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Começou hoje a visita à China de Antony Blinken, o chefe da diplomacia norte-americana, que se vai encontrar com o homólogo chinês. Em que é que esta visita pode resultar na relação entre os dois países? Isto porque os dois governos já revelaram que tinham expectativas baixas.

Sim, em primeiro lugar, vou começar por aí exatamente. As expectativas são baixas, assumidas exatamente por ambos os lados. Vive-se um momento muito tenso do ponto de vista diplomático entre os dois países, talvez o momento mais baixo nos últimos 30, 40 anos, pelo menos. É o momento mais baixo de tensão, imensa competição entre dois Estados, mas apesar de tudo há aqui uma janela de oportunidade e é sobretudo neste ponto, e é sobretudo numa tentativa, eu acho que aqui está a essência da visita, é uma tentativa de não haver uma escalada que possa eventualmente levar os dois países para um patamar mais perigoso de conflito. E, portanto, aqui a diplomacia americana, muito por iniciativa americana também, a fazer esta viagem, simultaneamente tentando se calhar reajustar, esclarecer, explorar um bocadinho a posição chinesa e a posição de ambos os países, portanto poderem aqui fazer um ajustamento diplomático exatamente para não termos essa escalada numa fase de tensão bilateral. Por que isto acontece? Acontece e temos que nos lembrar que esta viagem já estava marcada há muito tempo, só que a crise do balão espião chinês tinha anulado exatamente, até como uma espécie de retaliação por parte dos Estados Unidos na altura não fazer a viagem. Esperaram também para acalmar e aliás vieram depois posteriormente dizer que também foi um bocadinho tudo muito exagerado nesse contexto. E agora estenderam um bocadinho a mão ou tentar estender um bocadinho a mão a uma China que está um bocadinho mais estática do ponto de vista na expectativa daquilo que os americanos querem fazer, sabendo nós que a diplomacia americana também é um bocadinho ambígua e isso deixa os chineses às vezes um bocadinho até se calhar baralhados no sentido de que não sabem muito bem como é que os Estados Unidos funcionam. Umas vezes, de facto, com uma retórica muito agressiva para Pequim, simultaneamente querendo dialogar. Isto às vezes para um país que tem uma postura um bocadinho mais estática, mais previsível, que gosta de trabalhar numa lógica de previsão, às vezes os Estados Unidos são mais imprevisíveis e isso é se calhar uma grande diferença entre os dois lados e que às vezes causa aqui um bocadinho de incerteza por parte dos chineses. Mas os Estados Unidos estão exatamente nessa lógica de tentar verificar pontos, se calhar linhas vermelhas, no sentido de saberem que dali para frente não devem aumentar quando temos questões muito importantes, desde logo a questão tecnológica, que eu acho que é o ponto número um de tensão entre os dois países. Há uma competição imensa entre os Estados Unidos e a China do ponto de vista tecnológico, quem é que vai liderar a tecnologia, sobretudo esta questão do 5G que se fala muito, e portanto os Estados Unidos têm sanções aplicadas à venda de chips e esta é uma questão central quando a China também quer ser líder do ponto de vista tecnológico. É o ponto mais sensível. E depois temos as questões do Mar do Sul da China, também é uma questão importante, envolvendo também a questão de Taiwan, portanto essas questões de segurança e de geopolítica internacional que são também importantes. Nós também se calhar queremos muito falar da questão da Ucrânia e do conflito. Se calhar não é tão primordial num primeiro plano, mas também é importante se os Estados Unidos se aproximarem mais da China, que a Rússia fique um bocadinho mais a descoberto. Isso é um fator também importante do ponto de vista do jogo diplomático. E estas coisas também são assim, é uma espécie de tabuleiro, e quando dois países se aproximam, às vezes deixam outros um bocadinho mais a descoberto, como já aliás aconteceu na história. Mas o objetivo, e há aqui duas palavras que eu acho que são importantes. Os Estados Unidos querem, no fundo, baixar o risco, aquela questão do de-risking em inglês, que foi utilizado em primeiro lugar até pela Comissão Europeia, mas que os Estados Unidos adotaram e também querem baixar o risco e simultaneamente tratar a China como um competidor. Portanto, há aqui uma competição, sabem disso, vai continuar a ser isso, por isso é que as expectativas são baixas, mas não é um inimigo. Os Estados Unidos não querem tratar a China como um inimigo, querem tratar a China como um competidor. Estão os dois a competir e que esta competição não possa escalar para um patamar mais perigoso. É essencialmente isto que nós temos aqui.

