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Junta-se neste jornal o professor José Pacheco, especialista em vulcanologia. Antes de mais, obrigado por esta disponibilidade. Ele que é diretor também do Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores. Bom dia, professor.
Bom dia.
Que efeitos é que pode ter esta erupção, para já na região onde está a acontecer?
Nas Canárias poderá ter um efeito bastante drástico na região mais próxima da erupção. Este tipo de erupção normalmente não causa impactos a distâncias muito elevadas, porque as cinzas vulcânicas são relativamente poucas. A pluma eruptiva é baixa, portanto, não há uma dispersão muito distal das cinzas e o maior impacto é aquele que é provocado pelas esquadras lávicas. Mas aí o impacto é, de facto, devastador. Aquilo que se encontrar no caminho das esquadras é absolutamente devastado.
Falou-me aí na situação das cinzas, que são poucas. No entanto, há esta possibilidade de elas chegarem ao arquipélago da Madeira. Que impacto é que isso pode também ter, por exemplo, nas ilhas, no arquipélago da Madeira?
Eu peço desculpa, estou a ter alguma dificuldade em ouvir.
Estava a perguntar-lhe porque como falou da situação das cinzas, há esta indicação de que poderão chegar à Madeira. Que impacto é que pode ter também no arquipélago da Madeira este vulcão e a situação das cinzas?
Este tipo de cinza e a quantidade de cinzas que está a ser produzida pode eventualmente chegar à Madeira, mas com um impacto muito reduzido, tal como nós sentimos, por exemplo, quando há poeiras do Saara que atravessam o Atlântico e chegam à Madeira ou chegam aos Açores. A quantidade de cinzas que está a ser produzida é reduzida, a pluma eruptiva é baixa, portanto, a dispersão dessas cinzas também vai ser reduzida e na eventualidade de algum resíduo ou de alguma quantidade de cinzas chegar à Madeira, ela será seguramente cinza muito fina e em quantidades muito diluídas. Portanto, o impacto na Madeira será praticamente nulo.
Professor José Pacheco, há alguma possibilidade também de risco de um potencial tsunami ou não?
Essa é uma questão que foi levantada na bibliografia científica há alguns anos como um estudo teórico. E em termos teóricos, é possível que se verifique um fenómeno desse tipo. No entanto, só será possível se se verificarem todos os pressupostos que foram imaginados para que esse evento pudesse ocorrer. Ou seja, isso para dizer que teoricamente poderá ser possível, mas a probabilidade de um evento desse ocorrer é extremamente reduzida, porque, por exemplo, uma das questões que é levantada nesse estudo é que esse mega tsunami, a ocorrer, resultaria de um colapso de parte da ilha, de um evento único, de um deslizamento único, de um bloco enorme da ilha. E o que se verifica, mesmo nas Canárias, o que se verificou no passado numa série de outros grandes desmoronamentos, é que estes desmoronamentos são faseados. Resultam de inúmeros eventos mais pequenos e só isso faz com que já não se cumpram as condições necessárias para que ocorra esse tal mega tsunami. Portanto, é uma hipótese que teoricamente não é descartável, mas não é uma hipótese provável.
E esta erupção irá durar durante quanto tempo? É previsível isso?
Neste momento não há como saber, mas este tipo de erupção, normalmente, estatisticamente, tem atividade durante uns meses e depois começará a diminuir. Isto estatisticamente, porque a verdade é que há erupções deste tipo que tiveram períodos de vida mais curtos ainda.
O professor está nos Açores nesta altura, onde também há grande atividade vulcânica no arquipélago. Podemos prever uma situação idêntica à que está a acontecer nas Canárias num tempo curto ou não?
Neste momento não há indicação de nenhum sistema ativo próximo daquilo que se viu nas Canárias. É claro que os Açores são um arquipélago vulcânico. Nós temos inúmeros vulcões ativos na perspetiva de que têm potencial para entrar em erupção. E portanto, este é um cenário possível nos Açores, claro, mas neste momento não temos nada que nos diga que nos aproximamos dessa situação.