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Quem se junta agora a nós é Ricardo Lafuente, é vice-presidente da Associação de Direitos Digitais, a Associação D3. Muito boa tarde, Ricardo Lafuente. A associação, entretanto, já deu conta de que pretende avançar com uma providência cautelar contra esse uso obrigatório desta aplicação.

Precisamente. Nós esperamos que a sensatez prevaleça e que a ideia grotesca de tornar esta aplicação obrigatória se fique pelo caminho, não chegue sequer ao Parlamento ou, chegando, que se fique por lá. No entanto, se acontecer o pior, sim, estamos preparados para isso, bem como empregar todos os meios à nossa disposição para impedir esta medida, que até hoje era considerada impensável até por quem defendia a aplicação.

Ricardo, deixe-me perguntar-lhe: entretanto, o governo avançou com esta ideia, está a ponderar essa obrigatoriedade. Isso, de alguma forma, vai contra aquilo que era conhecido até há um momento, de acordo com o que tinha sido divulgado pelo governo. Ou seja, ouvimos falar durante muito tempo desta aplicação e dos benefícios do uso da mesma para termos mais informação sobre os casos de Covid-19. Entretanto, havia também algumas dúvidas sobre se os portugueses estavam ou não dedicados a colocar a informação que havia nesta aplicação. Isto, de alguma forma, vem mudar as regras do jogo a meio, depois de ter sido apresentada esta aplicação?

Sim, é mudar as regras, porque até agora quem quisesse entrar, entrava, e quem não quisesse, estava muito bem. Nós, desde o início, também destacamos que todo esse discurso florido sobre esta app que vai ajudar a pandemia era bastante inflacionado. Tecnicamente, é muito questionável a sua eficácia. E também não existem provas dadas de qualquer género de sucesso e eficácia, tanto em Portugal ou lá fora. Por isso, nós mantemos a nossa posição de completa descrença e desconfiança da eficácia desta app. No entanto, esta reviravolta é gravíssima, não só por causa dos precedentes, inconstitucionalidade e o que for. Mas vamos lá ver, desde o início que uma das pedras de toque desta app é que era voluntária, desde o início que foi cristalino. E agora desapareceu isso. E é arrasado qualquer capital de confiança que pudéssemos ter no que toca à aplicação. Quer dizer, qual vai ser a ideia amanhã? Também começar a registar a localização das pessoas? Como é que estamos seguros que o nosso anonimato também vai permanecer? O que é que vem no próximo update da aplicação? Ainda por cima, tendo em conta que os nossos dados passam por servidores do Google e da Apple, e que também gostaríamos de saber que esforço é que o governo faz para assegurar, agora que essa aplicação pretendem tornar obrigatória, gostaríamos muito de saber o que é que o governo já fez em termos de conversações com a Google e a Apple para assegurar que os dados estão a ser mantidos de forma inviolável. E nós, sinceramente, não estamos otimistas quanto a isso. É um sinal profundamente negativo, profundamente preocupante, inesperado para nós, até. E por isso vamos combater esta vontade de obrigar as pessoas a instalar uma aplicação ineficaz e que, sinceramente, desvia os esforços e as atenções para sítios em vez de onde elas deveriam estar. E por isso, sim, vamos combater até ao fim esta tendência.