto espaço, que foi, de facto, muito rápido. Houve apoios e, portanto, os interesses económicos das empresas não podem estar à frente daquilo que é a produção e o desenvolvimento de maior número de vacinas por outras empresas que poderiam fabricar mais vacinas. É preciso repor que as empresas sejam compensadas daquilo que foi o seu investimento, mas o investimento não foi só delas. E uma coisa é compensar o investimento, outra coisa é os lucros muitas vezes exagerados que há e que isso é preciso ser acautelado, porque estamos a falar, de facto, de algo que tem a ver com a saúde pública, com o interesse público, com a saúde das pessoas e isso tem que ser muito bem acautelado e bem negociado. E de facto, acho que se for feito pela Comissão Europeia, que tem maior poder de negociação, será bom, mas tem que o fazer, porque não faria muito sentido que fosse agora Portugal nesta fase ir lutar sozinho. Não, penso que todo aquele processo, no meu conceito, que tem sido feito até agora é bom, mas tem que haver maior força, maior pressão junto da Comissão Europeia para que possa ser Mais eficaz na sua negociação e, nomeadamente, tomar algumas medidas que ainda têm a possibilidade de o fazer, de poder, por esse interesse e por essas razões de saúde pública, e de acordo com o que a Organização Mundial de Saúde já disse, que é que perante a catástrofe devíamos usar todos os meios ao alcance para aumentar a produção. E essa é a parte que falta fazer.

E como é que olha para as declarações da Agência Europeia de Medicamentos sobre a vacina da AstraZeneca e a forma como, para já, ainda não há uma tomada de decisão em grupo por parte dos Estados-membros da União Europeia?

Eu ouvi só uma parte das declarações, mas penso que a vacina da AstraZeneca, e há pouco estava aqui a ouvir um comentário de um outro cientista, portanto de alguém da área da investigação, em que Portugal tem tido o menor número de reações adversas à vacina da AstraZeneca. Não há nenhum medicamento, inclusive as vacinas, sem risco, que o número de situações que têm que ser bem comprovadas, que aconteceram, em que população é que aconteceu e, nomeadamente, levantava-se se a vacina feita a algumas pessoas que tenham fatores acrescidos, nomeadamente por tomarem outro tipo de medicamentos, que possam aumentar o risco de tromboembolismo, e que mesmo terão que ser investigados e, portanto, provavelmente a vacina não ser feita, aquilo que está a ser pesado é a vantagem e os benefícios que as vacinas, e nomeadamente a AstraZeneca, podem fazer em relação ao Covid, versus o não vacinarmos tantas pessoas e as complicações que podem ter. E é este balanço que penso que está a ser ponderado. A EMA é o organismo que merece todo o nosso respeito do ponto de vista científico, do cuidado que tem, penso que não é um organismo que tem dado provas e que está sujeito a pressões de natureza económica e, portanto, ser capaz de poder pesar e não retirar do mercado algo que pode beneficiar muitas outras pessoas. E portanto, este cuidado, eu vejo ainda a posição da EMA e a posição das declarações que foram sobre a AstraZeneca com algum cuidado, e eu penso que temos que ponderar muito bem se a porcentagem ou o número de casos que têm acontecido ainda não correspondem àquilo que são a porcentagem dos casos na população em geral. Portanto, é preciso ponderação e penso que pôr em causa uma vacina neste momento não será, de todo, aquilo que é o mais importante. É preciso mais certezas ainda e mais investigação sobre o assunto.