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Carlos Matias, gostava que me explicasse por que há esta saída em massa de militantes do Bloco de Esquerda em Santarém, cerca de 100 militantes.

Porque há? Porque esses 100 militantes, conforme o comunicado que fizeram sair, entendem que não há qualquer hipótese de regeneração do Bloco de Esquerda e que é um projeto que foi liquidado internamente. E assumem essa dura realidade como pessoas que durante muitos anos, a maior parte, deu todo o seu saber e conhecimento ao Bloco de Esquerda. Portanto, neste momento, o Bloco de Esquerda é um projeto que faliu por dentro, se pode assim dizer.

Mas liquidado internamente na sequência dos resultados eleitorais ou por outros motivos?

Não. Este é um processo que, no que me toca, e a outros camaradas que subscrevem esse comunicado e outros de outras regiões, é um processo que tem já uns sete, oito anos. Há sete, oito anos que nós, internamente, temos vindo a pugnar para que o Bloco retome a sua matriz inicial de pluralismo, de respeito pela diversidade, porque entendemos que isso é que fez a força do Bloco de Esquerda e, portanto, ao longo de muitos anos, temos vindo internamente a apresentar propostas, a apresentar sugestões, a apresentar aos mais diversos níveis do partido, desde as próprias convenções nacionais, as mesas nacionais, o secretariado, a comissão política. Temos vindo a apresentar propostas e que têm sido sistematicamente rejeitadas de uma forma, diria, sobranceira e até algo prepotente e muitas vezes até com algumas formas lamentáveis, e que tem havido a assunção da linha política que provou estar falida. E muitos destes subscritores deste manifesto já saíram ao longo dos últimos meses. Eu devo dizer que desvinculei-me na véspera das eleições, ainda não desconhecia os resultados eleitorais mais recentes, mas era um caminho que, a nosso ver, que conhecemos bem o Bloco, estava escrito de degradação da vida política democrática interna e que depois se espelhou em resultados desastrosos do ponto de vista eleitoral.

E estavam à espera de consequências por parte da atual direção depois desses resultados das legislativas de 18 de maio?

As consequências que tiveram foi recusar fazer o balanço. Em vez de assumir, de uma vez por todas, as responsabilidades que têm na direção do Bloco de Esquerda como maioria que são, recusaram-se a fazer o balanço e adiaram uma convenção ainda mais para tarde. Portanto, é uma direção nacional que já não cumpriu estatuto, já está fora do seu prazo e ainda vai ficar mais. E essa convenção que vem aí é uma farsa montada sem qualquer validade democrática e será uma encenação para consagrar o prosseguir do caminho desastroso que o Bloco vem a seguir e que quanto a nós já é irreversível e como irreversível, não vale a pena continuarmos a empenhar o nosso esforço, o nosso trabalho, a nossa militância num projeto que faliu.

Sendo que, pelo que percebi, fala em sete, oito anos, não atribui responsabilidades exclusivas à direção de Mariana Mortágua.

Não. Isto é um processo de degradação que já vem detrás, pelo menos de meio da legislatura da Geringonça, por volta de 2017, 2018. Foi aí que começou um grupo de companheiros meus e camaradas meus dentro do Bloco a perceber que algo não ia bem. Não é que tenha havido uma súbita epifania ou uma revelação, mas começamos a perceber que algo não ia bem e esse caminho de degradação foi se acentuando. Nós começamos a apresentar propostas e é um processo de degradação que já é anterior à liderança da Mariana Mortágua.

Carlos Matias, muito obrigada por esta curta entrevista. Obrigada.

Boa tarde.