Portanto, pode ser assim uma forma não propriamente de avançar com a relação, mas também de acalmar as tensões entre os dois países.

Muito nesse sentido, aliás, utilizando exatamente esta linguagem que eu estava a dizer, de baixar o risco e portanto não escalar. Repare-se que ainda agora há poucos dias houve um incidente no Mar do Sul da China, há ali uma tensão. Enquanto os Estados Unidos defendem que aquelas águas são internacionais, a China de forma unilateral considerou ali uma área ao redor da sua costa como uma área sua, com direitos históricos, e isto cria um imenso conflito entre os dois lados. Às vezes há navios que quase que vão em direção uns aos outros e quase que pode haver ali um incidente e pode escalar para um conflito. Depois também temos a questão de Taiwan, onde também nós vimos toda aquela visita de Nancy Pelosi no ano passado e que também criou imensos problemas do ponto de vista político e diplomático. Isso é uma ofensa gravíssima à China. Todo este clima, todo este contexto é verdadeiramente tenso e, portanto, a ideia é pormos aqui, e os dois países perceberem isto, que não devem escalar esta questão. Há aqui competição, mas não deve escalar de forma a provocar um conflito armado que teria consequências muito negativas, não só para ambos os países em primeiro lugar, mas depois também para o mundo, porque isto seria uma situação de consequências gravíssimas para o contexto internacional e que ninguém estará interessado. Há bons indicadores, apesar de tudo Janelas de oportunidade. Nota-se, por exemplo, há aqui uma série de convites que também foram feitos a outros membros do governo americano, da administração americana, o próprio John Kerry, Janet Yellen, a Secretária de Estado do Tesouro, a Secretária de Estado do Comércio, enfim, há um conjunto de convites paralelos que estão a ser feitos. Há diálogos que também têm sido feitos, e já tinham sido feitos nestas últimas semanas, exactamente no sentido de melhorar a relação bilateral. Há até um pedido do Henry Kissinger, que também conta, porque eu acho que é um homem influente, um homem com 100 anos, mas que é influente. E o Henry Kissinger também disse que os Estados Unidos e a China deveriam melhorar as suas relações. Portanto, é uma voz também importante. E todo este contexto eu acho que é positivo e também se fala, eventualmente, de poder haver um meeting, um encontro, eventualmente entre os dois presidentes, entre Joe Biden e Xi Jinping, que pode ocorrer este ano ou para o ano, exatamente em função de todas estas janelas de oportunidade. Não esquecer, no entanto, as eleições americanas que poderão ser um fator aqui sim, talvez não tão otimista, no sentido que a necessidade muitas vezes de jogar com o contexto interno nos Estados Unidos pode ter uma repercussão nas relações bilaterais, porque sabemos que a ala republicana não quererá que os Estados Unidos tenham uma postura muito branda com a China e, portanto, essa poderá obrigar, se calhar, a não ceder neste domínio e poderá haver avanços do ponto de vista da cooperação, exatamente, mas simultaneamente não pode ser demasiado, de forma a colocar depois a própria postura da administração Biden nos Estados Unidos, sabendo nós que a população americana, com uma elevadíssima porcentagem, tem uma perspectiva muito mais negativa agora da China do que tinha há uns anos atrás. Não sei se andará cerca de 60% a 70% da população americana tem uma ideia, uma perspectiva exatamente chinesa muito mais negativa. Isso não ajuda muito numa altura de eleições, também a cedências excessivas exatamente por parte do governo americano. Ainda que haja depois um conjunto também de empresas e de um lobby econômico que quer muito fazer negócios e portanto também está a pressionar imenso para que haja aqui uma maior cooperação do ponto de vista comercial.

