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É uma ação simbólica, onde os empresários querem mostrar que estão cá, que estão vivos, infelizmente, e à espera de uma agenda. O que eu quero dizer com isso? É importante saber dizer aos empresários: "Vocês só vão abrir em setembro, outubro." Eles têm que planear. Planear o acordo com os trabalhadores, planear o acordo com os senhorios, caso haja, planear o acordo com a banca, caso tenham créditos. Isso é a primeira fase. A segunda situação, que é o que nós julgamos que isto é possível e é exequível politicamente, se o Estado assim o entender, é as discotecas ou os bares com espaço de dança, que são estabelecimentos devidamente licenciados e é uma atividade própria. Se o Estado entender que não devem de abrir enquanto não houver uma vacina ou medicamentos para acautelar e criar defesas relativamente ao vírus, o que é que eles têm que fazer? À data do encerramento dos estabelecimentos, todos os encargos efetivos dos recursos humanos até à sua reabertura, ser coberto pelo Estado. Ou seja, digo Estado e governo. A exemplo do que se faz com as quotas dos pescadores e dos agricultores, que sabe da União Europeia. É a solução. Se a preocupação é que as discotecas possam ser motivadoras a originar uma segunda vaga, eu acho que a segunda vaga pode acontecer por outros motivos, que todos os dias é conhecimento da comunicação social que acontecem aquelas festas privadas. Os empresários que têm os bares discotecas, com certeza que não se importariam de não abrir, desde que os seus encargos, nomeadamente com os recursos humanos, com o pessoal, com os encargos permanentes de rendas, fossem salvaguardados pelo Estado. Eu julgo que era uma medida segura e nunca este setor poderia ser acusado de ser responsável por uma segunda vaga. Obviamente, que abrir uma discoteca, como agora vão abrir em Espanha, vai abrir discotecas, mas não podem dançar, é a mesma coisa que ser um restaurante e não poder servir comida. Portanto, não faz sentido absolutamente nenhum. Além do mais, a percentagem de 30%. Só quem não sabe como é que funciona a noite, a dinâmica da noite, e é evidente que uma discoteca pode ter uma festa temática, como sempre teve. O estar mascarado é pacífico. Se para estar dentro de uma discoteca tem que estar mascarado, estará mascarado. Agora, há que ter muito cuidado com essa situação. Só com o que estamos a ver no dia a dia, nas manifestações que se fazem, não digo manifestações de rua, nomeadamente nas festas que estão a ser feitas, no fenômeno do botelão, que ganhou um novo impulso, eu julgo que corremos o risco de terem mais depressa uma segunda vaga motivada por esse tipo de iniciativas, do que propriamente uma segunda vaga motivada por estabelecimentos de animação, que se houver fiscalização, porque o problema aqui é sempre um déficit de fiscalização, se houver uma fiscalização eficaz, quer da Direção-Geral da Saúde, quer da ASAE, no sentido de todos os quesitos, quer da higienização redobrada, quer da desinfetação de todos os espaços, com certeza que poderá criar-se aqui, pelo menos, uma abertura tranquila de os empresários verem uma luz ao fundo do túnel, o que neste momento não veem. Portanto, o governo não pode dizer: "As discotecas não é para já." O governo tem que dizer assim: "Meus amigos, as discotecas é em setembro, outubro." Há que planear. O empregado de hoje não sabe se vai amanhã ter o ordenado, o senhorio hoje não sabe se amanhã vai receber a renda e o próprio banco não sabe se vai receber os créditos, porque muitos destes empresários recorreram à banca para fazer obras, para preparar o equipamento, para as dinâmicas que a noite tem. A noite tem dinâmicas e essas dinâmicas têm custos, como é natural. Além do mais, posso dizer, é contratos com DJs, que também acabam por ser afetados. Estou-me a lembrar que há aqui espaços no Porto, não é hora de passar palavras, mas sabe qual é. Há um que tem duas pistas de dança, o próprio espaço, onde além de ter os DJs, até à 01:00 têm bandas e a partir de 01:00 trabalham com DJs. Ou seja, em tabela, toda a área artística e a área musical começa a ser afetada, além de próprios restaurantes que abrem, porque vão clientes lá que depois vão acabar a noite num bar ou numa discoteca, começam a não ter os clientes porque as pessoas não têm onde acabar a noite.
António Fonseca, pergunto-lhe agora que balanço faz destas manifestações que aconteceram hoje, tanto em Lisboa como no Porto. Como foi a adesão?
O balanço, como nós tivemos o cuidado, já agora, porque a certa altura começou a constar que era uma manifestação, tivemos uma moldura humana suficiente a nível da representação. Temos a ver que há proprietários que têm quatro, cinco estabelecimentos. Isso não era uma manifestação, porque uma manifestação requer autorização, não era um protesto. Era uma presença simbólica em frente à câmara, mas eu sei que em Lisboa também estavam a fazer, não sei como é que correu. Aqui no Porto correu bem, a meu ver correu bem. A questão que se coloca aqui é a mensagem que nós queremos passar, tanto que não defendemos qualquer tipo de palavras de ordem, ali não é nada disso. Era uma presença e dizer: "Estamos aqui, somos vivos, mas precisamos que o governo ou o Estado, seja quem nos governe, nos diga qual é o nosso futuro." E nós temos que ter em conta o seguinte: neste momento, entre junho e julho, já há trabalhadores que não vão ter os seus ordenados, além de que há muitos jovens. Muitos jovens, que aqueles pontuais dos fins de semana, que era com essas verbas que lhes pagavam as suas estadias, nomeadamente quando estão aqui a estudar na Universidade do Porto, era com essas verbas que pagavam a sua alimentação e era com essas verbas que também pagavam, provavelmente, o quarto ou a parte da casa. Portanto, é preciso ver que há o trabalhador efetivo, que é os contratos efetivos das empresas, e há os pontuais, que são chamados ao fim de semana. Isto, como vê, em cadeia vai afetar todas as camadas. As mais jovens vão ser as mais afetadas em termos de trabalhadores, porque repare, quem trabalha nesses estabelecimentos são jovens. Muitos deles até fazem carreira nisso, outros têm uma passagem aí durante uns tempos, ganham algum dinheirinho que os ajuda, no fundo, a compor o seu dia a dia às despesas que vai precisando de cobrir, quer na alimentação, quer nos estudos, quer na estadia. Isto, o governo ou o Estado, seja quem for, neste caso, eu às vezes digo Estado ou governo, mas o importante aqui é dizer o seguinte: para mim não interessa quem é que está no governo, é o Estado em si. É uma situação mundial, temos que tratar isto como deve ser, porque a atividade de animação noturna, os bares e as discotecas ou os bares com espaço de dança, são fundamentais para a nossa sociedade. Por quê? São espaços de inclusão social, cultural e de promoção turística. Além do mais, também quero dizer o seguinte: há estabelecimentos que, por exemplo, têm 70%, 80%, aqui na baixa, de turistas, que corremos o risco, mesmo que eles abram, não têm condições, porque não vão ter turistas. Como devem calcular, vão é ter mais despesas. Por isso é que achamos que haver um fundo perdido que garanta só os encargos que à data do encerramento eram permanentes, ou seja, em termos de trabalhadores e até a sua reabertura, serem suportados por um fundo para o efeito. Eu julgo que isso não são assim tantos milhões que o governo não possa aqui também resolver um problema. E resolve este problema, ou seja, pelo menos há uma coisa que o Estado vai saber e a população vai saber: não vai ser por culpa das discotecas que haverá aí uma segunda vaga.