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Está conosco, em directo, neste jornal das 20h da Rádio Observador, João Veloso, é psicólogo do Observatório do Trauma da Universidade de Coimbra. Bom dia, doutor, bem-vindo a este jornal. Obrigado pela disponibilidade.

Obrigado.

Pergunto-lhe que tipo de apoio estará ou deve ser dado à família e amigos das vítimas neste momento, nesta altura?

Nesta altura, direi que há duas ou três coisas que fariam aqui algum sentido. Em primeiro lugar, aquilo que já foi feito, que foi enquadrar toda a situação de esclarecimento, das pessoas entenderem a informação com detalhe específico para a família e amigos para lidarem com o acontecimento, porque as coisas foram decorrentes de uma determinada maneira. Mas nesta altura, e a partir do momento em que os corpos foram recuperados, aquilo que se tem que fazer é essencialmente dar um pouquinho de tempo, de espaço, para que as dinâmicas das próprias famílias e das próprias comunidades comecem a apresentar os seus recursos naturais, porque para todas as circunstâncias, o luto é uma situação que faz parte da vida. E, portanto, nesta altura, aquilo que potencialmente nós estamos à espera é que as famílias se apoiem, que existam elementos na família mais organizados, mais estruturados e que apoiem aqueles que aparentemente possam estar mais frágeis. E que se comece então a construir uma narrativa que vá, com a dor, com o sofrimento, enquadrar todas estas situações que estão disponíveis. Às vezes, sugere-se, nestas circunstâncias, que as pessoas têm que ter apoio psicológico e que tem que haver aqui um nível de proximidade técnico muito grande para, de alguma forma, limitar o sofrimento que possa estar disponível nesta altura. Eu gosto também de dizer que essas coisas as pessoas têm que saber que estão disponíveis, mas não devem ser intrusivas.

Porque pode ter o efeito até contrário, não é?

É. Pode desenvolver exatamente ou registros de grande dependência e, portanto, ir buscar coisas que não são naturais para este momento ou inclusivamente serem muito intrusivas. E, portanto, não permitirem as pessoas caminharem no seu ritmo próprio.

Não dar o tal espaço.

Na individualidade. E nesta altura é muito importante ter essa noção. Ou seja, o recurso está disponível, as pessoas têm que ter de forma muito clara a ideia de que o recurso está disponível, sejam eles aqueles que as pessoas solicitarem, mas não serem demasiadamente intrusivos, porque, de facto, isto é um processo de grande intimidade, de grande especificidade para cada pessoa, para cada dinâmica. Nós falamos aqui numa hierarquia social, se quisermos, o eu, depois a família, que é o eu a seguir e depois os amigos, este grupo mais próximo. E nestas circunstâncias, que são muito públicas, até a própria comunidade que fará um bocadinho esse processo.

Doutor João Veloso, o caso tem sido bastante mediático. Ainda ontem vimos imagens dos destroços do helicóptero a serem retirados do fundo do rio Douro. Pergunto-lhe, até tendo em conta que eram imagens bastante fortes, o helicóptero estava completamente destruído, que impacto podem ter este tipo de imagens junto das famílias e amigos? Ou seja, enquanto jornalistas, temos que mostrar o que se está a passar, mas não pode ser demasiado violento todo este mediatismo à volta deste tipo de casos, especialmente para famílias e amigos e até pessoas mais sensíveis, que até podem não ter qualquer tipo de relação com as vítimas?

Eu em todas as intervenções que tenho feito relativamente a estas circunstâncias, tenho tido sempre este cuidado de antecipadamente pedir desculpa àquelas pessoas que são mais próximas e aquelas que, no fundo, têm realmente o direito de exigir um tratamento diferenciado, porque estes são seus, estas pessoas que morreram são suas. De pedir desculpa de às vezes poder usar uma linguagem que não se enquadra naquilo que seriam as suas expectativas, porque isto, de facto, é uma coisa muito íntima, é uma coisa muito pessoal. E às vezes nós, numa tentativa de ajudar, que é isso no fundo que se está a tentar fazer quando se tenta divulgar algumas destas situações e destas imagens, nós tentamos de alguma forma ter esse cuidado. O que eu diria exatamente sobre isso que me pergunta destas imagens? A intimidade e a privacidade, quando as coisas são públicas em particular, ela só pode ser um bocadinho invadida se for para nos dar segurança. O que eu quero dizer com isto? Algumas das coisas que nós formos vendo ou fomos vendo ao longo deste processo são úteis se permitirem que nós, enquanto comunidade, e também mesmo essas pessoas individualmente que estão próximas da dor, perceberem que todos os recursos foram colocados à disposição, que há coerência, consistência, ou seja, que no fundo, tudo foi feito para que as coisas corressem o melhor possível. E nessa perspectiva, todo o tipo de informação pode ser útil. A partir do momento em que nós começamos a ultrapassar essa necessidade, provavelmente vamos correr riscos que não têm nenhum tipo de utilidade, como é que eu hei de dizer, que não seja um bocadinho mais de espetáculo do que na realidade, de permitir a toda a gente perceber que: "Olha, estejam seguros que estamos a pôr todos os meios que são necessários Para que estas coisas corram bem, estejam conscientes que há uma coerência em tudo o que nós vamos fazer e, portanto, sintam-se amparados nesta coerência de todo o processo. Até aí, tudo faz sentido. A partir do momento em que ultrapassamos esta linha, estamos a entrar, de facto, na quebra de uma noção que cada vez mais nós vamos lidando, que é esta mistura entre a intimidade e o que é público. E nas situações de luto, nas situações traumáticas, este aproximar dessas duas linhas faz com que uma coisa que possa ser considerada como traumática, individual, de um grupo específico, possa transpor para um nível coletivo. É óbvio que a maior parte das pessoas não vai desenvolver nenhum tipo de perturbação, mas aqueles que estiverem mais frágeis aumentam o potencial de se aproximarem daquilo que seriam as vítimas primárias, em vez de serem pessoas que estariam distantes do próprio processo. E, portanto, de facto, podemos ter aqui um nível de agravamento ao nível sintomatológico, emocional, de um conjunto de pessoas. Não temos certezas absolutas de quais vão ser essas pessoas, mas esse potencial passa a estar disponível.

