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Eu acharia muito estranho que um balão com estas dimensões estivesse a seguir este tipo de rota durante tanto tempo, sem que por parte da China tivesse havido um aviso prévio aos Estados Unidos de que tal iria acontecer. Eu gostaria de começar por situar isto no seguinte patamar: os balões de natureza meteorológica são um instrumento absolutamente comum e utilizado diariamente por todos os serviços meteorológicos mundiais. Na maioria dos casos, eles são até de natureza de utilização única, são largados e são perdidos. Os balões de natureza meteorológica vão procurar coletar um conjunto de dados de pressão, temperatura, etc., nas várias camadas da atmosfera e é este conjunto de dados reunidos numa rede mundial que permite que se façam as previsões meteorológicas que estamos habituados a assistir diariamente. Portanto, o lançamento de um balão meteorológico é uma ação absolutamente normal de todos os países, de todos os sistemas, de todos os institutos meteorológicos em todo o mundo, e isso não constitui nada de muito especial. O que introduz aqui este fator de incerteza é o facto de os Estados Unidos terem subido o patamar da resposta a este balão, isto é, a visita do secretário de Estado Blinken ter sido cancelada em função deste acontecimento. Portanto, para os Estados Unidos, e nós não temos acesso aos dados de intelligence que os Estados Unidos têm, este balão não era apenas um balão de natureza meteorológica. Nós não sabemos se é ou não. Mas uma coisa que nós sabemos é que mesmo sendo um balão de natureza meteorológica e mesmo estando dotado dos instrumentos mais comuns para a medição apenas de dados de natureza meteorológica, o simples facto de este balão estar a dirigir-se por cima dos Estados Unidos, naturalmente que pode constituir em si um teste quanto às reações dos Estados Unidos relativamente a este tipo de acontecimentos. Isto é, eu posso pegar num balão de natureza meteorológica e quando eu o faço circular por cima de um outro país, o que é que eu estou a testar? Eu posso não estar a recolher dados de intelligence, mas estou a recolher aquilo que são as reações, a capacidade de detecção do país, etc. Se o balão só é detetado depois de já estar no interior do país, eu fico desde logo a saber que ele não tem capacidade de detecção. Se o país não vai abater o balão, isso significa que eu posso considerar que é seguro utilizar balões para outros efeitos que não os meteorológicos. E portanto, associado à trajetória do balão, eu estou a obter um conjunto de informações sobre a capacidade de detecção e de reação do país sobre o qual o balão voa, que constituem elas em si também elementos importantes da minha intelligence. Portanto, o balão pode até ser um balão de natureza meteorológica absolutamente normal, mas se ele for seguido e se forem estudadas propositadamente aquilo que são as reações do adversário, isso em si constitui um ato de intelligence.
Que resposta pode ser esta dos Estados Unidos mais contra-atacar, digamos, em termos de inteligência ou continuar nesta escalada, dizer que é um balão de vigilância, os chineses a dizer que é meteorologia, o que isso pode dar?
A mim não me parece que nenhum dos lados tenha interesse em escalar esta situação por causa deste balão, mas houve aqui uma sinalização muito forte dos Estados Unidos de que, pelo menos, esta circulação deste balão, e vamos entender isto, vamos supor que os Estados Unidos consideram e têm a certeza absoluta que o balão é de origem chinesa. Portanto, este balão provavelmente já foi seguido ou está a ser seguido já há muito tempo. Mas os Estados Unidos vão apenas sinalizar a sua insatisfação perante este acontecimento. Não me parece que isto tenha potencial para escalar acima desta manifestação diplomática de desagrado.