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Bom dia. É verdade, é uma notícia muito triste. Como deves calcular, há gente na nossa carreira que marca, que a gente não esquece para a vida, e ele é realmente uma dessas pessoas. Uma personalidade muito forte no comando, mas quem o conhecia bem, como eu mais tarde vim a conhecê-lo, era um pouco também, em relação a qualquer problema da vida, sem ser futebol, uma pessoa muito tímida, muito reservada, muito no canto dele, não se expunha muito.
Perdemos-te aqui um bocadinho o teu sinal, Augusto, mas já te ouvimos de novo.
Estava eu a dizer que perdemos realmente uma pessoa com um carisma diferente. Com uma cultura muito acima da média. Ele foi para o Porto substituir um mito no clube, e continua a ser um mito, que é o José Maria Pedroto. E não era fácil naquela altura ser treinador do Porto e ter o sucesso que ele teve. Lembro-me daquela palestra na final em Viena contra o Bayern de Munique, muito famosa essa palestra que ele deu e que nos ajudou a vencer a Taça dos Campeões Europeus. Mas aquilo que retenho é que realmente foi um grande líder, foi um excelente comandante também no sentido de levar não só o barco Porto para frente, mas também dentro daquilo que era as nossas possibilidades dentro do campo, nos ajudar e sermos melhores.
O Artur Jorge, quando chega ao futebol clube do Porto e quando pega na equipa onde estavas em 86, 87, já tinha estado no Portimonense, já tinha sido a glória do Benfica como jogador. Essas experiências que ele teve como jogador e anteriores, notavas que também tinha ali dedo de jogador de futebol? Tu foste jogador, também foste treinador. Notavas que havia ali dedo de quem era diferente, de quem era um jogador já muito batido, que tinha tido essas conquistas todas, melhor marcador do campeonato, vencedor da Liga Portuguesa.
Ele quando estava no Portimonense, convidou-me para ir jogar para o Portimonense. Na altura, no ano em que eu saio do Sp. Lourenço e vou para o Porto, ele convidou-me para ir para o Portimonense. Isso é uma história um pouquinho mais longa, mas era só para dizer que ele já estava com olho em mim desde o Portimonense. Agora, tu vês uma pessoa, quem não o conhece, por exemplo, está no Portimonense ou eu estou no Sp. Lourenço, estou no Porto e vê, a gente começa a ver a equipa a jogar, como é que a equipa não joga, as declarações que ele faz, as entrevistas que ele dá, e ficas mais ou menos com uma imagem, uma ideia: "Este tipo é assim, ou este tipo é assado, este tipo deve ser líder, este tipo deve ter um defeito difícil." E depois quando o apanhamos, como foi o caso do Porto, comecei a tentar perceber quem era aquele homem. Grande jogador, grande goleador, uma figura que tinha ido tirar o curso a RDA naquela altura, era uma coisa que não era normal, mas foi tirar o curso lá fora, veio, e então quando começas a estar em grupo e ele a falar daquilo que são os objetivos, daquilo que era o treino, daquilo que ele pretendia para o jogo, daquilo que ele pretendia da equipa, tu começas a perceber e dizer assim: "Este homem tem voz, além da voz, tem um sentido, tem uma visão. Ou a gente entra nisto e vamos lá e lutamos todos por isto, ou então não temos hipótese nenhuma."
E notavas isso, Augusto, como jogador que estava sob a alçada de Artur Jorge, notava-se que não era um treinador normal, que era alguém, como aqui já ouvimos dizer, que era um pensador, que foi estudar para Leipzig, que estudou em Coimbra, que era um filósofo, se podemos assim dizer, do jogo. Notavas isso?
Era diferente. Repara que naquela altura as pessoas seguiam uma certa ideia, uma certa linha, deste ou daquele treinador. Tentavam tentar perceber: "Esse se calhar é o melhor caminho." José Maria Pedroto, por exemplo, as pessoas, Fernando Vaz, às vezes até o Joaquim Marinho, da forma como falava. Mas quando tu apanhas o Artur Jorge e ele está-te a liderar, tu vês que é diferente. Não é que seja melhor ou pior do que os outros. É diferente. Tem uma maneira de falar diferente, a cultura é diferente. Ele raramente dizia uma asneira, para te dizer isto. Raramente dizia uma asneira. Só quando estava muito enervado no intervalo de um jogo é que ele era capaz de dizer uma asneira. Mas sabes que o treinador diz a asneira não é para ofender, diz a asneira para alertar. E ele tinha essa timidez, tinha essa vergonha de falar assim. Mas agora, o curso que ele tirou em Leipzig, ele era, como é que eu hei de te explicar isto? Eu não digo um ditador, não é isso que eu quero dizer, mas era um comandante firme, um comandante em que é assim que eu quero, é assim que vai ter que ser. E quem quiser está, quem não quiser, não está. E isso fez a diferença também.
Era austero, portanto, na forma como vos comandava, podemos assim dizer. E Augusto Inácio, para terminar, e já volto a ti também, porque obviamente vamos ter notas também hoje neste programa um bocadinho diferente. Gostava de te perguntar também, como treinador, e há pouco também perguntei isto ao Domingos Paciência, como treinador que foste, que pedaços de Artur Jorge é que retiraste também para a tua carreira e como exemplo de liderança, porque aqui dizias que ele tinha uma liderança um bocadinho diferente, vamos assim dizer.
Sim.
Consegues também aplicar isso nos teus métodos?
Algumas coisas. Sabes que a gente aprende com todos os treinadores. Até as partes piores a gente também aprende, que é para a gente não fazer.
Claro.
Agora, do Artur Jorge, o que eu aplicava mais, sinceramente, não era a metodologia do treino. Não era isso, porque aquilo era quase treinos às vezes militarizados. Aquela parte física muitas vezes que ele dava, eu vou te dizer uma coisa, aquilo era de cachão à cova, aquilo era a gente até mesmo tirar os fígados cá para fora, porque aquilo, às vezes, achava eu que era demais. Agora, o que eu trouxe foi realmente a disciplina e o dizer as coisas na cara, olhos nos olhos, porque os jogadores são inteligentes, não se pode mentir aos jogadores, para o bem e para o mal, dizer a coisa na cara, e isso eu trouxe dele e apliquei muitas vezes nas equipas onde eu treinei.