Doutor, só mesmo para terminar. Estas imagens que vimos de Luís Montenegro, o primeiro-ministro que esteve no local a bordo de uma lancha a acompanhar as operações de busca, essa atuação de Luís Montenegro que tem sido muito criticada, ultrapassam essa linha? Onde é que podemos inserir, que tipo de análise podemos daqui fazer do ponto de vista psicológico a essas imagens?

Repare, se a presença de uma entidade responsável, com poder, com controle, conseguir passar a imagem de dizer assim: "Eu estou aqui para vos mostrar que todos os recursos vão ser colocados à disposição, que aquilo que for preciso, eu autorizo que esteja presente", e portanto, estamos a entrar no tal registro da segurança, da coerência e da consistência.

De um talão par.

Exatamente. Se a leitura for esta, não tem problema nenhum. Tudo aquilo que se queira dizer em redor desse acontecimento ou de qualquer acontecimento, são comentários que tentam, de alguma forma, criar outro tipo de emoções, outro tipo de situações, outro tipo de narrativa. E portanto, se me perguntasses a mim, eu não sou especialista nessa área, mas se me perguntasses a mim, eu acho que uma entidade que tem poder e que esteja presente e que demonstre exatamente esta ideia de que: "Olhe, eu vou mandar que ponham tudo aquilo que é preciso para que estas coisas corram bem, para que esteja lá o barco, para que estejam lá os mergulhadores, para que estejam lá todos os equipamentos que são necessários para garantir que vocês, família e a própria comunidade, saibam que nós estamos a fazer tudo o que é preciso." Isso faz-me sentido. Se for por outras intenções, já não me faz sentido nenhum, porque de facto, aí já há uma leitura, que é uma leitura provavelmente política e que eu não tenho especialidade para fazer isso. Portanto, eu espero que a presença dessas autoridades... É também por isso que as pessoas estão fardadas, para mostrar que são competentes, que são técnicos da área, senão todos poderiam estar cada um com a sua roupa, cada um com as suas coisas. Não, todas as pessoas nas naves estão identificadas, isso tem uma função também.

O ato mais institucional.

De todos nós sabermos. Claro. E portanto, se for nesse contexto, eu não teria absolutamente nada a dizer em contrário. Agora, a leitura depois cada um terá que fazer. Eu já não sou capaz de estar a dizer. Mas acho que quando está a figura máxima de um governo num sítio, provavelmente é isso que quer dizer. Certamente que existirão pessoas que vão fazer interpretações de outra forma. Agora, há aqui um detalhe que eu partilharia consigo e que eu acho que é interessante. É que às vezes aproveitam-se um conjunto de coisas para fazer uma mudança de emoção. Vamos imaginar: eu tenho aqui esta circunstância que nos deixou todos consternados, tristes, pensativos sobre estas coisas. A partir do momento em que aparecem essas outras coisas, nós mudamos a emoção e passamos de uma emoção, imagine, em que eu estou triste, para uma emoção em que eu estou zangado. Muitas vezes, do ponto de vista emocional, às vezes é mais fácil, quando fazemos esta mudança, é porque é mais fácil nós lidarmos com o estar zangado, por exemplo, neste caso que estou a partilhar consigo, do estar triste. E então, às vezes pode ser útil, na verdade, pode ser útil, mas também nos pode levar depois para caminhos que não eram os caminhos da narrativa que nós pretendíamos e, portanto, afastar as coisas daquilo que era importante. Ou seja, é muito importante, e aqui eu tenho que dar os parabéns, porque tenho visto coisas muito interessantes na comunicação social e outras às vezes não tão interessantes, mas há uma tendência particularmente interessante das pessoas terem cuidado com algumas das coisas que vão partilhar e com algumas das coisas que vão dizer. E, portanto, eu acho que houve aqui também uma certa evolução, mas continuamos provavelmente a ser demasiadamente intrusivos ainda, porque a imagem dos helicópteros, a imagem persistente do local onde acontece um evento traumático, nós sabemos que corresponde a uma marca que poderá ficar instalada em alguém que tendo menos recursos para lidar com aquela situação, vai ligar aquilo a outras coisas que perturbam da sua vida. E, portanto, o que há necessidade nesta altura, e isso já se começou a ser feito, é ajudar a construir uma narrativa que integre esta experiência de uma forma que possa ser mais apaziguadora para aqueles que estão a sofrer, porque este sofrimento é inevitável.

Doutor, muito obrigado. Ficamos com essa reflexão. Agradeço. João Veloso, psicólogo clínico e psicoterapeuta, também investigador no Observatório do Trauma da Universidade de Coimbra. Este acidente que aqui estivemos a analisar aconteceu na sexta-feira, ao meio-dia. As causas ainda não são conhecidas. Cinco militares da GNR morreram. As cerimônias fúnebres decorrem hoje.