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Olá, boa tarde, Miguel.
A pergunta é precisamente esta: como é que esta subida das taxas de juro do BCE mexe com o nosso dinheiro?
Mexe com o nosso dinheiro de uma maneira muito direta, porque em Portugal há uma percentagem substancial das famílias que têm empréstimo à habitação com taxas de juro variáveis. As taxas de juros variáveis são indexadas à Euribor e, portanto, uma subida do preço do dinheiro, ou seja, da taxa à qual o banco central empresta dinheiro aos bancos, faz subir obviamente essa taxa de juro diretora e isso tem impactos consoante os termos exatos dos contratos de cada pessoa. Há atualizações que são trimestrais, outras que são semestrais, outras que são anuais, mas o impacto desta subida das taxas de juro vai acabar por se sentir no bolso de todas as pessoas que têm empréstimos à habitação. Como é que isso funciona? Nós, infelizmente, em Portugal, como é frequente, sabemos pouco acerca da distribuição desses impactos. Idealmente, nós precisávamos de saber não só o número de famílias que têm empréstimos com taxa variável, isso sabe-se, mas como é que essas famílias estão localizadas na distribuição do rendimento, qual é o tipo de taxa de esforço que têm atualmente já com o seu empréstimo. É muito difícil prever o impacto deste aumento das taxas de juro. Pode ser mais ou menos preocupante, consoante as famílias que têm maior taxa de esforço estejam mais ou menos carenciadas. É evidente que, à partida, as pessoas que têm maior taxa de esforço também são aquelas que são mais carenciadas e é provável que isso tenha efeitos bastante negativos nessa parte da população com menor facilidade de chegarem ao fim do mês. Mas infelizmente é difícil prever. No entanto, não é o único impacto, claro, porque isso também aumenta, por exemplo, o preço do crédito ao consumo. Sempre que há um aumento do preço do dinheiro, quer dizer que há menos dinheiro a circular na economia. Esse aumento da taxa de juro serve o propósito precisamente de dificultar o acesso ao dinheiro. É dessa forma que este aumento da taxa de juro procura controlar a crise inflacionista. Isso quer dizer que, por exemplo, as pessoas que recorrem ao crédito ao consumo para reporem o seu frigorífico ou esse tipo de bens duráveis, que tipicamente são aqueles que as pessoas mais adquirem com crédito ao consumo, esse preço do dinheiro também vai aumentar e pode levar as pessoas a entrarem em dificuldades. Por exemplo, nós sabemos que nas populações mais desfavorecidas, há uma das perguntas feitas no âmbito do inquérito às condições de vida e rendimento, que é a capacidade que as pessoas têm para fazer face a uma despesa inesperada no montante aproximado de € 500. Tem muito a ver com isto, que é o teu frigorífico avaria, só tens um problema no carro e tens que fazer uma substituição. As pessoas que têm esse tipo de dificuldade, essa dificuldade vai agravar-se precisamente por causa deste aumento do preço do dinheiro.
Susana, tu já aqui fizeste referência, as subidas das taxas de juro têm sido justificadas com a necessidade de controlar a inflação, a subida generalizada dos preços. Este é um objetivo que está a ser alcançado?
É muito cedo neste momento para ter essa medição. Aquilo que nós vemos é que há alguns números razoavelmente otimistas da inflação não estar a acelerar. Agora, ela não está a diminuir. E aqui o exercício é sempre muito difícil, porque é saber então se esta diminuição do ritmo de aceleração dos preços é devida a esta intervenção do Banco Central ou não, ou que parte é que é devida à intervenção do Banco Central. Isso é muito difícil de dizer. Agora, eu acho que é seguro afirmar que a intervenção conjunta dos vários bancos centrais das principais economias mundiais, às quais a economia da zona euro chegou tarde, mas acabou por chegar, mas chegou com vários meses de atraso relativamente ao Banco de Inglaterra. O Banco de Inglaterra fez a primeira subida da taxa de juro há um ano. Essa intervenção concertada claro que tem que estar a ter algum impacto na diminuição desta inflação, mas é pouco provável também. Há razões estruturais para esta inflação na nossa economia que também fazem com que os bancos centrais não tenham uma varinha mágica para resolver neste momento. Podemos esperar, mas é pouco provável que a inflação agora de repente desapareça por causa dessas intervenções, que fazem parte da solução. E o resto da solução é termos paciência e esperarmos também que os mercados se adaptem aos dois enormes choques da economia chinesa, da Covid e depois da guerra, que é no fundo esperar que, por exemplo, os mercados energéticos acabem por voltar a ver nova produção de energia, das renováveis, enfim, novas fontes energéticas que possam resolver este problema. Que na parte dos mercados agrícolas, a mesma coisa, que haja novos produtores de diferentes países que consigam ir a pouco e pouco substituindo aquilo que é neste momento o enorme choque de produção no lado da Ucrânia. Devagarinho, é assim que essa crise se vai resolver. E não é nada claro com a situação na China, que também agora temos a enorme incerteza, porque a China entretanto supostamente abandonou a política de Covid zero, vamos lá ver no que é que isto vai dar. Estamos num período de enorme incerteza e é pouco provável que tenhamos aqui uma varinha mágica para resolver a inflação, mas certamente faz parte da solução.
Susana, e esta subida das taxas de juro não devia também ter consequências diretas no aumento das taxas de juro de depósitos feitos pelos clientes nas instituições bancárias? Há uma correspondência? A evolução das taxas de juro dos depósitos está a acompanhar esta subida das taxas de juro do Banco Central Europeu?
Têm havido notícias no sentido contrário. E isso é de facto preocupante. Indicia um comportamento pouco concorrencial, vamos dizer assim. Não estou a sugerir de maneira nenhuma qualquer espécie de comportamento ilícito, mas é evidente que devia estar a refletir-se também. A ideia de que o aumento da taxa de juro, no fundo, diminui a circulação do dinheiro na economia e com isso contradiz um bocadinho as pressões inflacionárias, sendo que há macroeconomistas muito mais competentes do que eu para explicar isto com cuidado. Funciona pelos dois mecanismos: funciona por restringir o acesso ao crédito, porque ele fica mais caro, e funciona também por estimular que o dinheiro fique no banco e não seja gasto, porque precisamente as taxas de juro dos depósitos e de outras aplicações financeiras deviam estar a subir. E essas notícias de que em Portugal tal não está a acontecer, são de facto preocupantes e vamos ver o que é que acontece nos próximos meses.