Há pouco falou da questão de Taiwan. O fato dos Estados Unidos não reconhecerem Taiwan como parte da China, isto pode ser uma linha vermelha para a relação também não melhorar?

Não é exatamente assim. A questão Taiwan é uma questão política, antes de mais, é uma divisão política e, portanto, o princípio de uma só China os Estados Unidos reconhecem e aliás, o mundo reconhece e as Nações Unidas reconhecem. Portanto, o princípio de uma só China é até quase os taiwaneses que em grande medida também a aceitam. A questão é o fato de termos um mesmo sistema político e termos uma China insular, que na verdade não quer ser integrada à força na China continental com um sistema político que não aceita. Portanto, por isso é que a divisão é política. Não quer dizer que os taiwaneses queiram a independência. Aliás, a maioria dos taiwaneses pretendem a manutenção do status quo, portanto, a manutenção da situação tal e qual como ela está. Não querem nem a integração, nem a independência, querem a situação como está. A China é que quer recuperar o território, mas quer impor o seu modelo político no território. E aqui é que está a própria essência da questão. Os Estados Unidos o que dizem é que a questão Taiwan não pode ser resolvida de maneira militar. Se os taiwaneses disserem amanhã todos que querem integrar a China de maneira voluntária, sem qualquer conflito, os Estados Unidos não podem fazer nada em função desta vontade. Aliás, houve um antigo presidente de Taiwan, Ma Ying-jeou, que teve políticas de integração muito fortes com a China, os Estados Unidos na altura não tinham que fazer nada, quer dizer, era uma vontade, em primeiro lugar, do governo. Foi depois a população taiwanesa que não quis a forma muito expressiva como essa integração foi feita. Aliás, houve imensas manifestações em Taiwan de descontentamento pela forma apressada com que o presidente, na altura, de Taiwan, exatamente se ligou à China continental. Portanto, o problema é político, é essencialmente político e é a vontade da população de 23 milhões de pessoas em Taiwan que não quer entrar num sistema comunista, porque no fundo é isto, não querem, não aceitam o modelo comunista autoritário da China. E aqui é que está o problema.

Antony Blinken começou hoje a visita à China. Podemos esperar uma visita contrária?

Não nesse sentido. Em primeiro lugar, dizer não é só este caso. Há mais líderes de empresas e grandes empresas internacionais. É também uma tentativa da própria China, de forma individual, e também o Xi Jinping acabou por dizer isso, que gosta muito de falar não só com americanos, mas falou muito na lógica individual e muito empresarial, mas é uma tentativa exatamente de ir seduzindo estes líderes da área tecnológica para fazerem negócios com a China, sabendo eles que estão de alguma forma condicionados. Mas ainda assim têm sido feitos e até investimentos a próprias empresas alemãs, também várias empresas alemãs que vão investir na China, com essas limitações do ponto de vista tecnológico, mas não deixam de se fazer negócio. E portanto, é uma tentativa de ir paralelamente fazendo um caminho ou tentando contornar um pouquinho as sanções econômicas aplicadas no domínio tecnológico e tentando desenvolver em paralelo, e ninguém pode fazer o contrário. Quer dizer, na verdade, há aqui negócios que se podem fazer à parte e tem havido essa vontade e efetivamente estes empresários têm feito estas viagens. Há aqui, se calhar, também um sinal por parte da China que a sua vida, o seu projeto continua independentemente das tensões políticas, e há uma dimensão política tensa, mas os negócios continuam a fazer-se. E é também preciso lembrar que a própria economia ou as relações comerciais entre os Estados Unidos e a China não foram más no ano passado. Não sei agora os valores de core, mas não foi propriamente negativo. Há uma redução das importações americanas da China, mas os indicadores econômicos não são baixos. A atividade econômica continua. Há uma interdependência até entre os dois países do ponto de vista comercial e eles precisam um do outro e isto são as dinâmicas da globalização. Hoje nós temos dinâmicas de globalização assim. Os dois países são interdependentes do ponto de vista econômico. Agora, há tensões políticas em alguns domínios e há aqui quase dois mundos. Um mundo político e mundo econômico. E na verdade, eles vão funcionando em paralelo. É um pouquinho isto que nós temos agora.