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Contamos agora em direto com a Natália Nunes, coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira da DECO, a Associação de Defesa do Consumidor. Obrigada por estar conosco, Natália. Cerca de 20 mil famílias sobreendividadas já pediram ajuda à DECO este ano, números até agosto. Com mais esta subida nas taxas de juro, acredita que mais irão tentar renegociar os créditos ou o fato de ter sido sinalizada como última, esta subida, fará com que seja possível apertarem ainda um pouco mais o cinto?

Dificilmente, principalmente para as famílias com taxas de esforço mais elevadas, o apertar o cinto vai ser suficiente. Com toda a certeza, vão ter que recorrer a outras medidas para evitar entrar em situação de incumprimento. Nós temos visto já, nesses últimos tempos, as famílias com muitas dificuldades, portanto, dificilmente as famílias com taxas de esforço mais elevadas conseguirão acomodar no seu orçamento novos aumentos, por mais reduzidos que eles sejam. Por outro lado, não nos podemos esquecer que continuamos com níveis de inflação elevados. Portanto, continuamos a ter as famílias mais fragilizadas com uma situação de grande sufoco financeiro, para as quais nós, DECO, reivindicamos medidas de apoio em concreto.

O governo sinalizou hoje que hão de ser aprovadas já na próxima semana medidas, temos de esperar para ver quais são. Tendo ouvido, Natália, esta sinalização de que será a última subida, pelo menos durante algum tempo, a taxa fixa ainda será uma opção na renegociação de créditos?

Não nos podemos esquecer que a taxa fixa que é determinada neste momento será sempre elevada. Agora, se ela for competitiva e se for com o valor igual ou inferior àquele que era a taxa da Euribor neste momento, eu diria que é algo a ponderar pelas famílias. Agora, aquilo que me parece que era importante, era que não fosse adotada uma medida que fosse aplicada a todas as famílias, até porque a situação das famílias é muito diferente. Portanto, a medida a ser encontrada deve ter em conta sempre a situação financeira da família. Ou seja, para algumas famílias, estar a negociar uma taxa mista, em que durante um determinado período de tempo a taxa está fixa, pode ser benéfico, mas pode não ser para toda e qualquer família, depende muito da situação. Por isso é que temos algum receio das medidas que venham a ser agora aprovadas, se elas efetivamente vão ser benéficas para todas as famílias que estão em dificuldade financeira.

E, de resto, esta nova subida das taxas de juros chega num mês especialmente difícil para as despesas das famílias, também com este regresso às aulas. Receia, Natália Nunes, que possamos voltar aos tempos da Troika em termos de sobreendividamento?

Eu espero sinceramente que não se volte a esses tempos, até porque nós, DECO, fomos confrontados com famílias que tinham taxas de esforço na ordem dos 90%. Neste momento, as famílias que nos pedem ajuda estão com taxas de esforço de 60%, em média. Não estão ainda em situação de incumprimento, algo que não acontecia em 2012. Portanto, as famílias ainda estão a tentar encontrar soluções que evitem entrar em situação de incumprimento. Agora, temos famílias, e as famílias com taxas de esforço mais elevadas, que necessitam efetivamente de outras medidas, de outros apoios por parte do Estado e por parte da banca. A banca tem que ter também uma maior abertura para encontrar soluções adequadas à realidade das famílias. E não se pode dizer que uma medida vai beneficiar todas as famílias, porque isso não é possível.