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Mais alguém que pode dar um contributo importante e numa visão totalmente diferente daquela que temos tido até agora é Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais aqui em Portugal. Joaquim Evangelista, muito bem-vindo. Obrigado por ter aceitado o nosso convite para estar aqui nesta homenagem a Artur Jorge neste "O Campeão é..." especial. Está aqui como título de presidente do sindicato, mas também como alguém que é agora líder de uma organização que teve como primeiro presidente Artur Jorge. Foi o primeiro presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais. Artur Jorge foi a pessoa mais importante do futebol português na defesa dos direitos dos jogadores, na sua opinião?
Muito bom dia, muito obrigado pelo convite. Permita-me deixar uma mensagem de pesar à família, aos amigos, ao futebol português. E deixar esta notícia: o Artur deixa-nos na véspera do aniversário do sindicato. Amanhã fazemos 52 anos. O sindicato, organização que ele ajudou a fundar, foi o primeiro presidente, juntamente com pessoas como António Simões, o Eusébio, Fernando Peres, o Rolando, o Manuel Pedro Gomes, o João Bernabé. Faz amanhã 52 anos. Eu não tive a oportunidade de privar muito com o Artur Jorge, mas tenho memória. E o Artur Jorge foi para mim uma inspiração. Eu diria que o legado maior que ele deixou ao futebol português foi o de olharmos para o jogador pleno, o jogador cidadão, o jogador na plenitude dos seus direitos. Ele emancipou o jogador português. Na altura, em período de ditadura, e veja que até há relativamente pouco tempo, o jogador continuou a ser olhado sempre como um cidadão menor na sociedade. E já nessa altura, o Artur Jorge exercia a sua cidadania no futebol, na cultura, na política. Ou seja, de facto, fez a diferença na sua vida pessoal, mas fez a diferença para os seus colegas e no futebol português. Esse é um legado importantíssimo. É talvez aquele que menos se fala, mas eu diria que enquanto presidente do sindicato, enquanto cidadão, eu diria que é o maior legado que ele deixa à geração de futebolistas atuais.
Joaquim Evangelista, nota-se ainda no Sindicato dos Jogadores, nesta altura, nesta geração, vamos assim dizer, ainda se nota esse impacto de Artur Jorge, esse exemplo, essa relevância de Artur Jorge na forma como defendeu os jogadores de futebol?
Sim, eu acho que sobretudo ele foi o elemento agregador. De facto, na altura o sindicato constituiu-se, e é também importante referir aqui mais uma figura, o presidente Jorge Sampaio, na altura advogado, que esteve ao lado destas personalidades que são referências do futebol português, que eu admiro muito. Foi ele que os ajudou e o Artur Jorge, diria que foi o agregador. O António Simões, eventualmente, teria estado mais do ponto de vista discutivo também, pela questão da lei de opção, mas eu diria que neste conjunto de personalidades, o Artur Jorge foi o elemento agregador, foi aquele que granjeou mais consideração pelos seus colegas. O Tony já falou sobre o Artur Jorge e da influência, a magistratura que ele exercia sobre os colegas. E eu diria que, de facto, são essas qualidades humanas que fazem dele o primeiro presidente, porque veja, havia lá figuras muito importantes, o Eusébio, o António Simões, mas foi o Artur Jorge que foi escolhido para ser o primeiro presidente.
Figuras com mais peso em termos de reconhecimento, mas que não tinham talvez o espírito de liderança que tinha Artur Jorge.
Exatamente. E as qualidades humanas, sobretudo, eu diria que, veja a linguagem, a delicadeza, a classe que o Artur Jorge trouxe ao futebol português já nessa altura, de facto, fez a diferença. Durante muitos anos, o futebol português teve poucas figuras com essa dimensão, com essas qualidades. Eu repito, o jogador foi até há pouco tempo, e ainda continua em alguns setores, a ser visto como um ser menor. Não é um cidadão pleno de direitos.
Então, nesse sentido, Joaquim Evangelista, até para terminarmos a nossa conversa, gostava de lhe perguntar qual é que seria a próxima grande luta que um jogador de futebol teria de ganhar para deixar agora, onde quer que esteja Artur Jorge orgulhoso. Qual é a próxima bandeira que devemos e os jogadores de futebol devem fazer e devem lutar por ela para que Artur Jorge fique orgulhoso?
Eu transmito isso aos jogadores, é o legado que eu recebo do Artur Jorge, é o exercício da nossa cidadania, é nós sermos ativos na defesa dos nossos direitos, não deixarmos que outros façam por nós aquilo que depende de nós.
Muito bem. Joaquim Evangelista, agradeço a disponibilidade para ter estado conosco aqui nesta edição especial de "O Campeão é..." onde estamos obviamente a dar destaque principal a Artur Jorge